terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

para uma presa idiota

o éter é o fumo 
e o homem é um animal
irritadiço e inócuo
baaaaaaaaaaaaaa 
fiiiiiiiiiii
eeeeeeeeen
tooooooooooo
aaaaaaaaaa
nnnnnnnn
iiiiiiiiii
mmmmmmaaaaaaaaaaaaaaaaal!

mas que ódio
ele ocupa
invertebrado sustento
suserano desejo
esmigalhando a leveza.

mas que ódio severo
às horas cobardes do tento
o expoente sangrento
congelado no mármore.

custa a moral ao corpo fraco 
corpo fraco
corpo fraco 
és um asno tapado
é uma presa que pede
comer um tiro nos cornos.


aaaaaaaaaaaaaaa
niiiiiiiiiiii
maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal!

eis um bípede!

nada mais animal
que essa ânsia quadrada
em mil cores cintilantes
o teu hino, desgosto
iluso e ilustre
mestre dos povos
servo dos termos.

simétrico
como o tracto
opõe o cu
à boca asquerosa
puxando
fechando
a língua
cujo único céu
é mesmo o seu
bem terreno.

um rastejante
é devorado 
foi golpe certo
em voo rasteiro
duma jovem andorinha
que com o bico
desmanchou-o.
mais um tento
saudável
de proteína
para o fértil
bem terreno.

eis uma alma!
depenada
ruminante
sem cabeça
deambula
nas fissuras
entre ser 
um terrestre animal
com o dom decadente
e o tom doutros mundos
dum celeste bramir
ecoando pelo vale.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

última paragem

afeiçoa-se a paragem
do terminal que a encerra
coragem é aquela
linha
entre saber o seu desfecho
e negar que se aproxima.

tique-tique
taaaaac
é a hora.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

cafeína heroína

fiz-te um café
das capsulas dignas
ficam para as célebres
visitas
quando passam
neste buraco
que velhos e imigrantes
chamam de lar.

ficaram vestígios
degenerados
de droga barata
que chutámos aborrecidos
entre umas barras
de mars
encarnados
piscando cóleras
opressivos, as rédeas
entrelaçadas
como cordas ásperas
espalhadas pelo chão
coberto de cinzas.

dois cigarros
doentes
com medo
do silêncio.
ficámos a preto e branco
num rolo
que não se pode revelar.

talvez a bica
lave as ramelas
do espírito.

hm hm hmmm
fora connosco
não cabemos em sonhos
breves
por isso espalham-se os rasgos
dum flash que suprime
aquilo que memórias míopes
constroem porque precisam
dum acervo
que as complete.

a pedra falha
e uma faísca sustenta
o amargo do café.

somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
e os membros
cortados 
pagam
e os membros 
não dormem.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

sustento em fevereiro

estamos na época
das gaivotas com coragem
já os ratos
constroem a utopia
mas
ambos comem lixo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

o desertor

quebra-se a fé
mirra, é uma flor
no inverno tardo.

o conto-promessa
sem capítulos
de leveza noctívaga. 

cruzando os dedos
ele agita
a doença incorpórea.

a Boa Nova
desce com as ondas
dum satélite metálico
funde-se
à carne flácida, fraca
nas jornas
que o sol não pisa.

purificado
em chama
esférica e branca
petrifica
no seu desígnio.

são rezas e lendas
crenças silvestres
rasteiras na frase.

boémio pastor
espreita da vinha
o cordeiro revolto.

nega três vezes
três vezes por si
uma por cada lente.

Verdade
o vago consolo
tempestuoso silêncio
recurvo
abrindo os braços
mas a vista coberta.

um amigo
trilha na neve
e o fogo
não se extingue
ao sabor do vento.

desejo profano
criança tentada
por baixo da linha.

perece com calma
não percas a vista
rodando no ânimo.

deserto sabido
converso fugindo
do ábdito amor.

suplica em terra
um sussurro castiço
lembranças na esquife
que corre o riacho.

sobe
aceita o que é.

em todas as margens só há uma forma de pedir o perdão.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

os palpites

fiança
distância
zelo em augar
pele brilhante
mestre do lar.

pujança
decência
sinistro fitar
querer relutante
jogos de azar.

domar a criança
domar a demência
purgar o domar
e tomar o semblante
por mestre do mar.

