quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

rapaz-estrela

talvez te esteja a por num estado fatela
ya, capaz
biblioteca refundida mais limpa do que esses sapatos vaidosos
ya, é certo
com pausas baratas tiradas dos caixotes
sentado no chão com cães e sem-abrigos
cheiro mais elite depois de correr atrás duma velhota
que deixou cair a carteira e não ouviu
pois, ya
calças furadas mais velhas do que tu
e meias furadas mais velhas do que tu
e uma cruz pequena ao peito do tamanho do teu mano
confere
caridade ganhando ao portfolio mais activo
no principal e no retorno
e ele devolve e devolve e devolve
meu Deus, ya
não me devia gabar mas
fã número um bate o registo por dez
fã número dois nem sabe o meu nome
e mesmo assim bate por mais dez
ya
quantos pontos no baixo gabarito
por assumir que é assim 
e jogaste as regrinhas e ficaste no pó
donde partimos todos mas não assumes.

não sou uma puta duma estrela mano
não sou
e quem mais?
tu, óbvio
convem saber reconhecer
quando as dores do crescer
acontecem depois dos cabelos brancos.
não há estrelas mano.

falas jogo e fazer força para ser grande
e elas estão-se a cagar
que patinada miserável 
ya? é certo
falhados vencedores são poucos
o que me enche com um orgulho
tóxico que é okay, eu reconheço
que sou um merdas
e isso faz a diferença
ya
faz mesmo, que eu vou ao copo sem medo
nem choro
quem chora não mama
vais rodar pela beirada
sem bater os olhos nas luzes do rio
brrr que frio nessas petas vazias
já vais todo mamado ainda nem tocaste na chicha
é triste, dizia o odivelense
e ele não é nenhuma estrela mano
não vês a sombra e isso assombra
o espírito fraco que se faz sem sentido
e há quem seja crescido e entenda
e viva por si sem a mão tirana
ya, assim é
isso nota-se a milhas porque pisas
o chão tremendo
e jogas a cabeça na almofada a medo
eu peço desculpas com coragem
ando torto a olhar pro chão 
cheio de fé no ferro
e isso nota-se mano
ya, nota-se mesmo
tiram-me o gorro eu dou o casaco
e fito com desafio
pronto pro abraço ou pro combate
é escolha dele
só respondo às jogadas
que O de cima põe na mesa.

vamos derretendo a guita no bagaço
tu vais poupando e metendo-a toda em plástico
e no fim vale tudo menos
do que uma letra num poema
do que uma nota numa música
do que um passo no palco
do que um carinho na sombra.
é a bênção, talvez seja de família
não me admirava que estes genes
fossem uma fortuna amaldiçoada
não me privo do amor
ele de mim às vezes
e sempre que assim for
vai haver poeta e vai haver registo
para deixar aos seguintes
mapa que os salve
pelas sombras do presente
e tu não dás nada
e não recebes troco
ya, é mesmo triste né?
do que não posso falar 
é que não conheço a sede
do toque na pele rija
do desejo incontrolável
de jogar a vida pelo buraco
por um traste nojento
rasgado e cansado traste nojento
que amanhã desaparece com o sol
porque a norma s'alevanta com o dia
mas quando a verdade sai dos poros
em suores alcoolizados por certo honestos
é aqui
é uma cara na mesa revirando os olhos
lamento ya
assim será até ao fim
e eu conheço todos os planos
desta cena
e digo que mais vale aceitar e pedir ajuda
ser humilde 
ser da fé
é mais punk do que achas.

não sou uma puta duma estrela 
não sou
e quem mais?
todos mano
acorda.

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