terça-feira, 23 de junho de 2026

gendo

parece um átrio de aguardo
que ficou como a única
incandescente maneira de contar
as travessas tabernas feições 
carregadas, em soluços venerados
pisam aquilo que cabe
cab
ao verbo jazziento de quem
vestimos no fim fundando
das contas prescientes do teclado
coberto de ti, mim, o vero poetizo, o homem
virulento entreaberto das notas do saber
rejeitado - e rejeitado fica quando mente
um dois terno... abrilhanta
quem se calça
duma luz
inaudita
traços despeitando quem foi
ou devia ser...

a face da tua face
essa face banhada
pele tua e tudo mais
que não
tu não
sideral e planando algures por um homem
esperando pelo amor certo, circassiano 
dobrado de arrependimentos
olha, dobra a fronha da leveza levando
alguma coisa que podia ser um homem
bom
só que
não.

repousam ossos entre boças odiosas
enfrentando quem foi ama
de tal forma ama que diriam
é o teu ver a nossa essência
cobertos de razão
trouxeram as notas da nossa
forma franca em negação.

que sonho
o pecado fez-se pleno e guardamos a vontade em narrativa barata, vendendo aquilo que queres - o amor da tua carne - sendo assim pouco mais que uma memória que estimas, encantas
adoras 
como se fosses um legado dessa imagem.



segunda-feira, 22 de junho de 2026

zomba modesta

hoje o punpun gracejou com o amigo
pelo telefone na labuta
conhecida de várias décadas 
e assim se lembra: 
é na alma que cabe o consolo
mais o amor que é,
não se faz,
apenas resulta da inevitável
força originária,
o autor.

todas as ideias repulsivas que escondia debaixo do chapéu são agora estrelas radiantes num detalhado e gracioso céu cinzento
prova assim que o rumo não casa com o seu desfecho
escarnecendo do funesto busto que apaga tantas vezes
as luzes das suas luas.


sexta-feira, 19 de junho de 2026

a maior injustiça do universo

avaria tão dura
essa cara fechada
com os olhos pesados
postos de avesso à gran e maquiavélica
oposição à vaidade.
desconta os mortos na estrada
os entes deserdados
o varão perdido pelo único dos dignos
e os dentes que eu fui buscar
debaixo do armário
atrás da cama
cobertos de pó e encarnado
como a ideologia que vestes
nas peitaças da casaca
ou o abandono
ou a miséria
as dormidas na rua
o medo que corre nos olhos
duma mãe quando as mentiras
viram inquisitório e ela tem que decidir
entre a cadeia
ou o presente que fez
ou a mioleira espalhada na calçada
dum velho suicida
que dá a aula de como somos todos
por dentro
quando a fé baza
e o calcário chega em queda livre.
tirando isso e a fome
mais a guerra que faz de brinco
nas redes da tua renda
há injustiça mais feia
que esta cara fechada
com os olhos pesados
postos de avesso à gran e maquiavélica
oposição à vaidade?

quarta-feira, 10 de junho de 2026

o sangue na parede

tá ali a marca das balas
que fecharam a porta ou
dito por quem desdisse
ou Deus disse
por quem opõe
o deslize, a forma que trouxe
filhos a casa, formas à lousa
de trezentos anos tresandando
entre os sinos das escolas
e um abalo que pára
a espera na gola de vinte
fulanos 
guardando um corpo.

corpóreo, alem
talvez
tal foi o mal que uma face
fez-se peneira com furos em cabedal.

vem a conversa que a fez
mais essa gente que a conserva
pois passa o trânsito enquanto enlaça
pelos dedos de óleo negro
os pedaços de alcatrão
mais um naco quiçá
duma alma, duma essência
que pode ter ficado num buraco por tapar
e as verbas do novo centro de saúde que se estreia impaciente
sem doentes.

corta-se a fita onde a fera trouxe ao Pai mais um vislumbre da sua informe e voraz sede de quem fomos.

e o sorriso de quem o toma por milénio e meio
dissipa na sua órbita inconsciente
o furo e o sangue
não de balas mas de homens que eu não sei.

que carro se atreve senão um qualquer
com as rodas nas valas
haja coragem: aceno
enquanto as penas dum corpo
a penantes edifica que a tragédia
é pouco mais que a sua memória:
fica dita numa língua que nem existe.

há a tinta de ferro e furos de cimento
mais a vida domingueira que sucede
ao pó que resta quando
pelas chávenas mais os dias
se enterram por virtude
da pura e necessária pulsão de assim ser.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

mote do bom homem

são frases que relembram quem foste
ó dito homem sem nome
sincero em passo e dupla nota
findo o brilho constelar
da tua bota janota
passando, passando, passando
pela luz alta da copa de cenas
registadas em púdica sentença
pois são fonte de alergia
a tua alegria
espirros passando
passando, passando
soando e assoando
diferentões sois
e o mole supetão:
feição incorrigível.

toca um embalo melancólico
em nome do teu nome
esse tal dom eu sideral
plana
por cima do brilho dum rio sujo
pela gosma negra engolindo
enquanto as horas passam
pois nada se decide
depois das duas da manhã.

supura na tosse das más andanças
o lago donde brota.

joga joga
mete tudo cá pra fora
é a forma natural
o lodo da cidade.

aspirando ao heroísmo em voz e feitos triunfais
punhal na cinta, certeza na franja
treme com a mão em riste
nunca será
nunca serão.

o dia passou como se nada fosse.

eu

eu voava rente ao chão com cuidado
para não meter as fuças na cablagem
engavelada nas varandas de vizinhos
que arrendam e se estão a cagar
para os cabos enleados na varanda.
faz de dispensa aberta
ao técnico não custa nem pede licença
quer despachar o serviço
e onde mora é igual.

