Até agora era o único que estava em prejuízo. Dos 50 créditos iniciais (que comprei com o orçamento que guardo para jantar num libanês aqui pertinho) já só me restavam 23, o que representava uma perda de mais de 50% em cerca de uma hora e quinze minutos, o mesmo que dizer um serão bem passado com borekas e marisco. As minhas apostas seguras no preto e na primeira coluna estavam a correr mal, portanto estava na hora de recorrer aos milagres. 10 no preto, sem medos. Por momentos parecia que o círculo 2D que decide a casa ia aterrar no zero mas tive sorte, afinal foi no 32. Ri-me desta triste fortuna, pois queria apostar no vermelho e contive-me antes de confirmar no largo botão de OK (que estava um pouco perro da porrada que já deve ter levado). Se saísse o preto agora teria sido muito mais agoniante do que perder 10 créditos. Lá vai, mais 3 créditos na primeira coluna, só para ficar com um número redondo caso perca. Finalmente as minhas vontades foram concedidas e fiquei com a bela dezena de créditos. Espreitei para o ecrã da minha parceira, que estava na máquina paralela à que roubou 4/5 do meu dinheiro. Não conseguia ver bem a quantidade, mas percebi que já lá constava um pauzinho fino na casa das centenas. Fiquei feliz pois se alguém tiver azar no amor vai ser ela e não eu. Após este pensamento horrível optei por fazer uma pausa e fumar um cigarro mesmo no inicio do corredor, no centro. As minhas perdas materiais podem compensar se daqui retirasse mesmo que só uma visão memorável que pintasse a inocência da humanidade em contraste com o diabólico mecânico do vício e do ócio, a reluzir nas suas faces os potenciais miseráveis que mesmo assim existe do risco que corremos. Nem assim, no entanto, consegui fazer jus ao termo sorte, pois três ou quatro tragas do cigarro e apresentou-se à minha frente, contornando-me desajeitado, um enorme obelisco humano, com pernas finas e particularmente juntas, a dar passinhos minúsculos para a sua estatura em direcção à máquina com a aparência mais gasta de todas as do corredor, também ela uma roleta.
Ao início prestei-lhe pouca atenção. Também, pouco mais tinha feito para além de me estragar a vista durante 4/5 dum cigarro (o que até levaria como um sinal se acreditasse em foreshadowing na vida real). Deveria ter uns 40 anos, talvez um pouco menos apesar da sua aparência. Vestia-se de forma casual, um pólo de marca azul escuro com detalhes amarelos na gola, calças de ganga largas com um rasgão desconfortavelmente grande no joelho que expunha a densa pelugem que decerto lhe cobria o corpo inteiro. Na face nem um único pelo, apenas as grossas sobrancelhas praticamente rectilíneas e uns fios soltos pelo crânio a que, com generosidade, poderíamos chamar de cabelo. Como quem desafia o destino, decidi voltar a jogar na máquina que estava adjacente à dele. Espreitei rapidamente para o ecrã do meu novo vizinho por mera curiosidade e verifiquei com já estava com 6000 créditos. Parecia feliz, portanto supus que estava no domínio da vitória, ao contrário de mim, que ainda não tinha retomado desde o infortunado 10 com que parti para a pausa.
Comecei a perder-me na observação. A maneira casual como ele passeava os dedos pelos botões, como um pianista de free jazz a experimentar-se pelas casas da roleta, sem modos nem escala, tudo do seu espírito. Tocava uns excertos que nunca pareciam aleatórios mas sim improvisados, olhava muito atento para as suas escolhas e batia com com convicção no OK, como se o tentasse fazer compreender alguma coisa sobre a sua magnífica composição. A máquina, sem remorsos da minha curiosidade, retornava-lhe sempre qualquer coisa. Raras foram as vezes que o vi perder toda a jogada. "Se calhar esta é a máquina viciada cuja existência descartei", pensava eu. Optei por fazer mais uma pausa, mesmo sem ter jogado nada desde a anterior. Os meus amigos perguntavam-me se estava a correr mal e, como é evidente, disse-lhes que sim mas que estava tranquilo - amanhã é a Bela que me paga o jantar de qualquer forma. Ela riu-se. Fui para o mesmo lugar onde tinha fumado o cigarro anterior mas desta vez com o tipo da sorte incluído na fotografia mental. Tornou-se muito mais bela desta vez. Os meus queridos a lucrar e aquela personagem ali entre eles, a fazer solos em números cardinais coloridos e a lucrar, como um performer a dar um concerto bem afortunado. A máquina pagava-lhe o espectáculo de forma orgulhosa, acompanhando os tek teks com a bonita melodia do aviso sonoro de que ganhou a jogada. O meu papel aqui hoje era claramente capturar imagens e não capital.
