sexta-feira, 22 de maio de 2026

eu

eu voava rente ao chão com cuidado
para não meter as fuças na cablagem
engavelada nas varandas de vizinhos
que arrendam e se estão a cagar
para os cabos enleados na varanda.
faz de dispensa aberta
ao técnico não custa nem pede licença
quer despachar o serviço
e onde mora é igual.

eu foi andando com o bico rente ao chão
quando pousou
- uma pose natural -
pensava no nome que levava
entre as cordas e as farpas
delineavam uma anca fracturada
vestida de fulgor e traças 
parceiras, exclama:
o meu nome
é
eu!

e eu
sou daqui!

o universo cuspia na sua sombra
e eu, resoluto, afincava o pé
fazendo força nas coxas lá ia
pelo meio dos morcegos
traçando a ceia na sua luz.

eu pisou a lua e as estrelas e tudo que cabia
debaixo do seu barrete.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

enterrando a gabardine

vai que a gente pega pelas alças desgastadas
as vestes cobertas dum óleo que tudo besuntava 
e por onde passava, como uma cera polindo
mais o seu fecho riscando,
ficava inscrito no espaço um decalque
dos seus dedos curtos e gordos
fazendo de trilhos rabiscos:
a dita pegada da mão sinistra.

a palma e a manta porca de suja
vão elevadas no vento
pelas vozes que as trouxeram.

leva leva que já não voltam.

lições do outro lado pt. 1

aprendi a escrever com espaço duplo.  este assim, que demarca
com uma autoconfiança que só podia ser medicada.
faz bem, pá.  pois pois.

terça-feira, 21 de abril de 2026

vulgar e uma mão cheia de copas

supondo que sempre fomos
a forma e a fala e as vazas
contadas em esquemas que não
se vão
serpenteiam antes
consomem e tornam a alma
em pleno e certo, confiante
vitória
conta - são copas.

tudo feito pela copa
encarnada onde descansam
os tempos laboriosos.

um dia será
uma memória amorosa
certa, certa que não foi
nada
cheia de covas
lápides pálidas 
olhas e fitam
quando queres enterrar
o que não sendo
não foi.

um dia lerás a minha mente e com toda a sapiência
que te fez vigário do juízo
restarão lamentos
mais lembranças do oceano
zangado e artista
produtor e mestre d'obras
aiii
não te deixaria nem que o resto implorasse.

há óleo na cara dos meus compadres
e ouro nos dentes dos bruxos
mendigos, larápios
a minha estirpe.

aia aiaiaiaia
talvez falso
seja o que me cabe
o meu trunfo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

quarta-feira, 25 de março de 2026

uma grande homenagem optimista ao rapaz "a" - parte 2

dias frios e vinho mau
dormindo com pequenos
fármacos que me descrevem.

és louco
talvez
é certo
serei.

amocha com essas
memórias e cartas
não são filmes
cujo final
se explica.

és louco
talvez
és louco
com certeza
vemo-nos algures
na próxima
na última
meu amor.

uma grande homenagem optimista ao rapaz "a"

e tentar o que podes
é o melhor que consegues
e tentar, tentar
é bom
que baste.

e podes tentar
tentar
é o que podes
é o que deves
quem ruma num meio
guiado por forças constelares
das nuvens trajectos
uhhhhhhh
tenta o que podes
é suficiente
por agora.

o teu hino
são dinos carburados
onde se escondem
pisadas inexplicáveis
dos que vivem numa fantasia
um mundo.

permanecer

escuta bem, com a que ouve das duas
dos olhos nas rugas por quanto portanto
se vêm, diz que vai 
com quem
pois pois sois ois
~outros
escuta bem, ois ois:

benditos passeios na baixa
indo-se donde se foge
feito que foi
o granito bronzeado pelos raios
da jorna domingueira, faz de pista
entre escadas que rangem 
e um barco que guincha
com as ondas
enquanto espera
pois,
no aguardo pergunta
será - ficção -
que seja, que fará
irá bem?

borracha-pensa.
crente escutando
chouriça, estendem os pulsos
e quê?
só rascunhos sobram
flashback - quando o sol se punha contra a serra e não contra as horas de chegar a casa.

cheiros
a madeira, o mar salgado
charros na avenida que tinha os cafés onde pegava
o espírito que sobrava
mais um lanche
os sotaques da cidade
cheiro a teatro
e eu nem estou aqui
e eu nem estou
aquiii
aaahhhhh
aaaahhhh
isto não aconteceu...

quarta-feira, 11 de março de 2026

de caras com homens

deste de caras com homens
cujas amarras liaram as marcas
no asfalto, dos dentes
do crivo que leva a vontade vilã.

amanhã é a jusante
da crença e da força
da fé.

do planalto
um pombo asqueroso
ouve, anuncia:
o verso, conta connosco.