eu foi andando com o bico rente ao chão
quando pousou
- uma pose natural -
pensava no nome que levava
entre as cordas e as farpas
delineavam uma anca fracturada
vestida de fulgor e traças 
parceiras, exclama:
o meu nome
é
eu!

e eu
sou daqui!

o universo cuspia na sua sombra
e eu, resoluto, afincava o pé
fazendo força nas coxas lá ia
pelo meio dos morcegos
traçando a ceia na sua luz.

eu pisou a lua e as estrelas e tudo que cabia
debaixo do seu barrete.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

enterrando a gabardine

vai que a gente pega pelas alças desgastadas
as vestes cobertas dum óleo que tudo besuntava 
e por onde passava, como uma cera polindo
mais o seu fecho riscando,
ficava inscrito no espaço um decalque
dos seus dedos curtos e gordos
fazendo de trilhos rabiscos:
a dita pegada da mão sinistra.

a palma e a manta porca de suja
vão elevadas no vento
pelas vozes que as trouxeram.

leva leva que já não voltam.

lições do outro lado pt. 1

aprendi a escrever com espaço duplo.  este assim, que demarca
com uma autoconfiança que só podia ser medicada.
faz bem, pá.  pois pois.

terça-feira, 21 de abril de 2026

vulgar e uma mão cheia de copas

supondo que sempre fomos
a forma e a fala e as vazas
contadas em esquemas que não
se vão
serpenteiam antes
consomem e tornam a alma
em pleno e certo, confiante
vitória
conta - são copas.

tudo feito pela copa
encarnada onde descansam
os tempos laboriosos.

um dia será
uma memória amorosa
certa, certa que não foi
nada
cheia de covas
lápides pálidas 
olhas e fitam
quando queres enterrar
o que não sendo
não foi.

um dia lerás a minha mente e com toda a sapiência
que te fez vigário do juízo
restarão lamentos
mais lembranças do oceano
zangado e artista
produtor e mestre d'obras
aiii
não te deixaria nem que o resto implorasse.

há óleo na cara dos meus compadres
e ouro nos dentes dos bruxos
mendigos, larápios
a minha estirpe.

aia aiaiaiaia
talvez falso
seja o que me cabe
o meu trunfo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

quarta-feira, 25 de março de 2026

uma grande homenagem optimista ao rapaz "a" - parte 2

dias frios e vinho mau
dormindo com pequenos
fármacos que me descrevem.

és louco
talvez
é certo
serei.

amocha com essas
memórias e cartas
não são filmes
cujo final
se explica.

és louco
talvez
és louco
com certeza
vemo-nos algures
na próxima
na última
meu amor.

uma grande homenagem optimista ao rapaz "a"

e tentar o que podes
é o melhor que consegues
e tentar, tentar
é bom
que baste.

e podes tentar
tentar
é o que podes
é o que deves
quem ruma num meio
guiado por forças constelares
das nuvens trajectos
uhhhhhhh
tenta o que podes
é suficiente
por agora.

o teu hino
são dinos carburados
onde se escondem
pisadas inexplicáveis
dos que vivem numa fantasia
um mundo.

permanecer

escuta bem, com a que ouve das duas
dos olhos nas rugas por quanto portanto
se vêm, diz que vai 
com quem
pois pois sois ois
~outros
escuta bem, ois ois:

benditos passeios na baixa
indo-se donde se foge
feito que foi
o granito bronzeado pelos raios
da jorna domingueira, faz de pista
entre escadas que rangem 
e um barco que guincha
com as ondas
enquanto espera
pois,
no aguardo pergunta
será - ficção -
que seja, que fará
irá bem?

borracha-pensa.
crente escutando
chouriça, estendem os pulsos
e quê?
só rascunhos sobram
flashback - quando o sol se punha contra a serra e não contra as horas de chegar a casa.

cheiros
a madeira, o mar salgado
charros na avenida que tinha os cafés onde pegava
o espírito que sobrava
mais um lanche
os sotaques da cidade
cheiro a teatro
e eu nem estou aqui
e eu nem estou
aquiii
aaahhhhh
aaaahhhh
isto não aconteceu...

quarta-feira, 11 de março de 2026

de caras com homens

deste de caras com homens
cujas amarras liaram as marcas
no asfalto, dos dentes
do crivo que leva a vontade vilã.

amanhã é a jusante
da crença e da força
da fé.

do planalto
um pombo asqueroso
ouve, anuncia:
o verso, conta connosco.

é moço:
deu de caras com contos
dos que não são monstros
torna que nada temas
reitera, conta connosco
aguarda e vislumbra
quando secam-se as veias
e maltoso por dentro
escapa-se ao poço.

osso, osso, osso
e alma.

domingo, 1 de março de 2026

predação

em guerra permanente contra moscas e mosquitos
mantém-me ocupado, focado
em forma e espírito.

da violência por si
~foi
da permanência pelo que é
~foi
aérea, terrena, dos sonhos à noite,
e desagua uma franca e indomável
pulsão essencial
~foi
originária
repete sem metáforas em entradas
petulantes amarrada às bases
polvilham sol e que sois
as chacinas, sim
glória fecunda duma máquina que brota
encarnada, encarada
dois pilares, dois fins
sinestésicos e duma essência
encarcerada às mesas redondas
tais perduram
~foram

3 3 3 
homem-bomba contra a guerra
das feridas o inocente
age, e assim
~expira.

nada inova no peso pluma
da forma
que esquarteja e alimenta
o seu presente.
fuma
enquanto o fogo
se alastra pelos mares.