segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

arranha

gato ruim
cravaste-me as unhas,
é a raiva indomável
do amor habituado.
entendo, sou igual
dois patifes de barriga cheia
calor a mais
e colhões a menos.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

o porquê da bebida

embebedado
puxando vozes do fundo
só pesam
a quem nega ser quem é
ou a quem abusa do que faz.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

as pantufas novas

comprei pantufas no lidl
altamente descontadas
parecem umas lanchas 
cor do alto-mar.

os meus chinelos 
são antigos, estão gastos
largam um serrabulho
muito estranho
vou eu limpando o chão
e eles sujando pelas costas
espalham cinzas húmidas
pela casa toda
que eu não venço nem por nada.

demorei dois meses
para decidir fazer a troca
vou demorar mais um
para retira-los do saco
é assim
sou apegado ao esfarrapado
muito resisto à mudança.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

schopenhauer chop chop

posto à frente da mira
caminho para quem se faz
réu ocupado e 
produto do agoiro quando
o som dispara não há quem
redima esse verso culpado.
à frente da violência
vives eternamente.
o diabo levanta os joelhos
e seguem-se os botes
com pés descalços e expostos
ao vento e às poças que minam
a estrada 
e repete
e repete
e repete
até...

ÉS QUEM EU VEJO

as entranhas conhecem o se
o senão
o sinal
com apitos sentados
no pescoço de estátuas
que batem entre margens
de um mar vagaroso
apresentado com o moer
da voz fina em sigilo
quando o bafo sobe
entre as plumas dum orixá
venerado em segredo
em costas dobradas
e em surdas pisadas
dum chuvisco ameno.

apraz
ver a dor
contornado as costelas
dum homem fraco.
hmmm
é bom
ver-te penar.

resto de carne salva
sã e endividada
fora da vida
suserana leveza de querer
os suores sombreados.

lenda
faz a fita
reza
pela fita.

desterrado

passam quatro horas
numa cave
encostado à quina riscada
amanhece em poucas horas
estás a salivar
aquilo que não podes
não deves
não queres
são só manchas descosidas
saídas da tinta e de bocas
como a tua
como a tua
como te chamas?
passos de dança espalhados pela sala
sabem melhor que tu
homero desterrado
é fácil fácil fácil
as luzes cortadas pelo fumo temem as paredes
refletem a tua sombra 
aí sim sem medo
palavras caiam-se com elas se deixares.

a coca perdida não perdoa
levantas os pés para que a busquem
sentes um leve sossego sóbrio
não perdeste nada
eles dizem que perderam tudo
mas tinham um restinho
observaste como se curvam ao pó
o espelho devolve a pergunta
ao camponês dos 300.

olhos arregalados
línguas distintas
quando se abre a porta
o som escapa para cá.

vamos lá dentro que o irmão entende 
o dilema
está um bafo horrível
existem almas a menos
e boinas a mais
uma saia pontilhada por robôs
conquista o seu espaço
acerca-se valente
o homero desterrado
não está para isso
o querer aumenta
o ponteiro aguarda
não é cansaço
mas põe-se a milhas.

boa noite e acena aos caracóis
do fulano que perdeu a droga
ao menos ele sabe o que não tem.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

o meu cavaleiro

rédeas que são consolo
é a forma da expressão.

amarrado, selim nos ombros
os hemisférios vão falando
e tu arreando bugigangas-
pouca falta fazem.

domado e cheio de justiça
esperando o julgamento
segue o trote lúcido
colorindo as frequências
enquanto se agarra em esforço
com cinco dedos na crina
e o braço no pescoço
forte
mão amiga.

a esperança é o feno
a esperança é o veneno
batem com a vara
apressas o galope.
aperta-se a rédea
é o conforto do abraço
esmagado com amor 
coberto de moscas.

espera
quem é este homem?
ihhhhh
sai-te já!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

tordo-comum

a crença é uma província
alcance o seu governante
a influência faz a fronteira
à qual as almas se amarram.

puxam as rodas dentadas
riscam o chão com um guincho
o templo chega e radia
erecto ao lado do lixo.

um tordo espreita o pilone
nenhuma porta o guarda
a entrada está decorada
com vários homens sem nome.

à fome enchem a boca
com um punhado de terra
é o tesouro do reino
engole um velho profeta.

a banda toca no quarto
ninguém a ouve cá fora
o burburinho do monte
quebra outra pauta concreta.

das mil senhoras sentenças
sai a carroça indomável
e afastado em silêncio
o tordo senta-se à espera.

mercantes e transeuntes
dobram os quatro caminhos
da areia brota o perigo
mas eles seguem em frente.

o mapa não é terreno
o plano emerge do fundo
em cada grão vai um número
guardam pilares de pedra.

