sexta-feira, 23 de agosto de 2024

braços e ancas e pulsos e a juventude eterna

rodando pratos numa vara
a pequenez posta à prova
com ódio macio, barbudo
com ódio latente, sistémico
estratégia ou equilíbrio,
preservação e sapiência
cruel
cruel
ambos por igual.
assumes tu.

a maldade filha do castigo
o silêncio da vivência
sois tão mais que nós
na vossa força que tresanda?
é a força que abranda
os tentos dessa tenda
que é larga e convexa
gemidos de salvação
tratando tratados da nação
perdida e procurando socorro.

palavras
cruzadas
eu
tu
em par
em suspeita
guerra aberta
um contra o outro
um contra o outro
e a vida aqui.

prisão perpétua

trancado no roxo eterno
servo de nações, filho do alto duma torre
o mirante, capitão 
chão feito de ar e um vapor
a que chamam nuvens
delicadas na vista, fumo da narina
entupida, estagnada
a resposta, lenço imbuído 
em jasmim e lavanda
invisível. 
queimei a laringe
e prossigo, na mesma sala,
as cortinas tentação, encarnado
vivo e brilhante, dobras cinéticas
que preenchem o contorno lilás
desta prisão. mil anos
mil anos e mais outros
perdidos de vista sem conta
que redima o silêncio de redomas
tão certas, concretas
como a corrente que me joga contra o chão
estocado com mil anos
mil anos e mais outros,
a pele cedendo de podre
a entropia consome a matéria
e a memória fumega
pelos cantos da sala, levantando pilares
como teias em seda fina, cinzenta
cor do futuro que espreito
pela fechadura.

trancado no roxo eterno
servo de nações
o juízo, a Porta Aberta
salivando da vontade
preso pela perna em aço frio e raso,
ora afrouxas a trinca
ora espreitas lá fora.
limpando a testa, descanso na cama
pondero ambos, resoluto
mais que o ferro que me amarra.
hmm, não. queria eu.
ora afrouxas a trinca
ora espreitas lá fora
é uma escolha
o destino no desfecho
abrindo as cortinas como um teatro
do mundo inteiro, em cena
nesta prisão de mil anos
e mil anos e mais outros.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

em nome do teu nome

malabares jogados ao alto
termos numa premissa
sem vaza nem Missa.

equilíbrio, fruto no ar
sendo um no instante
da vontade da terra e do mar.

o largo de um santo
tornado graúdo num salto
manto mundano e descoberto no encanto.

suor, o prato feito,
tu sabes e eu sou sonso.

vómer, tão perfeito
tirei uma faca do bolso
para te comer as bochechas.

ginástica

um ginásio cortado em terços
dois de lá, um de cá
bravando caminho, poucos
uma dinâmica burocrática e moderna.
pálido buraco-negro largo e alto
rindo e cantando de galo
a vizinhança bárbara e de costumes 
incompatíveis com esse lado da cortina
tolos correndo pouco, fumando 
com uma boca no ócio e outra no nada.

eramos três: eu, miguel, samuel
um político impostor no meio da nossa trupe
pouco homem entre tanta senhora
todos garotos e não homens
com desculpa, era a fase
da impertinência e do controlo
e do descontrolo dum líbido
tão macho tão feio
absolto ou não pela idade.

entre farpas e agoiros pressupostos
inteligência da qual percebia pouco
quando poemas eram miragens 
ou veículos da mensagem, banal e adolescente
tu desmontando com intuição precisa
este lado rouco e doente
entre atletas e bons exemplos
imaculada vivência da disciplina
o coxo demente dando na vista
com bico laranja, colorado em tormentos
dum lar que não querias
e eu trouxe
com década de atraso
ou de avanço.

a primeira pista
de que não entendo nada.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

o desabrochar duma flor no castelo, luzes emanam para a periferia

sotaque do norte na capa
talvez do centro, não sei
mal te conheci, mas estamos juntos
estimado conhecido de passagem.
produto da nostalgia posto no mapa
lado a lado contigo na luta de um rei
e contra outros, tempos defuntos
dos antepassados da nossa coragem.
peno contigo na tua solidão
seguiste na via e tornaste em contramão.

