terça-feira, 3 de dezembro de 2024

de cultos a bares

é... sexo
o objecto do desejo burguês
e as promessas do sonho da comuna
das cordas que puxam os bonecos
pelos sentidos que exumam razões
o venerado e húmido animal:
sexo.

que banhada essa índole rotinada
encostas-te à bancada no bar da esquina
pões os ouvidos nos rapazes da estiva
e eles trabalham e discutem estatísticas
com mais competência que economistas
sobre jogos comprados, a máfia das marcas
passa uma mulher e a conversa suspende
e falam de fodas, de grandes conquistas
dos tempos não castos que nunca existiram
com sorte metade terá uma esposa
que faça de escape para estes delitos.

pois, tudo certo, okay
eles mal têm escolha
nos contentores ferrugentos escapa a vital
energia terrena que murcha tão rápido
naturalmente tenderão aos prazeres profanos
e às mocas orgásticas que emergem do fundo
portanto aceito como humildes se estendem
em jogo e fumaça e sonhos molhados.

virados dois copos até eu me perdi
nos olhos profundos duma princesa sem trono
e ri-me da ironia do juízo que passo
que circula ao lado do meu próprio vão ser.
joguei-me nos livros, cultura e arte
os segredos de hermes e as castas mais raras
fugindo do óbvio procurando respostas
como o tom passeando em noctívagas ruelas.

o rendez-vous está no mato longe da vista
e aqui coalescem poderes que fito
dos senhores que moldam as régias tempéries
doutores da sina comandando a espécie
pelo véu da neblina num retiro de férias.
visto a máscara e entro
a desgraça apresenta-se:
são casais domados pela força do hábito
velhos e gastos em ócio e stress 
recitam poemas num latim impecável
crendo com fé que sim, é este o caminho
coleando a vaidade em símbolos crípticos.
amigos, leitores... como dizer?
eles apenas, apenas apenas
e reitero, apenas mesmo
mascaram calores em cenotáfios tesudos
e invejam as curvas em seda das damas
desculpam-se na sóbria vontade da carne
como se fosse místico perder a prudência
se nada a afecta senão o pulsar da vida.
absolutamente plebeus
repulsivos 
simplórios em caxemira.
o bar dos barbudos babando as bancadas
ao menos obreia com honestidade assumida.

estranho fascínio com o percurso
enquanto a consequência expira
em gráficos decrescentes
por todo o mundo.
pensando assim, pondero
talvez conter-me no desejo idiota
e perguntar a uma das musas
que ilustram a milenar poesia 
o que pensam desta triste conclusão.

que raio te vai pela cabeça quando sentes
o homem dormir na consciência e que cede
ao poderoso chamado de se achar desejado?
esta pergunta favorece-me duas vezes
quase como se eu tivesse chegado à conclusão
nessa inquieta observação desesperada
e uma ganho um respeito mui nobre
e duas que alguém finalmente a oiça.

quando sobes uma montanha de acesso vedado
e observas uma cena implausível e restrita
os vapores da gana se fundem no espírito
ancestrais alinhados com o corrupto fascínio
e esse poder que transcende a classe
reverbera nas rochas e em tudo que toca
quem não sabe não pensa porque é sentido por todas
aquelas com dedos para manusear esses trastes.
sabe bem ser terreno, é o delito do agora
que permuta os valores e prolifera a espécie.
moral?
claro que sim, considera o que dizes
dizes algo, não dizes?
aí tens, a maior prova que sim.
compete-te domar o vazio nos ouvidos
e iremos dobrá-lo para que exista um futuro
o prazer é ver-te como Deus cá te pôs
submisso às causas que do ofício se escapam.

e eu digo
que para mim é igual
e suspeito que começo a perceber
és frágil e eu também.
bolas é tão simples
e incompreensível na hora.

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