segunda-feira, 20 de maio de 2024

andorinha-das-chaminés

por cima da manta
parte, parte específica.

há muitos prédios.
roupas em estendais que
pouco saem daquele perímetro
entre o suor da cadeira
o fumo
e a humidade.

invisíveis, eu não,
só um embaixador ou mensageiro
como muitos antecessores terão sido.
talento de acesso ao subsolo
a prestidigitação da bravura da cana 
e da grossura do cabo.
franquias de dois mundos,
passe livre enquanto aliado.

pálido, o perfume de um homem
brando impregna as fissuras dos espelhos 
entre o 3º
reflexo de uma fita intrigada
e o 2º
belas luzes de relance
ping!
na cave.

a vontade expressa é uma bola de fogo
como uma estrela jovem e com promessa
devastação criadora em massa crítica.
debaixo da manta suspiram ódios conhecidos
prudentes no zelo que a vergonha impõe
unhas riscando o chão a nervo:
guincha, madeira fina,
pranto de mil sucedidos,
segredos que guarda o fundo do mar.

escolhe qualquer número
sete ou oito dígitos.
eis qualquer um
e a qualquer um compete.
batismo com letras, põe-se o véu
casado numa janela,
disperso
entre o suor da cadeira
o fumo
e a humidade.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

tumbas!

alas! o marajá declarou que a pirâmide vai seguir
conforme o planeado antes do interlúdio-capim
quando o sonho era um t2 com lugar à porta.
dinastias jubilantes estouram diamantes tirados ao ferro-velho
o cinzento do betão e do cabelo esticado na prancha
esparramado nos números que afinal são coisas
e não invenções doutro mundo.
o cume será em prata da loja de penhores.

há um sonzinho no ar sonsinho
trancado na sala a espreitar o outlook
glória em bronze assinado, a meio
para que fique bem claro quando explorarem as ruínas
deste sonho mal sonhado.

posto porto no mapa, encaminhado
com uma força que ninguém pode 
parar 
nem com estudos.
à escala, uma notificação na tua inbox.
à escala, nem fazendo-te 10 vezes serias cartografado 
e discutido
e aprovado.
venham daí, escribas entogados e coloridos!
nem a barba vos faz filósofos
nem a toga vos faz mais sábios
ou romanos.
tem a sua graça que ambos celebrem os deuses
com vénias aos céus em corpo de lata e cara de pássaro,
uma divindade que se deve ter perdido
algures na caixa de spam dum maçon qualquer.

terça-feira, 14 de maio de 2024

93 minutos // atracado no cais

hoje finalmente deixei a estrada,
contada em pormenor noutros tempos
antecipada como uma publicidade
do tipo vinheta tanto quando
é
curtinha
como quando se banha em thulian pink
todo excêntrico e brilhante e enigmático.

na muche!
novamente conclui-se que de fora vem mais razão do que de dentro.

um bar de variedades no fim do caminho
menos pessoas do que esperava,
o que pode ser dito sobre uma festa
e sobre um funeral.

largo balcão em madeira, poses humildes,
aqui o lord sentado à ganda-maluco, de chapéu
técnicos colocados à esquerda, veneno à direita
duas senhoras liam expressivamente.

decretada a situação 
emporcalhada por esperança
a única solução é a típica,
jogar terra em cima.

coturno da noite

ohhhh não! não outra vez! nãonãonão!
mais uma titubeante caça às bruxas 
contos de ex-fadas, historietas que já vi mais de vinte vezes
dando tanto quanto seja entre pilares de carne
vívida. ao contrário do retrato que pintam com as palavras
emprestadas de texto em verso.

fotografei 4 minutos, apagaram-se os demais
tilinto o couro com gestos exagerados
enchendo o barril, enchendo
a rrastanndo as palavras
enchendo a con-fi-an-ça
doce remédio

melhor assim,
um som gnossienne 
mistura as ideias com o último canudo 
sabendo quem sois.
espelhos baços como os meus
impressionantes recuerdos
se misturam na multidão.
uma paródia de pessoa, finalmente
os trapos que me cobrem a alma
regem o espírito.


a parte boa:
passei na galega
bisei no bagaço
revisitei um lugar.
a parte má:
só.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

trato entre dedos, plástico e uma honesta forma de ser malandro

reiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
tentei pousar a coluna nas letras
o J na tela o BL na cela
as mentiras nas teclas
o peso honesto da fraude.

