terça-feira, 26 de agosto de 2025

fica escrito um ano novo

mesmo que eu fique por aqui
mesmo que não reste uma memória
da pessoa que por sua sombra
me dê um qualquer tipo de nome
fique nobre, ralé, cego, enfermo, sem termo,
e o meu caro se perca 
ou se encontre, feliz e com um vigor
daqueles que nunca vi quando 
as ruas eram as nossas donzelas fortunas
quando havia um homem e um assobio
umas palavras doces que dão força
fé
alguma vontade que diga
amor verdadeiro
paisagem doce e dourada
quando tudo voar com o fumo
duma ampulheta grave e baça
mesmo assim
lembrar-me-ei duma escolha justa
quando demos as mãos
em silêncio, pelo menos
tanto quanto posso:
tu no veneno, prestes a explodir,
e algures numa rua que dava
para a igreja
ouvimos a chuva, o filho dos olhos
azuis.
sabíamos sim, um dia a chuva
cairá
pois somos tudo,
persiste-se assim
sendo nada.

dizias coisas
como mérito e justiça
que tontice
disse eu
a música tomou o lugar
das palavras baratas
o ano seguiu mais um passo
não houve um festejo
nem panelas, nem fogos
ouvimos a voz
de lobisomens e cães
o poeta 
a guitarra
um carro velho enguiçado
e a chuva
lá fora
cá dentro, num rosto pálido,
dois.

fizemos uma corrida
dormiste, brincaste
e mesmo que o mundo
me coma por dentro
por fora
ou por quem me tomas
nunca isso 
volta atrás.

nunca se perde um segundo
tá tudo bem
não pensemos mais nisso.

conto rapace

uma carcaça tende
a centrar muitas atenções...
é tão rica, já ali
pronta e sem esforço
uma bênção, bem,
talvez não para o coitado
que a carregou em vida.

seres menores, rastejantes
roedores, aspirantes,
as crias de um grande tirano
os cangaceiros nos seus bandos
uma presa faminta e sem escolha
comendo por igual
o sol quente e o chão seco.
as moscas cortam o silêncio astuto
de uma fauna cautelosa.

havendo corpo, há ciclo.
pergunto:
que amparo tem um ciclo
com as línguas nas veias
mais os dentes nos ossos 
e as larvas nas costas 
e as garras de fora? 
os olhos descrevem
o horizonte rolando, vai-se enchendo de pó
faz um energético lanche.

há o controlo em equipa
e a força da besta
de quando em quando só o grito 
supera o peso dos números
ou o tamanho dos músculos
ou o influir da cultura.

barulho
sedimentos
adrenalina
a energia constante
é uma atração para todos.

pergunto:
há camaradagem aqui?
não. 

famílias, colegas:
o amoral imperativo
do bem-estar e bem-fazer.

a carne desperta mas não traz piedade
a vontade comanda mas não traz piedade
a competitividade esgota a piedade
numa savana - que inútil
aqui e agora...
também não traz piedade.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

castigo

hoje fiquei de castigo
dormi no sofá,
não abri a porta,
zelando sempre pelo meu
bem estar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

lembranças e abraços

gasto um serão nesta neblina
que me faz esquecer alguma coisa
claro, não me lembro.

fugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugistefugiste

mudança de estação com uma década (2015-2025)

o barulho penitente do rádio popular
chicoteia com a batida o típico
transeunte do espaço público/social,
só.

custa o arrasto em forma
com pano sonoro meio festa
meio produto,
só.

mas sempre pode a prole nossa
ver o cinza e o castanho,
a atmosfera,
quando a rosa se maquilha
e pondera
de que paletes frias ou mornas
se alaranja o outono que chega.

o domínio cinético prova
a prevalência visual face ao resto.

um controlo expressivo
reafirma a norma e eu
por assim ser
consumo na contracorrente o perigo
das cores sazonais.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

para um querer indomável, castrando os letrados

desejam-se vivas, esbeltas
à mão de cultivar
uma salva de palmas
sem ambição masculina.

eu quero-te
como desejo que o civismo
se foda.
espreita no teu nome:
morte às regras da estrada.

