segunda-feira, 4 de agosto de 2025

in memoriam: pip

digam lá que sou previsível, banal
"fala sempre do mesmo, o otário"
pois pois pois pois
quando o dia resolve jogar uns raios
pelas brechas da persiana
quantos são os pensamentos variados
esses, persistem e seguem, ignoras os ruins
pois pois pois
são três ou quatro
pois
e tu só um.

é a falta que faz um descendente
o grito jurássico
a beleza intemporal.

o teu passarinho azul provavelmente está
morto
ou a caminho
e dá para medir qual estava mais doente
afinal
eu e o meu
tu e o teu
cá estão
lendo versos tortos do vício
da água baça,
aquela
nunca lhe coube.
foi-se em graça
iremos de arrasto.

todas as vistas neste blog são esperança que sejas tu
eu nem sei
quem és mesmo?

quarta-feira, 30 de julho de 2025

tara marada, cara tapada, rara e tábua rasa - eis uma crina que se pode puxar

estarei errado?
pelas cores que batem nas janelas
mais as tocas de onde saem
os bichos da seda que te fizeram
esse vestido cortado?
serei culpado
pela mecânica ascendência?
foi ela que nos fez
sabes?
é só como eu me sinto
uma mão que toca no peito
errado - errado - errado
e dança à volta como se
fossem carícias a um cavalo
com os pêlos ao vento 
só sonhos mendigos
franja tingida
lamento
ficam os versos primeiros
à ms. gruesome fin dois
burro - burro - burro
vais comer coices nos cornos
é mais que sabido.

terça-feira, 29 de julho de 2025

quando passam as luzes

super-memória, cantada pelos corredores
dias de calor pertencem aos suores
de gentes envoltas numa nuvem roxa
dedos em bico, coxas à mostra
libertos em fugazes lembranças, consta
que uns quantos conheceram o chão
outros não
forte, penante, pedinte, a elite
difusa em pós coloridos, o senão
da vértebra colada às raízes 
fazendo lenda de uma sola pegajosa
e corajosa, queria muito que fosse solta.

conta, como não? tomando o globo por coroa
são donos da noite, todas, os seus serventes
num vai-e-vem bendito, a quem compete
só aos próprios, com vidros nos dedos
e vontade nos dentes
trespassam correntes, vão à lua
quem poderia crer que assim se formam
heróis revolucionários?

um homem improvável, de alças e pele
branca
tudo negro na alma, nas pernas
garrafas de carne que sobem com o som do gelo
batendo nos cantos redondos que encarceram
a vontade feminina, sentida com um pulsar
ritmado no quatro por quatro latino, 
e a pele se abana 
a vista embaça
tudo primando um primal e certeiro
segundo perfeito, bem sabido
dormido se fica
mas aqui emerge com a grandeza digna
da essência que as torna em bestas e anjos.

ligaram, esqueceram
mentiram à família
que mentiu por sua vez
perfídia e fecunda mocidade dum canto 
qualquer.

sem tento as luzes fraquejam
com olhos rasgados.

ama-se a verdade
é a forma perfeita
dos agarrados da vida em compassos latinos.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

shanty town

é difícil explicar porque caralhos me vim meter num sítio como este
passando por ruelas que tresandam a incenso misturado com erva barata e fritos
copos por todo o lado
os bueiros entupidos de beatas e mais plástico
turistas e transeuntes em tops coloridos, camisas floridas
ziguezagueando pelo caminho com os seus mapas em inglês
caras pálidas, homogéneas, boinas estampadas mais de mil
escondi-me nas escadas da sede de um partido de direita
apanhar ar e sossego
procurei amizades mas não encontrei
só o compromisso, forçado, a inequívoca e condicionada verdade
e dizia a música que era a única vontade livre que me banhava os sentidos
o amor verdadeiro há-de te encontrar
no fim
só precisas tentar
acendi um cigarro
fumei-o com algum desdém, confesso
foi assim que decidi que precisava de mais um copo.
meti-me na esplanada de um bar brasileiro
pedi um misto quente, qual insider
qual pária duma pátria
em busca da sua origem
mais a bebida, claro
mais outro maço, claro,
mais uma água, a prudência dum homem gasto.

