quinta-feira, 3 de outubro de 2024

uber

 chamaram-me o carro algures para, desculpem-me o francês, o meio do caralho. eu sendo apenas um cota de che setubal, imaginem, nem sabia que donzelas deste calibre existiam. eu no meu dacia xl, apto a 7 pessoas mas que muitas vezes serve de bolt económico, e elas puxando da viagem mais cara possível. um nome estrangeiro, não sei se norueguês ou assim. quando cheguei reparei que eramos uns 10 ou mais tvdes, todos estacionados numa quinta inconspícua algures em azeitão. as minhas passageiras vinham para o castelo de são jorge, em lisboa. podres de bêbadas, oito da manhã. não lhes fiz caso, excepto no receio que me vomitasse pra cima a que se sentou no banco do pendura. fossem homens, teria passado a direito e recusado a viagem. mas elas eram boas e miudinhas magrinhas. eu não queria nada com elas, óbvio, dependo disto para comer. mas fosse um mais malvado? carne para canhão. eu já tinha ouvido falar deste tipo de festas, privadas, exclusivas. eu sei lá de onde sai este dinheiro. contei a história a um passageiro pouco tempo depois, de chapéu e ar prudente e jovem, e ele perguntou-me o mesmo. "de onde vem esta paca?" eu respondi que havia de ser uma quota que pagam todos, dividindo a quinta entre gente estrangeira. ele, quiçá sábio, quiçá paranoico, insistia "isto... já rodei muita noite, já vivi muita embaixadora pela hora da morte. delas sai 0, nem um tusto amigo. se acha que se tratam de jovens a dividir uma despesa, entre elas e eles, está a falhar a grande imagem". olhei de soslaio para ver a cara do tipo. cabelo preto, espigado a escapar-lhe do boné. algures entre um traficante e um elite qualquer, a desafiar-me as convenções. não era a primeira vez que tinha ido apanhar passageiros a este tipo de festa. sempre desconfiei que havia gato, soube-me bem saber que a desconfiança não era injustificada. mesmo assim, não dei a parte fraca. observei apenas que não era única a ocasião. ele sorriu. ri-me de volta e reiterei que elas eram mesmo gostosas. ele assentiu com a cabeça que eu atentamente observava pelo espelho. começou a tocar uma música pop que não sei o nome, mas tentadora. baixo poderoso, acentuado pelo meu bom sistema de som. até aqui vínhamos a falar de crime e filosofia barata. ele só fazia perguntas. às vezes contestava o que eu dizia, dizendo "isso é intrigante, não é?". noutra ocasião teria achado os comentários arrogantes, mas o seu aspecto banal e o sorriso inocente de certa forma tornavam-no honesto, e realmente lançava perguntas que me penetravam as crenças. o pesado cheiro a tabaco ajudava, uma aura a prole como no meu bairro tresandava-lhe do casaco de ganga negro. disse-me que se fosse ele, não resistia à senhoras. teria feito conversa, que seria certo que uma teria alguma paixão por motoristas anónimos como eu. provavelmente tinha razão, mas o puto não sabe o que é este trabalho. é com cada figura. bandidos, gandulos, os filhos da noite. de manhã cedo, nesta cidade, é quando se percebe. a música enchia o carro, mas percebia-o claramente. ele também, apesar de vir com fones postos. ele insistiu "de onde eram, lembra-se o nome?". realmente não me lembrava. "e a idade?". não sei, mas eram jovens. talvez vinte e pouco. perguntei quantos anos ele tinha. disse-me quase trinta. nunca vi um jovem assim, o discurso parecia tirado duma peça com mais de cem anos. as palavras, a maneira como articulava o discurso, a forma como posicionava as perguntas. persistia neste tema, notava-se uma curiosidade que, por sua vez, me deixava também cada vez mais intrigado. será que sabe algo sobre isto? ele não tem aspecto pra ser amigo ou parte deste tipo de festas, eu já levei muito riquinho pelo bairro pra saber-lhes o cheiro. isto era diferente. a aura descondizia com o discurso. "acha mesmo que senhoras desse perfil, jovens e alcoolizadas, lindas como a névoa que pousa na serra e faz os passarinhos cantar, acha mesmo que elas pagam o que seja para uma festa desse tipo? que roupas traziam amigo?". eramos amigos por esta altura, disso não tinha dúvidas. respondi que não eram roupas, eram trapos, umas peças escassas, mas que faziam sentido num verão quente como o nosso. "e já viu disso na noite em setúbal?". respondi que não. "confesso-lhe, não faço ideia do que seja. mas intriga-me, deixa-me tentado. no meio do nada? seria trabalho? uma festa da empresa, quiçá?" instintivamente disse que não, como se a intuição soubesse a resposta antes que eu pudesse processar a pergunta. "pois." olhei novamente pelo espelho, por esta altura via-o inclinado, completamente investido na conversa. tirou os fones. rimo-nos os dois quando cruzamos olhares, e voltei a observar que eram mesmo mesmo boas. ele concordou. "aposto que sim". chegamos ao destino. ele agradeceu a viagem, voltou a por os fones antes de sair do carro. segundos depois, deixou-me uma gorjeta na aplicação e entrou num prédio escafiado, sem sequer tirar a chave. caiu outra viagem e segui caminho. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário