terça-feira, 1 de outubro de 2024

no mundo do meu chefe

no mundo do meu chefe
o descanso está para breve
as tertúlias passatempos
a vontade uma carraça,
agarrada ao corpo parasitando-lhe 
as últimas gotas de sangue.
vestiu-se, calçou-se, engoliu seco
de pessoas danadas, cães de guerra,
servos de mestres, promessas furadas.
agora, a retoma, pela mão do tempo
que convém certo e justo, igual
antes que tape os olhos.
como qualquer lição, o seu oposto:
a escória e o desgosto, passeios intocados
de vontade na marcha.
os derrotados no meu bar, onde fugimos
do meu chefe. bebemos do mesmo copo
tombamos as mesmas crenças
homens de pelo e espinha e barba
perdidos do juízo que o presente escondeu
sabido e mais que óbvio dos nossos anteriores
mal cheirosos, incolores, prontos para tabefes
em cima de dados e valores.
o meu chefe passa em frente, 
vê-nos todos, os seus pares e ancestrais
costumes plebeus, como a escarra e o tato incerto
jovens misturados, iguais, o juízo pronto
que justifica o ódio, o saber
que aquilo que foi só sucedeu
porque algures na fraqueza
abandonou um eu, o seu,
soberbo em mesurices
a prudência do seu tento inundada em criancices
claro, o progenitor morto em combate, entendemos
a sua fome e o imundo entre a cidade
e uma horta miserável,
a honra em sair da desgraça, sua conquista.
mas o tempo dos filhos sem pai
antecede ao dos pais sem filhos
todos cabrestos na alma
e o vapor fugindo das narinas
num canto escuro.
jogaste-nos ao canto
a cidade imaculada
não cabe nos últimos pingos
do termo desse encanto
mas viveremos muito mais
e de uma arreada lançaremos o mundo aos santos.
não para melhor, nunca seria tão sonso
como o tanso do meu chefe.
lamento, por eles e por nós,
os chefes são pessoas também. 

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