sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

repousa, marinheiro

bem marinheiro, onde foste atracar
no porto os estivadores cantam em coro
às poucas pescadoras de unhas rijas
com as canas dobradas em plena madrugada
eles já vêm com o fumo no beiço
as mangas arregaçadas até aos ombros
sujos da bota à barba com a graxa dos carros
e do lodo que se acumula nas margens
eles pisam e salpicam porque vão para casa
tomar um banho quente ao amanhecer
pegam um pescado fresco no mercado da lota
que as ditas trouxeram um pouco antes
quando se cansaram da música desses bêbados.

seguiste pelo caminho da beira-mar
fazer tempo com os pombos no parque
os guardas estavam sentados a tomar um lanche
os bandidos encostados a fechar a deles
enquanto as ondas arrebentavam nas pedras
nenhuma se mexia por muito estrondo que fizessem
apontaste o dedo ao horizonte 
mas ele não apontou de volta
tinhas razão em ficar chateado com isso
pousaste o chapéu no banco e deitaste-te nele
como sabe bem ter a almofada pronta.

umas crianças aproveitaram a paciência dos pais
foram para o parque andar de baloiço
equilibram-se bem por muito fina que seja a corda
por muito gasta que esteja a tábua onde se sentam
já não são pneus, é um casco duma árvore
que foi cortada para fazer uma estátua de cobre
que baptiza o parque e aponta para o horizonte como tu
e o horizonte não responde também a ela.

há marmanjos em sapatos de couro virando a esquina
com a pressa que um marinheiro desconhece 
o asfalto não se mexe nem vira, não há furos nem fugas
bigodes tesos e convictos que cada passo vai ter força
desviam-se das velhas que vão buscar o comer
podiam ser as mães ou as avós desses fulanos
não se olham nos olhos, só gritam às vezes
quando os corpos se tocam em choque
porque nenhum está muito tentado a dar a outra parte.

o piratinha anda escondido a preparar o próximo embuste
sem espada nem pala ou bengala nem nada, mal sabe nadar
o globo vai girando e ele com o seu mapa quadrado
marcando cruzes no chão, os tesouros doutros séculos
furtando as malas dos operários que descansam ao domingo
para justificar o seu complicado plano de glória
desenterrar o baú prometido e jogar-se na cova que abriu
fazendo caretas aos cães vadios que melhor navegam a costa
e perseguindo o marinheiro, o inimigo assumido
um dia há de lhe puxar os suspensórios pelas costas
o seu grande saque feito em terra.

topas a ofélia, o bebé querido duma pessoa qualquer
ela vai acenando aos homens que passam devagar
enquanto lê as cartas no banco que está ao lado
faz um monte, não sabes a ordem ou se tem alguma
depois o vento encarrega-se de soprar com ela
e voam todas pela relva e pelas pedras e para a água
a última parou-te no colo, o derradeiro suspiro de alguém
fazes que não fazes caso disso porque estavas deitado
uma mentira feiosa que dizes a ti mesmo, marinheiro,
porque em breve voltarás à embarcação que cá te trouxe
e serás novamente um filho do mar no meio do mundo.

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