onde fostes, quem sois?
fosseis fazendo questões
com as asas desfez as amarras
e seguiu o tordo viagem.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

no baixo saciado

arrebita na linha que é precisa
não desdenhes a peça que só palpita
esse cárdico entrave à rebeldia
a bandida não cresce não mexe 
não acredita
faz que fazes descaso mas só arrelia
essa espera cansada e dobrada
e sem magia
segue mas é para fora
a artéria devora
outro copo conforme o que o desdiga
é uma fantasia
é uma ganda tanga
é uma farsa rica
é uma sinfonia
leva na manga o truque
escreve a terra na peça
e faz o batuque
estás na reta da meta
mas segues com pressa
para quê ciúme?
crê na saúde!
a saudade ao lado só prejudica
não importa se é pobre conforme
ou faz de rica
aos anéis arrojados de duque
digo abdica
é fácil o espaço que não complica
segue-me pela guia
confia nessa dica
mastiga o sono cortado 
é só estrica
faz-te baço na sina que ela afina
quando temes a mina e não dobras o aço
no fugaz rumo dessa bambina
há trinta e tal só numa esquina
a armadilha estica
mais um benzo na bucha
mais um maço na chucha
pois eu não devia
roçando os dedos nas botas
intuindo com notas
mas é a cinta rija
e uma voz vadia
que relembra a prece que fazes
quando é de dia
controla o incauto intuito
e beba uma bica
na mirada esguia
segue um caso fortuito
ela puxa o colar e adivinha
mais uma sina perfídia
sem opções
ignora os botões
eles apressam e querem
mais um camões
pois bem que se fodam
eles andam em pares
tu em multidões
e tens mil perdões
e em nenhum te pões
a estima do baco
é um saco raso e indulgente
de gente que nem é crente
penando com o corpo e a mente
vai tu de frente 
para dez duma vez
assim bem entende
quem quebra na noite
não empresta nem vende.

tuk-tuk tuk tuk-tuk tuk
é a boleia duma fera
que acorda cedo
tuk-tuk tuk tuk-tuk tuk
ela pode ser princesa
mas és da megera
tuk-tuk tuk tuk-tuk tuuuuk
é só uma vela acesa
que não degenera.

carcaça

a ronha fica pronta
atrás de qualquer monte
empilhado na calçada
duas sagres, uma média
a outra mini
as entranhas da poltrona
a mesinha de café
com as pernas para baixo
mas os olhos no chão
umas caixas de cartão
e outras caixas de cartão
coloridas, são a manta
que abriga
do frio e dos cacos
mais os restos de comida 
podre
um banquete para pombos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

por este rio abaixo

quais são os passos 
as flautas
que olham para a lua sabendo
o preço e a certeza
das palavras que dobram
o que dizem na neblina?

põe-te à escuta
ponderando
o que há, qual o senso
que saberia responder
a mantras verdadeiros 
e sigilosos segredos
que não sei
nem os ecos reproduzem.

rápidos
drenam o verso
aquele que não sonhas
junta-te, dizem eles
e o vento engole
nos cantos dum resguardo
salvando o ego e carpideiras
que ficarão desocupadas
tanto quanto temas
os desfechos da floresta.

dizem pelas folhas
olha uma lady 
ela redime
essa fumaça que dissipa
quando compra
mais um tento ao canoeiro.

o rio segue
o rio segue
as raízes dançam 
enquanto oscila uma faísca.

quais são os passos
que muda o vento
e desvendam as etapas
de um insolente
mundo mutante?

há um tudo
bem a leste
a oeste o vislumbre
das vozes que ficam
nas gotas da fonte
ou o apogeu
duma sensação que seja
quando o bosque completa
o paraíso esquecido.

não sabes, o pífaro
soa na cacimba
dum mato engolindo
voraz, implacável
tudo aquilo que a noite pisa.

HÁ UM CAMINHO NO MONTE
TRILHA SOZINHO NA TERRA
AS ESCADAS PARA O CÉU.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

outra noite na verderena

passei a madrugada rebolando no colchão
treinando discursos para uma plateia vazia
na noite passada devo tê-lo feito em sonhos
acordei numa poça suada, ouvidos entupidos
a colcha amontoada no chão, coberto de lençóis
com uma secura na goela que não virou doença
apenas pela injusta resiliência deste corpo castigado.
hoje não fui tão paciente, ou estava menos cansado
assim pela hora do diabo desisti de pretensões
aqueci um leite magro e escancarei as janelas
hora afortunada, tirei o camisão e abracei a brisa
que vazava o fumo desta sala
até que veio a chuva, poucos minutos depois
e por sorte estava em pé e recolhi a roupa.
hora afortunada com certeza.

esta costumava ser a brecha do glutão
caindo em qualquer banal tentação
uns biscoitos, um charuto, bagaços numa taça
sequestros da carne em passinhos leves
a velha cena dos lobos da cidade
vivaços, mascarados de pessoa
com a cruz no peito e a voz dotada
esperando seguidores que não os vejam
enquanto devoram inocentes.
agora emplumam os pêlos, lambem as patas
fazem metas, cumprem planos
colaboram com a presa.

todos querem alguém com quem contar.

com o estendal cá dentro sentei-me novamente
repensei o dia e li um pouco
sobre costumes antigos de carroças enormes
como a casta baixa era engolida pelas rodas
crendo que se tratava duma enorme bênção
coitados
idiotas
não devo praguejar a cultura
mas morrer debaixo da pedra
parece um infeliz fetiche
de quem se queira livrar
da escumalha.

