quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

nega o diabo na postura

talvez te tenha julgado
numa óptica moralista sem peso
nem medida nem juízo
conforme as indecentes 
esperanças dum percurso
que já não existe há milénio
ou mais
talvez.

és gira, pronto
'tá dito, por muito
que fales como se fosses
uma poetiza meretriz
toda balofa na auto-estima
e no resto, sei que não
mas é como te expressas.
diz-me antes quem és 
e que caprichos espigam
os cabelos tingidos
onde te escondes.

podemos fazer as pazes
conhecer os lagos rasos
da amistosa carência
do entendimento verdadeiro
talvez
pode doer e trazer
uma carga de chatices
para mim 
e para ti
jogo-te as pontas
para trás das orelhas
empinadas como esses trinta
nomes que levas no registo
sem filmes amiga
sem medos
das complicadas dinâmicas
de sermos parte do presente
século xxi.
quiçá seja isso que tanto tenta
os membros perdidos de pessoas
a caminho da meia vida
sem coragem para enfrentar
que o tempo corre 
veloz
e sem espinhas
de fazer vítimas 
quando passa.
talvez.

lindos, nunca
só cruéis degenerados
negando a própria essência
nas suas destras
competências, às vezes 
sociais
às vezes temperamentais
sorrindo com os olhos para
chefinhos de órbitas vagabundas
com a vista meio cerrada
a confiança de pessoas que 
sentem o amor como uma maldade
nunca dando a parte fraca
e fazendo da imagem um magro
vassalo da sua entorpecida
confiança
de ser miserável
quando a noite acaba
e o silêncio assenta
no caminho para casa.
sabe mal
não é?
e vagabundeando por aí
acabamos com um cheiro a vinho
escorrendo das nossas goelas 
bafientas
que conheceram as ruas
como putas
que do pago
perdem a alma.
eu sei cara condessa
isto é tudo postura.
estamos no mesmo
pequeno pequeno mundo.

fugir é igual a dois
estimada,
odiamo-nos e
isso quer dizer que quando 
te jogar um olhar malvado
os resultados serão uma negação
de quem somos,
incómoda
e irresistível. é especial
quando o desejo se manifesta
no desdém
voa-se alto e longe
as lombas fazem-se longas
pela estrada do pecado.

variamos a cantiga do suposto
fazendo disso um segredo
que se pode partilhar a dois
quando partires pode ficar
um vago talvez
do que poderia ser
ou então um certo rancor
de cedermos ambos
aos nossos ódios
que não passam de sombras
que a gente cobre
com ambição e tabaco
talvez.

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