é difícil explicar porque caralhos me vim meter num sítio como este
passando por ruelas que tresandam a incenso misturado com erva barata e fritos
copos por todo o lado
os bueiros entupidos de beatas e mais plástico
turistas e transeuntes em tops coloridos, camisas floridas
ziguezagueando pelo caminho com os seus mapas em inglês
caras pálidas, homogéneas, boinas estampadas mais de mil
escondi-me nas escadas da sede de um partido de direita
apanhar ar e sossego
procurei amizades mas não encontrei
só o compromisso, forçado, a inequívoca e condicionada verdade
e dizia a música que era a única vontade livre que me banhava os sentidos
o amor verdadeiro há-de te encontrar
no fim
só precisas tentar
acendi um cigarro
fumei-o com algum desdém, confesso
foi assim que decidi que precisava de mais um copo.
meti-me na esplanada de um bar brasileiro
pedi um misto quente, qual insider
qual pária duma pátria
em busca da sua origem
mais a bebida, claro
mais outro maço, claro,
mais uma água, a prudência dum homem gasto.
sentado ao lado duma acompanhante de artista
que tocou há minutos no palco onde me procurava esconder
ela traz um chapéu tricorne
o que parece um presságio infeliz para o baixista
ego cegando-lhe o que dizem os pés
por baixo da mesa
foi buscar uma merda qualquer
quando voltou tinha mais amigos
e tentou-me tirar a cadeira enquanto eu estava distraído
escrevendo estas considerações
não dei de barato
fitei-o, impávido
e ele pediu com licença
e eu disse claro que sim.
agora espero pelos meus amigos
tomam banhos com as suas esposas
e a shanty town vai passando
à direita homens em tronco nu jogam diablo fazendo turnos
à esquerda uma coleção de chapéus e vozes grossas
tentando ser alguma coisa que também eu quis.