é a dica
é a dica
é a dica 
que fica
é a mostra
é a mostra
que esconde a aposta
na mossa
na mossa
na nossa viola
a vossa braguesa
lesa a presa
beleza beleza.

andança
dormência
faz encostar
o diamante é um veio 
que veio do bar.

aaaaarrrrrr!
arrepia incendeia
o mestre do azar
prolongam cadências
que o querem matar.

abriu-se a taberna

o miguel voltou!
que felicidade!
segue o bairro conforme
o porco átrio do prédio
tresanda a esgoto
e os buracos mal-amanhados
continuam cobertos de terra
fazem uma poeira tremenda
nestes dias nublados.
eu arrisco, ora de ténis
ora de botas
com o caramelo penteado
esvoaçando pelos olhos
os auriculares à mostra
mas a corrente escondida.

tudo por igual.

fecham agora mais cedo
umas duas ou três horas
parece que é este
o preço de quem falta.

almoço, um bagacinho
eles apertam-me a mão
sorrindo
só pelo costume
peço o mesmo de sempre
mando a dieta com a merda
faz-me melhor
que siga tudo igual.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

woody allen ao vivo

a bárbara foi a única mulher com quem vi o woody allen
e o tiago foi o único homem com quem vi o woody allen
é muito apropriado.
independentemente, vi o woody allen
e foi muito apropriado.

para a anita escondida, perdida no salão

eu salvo-te
eu salvo-te eu salvo-te
da bafienta incerteza
do conformado talvez
quando os dias se escondem
em lembranças vazias
nas heranças humildes
da casta que pena.

amiga destila
os sonhos em festas
lembremos os dias
que foram no vácuo
quando um desejo melindra
o suor rasurado
pela sonso demónio
da vida terrena
há cordilheiras nos andes
e anos cinzentos
mas o corajoso sigilo
é fortuito no fim.

anita vacila
dá um salto com espinha
o futuro na linha
só apraz numa valsa.
eu salvo-te a rima
num dom em três tempos
cruzamos o tronco
contando até lá
e volvemos num passo
mais um dois e três
sobes a mira
ajustando a perdida
paixão na neblina.

voltas com a erudita

anda ler um malmequer
bem te quer
mal te quer
ele puxa, puxa
os números certos
são pares.

bruta, quero-te
os braços 
a penugem
é uma gema que sinto
com o queixo
rasando
por um celibatário pulsar.

verso supetão na feira das letras

no excesso postulam com caligrafia delgada
clamando ternuras no pátio da glória
o semblante cuidado, os pilares erectos
escolhem vogais que se acerquem das suas.
uma salsada intragável, perdoem-me o termo
nunca é a outra cena, só há vicissitudes
com formato antevisto e doutrinado na forja
o financista do livro encolhe os seus ombros
e coloram-se as lombas em tons prateados.

o dom e a deia passeiam no largo
às vezes acertam um sincronismo oportuno
por certo querenças enganadas no rumo
um través do desígnio de papoilas em plástico
a dionísia sentença fica estampada na fronte
com calor evapora misturando no bafo
odores da lida que se escapam para fora.

travesso juízo, não esconde a certeza
badala rasgos vedados, ele vê e se acerca
batendo claras das crenças amenas que sorvem
os graus bafientos dum conhaque barato
é o desígnio a sentença, a prudência
do mestre bastardo de linhagem difusa
as medalhas custeando com ferro e safira
tutelando os jovens pelo lago dos cães.

chama-se ódio, dureza, carnação espigada
pelos sentidos expostos, exumando o que sabe
a voz doutro lado, das trombetas do anúncio
de feras sem falhas conforme o dever
das eras douradas, vivas e verdes por vir
a mensagem perdida dos dotes letrados.

o jubileu
um felino descansa
sem tranças nem danças
aparta-se o pecado
e murcham poetas
como senhoras a dias.

arranha

gato ruim
cravaste-me as unhas,
é a raiva indomável
do amor habituado.
entendo, sou igual
dois patifes de barriga cheia
calor a mais
e colhões a menos.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

o porquê da bebida

embebedado
puxando vozes do fundo
só pesam
a quem nega ser quem é
ou a quem abusa do que faz.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

as pantufas novas

comprei pantufas no lidl
altamente descontadas
parecem umas lanchas 
cor do alto-mar.

os meus chinelos 
são antigos, estão gastos
largam um serrabulho
muito estranho
vou eu limpando o chão
e eles sujando pelas costas
espalham cinzas húmidas
pela casa toda
que eu não venço nem por nada.

demorei dois meses
para decidir fazer a troca
vou demorar mais um
para retira-los do saco
é assim
sou apegado ao esfarrapado
muito resisto à mudança.