sentado ao lado duma acompanhante de artista
que tocou há minutos no palco onde me procurava esconder
ela traz um chapéu tricorne
o que parece um presságio infeliz para o baixista
ego cegando-lhe o que dizem os pés
por baixo da mesa
foi buscar uma merda qualquer
quando voltou tinha mais amigos
e tentou-me tirar a cadeira enquanto eu estava distraído
escrevendo estas considerações 
não dei de barato
fitei-o, impávido 
e ele pediu com licença
e eu disse claro que sim.

agora espero pelos meus amigos
tomam banhos com as suas esposas
e a shanty town vai passando
à direita homens em tronco nu jogam diablo fazendo turnos
à esquerda uma coleção de chapéus e vozes grossas
tentando ser alguma coisa que também eu quis.

para um convívio corrente

guardei um charuto para fumar com eles
mas foram-se como tudo que vai
agarrados à crença e a um senso rafeiro
de pertença atada às formas correntes.

é um fraquejo, um grito, um desejo perverso
que te dobrem a língua coroando-te as crenças
pois errado te esperam, errado os aguardas
é um desígnio fortuito e por nada certeiro
mono um mono teu nono
vê que gama e espreita
as vertebradas ilustres pertenças
em estrelas
os ares de onde por tudo te vergas.

é fraca a memória
uma lição tão clara
t'olvidas com estima
a estima o pecado,
é do brio d'onde parte
essa farsa perversa: a pertença num rasgo
de amizade barata 
forjada ao acaso
diz antes coitado
sem mérito ou rumo
com negrume nas ventas
embolsam uma fumaça
e engolem de volta
as suas ditas avenças.

sábado, 19 de julho de 2025

diário do barreiro III

meti o carro tão longe
não há lugar nas altas horas
nem quando a semana torna
nem quando ela expira.
é fodido o turno da noite.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

hoje sonhei

hoje sonhei que íamos todos para o inferno. o bafo ameno, as rochas ásperas engolindo o brilho dos corpos anónimos, o tempo que neles foi, o dito engenho, a diferença. no fundo, aquilo por quem te tomas. era paradoxalmente frio, banal, umas escadas pitorescas onde todos se sentavam quando o cansaço decidia que era hora de puxar o seu assento. a paragem de pessoa, o diabo em carne e sono. descansa, rumando por certo o silêncio das pedras. em cada degrau estavam estampadas as memórias que não foram, as vontades por saciar, placebo de amor e verdade.
uma recordação fixada num chão intemporal. e pisavam os recém-chegados ao purgatório as imagens que em vida pareciam o fundamento para vulgos heróis. a tua semblante, a minha, nós na sola suja que leva as almas ao castigo.

hoje sonhei com o futuro que fiz.

e dançavam dignos os conformados connosco
e que desgosto estar mal-acompanhado.

samba!
para-para
papapa-para!

a flauta, o desejo, um vórtice de pulsante ambição e pecado 
a confusão sendo o teu lar
baralhados, perdidos, animais de instinto extinto
marchando 
sem termo e sem destino.

rogavam tantos.
parem, eu não mereço
eu não quero
e a música tocava
samba!
para-para
papapa-para!

ei-lo, o teu presente
o inferno que fizeste foi uma obra colectiva 
dizem:
por mal!
a quem cabe o destino
é a ti, a ti e a ti!
filho da puta! 
come agora o largo dos cães e vê pelos rasgos na gruta as formas de servir ao Pai
todas as tuas miseráveis desculpas
escorrendo pelos ares
o movimento do xisto encerra a última brecha por onde se via uma nuvem.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

chá das cinco

saúde e barriga cheia,
convém-me relembrar
que são ásperos os tempos
de parte a parte, desconsideradas
as fáceis premissas escapadas
reside por hora porquanto 
a certeza
o fácil e o conforto
por demais descansado
(morto)
levando-te as lembranças
como rugas se instalam
do tempo que nos consome
sem pena ou questões.

