segunda-feira, 17 de março de 2025

o porco

és sarilhos foda-se 
dizer quem és
sem medo da sombra
que te concebeu
e me concebeu
porque no fundo
somos iguais
cabelos negros e gengivas
vivas
esperando
consumar o segredo
que a chuva protege.

odeio como me privo
de estar preso nos contornos
das partes indecentes
duma dança, dama
melancólica e romântica
claro, sejamos francos,
o desejo jaz
entre olhos que vibram
na possessão
dum homem sem apego
às ancas que guardam
a vida e a espécie.

de tantos apreços
sede barata da espera
elas deitadas, castradas
dum vómer efémero
trincado e esquecido
esvoaçando em pares, o cheiro
a veludo se espalha
entre o fumo
e a hora de ir.
quem permanece
senão a cara-memória
de seres fundo 
e pecado
que me pune o cristão
querer, espelho da alma,
mamas e couro pedindo
com calma, uma cama,
um abrigo, vívido e digno
do deleite que a sua 
donzela parecença
suscita quando 
arrebita, ah-ah-ah (!)
sê minha, diz-me
em berros glutões.

toma o timão
e todos os meus desígnios
barato veneno, filho
e bento servente
sou teu, teu
teu 
teu
teu
e não saberias
excepto quando te prender
os cabelos contra os punhos
um malvado
misantropo porco
ouvindo os devassos
pedidos de mais
e que se lixe
quem somos
quem fui e 
quem és
quando somos um.

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