sexta-feira, 18 de julho de 2025

hoje sonhei

hoje sonhei que íamos todos para o inferno. o bafo ameno, as rochas ásperas engolindo o brilho dos corpos anónimos, o tempo que neles foi, o dito engenho, a diferença. no fundo, aquilo por quem te tomas. era paradoxalmente frio, banal, umas escadas pitorescas onde todos se sentavam quando o cansaço decidia que era hora de puxar o seu assento. a paragem de pessoa, o diabo em carne e sono. descansa, rumando por certo o silêncio das pedras. em cada degrau estavam estampadas as memórias que não foram, as vontades por saciar, placebo de amor e verdade.
uma recordação fixada num chão intemporal. e pisavam os recém-chegados ao purgatório as imagens que em vida pareciam o fundamento para vulgos heróis. a tua semblante, a minha, nós na sola suja que leva as almas ao castigo.

hoje sonhei com o futuro que fiz.

e dançavam dignos os conformados connosco
e que desgosto estar mal-acompanhado.

samba!
para-para
papapa-para!

a flauta, o desejo, um vórtice de pulsante ambição e pecado 
a confusão sendo o teu lar
baralhados, perdidos, animais de instinto extinto
marchando 
sem termo e sem destino.

rogavam tantos.
parem, eu não mereço
eu não quero
e a música tocava
samba!
para-para
papapa-para!

ei-lo, o teu presente
o inferno que fizeste foi uma obra colectiva 
dizem:
por mal!
a quem cabe o destino
é a ti, a ti e a ti!
filho da puta! 
come agora o largo dos cães e vê pelos rasgos na gruta as formas de servir ao Pai
todas as tuas miseráveis desculpas
escorrendo pelos ares
o movimento do xisto encerra a última brecha por onde se via uma nuvem.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

chá das cinco

saúde e barriga cheia,
convém-me relembrar
que são ásperos os tempos
de parte a parte, desconsideradas
as fáceis premissas escapadas
reside por hora porquanto 
a certeza
o fácil e o conforto
por demais descansado
(morto)
levando-te as lembranças
como rugas se instalam
do tempo que nos consome
sem pena ou questões.

é... tenho dúvidas
quiçá seja a camisa perfídia
negra e proibida
como diz a autoridade.
sem papéis, distinto
permitido - jamais
condenados a burlar a incessante
motriz sagrada da normaleza.

bem grato pela suburbia pertença
o que nos toca compete à vivência
tão solta, de traje e olhos na volta
que um timbre redondo opera por entre
as quebras de fazer que se é
típico.

bendita, que evita, a dita
de fita, provendo a marmita
dum prato raso que habita
sem musa ou artista.

acredita
um plano que excita
e padece na evita
evita evita
mais uma aposta fortuita.

que raio de rima?
que raio desígnio
escolhes como destino?
(o nome) 

um par de incompetentes
come antes
o pão que o tédio amassou.

aninharam-se algures

numa caixinha o meu nome
lá dentro dois pássaros
abri e voaram.

papel-machê

dos meus sonhos tomo nota
partilho com prazer um resumo
ficam perdidos na teia
por vezes brota o negrume.

dos amores se olvidam
aqueles que o fazem castigo
encharcam as folhas com água.

mente clara
papel-machê

a matéria aglutinante:

um brutal assassinato

voltando para casa
vim do alfarrabista
(alfarrabista nenhum
é só o quiosque de um velho
que às vezes tem livros)
assustei-me com uma traça
nas escadas do meu prédio
e matei-a com as ondas
da virginia woolf.


quarta-feira, 16 de julho de 2025

bom dia

acordei semi-nu
com o tabaco no bolso
a barba no chão
os sacos rasgados só servem de lixo
com buracos na mesa
e as calças no lixo
nos sacos rasgados.

levantei a cabeça alvejado na testa
por um feixe que escapa da persiana automática
uma fresta pequena
que ganha forma com as nuvens de fumo.

tomei nota dos telegramas da mente:
sonhei com comida
pois acordo com fome
sonhei com partilha
pois acordo egoísta
sonhei com adultos
pois acordo em criança
sonhei com a fama
pois acordo invisível
dói-me a cabeça
pois devo tê-la perdido.

toca o despertador quatro vezes
insistem só três
bom dia
diz o alarme vencido por fim
e uma só.

redijo o texto, lavo o rosto
sinal ou lembrete duma jorna conforme
há chávenas em toda a parte
mais um prato na pia
acho que limpo lambido
não tenho a certeza.

vitamina
efervescente
um comprimido para as dores
outro para a mente
placebo
placebo
descrendo 
eu percebo.

