segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

hino matriarca

diz-me quem és amiga
diz-me os teus hinos 
as ternas palavras que te puxam
os cabelos para junto da nuca
e revelam os contornos
dos teus ombros pálidos
contra a luz embaçada
pelo fumo dos teus cigarros
lm de mentol, que asco
mas partilham as minhas iniciais
e isso faz-me sentir desejado
porque o mundo responde
com esses escondidos sinais 
aprovando o subtexto
de andares por aqui.

que canções trarias
se a coragem se levantasse
se um momento desperto
emergisse nesta casta virtude
e eu dissesse
anda daí
vamos arredar pé
e fazer dos montes nosso pasto
conquistando a neve
com orgulho e sapiência
alvejando os fecundos
momentos em que tu
tirarias a camisa
e a blusa de lã
fazendo do destino
a milenar tradição
de seguir adiante?
e a luz bateria
contra o colar prateado
contra o relógio encostado
às tuas sensíveis bochechas
e assobiarias os segredos
do teu género
e eu ficaria satisfeito
em ter feito a minha parte.

quando crescer vou saber
porque sou tão submisso
às notas 
agudas
de cristal
que dobram os estores
e os guinchos da madeira
que atormentam a hostil
vizinhança.

obviamente tenho uma ideia
que nego com olhos sóbrios
mas o brilho que eles mostram
quando espreitam pelo canto
são incompreensíveis
sobretudo porque deste piso
parecem uma sirene 
o desespero
do temperamento dum homem
cansado e idiota
mas a resposta que recebem
são uma nota antagónica
meio desafio
meio quero que morras
à minha frente
com os dedos nos olhos
exausto
tipo a beata já fumada
mergulhada nas cinzas.

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