o pó assenta com a chuva no outono
regam-se os descampados que em seis meses
serão pedras e lixo e flores perdidas e dejetos de cão
o mar cheira melhor, o moribundo calor vai-se pondo
sem escândalos no horizonte, o outro lado da margem.
venham casacos e botas de cabedal, imunes ao tempo
e às balas que soam no campo de tiro que chamam
de comunidade, de pertença, do teu espaço, o nós
mas sem ti na hora das facas curtas, da querela
entre os caciques do fumo brando, branco e baço
como as lideranças e as andanças das traças
que se perdem entre as teias densas dos predadores.
a pressão sobe enquanto as folhas caem nos quintais
compadecidos de atenção por viúvas magrinhas
que arrastam os ossos pelo bairro sozinhas
e são devoradas pelos filhos depois de partirem.
vivem em ar fresco e continuamente trazendo a terra
dos baldios e dos vasos empoleirados nas varandas
de madres e de gatos e periquitos enjaulados
cujo canto soa a desespero e solidão
e eles tremendo com o frio de novembro.
ganga rija, biqueira-de-aço, calças sujas
a mão calejada, os pescoços ao relento
que a cacimba só poupa quem a mira de frente
com os dentes na cara e os punhos cerrados.
as gotas que caem rufam tamborzinhos esperançosos
que antes da primavera venham raios de paixão
que cubram a terra na fúria dos perdidos
à chuva sem abrigo e com cara trancada.
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