sábado, 2 de novembro de 2024

dia dos finados

uhhhhhh! uhhhhh! 
o fantasma do meio-século
assombra as arcadas da minha vila
ele troca o lenço, com várias cores,
tantas quantas consegues temer.

nos cemitérios desta aldeia
as almas penam por cima das covas
os mártires chocalham com violência as tumbas
os malditos rabiscam os anos à missa
os vendidos finados cosem as faixas
e os vampiros celebram a noite na capela.

partiram os espelhos, uhhhhhh!
perderam as chaves, ohhhh!
o portão está aberto, eeeeh!
que grande algazarra, ahhhh!
e os porquinhos fuçando, ihhhh! ihhhh!

epa, mas a terra não é nossa
dizem eles no ouija, com muito respeito
apareceram os donos, são quem as trabalha
e fomos apeados do nosso descanso.
logo hoje, no dia dos mortos?
não, já lá vão muitos anos
o luto se esquece e o tempo passando
para nós são eternos para vós são mandatos.

foi aí que entendi que o tumulto que ouvia
não eram os monstros e a companhia
mas sim diabretes de sangue pulsando
fugindo do raio de luz que nos guia
e agora montados colorem as vestes
conforme um sinal que vai caindo dos céus
o cavaleiro da fome aprendeu um segredo
e as almas famintas deambulam nas ruas
ainda antes do corte, vivinhos vivinhos.
a pé e a trote, são todos tão sérios
no medo do escuro e no medo do fim
que negam por cima do tranquilo jazigo
os ossos tremendo por baixo das botas.

uhhhhhh! 
a porta norte e a porta sul
estão apinhadas de malta!
uhhhhh e eles nem sabem que são os mesmos!

correu tudo pra trás dum carvalho bem velho
só não foi exilado porque gigantes não existem
vendo de cima ele piscou-me o olho
e continuei a fumar o cigarro à janela.

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