tenho planos na agenda
vesti-me depressa
as calças se fodam
só me topam o busto
confiro a minha lista 
porquê? porque sim
descarto as lembranças
tem mesmo que ser
jogo o cu na cadeira
e devolvo o bom dia.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

sem veneno digo eu / \ asfalto, a pele e a erva

malandros não estão nem aí
serpenteando por cá, largam um rasto
de areia das brechas que os crivos
vulgo pitões mais seus dentes serrados
acumulam em voltas ariscas na praia,
a botânica a monte onde todos já sabem.

diz-se um lembrete lacónico, na urna, que estável
capacidade lascada de crenças bem soltas
contidas nas copas, em águas com tónico
sementes diurnas com a força da síntese
obreia segunda, dormente e amável
rompendo o destino pagou as avenças.

tonta, na estrada te embalas, canções de perigo
e a pele que largas
eles não estão nem aí.

meia boca

não tendo algo em mente a sua boca mexia-se mas ao invés de palavras
soavam apenas sílabas soltas, o dístico como dados rolam numa mesa.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

segundas na torre

leitores, leitoras,
as pedras da vida
são marcos da torre.

compadres fraternos
desolha, descalço, esqueces 
que a terra
é fruto do arco.
perdoado
perdoado,
fica aqui registado.

melaço e pistachio
emprenha-se o ar
de fragâncias a homem
prudente, h grande
com os braços abertos
ele faz de helicóptero.

segundas certeiras
nunca são as primeiras
as donas do sempre.

domingo, 6 de julho de 2025

janela e as negas

quis, velho, bomba
ta-ta-ta tá tudo conforme
com forma, contudo
um furo nos canos
mais a luva dos fornos
mucho love
e um tiro nos cornos
ne ne nega negativo.

cinzas na ponta
rir da afronta, que belo
cabelo 
solto à janela
na ponte.
onde vais?
hmm???

faz calor
aqui e aí
outra fotografia
dos bons tempos.

sábado, 5 de julho de 2025

takeaway para dois

ei, espectro dum lapso 
ficas pelas cinzas que me cobrem
as coxas rasgadas dum abre e fecha
da cambraia, da nóia, pois bem
é de pousar a tocha, sem risco
não assombra, acolhe
aponta a verdade que escolhe
e tornamo-nos um.

de onde vem amar
o mal aspecto?
espectro, espectro
por minha virtude, vetada
characina combinada, tinge
a barriga, os poros sujos de soja
do óleo da mota, mundo barato e pequeno
dormindo apenas, é bom quando trazem
a marmita
emoções pelo contrário
não cabem na caixa dum glovo.

viu, vem da velação
vem da vela de onde vens
não se a tira, vistaço
e bem vivida
vem das vestes da verderena.

como é prudente o fantasma
duma sesta culpada,
valeu.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

perdi novamente

perdi novamente, no fim
(como se houvesse outra altura),
prudente desfecho que abranda
quando segundos e terceiros
disputam um rasgo de glória.


sorrirá a sorte grande, um sinal
maldito
sonhos dum destino
mórbido e bem articulado.

traz-me a carta, vira 
no seu jazigo
um rei e o seu trunfo.

farto
que flop.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

a música de hoje num par de cartas, uma delas versada

27 compete-me decorar
é uma péssima mão
mas são os teus últimos dígitos
quando mos deste em vergonha
querendo ir além.

cabem na memória
algarismos baratos, branqueados por pertença
que não cabe num ego esguio
arqueado, apetrechado de flanelas
camisas, que baril
ser velho e tentável por finos
fios negros que se abanam
com toques frágeis.

ouvi-te a murmurar como querias
ser um pescoço em mãos dadas
ao descontrolo
e joguei, meti tudo na mesa
enquanto 
guardo nada na manga.

serás vitória impossível
um pote caro
ao ego, risível.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

a paciência que ferve estorva

cachaça sem graça apruma o cachaço
mais letras pacatas de mira na prosa
sem cosa sem casa sem nostra
que bosta
pois baste, batuque
tipo sinais de fumo
o grumo embaçado
pois tussa essa vossa
ruína anilar.

pousei
por pousado
mais deixe-se estar
é o traço incolor
atrás do altar
depondo a certeza que traz uma trave
oculta e central
o mar nos degraus.

o ódio com a fera
febril no resguardo
humedece a madeira de lenha nativa
altiva e serena, melódico embate
coxeia certeira, serpentes no braço.

nesse embuste fraterno cabe a alma
e a calma e alma e a calma
a alma e a calma a alma
e a lama
e um toque hediondo
a dizer dorme já.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

quem e quem? a invisível passagem do tempo

meu cota, meu brother,
matéria é barata
honesta é a verdade.

minha rocha, virtude
a herdade da terra
é honesta a matéria.

edição fulgurante:
derruba-se o título e derruba-se o ponto
a impermanência pode ser reescrita.