e se fosses uma estrela
fulgor esbatido, distante, perdido
confuso e semelhante a outra qualquer
mas que eu sei
e saberia sempre quem és
pelo nome e por quem fala
e pelos tons e do pulsar
eu sei
entre tantas - todas.
em cada cabe princípio e fim
do centro capitãs dos seus sistemas regem
o percurso dos planetas
planetinhas
onde vivem pessoas
pessoinhas
atracadas num sonho vulgar.
acorda
lado a lado
numa ocorrência constelar
tão improvável como ser
lado a lado.
de tudo o que podia
sendo o nada conclusivo
e ao contrário certo por igual,
de lembrança faz a luz
o seu milagre breve
sem pernas que o sustente
pois é pacato
das pernas e de milagre.
incumbe à perseverança
incoerente, mas branda (!)
e brada com a própria natureza
em si igual no impossível.
mostra-se e sente
como um camelo que cruza as portas
do alfinete
em todas as medidas
uma falsidade que diz
a si mesma que foi assim
na batida seca do vácuo.
e se fosses uma estrela
e ela fosse a vida e tudo
tudo que nela cabe
e ela fosse a santa inocência
acreditando que em si
cabe a vontade dos céus,
de Deus,
uma loucura lançando a mão
a pequenas fagulhinhas
medidas por pesos e medidas
que se tomam com esquadros escamados
e um caleidoscópico compasso
acreditando que se leva ao que te trouxe
sendo pouco mais do que se é.
e trovejou no universo
com a sua geometria de escala
inconcebível aos instrumentos.
aplicando-se assim
doutrina e forma,
se fosses uma estrela
lado a lado em repouso
numa lamela
microscópica
dando no fundo o remate
que é a rota da transcendência.
um milagre
pago com a alma
esfarelada pela sentença
dum tirano meteoro
cuja ruína que nos devora
brilha menos que o parto
do ponto certo em que habitas
a anos-luz deste tracinho -
ei-lo
o código do além
depois do tempo
do terreno e branco feixe incandescente
comportando na essência
tudo o que se sabe,
e que eu sei,
com precisão aritmética:
foi da concepção imaculada
de seres uma estrela.