tombou e adormeci
vislumbrou-se
adivinhou-se
enganou-se

reposiciona-a compincha
sabes a gatunagem no ofício
note a pad
tá aí, ++
ou melhor
+++++++++++++++++++++++++++(...)

automatismos ligados e aproveitados
cerimónia fajuta delinquente.
atrelado ao atalho dobrado em 8 
até sempre
 aprecio a máscara sincera de
jubilante preciosismo tagarela
as melhoras
eyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy logo a seguir?
audaz. 

domingo, 12 de maio de 2024

amigos sugeridos

notificação intensa, um relâmpago que sai do chão
e estoura no ego.
um gif ao acaso, uma sinceridade juvenil,
um instante honesto e transiente
mesmo que paradoxalmente esteja gravado em mais que pedra,
desligado pela vontade e não pelo acesso.
finalmente preservado em memória doutra forma,
aqui.

prosseguindo em ocasião, floresceu uma conversa
que esverdeou o círculo e acinzentou a linha.
a primeira em muito tempo.
sumiram-se as saudades,
um autêntico milagre da amizade
consagrado numa figurinha.
viu-se o que viste e vejo um flash do licor
dourado a reluzir na tua lente,
seguindo a vista tímida o sol e o céu limpo.
curta história, enorme impacto.

comprar tabaco

lancei-me serra abaixo.
rodeiam-me pessoas agora que cheguei,
dançarinos duma manhã patrocinada pelos êxitos de antigamente.
primos plumados saltitam do outro lado 
que eu sei pelo laranja vistoso que nuns é o bico
e em mim dali sai. 
as margens nunca se tocam.
segui caminho, sinuoso mas depois da festa,
os varões no lago, que sabem de amor,
e as equipas à escuta, não da música
mas dos passos.
talvez cacem, decerto aguardam. 

escondido com vista negra fiz-me parte da coreografia
e segui o trilho direitinho, para frustração dos nativos.
pressionei adiante 
e reparei que tudo vivia
e enquanto olhava lembrei-me 
do tapete a penantes que fizeram duma pomba 
perto da minha casa.
podre de velho.
grotesco, visceral,
um nojo de se ver.
a luz voltou-me aos olhos nas asas dum gavião
voando alto, minúsculo,
um sticker colado numa nuvem.

havia um clube de golfe e um bar
e pouco depois mais uma grupeta
de camisetas brancas e largas e suadas
que comicamente contornavam um pedregulho 
como se fosse uma grande rotunda.

fixei-me no som das águas.
começou a chuviscar, 
tirei os óculos.
exposto mas com cores mais claras e bonitas,
noto o cuidado que foi posto nesta estrada,
como eram simples as pontes,
como as raízes não erguiam o chão velho.
escurece, chove mais.

espreitadelas cansadas e um domingo cedo
conduzem-me o foco para a gravilha batida,
mas matutino de espírito 
liguei-me aos coaxos afinados
que enganavam os meus ouvidos leigos.
nunca adivinharia,
só sabia porque disseram.
parou de pingar e voltei a pôr os óculos.
suspeito de grande amizade
deixo esta pro arturinho:
baseada lousada.

______

vi uma estrelinha a pescar
amarela e arisca,
luz doutros tempos.

_____

as flores a norte
são lindas
da névoa 
da carne
e do sobe-e-desce.

_____

acordei. 
puxei o último camelo da caixa,
acendi empoleirado no parapeito
e vi que a vossa janela estava fechada
e supus que dormiam. 

_____

a pedagogia da sombra de um padre,
ou de santo.
a demagogia dum sorriso matinal.

_____

confio-vos este registo de férias
dos meus passeios em terra.
quem observa, cá em baixo ou lá em cima?

quarta-feira, 24 de abril de 2024

recordações duma caixa de transmissão

contacto os membros antes de seguir viagem:
a perna boa de um coxo,
merece palmas?
talvez porque se esforça mais?
também erra mais.

indo directo ao ponto, 
eu quero que as festividades se montem no quinto
do quitério. 
sou um perneta que não pula nem dança,
um braço frouxo que descansa
no repouso duma cabeceira antiga,
e o outro posto na mudança,
imagina,
como se houvesse mudança.
semblante fechado, dentes que rangem
com a transmissão da esperança
numa madrugada de abril,
noutros tempos criança,
agora senil.