é... tenho dúvidas
quiçá seja a camisa perfídia
negra e proibida
como diz a autoridade.
sem papéis, distinto
permitido - jamais
condenados a burlar a incessante
motriz sagrada da normaleza.

bem grato pela suburbia pertença
o que nos toca compete à vivência
tão solta, de traje e olhos na volta
que um timbre redondo opera por entre
as quebras de fazer que se é
típico.

bendita, que evita, a dita
de fita, provendo a marmita
dum prato raso que habita
sem musa ou artista.

acredita
um plano que excita
e padece na evita
evita evita
mais uma aposta fortuita.

que raio de rima?
que raio desígnio
escolhes como destino?
(o nome) 

um par de incompetentes
come antes
o pão que o tédio amassou.

aninharam-se algures

numa caixinha o meu nome
lá dentro dois pássaros
abri e voaram.

papel-machê

dos meus sonhos tomo nota
partilho com prazer um resumo
ficam perdidos na teia
por vezes brota o negrume.

dos amores se olvidam
aqueles que o fazem castigo
encharcam as folhas com água.

mente clara
papel-machê

a matéria aglutinante:

um brutal assassinato

voltando para casa
vim do alfarrabista
(alfarrabista nenhum
é só o quiosque de um velho
que às vezes tem livros)
assustei-me com uma traça
nas escadas do meu prédio
e matei-a com as ondas
da virginia woolf.


quarta-feira, 16 de julho de 2025

bom dia

acordei semi-nu
com o tabaco no bolso
a barba no chão
os sacos rasgados só servem de lixo
com buracos na mesa
e as calças no lixo
nos sacos rasgados.

levantei a cabeça alvejado na testa
por um feixe que escapa da persiana automática
uma fresta pequena
que ganha forma com as nuvens de fumo.

tomei nota dos telegramas da mente:
sonhei com comida
pois acordo com fome
sonhei com partilha
pois acordo egoísta
sonhei com adultos
pois acordo em criança
sonhei com a fama
pois acordo invisível
dói-me a cabeça
pois devo tê-la perdido.

toca o despertador quatro vezes
insistem só três
bom dia
diz o alarme vencido por fim
e uma só.

redijo o texto, lavo o rosto
sinal ou lembrete duma jorna conforme
há chávenas em toda a parte
mais um prato na pia
acho que limpo lambido
não tenho a certeza.

vitamina
efervescente
um comprimido para as dores
outro para a mente
placebo
placebo
descrendo 
eu percebo.

tenho planos na agenda
vesti-me depressa
as calças se fodam
só me topam o busto
confiro a minha lista 
porquê? porque sim
descarto as lembranças
tem mesmo que ser
jogo o cu na cadeira
e devolvo o bom dia.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

sem veneno digo eu / \ asfalto, a pele e a erva

malandros não estão nem aí
serpenteando por cá, largam um rasto
de areia das brechas que os crivos
vulgo pitões mais seus dentes serrados
acumulam em voltas ariscas na praia,
a botânica a monte onde todos já sabem.

diz-se um lembrete lacónico, na urna, que estável
capacidade lascada de crenças bem soltas
contidas nas copas, em águas com tónico
sementes diurnas com a força da síntese
obreia segunda, dormente e amável
rompendo o destino pagou as avenças.

tonta, na estrada te embalas, canções de perigo
e a pele que largas
eles não estão nem aí.

meia boca

não tendo algo em mente a sua boca mexia-se mas ao invés de palavras
soavam apenas sílabas soltas, o dístico como dados rolam numa mesa.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

segundas na torre

leitores, leitoras,
as pedras da vida
são marcos da torre.

compadres fraternos
desolha, descalço, esqueces 
que a terra
é fruto do arco.
perdoado
perdoado,
fica aqui registado.

melaço e pistachio
emprenha-se o ar
de fragâncias a homem
prudente, h grande
com os braços abertos
ele faz de helicóptero.

segundas certeiras
nunca são as primeiras
as donas do sempre.