é bárbaro esse passo forasteiro
acerca-se
corre os dedos no cabelo suado.

o bicho, um homem
a face animal
virtudes da fala
jogando à terra o seu sal.

mal-mal-maldita
os seus ciclos enfermos
cessam
quando admites
(tão crasso):
pequeno pecado, forçado
arrastando à gruta
chama o seu nome
e escuta a virtude.

domingo, 17 de agosto de 2025

coincidência

há uma esplanada de esquina
faz de bom esconderijo
com um duplo às secas, a dita
baça e acostumada, já da casa.
agora é raro que aqui venha sozinho
não sei bem, talvez não queira
perder cara, tão tapada
pois bem, vim na mesma, sem razão
na mesma na mesma
sem razão
dirão, diria, digamos
- pois pois -
deixem-me explicar o espaço
são quase nove da noite
que no verão quer dizer pouco
bem sei
é de dia, um traço cinzento, 
uma abébia das nuvens.
o calor tem sido insuportável
mas hoje não
então rodei
rodei
rodei
e pus-me aqui.
à volta há um gradeamento
que dá para umas escadas que descem 
o café à esquerda
e mesmo de frente um restaurante
all you can eat, sushi, mui meu amigo
dos que já sabem o meu pedido meu amigo
assentem na rua os empregados
os estafetas
meus amigos
sem abacate e um sake quente
meus amigos.
todas as suas janelas corridas numa só parede
dão mesmo para esta praceta
e quando se come observam-se
velhos nas mesas brancas
raramente eu 
quando calha, com amigos
hoje não.
tudo que existe descrito
eles comendo os temakis
eu na água baça de balão
nada invulgar até aqui.
quis o destino fazer uma partida
muito amigável
lamento a sentimentalidade
mas a roda joga e o resultado
sendo em essência um absurdo cómico
parece - é - d'inspiração superior
que o Pai existe e como deve:
rege a tragédia 
rege a comédia
um balanço perfeito 
só Ele o domina.
das cinco janelas estavam eles no meio
que cinemático, centrado:
um homem que me odeia
uma mulher que me deseja
ou desejava, desejou, aparentou
e que eu estimo, até onde se pode
quando se trata da imprudência 
dum libido com o tanque cheio.
senti uma franja e uma brisa
não fiz caso
é a moda, são os tempos
e paguei o bagaço duplo 
desmascarado e julgando
refletia
era a nita
essa mesmo,  a bendita, a esquiva
e esquecida
nita
mais o seu adamante e infiel pretendente
com a brisa e uma fita
ambos perceberam mais ou menos ao mesmo tempo
ele jogou-se de lado
ela permaneceu mas franziu, remexeu em silêncio.
eis uma nota dissonante:
eu!
ri-me em qwerty e pensei
"vieram vós ao meu abrigo
que culpa tenho de morar
neste bairro?"

tentarei descreve-los
entre olhares de lado
às escondidas.
vocês sabem, esta madame
evita-me
como a doença mortal
como a peste
como a hora de ponta no pragal
e ele odeia-me
portanto espreitar é um desafio
mui mui perigoso
estamos de frente afinal...
consegui!
ela está de azul e tem a franja rasgada
por um tufo fino cruzando-lhe os olhos
é um penteado muito digno
apraz, nostálgico pois claro
o que não parte daquilo que já foi?

foram ver um rapper
foram uma cena banal
por um preço surreal
dot fode-os
dirá diria
direi
diriam:
não são 
como nós
como noés 
espera, perdi-me
há ali outra pessoa?
parece não parece?
foda-se o verso
agora tenho que perceber
se está ali alguém
eles não são como nós
né chat - digo, leitores?
o homem é tão pequeno que não percebo
se são mesmo eles
cheira a charros
atrás de mim estão dois brothers
mais um mano
a fumar na berma pendurado nas grades
clareza, levantaram-se
ele é mais alto que ela
isso não é coerente dado que já estive ombro a ombro
com ambos e ele é minúsculo
portanto...
foi tudo uma ilusão
um balão vazio.
eles pagaram, saíram
perscrutaram o pátio
viraram costas e seguiram pela rua do hospital.
eu fui buscar outro copo
fiquei sem bateria.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

alimentação saudável é a chave

eu tenho uma cenoura
laranja e branca
tipo palha ou um incenso
vai com frango assado
na air-fryer
reduzida em vinho tinto
louro, umas moedas
muita pimenta
o truque da sopa instantânea
que me ensinou a necromante
um café, bebe dois
haha - é um meme
a água turva, o ouro
alquimista com os seus
frascos diversos
feijão e couscous
pilhas de sal, caldo 
mais um reluzente fio de azeite.