Nunca largando a atitude de artista, senti que ele começava a perder um pouco da sua agilidade. Já pingava da testa, decerto que já tinha as mãos escorregadias pois limpava-as contra as calças cada vez que perdia uma jogada, o que estava a acontecer agora com mais regularidade. Ainda tinha uns confortáveis 6402 créditos, portanto não o imaginava nervoso, apenas cansado. Foi aqui que ele puxou da sua caixa metálica com um padrão de flores estampado e tirou o seu primeiro cigarro. Eram enormes, uns largos 20% mais compridos do que os normais. Pô-lo na boca e deixou-o ali a repousar durante umas quantas jogadas. Quando desceu para os 6000 créditos, ascendeu-o com um bic vermelho que condizia com a sua aura vencedora. Parece que o tabaco destravou o seu limitador interno, pois assim que começou a fumar tanto o cigarro como os seus dedos pareciam estar a fumegar. Frenético, largou o jazz certeiro e carismático e pôs-se num prestíssimo impressionante, meio atabalhoado mas muito engraçado. Nunca o vi a bater as cinzas, à medida que fumava inclinava-se para trás e para o lado com a cabeça para que não caíssem para a folga entre o fino pescoço e a gola do pólo. Tornava-se cada vez mais caricato até que nos últimos tiros do cigarro as cinzas resolveram colapsar numa nuvem para cima dos botões da máquina. Não consegui contar os risos.
Ele não se importou muito com o meu deboche, na verdade acho que nem sequer percebeu que me ria dele. Continuou o seu jogo, tocando e vendo os seus créditos a tornarem-se em números cada vez mais pequenos. A partir do primeiro, foi aumentado a frequência com que fumava. Sempre que o fazia, o mesmo filme. Nunca batia as cinzas. Elas iam para cima dos sapatos (meus e dele), para o tronco, para os pêlos da perna que saiam do buraco no joelho, para o chão, para os botões. Já tinha a ponta dos dedos sujas, mas pelo menos secas.
Isto durou um bom bocado, até que finalmente chegou aos 1000 créditos. Pudera, com apostas tão agressivas num jogo de sorte é natural transformar o pouco lucro em muito prejuízo. Já estava a apostar - passo o trocadilho - que ele ia puxar mais um cigarro e fazer o derradeiro solo de speed metal naqueles pobres botões, mas surpreendeu-me mais uma vez. De facto acendeu mais um e meteu-o no canto da boca tal como fez todas as outras vezes, mas desta vez parou de jogar. Ainda não o tinha feito, portanto calculei que fosse desistir antes de estourar o que lhe restava. Fumou com calma e desta vez fê-lo com muita modéstia e brio, mantendo a forma perfeita do cigarro à medida que ia queimando, corrigindo as pontas no cinzeiro da máquina que até então só tinha beatas e nenhuma cinza (salvo os resíduos que por vezes esvoaçavam ali para dentro). Acabou, inclinou-se para o ecrã e, como numa ficção, apostou tudo no 7. Já não suava nem parecia um músico, agora tinha a postura dum herói, uma confiança que até os meus amigos sentiram da outra ponta do corredor. Pressionou o OK com a mão toda, mas com alguma delicadeza.
Lá foi a bola pela roleta. Eu estava mesmo investido naquele jogo, queria tanto que ganhasse, muito mais do que eu e os meus míseros 10 créditos. A bolinha virtual lá abrandava e com ela o meu ritmo cardíaco acelerava. Como é possível estar a sentir tanta adrenalina numa jogada dum desconhecido?
Parou no 32.
O fumo duma longa vida de fumador saiu-lhe pelas narinas com a frustração. O herói perdeu a cabeça e mandou uma palmada violenta no vidro do visor. Esfregando os dedos sujos de cinza na testa, afastou-se de mim e do resto das máquinas como um derrotado. Tentei com que reparasse em mim através do meu olhar, o que não resultou. Simplesmente se retirou como um cantor sai do palco depois duma performance medíocre.
Quando dei pelos meus amigos, estavam já a conversar afastados do jogo. Aparentemente fizeram todos um pequeno lucro excepto a minha namorada, que fez um fantástico retorno. Eu perdi quase tudo, mas não me sentia particularmente infeliz. Ajudou a Bela ter ganho tanto, sei que serei mimado com parte do seu retorno. Venha daí o libanês!