é moço:
deu de caras com contos
dos que não são monstros
torna que nada temas
reitera, conta connosco
aguarda e vislumbra
quando secam-se as veias
e maltoso por dentro
escapa-se ao poço.

osso, osso, osso
e alma.

domingo, 1 de março de 2026

predação

em guerra permanente contra moscas e mosquitos
mantém-me ocupado, focado
em forma e espírito.

da violência por si
~foi
da permanência pelo que é
~foi
aérea, terrena, dos sonhos à noite,
e desagua uma franca e indomável
pulsão essencial
~foi
originária
repete sem metáforas em entradas
petulantes amarrada às bases
polvilham sol e que sois
as chacinas, sim
glória fecunda duma máquina que brota
encarnada, encarada
dois pilares, dois fins
sinestésicos e duma essência
encarcerada às mesas redondas
tais perduram
~foram

3 3 3 
homem-bomba contra a guerra
das feridas o inocente
age, e assim
~expira.

nada inova no peso pluma
da forma
que esquarteja e alimenta
o seu presente.
fuma
enquanto o fogo
se alastra pelos mares.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

sair da mina, minha cave

por um pulsar primordial
desperto nos sentidos 
iludidos.
(ou libertos?)

a várzea: foi bela
na hora aberta, fértil, dura
e florida.
vim e vi todos os teus ecossistemas.

quando se dobra esse escape
uma ânsia se eleva
em texturas concretas
de pianos macios
e cores e sombras,
os teus passos na relva
a dois palmos da face
a milénios da fonte.

parado numa memória musicada
sentado, ergue-se
e chora:
wet hands.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

5

tudo quanto se pode
a ode
o régio conforme
qui? és
a dor nesses dentes.

em nome da glória superior

ei-los, em terços e tenras
passadas com passo aprontado
um dois três 
um dois três
um dois trêêêes
eh segue a fortuna o cordeiro
~um climax apresentado por sentidos
que procuram querenças, pertenças
dança em três terços
um
dois
três
violinos por ti, vós, a voz
pertence a quem foi
quê?~
um
dois
três
um
dois
três
um
dois
três
um
dois
três
ei-lo, no compasso fagulha
as voltas que deu pelos átrios em pedra que não soube nomear
quando a casta 
i m p 
e r 
i a 
l
desmontada, mercurial,
o que são palavras ou registos de como sente
a alma casta imprudente e casada

SALVA-TE JÁ IRMÃO DUMA PRECE MAL-DIZIDA
DEUS: DA TUA EQUIPA
EU NÃO
EU NÃO
EU NÃO
~EU TANTAS VEZES NÃO
SALVA-TE.

UUUUUUUUUUUH
    
espalhado pelo corredor branco exométrico cheio de quinas
são a pátria que vacilas quando esquivas a pertença
da tua alma fecunda e infantíl
e Deus disse: pertences
mas o silêncio calou essa voz 
persiste
um,
dois e três
e três
quais mentes, serpentes
são as tuas bengalas que pedem 
submissão completa.

quis quem Sabe
Maior
nosso Pai
tabefe
tabefe
sofre
como quem
não merece
é o papel que compete a quem vai
pela beleza do som que transcende
um dois três
os violinos do nosso apogeu
dirão mera material
de sentir o sentimento
mas eu nesta ruína de pessoa e de casa e de tudo que pode ser alguém
direi, com certeza,
É LINDO
É JESUS
CRISTO
QUE ME SALVA
UM SOM LINDO E OBSCENO DA VONTADE BOA
QUE TE QUIS
ELE
e quem sabe
senão Ele?

um dois e três
foram as notas que salvaram a volição malvada
absolvida nas folgas da rija e pertinente
força da abstenção.

mas Deus, se me permitem, se me permite, se eu devo
ama
e alguém quer
que esse amor importe.

nada seria mais óbvio que um descarte numa corda
rudimentar contra todas as premissas que pedem
a pertença que nunca foi
e tanto provaste que o pescoço deve resistir
às mágoas d'além
mas Ele sabe
qu'és um mártir.


notas do matrimónio imaginário

há uma pequena forma
de pessoa, de carne e osso e alma
virou fumaça
resta um espectro carnudo e nojento
que sem ti não faz sentido.

pela intemporal certeza probabilística

cheira a óleo e as teias estão podres
jogadas ao chão pelo vizinho de cima
o tal que canta a cantiga que já se sabes
e por sabes é pois sei, de sentimento
de pertença nos abrigos que sobram
para quem resta em carne e osso
sem fantasma, a dita força
cómica, fantástica, tombada nos pés
de andanças juvenis que cremos 
até que não - até que não sabes
até que não foi mesmo
até que não - até quando esgotam
opções/ambições, sádico
até que não, estica o ão
e ladramos pelo prédio
os animais, o autor
a vizinhança
os pútridos restos de quem não resta
nem leva legado.

sê honesto
dá abertura aos rasgos de pessoa
quando transborda uma pessoa
mas tentas que se afogue 

EI
desejo dum sinistro
um milagre explosivo e destrutivo
daqueles que fecham ciclos
mesozócio, moço, és antropoceno
matéria feita e forma de tudo que toca
és o regime que detestas.

e quem é que reza?
por ti?
pois.

cheira o ar enclausurado da redoma que toma
a semelhança dum semblante, busto cru
restos inférteis de memória que só conta
quando botas a conta na escala da tua corda
... como canta, infinita. como cantas, sem anéis
cantam as tombas: EI
é o teu sonho
ou não?

direi quando calhar.
paz,
nomeada pela hora da reta da meta
compete-me a descrita simbólica e impossível
porque, em honestidade, eu espero que tu
não vejas, não tenhas, não sintas
tudo que possa ser negado mais que três vezes.

o discurso neutro da natureza passa-me pelos dedos quando as vontades expiram e as rezas se ficam e o silêncio da involução declara:
EI~
não é o teu papel.

não é não foi não será não é problema meu
olha
tentem.