sorriso amarelo debaixo do bigode penteado
um esboço pneumático dum virtuoso catedrático,
meio esmola meio dízimo,
que com suor tranquiliza, sem graça,
miúdas e graúdas e os herdeirinhos
do que sobra dos senhores do novo feudo.
mais um hino pró reumático,
mais um canto com vaidade,
descreve a trova retumbante,
chupa com gosto o comandante.
o custo? terra e mar.
roda a chave, toca a andar!

no eixo a nave opera,
circuito nem fixe nem bera.
ignição camuflada, calca com fé
que a única que resta é a que move a máquina.
mas se visses como era...!
é.
e se te cruzas com a fera...?
ré.
vrruuum! adiante! 
relaxa, mão no volante,
desbrava essa rota que impera
em tons de marcha e cante. 
confiante?
só demos mais uma volta.
vrruuum! vá-se lá saber
se sabem ler ou escrever
se morrem muitos a nascer
se partem antes ou depois do adeus. 
sabe Deus.

quando a braçadeira se fez carteira
e o colete estrela
onde estava o carro? 
fiquei apeado. 
ficamos, 
ficaste, 
estou.

desfaz-me essa cassete de cortejo,
aquela de ontem e agora esta,
pois se soubesses o que circula na via
choravas na tua festa. 

incapaz de conduzir esse bote
(sou coxo)
por mim era deixar ir abaixo
e esperar pelo mote
(boom!).
até mais combustão, 
espera-nos o trote.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

deita-te e sê portento

eram 5 da tarde e o sol pôs-se sem pressas.
enterrei um JP junto à rocha que me ilustra os sons antigos,
assim até metade,
e deixei a mala fazer de mesa.
um mar fim-de-tudo aparta-se do paraíso com um fio de areia: tróia.
duas penínsulas como cabeças que se acercam para um beijo glorioso,
estampado numa fotografia,
sem nunca se tocar.

sentado, equilibrei a mesa nas pernas
fechei com gentileza a caixa.
não estava ali por minha causa,
pelo menos desta vez,
mas tornei a vir muitas. 

trouxeste-me num passeio que para ti foi importante e para mim foi mais. 
em fato de banho, peça única de azul profundo,
seguiste para a água
e eu acendi a que estiquei.
em quase tudo eramos miudinhos.
correste para o mar,
tal como quando chegaste
e tal como partiste.

a lua tímida dum outono precoce espreitava comigo,
o mundo deixava-se estar.
nunca entendi a felicidade dum chapinhar à beira-mar
mas entendi a tua, nem que por breves momentos.

nesse dia, voltaste:
uma cena pintou-se no deserto deste canto
e eu apaguei a beata na rocha e meti-a dentro da garrafa vazia.
os astros, imóveis até aqui, retomaram marcha,
o tempo voltou a correr. todo o mundo foi esse instante.

quando sonho com este dia mais feliz
anoitece mais depressa, o sol é impaciente. 
compreende-se.
nesse sonho não voltaste.

draft por aprovar, lentamente a pôr-se pronta

estou a descongelar o congelador, aparente metáfora para viver.

--------

cumpri os requisitos.
fez-se um fix fixe, qual pai dos esquisitos,
receita humilde e prudente,
quiche dos saldos do ocidente.

espetei os atributos no repositório
e deixei cozinhar quem sabe.
perscruta o peditório,
quem sabe,
e que não acabe como a gente
sem agente,
ou não acabe com a gente.

a grande questão:
especificado está,
quem prova? 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

 


meti um bilhete na caixa de correio, 
bilhete de volta.
guarda-a com fé,
na raiva que não deixa que se abra.
uma confissão invulgar.

envelope sem selo e de passagem.
eu nem sei pra onde vai mas espero que seja em breve.
comboio sem travagem, preserva calor na neve.

conhecemos a artimanha que mete as cartas na rede.
pesca idílica doutros tempos,
ou contos em formato novela.

meti um bilhete na caixa de correio, 
bilhete de ida.
vemo-nos quando a carne for forte e muda.

rascunhos de um alcoólico I

 É fundamental para o interesse da República que o cidadão, independentemente do seu enquadramento ideológico, considere antes a realidade material das decisões políticas - ou seja, quem efectivamente tem, e como, a capacidade de efectuar acções concretas. É impossível determinar algo como isto conclusivamente, mas é possível aproximar relações de causa e consequência. Para isto, é obrigatório reconhecer que a arquitetura constitucional das instituições que "regem" a vida política não reflete totalmente a forma como o poder político se distribui na sociedade. Por exemplo, o órgão legislativo e as suas normas não refletem todos os atores e mecânismos existentes para conduzir à produção de leis. Há fatores informais relativamente aos individúos que compõe estes órgãos (a corrupção sendo um exemplo), fatores procedimentais ou técnicos (a criação de loopholes por fora do debate em Assembleia, erro humano), a própria interpretação da lei vai muito além do texto produzido em Diário da República. 