toca o bardo só para um
jantar na companhia
de moldavos, ucranianos
russos, magrebinos, turcos
e outros primos, nem sei.

eu tinha uma cenoura
foi-se com o fumo
agora sobram migalhas
raspadas do fundo da caixa
devia fisgar cada uma
em linhas de pesca
pendurá-las às orelhas
assim seguia com vontade
para qualquer lado.

bom proveito luan!

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

in memoriam: pip

digam lá que sou previsível, banal
"fala sempre do mesmo, o otário"
pois pois pois pois
quando o dia resolve jogar uns raios
pelas brechas da persiana
quantos são os pensamentos variados
esses, persistem e seguem, ignoras os ruins
pois pois pois
são três ou quatro
pois
e tu só um.

é a falta que faz um descendente
o grito jurássico
a beleza intemporal.

o teu passarinho azul provavelmente está
morto
ou a caminho
e dá para medir qual estava mais doente
afinal
eu e o meu
tu e o teu
cá estão
lendo versos tortos do vício
da água baça,
aquela
nunca lhe coube.
foi-se em graça
iremos de arrasto.

todas as vistas neste blog são esperança que sejas tu
eu nem sei
quem és mesmo?

quarta-feira, 30 de julho de 2025

tara marada, cara tapada, rara e tábua rasa - eis uma crina que se pode puxar

estarei errado?
pelas cores que batem nas janelas
mais as tocas de onde saem
os bichos da seda que te fizeram
esse vestido cortado?
serei culpado
pela mecânica ascendência?
foi ela que nos fez
sabes?
é só como eu me sinto
uma mão que toca no peito
errado - errado - errado
e dança à volta como se
fossem carícias a um cavalo
com os pêlos ao vento 
só sonhos mendigos
franja tingida
lamento
ficam os versos primeiros
à ms. gruesome fin dois
burro - burro - burro
vais comer coices nos cornos
é mais que sabido.

terça-feira, 29 de julho de 2025

quando passam as luzes

super-memória, cantada pelos corredores
dias de calor pertencem aos suores
de gentes envoltas numa nuvem roxa
dedos em bico, coxas à mostra
libertos em fugazes lembranças, consta
que uns quantos conheceram o chão
outros não
forte, penante, pedinte, a elite
difusa em pós coloridos, o senão
da vértebra colada às raízes 
fazendo lenda de uma sola pegajosa
e corajosa, queria muito que fosse solta.

conta, como não? tomando o globo por coroa
são donos da noite, todas, os seus serventes
num vai-e-vem bendito, a quem compete
só aos próprios, com vidros nos dedos
e vontade nos dentes
trespassam correntes, vão à lua
quem poderia crer que assim se formam
heróis revolucionários?

um homem improvável, de alças e pele
branca
tudo negro na alma, nas pernas
garrafas de carne que sobem com o som do gelo
batendo nos cantos redondos que encarceram
a vontade feminina, sentida com um pulsar
ritmado no quatro por quatro latino, 
e a pele se abana 
a vista embaça
tudo primando um primal e certeiro
segundo perfeito, bem sabido
dormido se fica
mas aqui emerge com a grandeza digna
da essência que as torna em bestas e anjos.

ligaram, esqueceram
mentiram à família
que mentiu por sua vez
perfídia e fecunda mocidade dum canto 
qualquer.

sem tento as luzes fraquejam
com olhos rasgados.