talvez seja hora de sair de casa
a chuva abrandou.

vim cobrindo o medo
com o meu gorro orelhudo
os prédios lançando sombra sobre a sombra
meti-me na estrada
passei pelos cafés, todos fechados
uns pela hora, outros pela morte
quanto mais longe de casa
menos cansado ficava.
passei por uma puta junto à paragem de táxis
parecia ter frio, claro, com a farda que levava
queria trocar umas palavras
mas receei que fosse roubar-lhe tempo
do seu trabalho
e no fundo só queria desembrulhar
a conversa que me pôs aqui para começar.
segui em frente.

no escuro é difícil perceber 
mas havia morcegos, ratos, baratas, carochos, traças,
pombos entre calhas e varandas
solitários à janela, homens dormindo nos túneis
em cartões manchados, a folhagem seca
e eu, policiando a verderena.
sem me aperceber discursava novamente
esperando o retorno com atraso, mil palavras
para te convencer que eu sei o que sabes
vamos fugir
pensava 
só que na pele de verdade eu adoro esta margem
e os malandros com receio de mexer
quando a luz os descobre.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

capacete e ferro pela fila

eu bato bato bato
nesta casca ferrugenta
e ela aguenta aguenta aguenta
como se fosse de aço.

transportava tecidos
fitando o calcário
desafiando a calçada
com os ombros para a frente
e as virtudes tapadas.

os pertences do brio
são deslumbres temidos
dum franzido tépido
indecente no alcance
ruminando as besteiras
da gentil ambição.

tolo
são os membros dispostos
pelo teu corpo são
desenlaça o nó górdio
que o amarra ao chão.

a marcha é leve
pois reservaste que baste
dobra o canal com vigor
seguir-te-ão num só renque
é o imposto da gente,
ela precisa de ti.

bate bate bate
a retaguarda coberta
e é certo certo certo
que nada temas portanto.
coragem capitão
frio é o ferro
que domina o padrão.

amargo malteser

amargo:
leva amar
leva vai
leva má
leva-a.

foi no recreio
cravando à grande
qual saco sem fundo
porco e pobre
trouxeste a oferta
cheia de esforço
tirada de adultos
puxada da brasa
e deste ao colega
duvidando de ti
bateu-te na mão
mandou-o ao chão
ficou para ninguem.

doce de vidro
salvou-te os dentes
a má intenção.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

heróis de barro

os mortos não te vão seguir
sem pena, sem rir ou sair
os largos passos no passeio
vão subir com pressa aos céus
a fita baixa, as mãos nos bolsos
continuarão cerradas, suadas no vazio
tudo quanto queiras vai ficar
o barro não dá sorte nem azar
ele abraça-te os ossos e o pó
é a vaidade que levaste.

erguem-se pedras polidas
marcam o nome dum tesouro
sem chegadas nem partidas
é o labirinto das eras douradas
onde se fundaram heróis em silêncio
e quem perde não ganha
e quem ganha não vence
por muito que pense
em cornetas pairando
nas cercas de rocha fina
adornadas com safiras 
como as lentes duma gárgula
perscrutando o orgulho.

o barulho dos tambores
engole a glória clemente
ficam ossadas em terra
e não te seguem os mortos
quando cai o véu
repousa no brilho grato
que aceita o seu desfecho.

há um reino eterno
pássaros que são o espectro
a vigia da melodia
na casa dos teus antepassados
curva-te
e aprende a sorrir
os mortos não te vão seguir.

domingo, 5 de janeiro de 2025

trigo em solo infértil

eia maluco, quem te vê
nem imagina quem foste
deambulando em lamechices
sobre riozinhos e fiozinhos
e a carinha fofinha das ninas
contra a lua...
pá meu, tens que atinar
alguém quer saber se lavra
a fome e a pele clara
algum grão de decência
nesse pantanoso desígnio
encharcado de desejo?

acorda malandro
cerra a vista desse pranto
e colhe pelo caule
aquilo que bem sabes
a rega maluco
a rega 
as orquídeas murchas
perseveram no inverno
pintadas de negro
cobertas de ouro
brilhantinas duma material
forma de ser.

és excesso
pútrido, agudo
rasgado de querenças
és o veneno das sinuosas
formas do teu anima
o contorno dum sonho 
plantado pela sombra
nas almas doces, sinceras
vampírico e nojento
coberto de vermes
campo do sol sangrando
num amanhecer depois da guerra.

ouves como uiva
o conhaque no cristal
parece digno
fino, de reputada presença
é só o destilar barato
que preenche cartolas
como um grande crânio
dotado de ciência e ocultos
ofícios
prestam em tardes de chuva
quando escurece cedo
mas pouco sabem de poda.

veloz, reza que passe
corre a portada e deixa entrar
a essência árida que pousa
por baixo da moagem.

és o pó
de campos esquecidos
larga-te dessas cantigas
são só superstição.