Isto pode ser aplicado a qualquer outro mecânismo de poder. A autoridade em si (isto é, o exercício de um poder legítimo) é talvez o exemplo mais pertinente. Podemos dizer que as leis e normas que regem o seu comportamento e alcance de poder/autoridade não refletem a realidade material que descreve porquê e qual é a origem do seu poder/autoridade. Podemos igualmente dizer que as leis e normas que legitimam o seu poder/autoridade foram concebidas por um processo não totalmente alinhado com aquele descrito na Constituição. 

Uma nota sobre legitimidade: Legítimo é aquilo que é voluntariamente consentido pelo cidadão. É legítimo o polícia autuar infracções ao código da estrada pois, através do seu poder político, o cidadão consente à aplicação de uma série de normas que consagram àquele ofício - e por extensão ao indivíduo que o exerce - o direito a autuar cidadãos. 

Pensemos então na autoridade novamente. Parece haver uma diferenciação entre a forma como esta se exerce, e os mecanismos que a legitimam. Poderemos justificar em parte dizendo que é impossível mapear o comportamento humanos e as suas infinitas ramificações num documento. No entanto, não se deverá confundir um certo desfazamento entre a legalidade e a prática, com uma total alienação entre elas. É compreensível em determinados momentos haver uma linha cinzenta pouco explícita numa acção, mas se a legalidade simplesmente não reflete a acção prática, então há a necessidade de refletir se é a legalidade ou a prática que precisam ser revistas. Um polícia que rouba abusando do seu direito ao porte de armas trespassa a lei e precisa rever a sua prática (no caso, sendo punido com a prisão), um imposto sobre rendimentos que não se aplica a determinados quadrantes não específicos da sociedade por uma questão ténica implica uma necessidade de revisão na lei, uma vez que a prática não inflige o que foi estabelecido dentro dos parametros legitimos da lei.

Sendo por isto a legalidade falível, e sabendo que o próprio processo legislativo não reflete na sua realidade o documento constitucional, para uma República verdadeira, é necessário admitir que a legalidade não pode ser o determinante absoluto do consentimento do cidadão. Doutra forma, o consentimento do cidadão não é absoluto no que toca à legalidade da sua República. 

Poderemos considerar que o "duelo" político em democracia, entre partidos, representa esta parte viva do exercício do poder da República. Ou seja, através do processo (como debates e eleições) criamos o espaço para a evolução do sistema que regimenta a vida na República. Assim sendo, o cidadão participa legitimando através do voto os atores que representam a parte viva da República. Isto leva a duas questões: 1) Não é absolutamente legitimo que o voto seja o único fator que determine o poder dos atores nas Repúblicas, e o seu oposto; 2) A realidade não reflete duma forma linear a relação do voto com o poder de representar o cidadão nas instituições políticas para as quais ele votou.

Quanto ao primeiro ponto, pensemos num sistema eleitoral fraudulento. Quanto ao segundo ponto, pensemos no acesso ao poder através de máquinas partidárias ao invés de serem meramente as eleições que determinam o acesso a um cargo legislativo. 

Se em todo o exercício do poder existir esta nuance, é importante reconhece-la. Para um cidadão isto quer dizer: não se deve menosprezar o exercício prático do seu poder apenas devido à sua apreciação da lei. Bem pelo contrário, a prática da cidadania tende a ser muito mais circunscrita à sua realidade material do que a uma determinada orientação geral (por exemplo, ideológica) que descreva a construção das leis. 

Pensemos na óptica de um adversário da República. Como qualquer agente ofensivo, este irá buscar vantagens e oportunidades. Neste caso concreto, provavelmente nestas lacunas entre o poder real e o poder legal existirão oportunidades para tentar co-optar algum instrumento de poder real, ou de manipulação do poder legal, ou de ambos. A Máfia é um exemplo do que acontece quando uma facção adversária à República a viola, criando vínculos de poder real expropriando a autoridade inclusivamente a agentes políciais, políticos, juizes, etc. É fácil enquadrar o exemplo da Máfia pela quantidade de documentação produzida, mas enquanto a co-optação é ativa e o cidadão não tem conhecimento, este tipo de diagnóstico torna-se bastante mais difícil.