sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

4600

o filme da margem
nas janelas da carris
passa a carrete de um pescador
as esplanadas ao almoço
homens bronzeados, de barrete
balões pequenos e sagres
as viúvas coxeando
arrastam sacos na calçada
os povos se misturam
sobrinhos da hora da labuta
entram pela porta traseira
em camionetas acabadas.
no subúrbio gente velha
sorri ao vazio
e monta-se em resguardos
acenam ao trânsito
como noivas se despedem
na hora do adeus.
a adolescência senta-se nos bancos
mais ao fundo, comigo
e mais um par de trafulhas
somos parentes do tempo
futuro fraternos de trincheira.

faltam 40 paragens
toda a gente olha 
e muitos vão em pé.

há obras nos limites
mais carne para canhão,
os armazéns postulam suplícios
pelo bolor dos seus quadros
pintados de há muitas décadas
com apego ao futuro que não veio.
riachos e barrancos, pequenas placas
delimitam o comércio
das barracas que foram casas
o luxo da baixa casta.
tudo coberto
pelo sol alto e altivo
plantando em caras salgadas
máculas que são os seus filhos.

tirei os pés do banco
para um aluno se sentar.

mulheres da vida
mulheres empurrando carrinhos
mulheres com sacos do super
falando ao telefone com maridos
princesas do asfalto
vendo gentis em autocarros
eu devolvo a mirada
ela retorna à sua vida.

faltam cinco paragens
rodamos metade desta margem
a classe operária
saiu junto à oficina
fiquei eu 
e a terceira idade
fechámos o vidro
e entrámos na cidade.

STOP!

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