ama-se a verdade
é a forma perfeita
dos agarrados da vida em compassos latinos.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

shanty town

é difícil explicar porque caralhos me vim meter num sítio como este
passando por ruelas que tresandam a incenso misturado com erva barata e fritos
copos por todo o lado
os bueiros entupidos de beatas e mais plástico
turistas e transeuntes em tops coloridos, camisas floridas
ziguezagueando pelo caminho com os seus mapas em inglês
caras pálidas, homogéneas, boinas estampadas mais de mil
escondi-me nas escadas da sede de um partido de direita
apanhar ar e sossego
procurei amizades mas não encontrei
só o compromisso, forçado, a inequívoca e condicionada verdade
e dizia a música que era a única vontade livre que me banhava os sentidos
o amor verdadeiro há-de te encontrar
no fim
só precisas tentar
acendi um cigarro
fumei-o com algum desdém, confesso
foi assim que decidi que precisava de mais um copo.
meti-me na esplanada de um bar brasileiro
pedi um misto quente, qual insider
qual pária duma pátria
em busca da sua origem
mais a bebida, claro
mais outro maço, claro,
mais uma água, a prudência dum homem gasto.

sentado ao lado duma acompanhante de artista
que tocou há minutos no palco onde me procurava esconder
ela traz um chapéu tricorne
o que parece um presságio infeliz para o baixista
ego cegando-lhe o que dizem os pés
por baixo da mesa
foi buscar uma merda qualquer
quando voltou tinha mais amigos
e tentou-me tirar a cadeira enquanto eu estava distraído
escrevendo estas considerações 
não dei de barato
fitei-o, impávido 
e ele pediu com licença
e eu disse claro que sim.

agora espero pelos meus amigos
tomam banhos com as suas esposas
e a shanty town vai passando
à direita homens em tronco nu jogam diablo fazendo turnos
à esquerda uma coleção de chapéus e vozes grossas
tentando ser alguma coisa que também eu quis.

para um convívio corrente

guardei um charuto para fumar com eles
mas foram-se como tudo que vai
agarrados à crença e a um senso rafeiro
de pertença atada às formas correntes.

é um fraquejo, um grito, um desejo perverso
que te dobrem a língua coroando-te as crenças
pois errado te esperam, errado os aguardas
é um desígnio fortuito e por nada certeiro
mono um mono teu nono
vê que gama e espreita
as vertebradas ilustres pertenças
em estrelas
os ares de onde por tudo te vergas.

é fraca a memória
uma lição tão clara
t'olvidas com estima
a estima o pecado,
é do brio d'onde parte
essa farsa perversa: a pertença num rasgo
de amizade barata 
forjada ao acaso
diz antes coitado
sem mérito ou rumo
com negrume nas ventas
embolsam uma fumaça
e engolem de volta
as suas ditas avenças.

sábado, 19 de julho de 2025

diário do barreiro III

meti o carro tão longe
não há lugar nas altas horas
nem quando a semana torna
nem quando ela expira.
é fodido o turno da noite.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

hoje sonhei

hoje sonhei que íamos todos para o inferno. o bafo ameno, as rochas ásperas engolindo o brilho dos corpos anónimos, o tempo que neles foi, o dito engenho, a diferença. no fundo, aquilo por quem te tomas. era paradoxalmente frio, banal, umas escadas pitorescas onde todos se sentavam quando o cansaço decidia que era hora de puxar o seu assento. a paragem de pessoa, o diabo em carne e sono. descansa, rumando por certo o silêncio das pedras. em cada degrau estavam estampadas as memórias que não foram, as vontades por saciar, placebo de amor e verdade.
uma recordação fixada num chão intemporal. e pisavam os recém-chegados ao purgatório as imagens que em vida pareciam o fundamento para vulgos heróis. a tua semblante, a minha, nós na sola suja que leva as almas ao castigo.

hoje sonhei com o futuro que fiz.

e dançavam dignos os conformados connosco
e que desgosto estar mal-acompanhado.

samba!
para-para
papapa-para!

a flauta, o desejo, um vórtice de pulsante ambição e pecado 
a confusão sendo o teu lar
baralhados, perdidos, animais de instinto extinto
marchando 
sem termo e sem destino.

rogavam tantos.
parem, eu não mereço
eu não quero
e a música tocava
samba!
para-para
papapa-para!

ei-lo, o teu presente
o inferno que fizeste foi uma obra colectiva 
dizem:
por mal!
a quem cabe o destino
é a ti, a ti e a ti!
filho da puta! 
come agora o largo dos cães e vê pelos rasgos na gruta as formas de servir ao Pai
todas as tuas miseráveis desculpas
escorrendo pelos ares
o movimento do xisto encerra a última brecha por onde se via uma nuvem.