iluminado caminho, nem me segues
e eu a ti, mas o olfato aguçado predador
sentiu o sangue na água. falácia
que não falamos de presa que sofre
máximo um par de tabefes
consentidos na dor do pudor
agora flor rebelde, trácia
braço pousado no cofre
um chauffeur e o seu neto
membros de ovelha e cara de beto.

irmão, amigo
castelo de cartas vivido e ruído
fugindo do crime e castigo
sapato encarnado com estilo vendido
a quem mais ora bolas
assino o teu nome, dona cartolas

domingo, 18 de agosto de 2024

pedra papel tesoura

penduricalhos de capim guiné
nas orelhas do meu pai, prenho
de uma ideia apelativa e tradicional
que só prova que o amigo e o inimigo
são a circunstância, pura e natural.
a espada solitária enfiada no varvito
que eu conheci contigo, virgília,
os sedimentos em ouro na vista
de duas crianças.
foi a tua fé distinta, também
um pequizeiro abandonado, aqui
chamariam de fado, aí
a congregação fez o seu rumo.
com engenho e talvez um saber maior
eis que brota capim américa,
eis que se come pequi da europa
eis o fruto da nossa enxada
de quando pousamos a espada.

sem adornos, sem tangentes
espaço vazio na mente com que mentes
mas também na que cruza nos quatro caminhos
o ponto centrípeto
a semente
a raiz.
tantas coisas foram sítios
e agora são coisas, como mostro
na escrita. o monstro solto
sem casa nem presa,
indomável sem defesa.
no que sou daqui
senão no sangue e no espírito?
e tu, filho do capim guiné
no que és daí, senão no sangue e no espírito?

no varvito, vestígios
sedimentos de espécie invertebrada
um vislumbre doutra vida
aí, à vista de ser parte de ti.

quão atrás deveria ir,
pai, virgília, ancestrais
de honra e glória,
camponeses eternos da história
sendo todo por todo o lado
de todos e igual a todos
TONTO
pautado pela voz do tempo
um varve isolado
numa estória composta
folha caída por cima
sem noção dos limites
da sua dimensão.
como a vida, como os céus
um rio, um lago, a água
nunca distinta, una
e no seu papel.
diferenciação que ocorre noutro plano
Plano
tu ocupado a desenhar o mesmo tronco, o mesmo parque
como se pela passagem perdesse substância.
tudo, todos
uma foto, estática
toda a vida, um lago
seco, os ecos do que serás
não se escutam
nem se escondem
jogados numa espada
parada à tanto quanto
as camadas que a cobrem na lâmina.






a nova torre e a cidade // a nova torre é a cidade

na terra da lamúria janelas infinitas
dobram-se entre dedos sujos de ramela
a permanência vertical, o fulgente no horizonte
atrás da capa negra ou lançado no chão
como mantas num dia de verão.
instinto desperto pelo treino e desejo
discípulo do querer, da vontade fácil
ruminando memória alheia
flectindo o pai-de-todos com destreza
conduzindo à capital soberba babada.

terra prometida, um midrash moderno
escrito em línguas crípticas com precisão reversa
texto torto, não inteligível, fazendo o brilho vir
do baço e do claro o escuro.
um colosso dissimulado, vejo de uma janela
reconhecendo o que pensa atrás da sua pequena loucura
um harém improvisado, negação da sua classe
e na janela ao lado, reflexo da própria estrutura
veem-se os contornos da torre e da cidade
desejo bom e desejo mau, causas do par e do lar.

serpenteando pelas escadas à volta
donzelas incumbem ao seu pastor 
o espírito e um abrigo raro do vazio
que chove desde a tomada do esotérico.
o entendimento, secundário pois qual discurso
se apresenta tão persuasivo como o fruto
do dito mau, tintinabulando com um guizo 
no corpo, que reluz de forma atraente e em mil línguas.
à minha esquerda uma torre, à minha direita mais uma
odeiam-se de morte, mas portam-se igual.

crítico do crítico do crítico, pousei a mensagem
e lembrei-me do final.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

incolor
afigura-se como perda de detalhe
pertinente para a nossa sobrevivência 
em tempos reais, mais até
alguns arma do inimigo
noutros a salva da presa
cones martelados pelo tempo e pela vida
a sobreviver, ou então
a cumprir a sua missão.

discordo
a pigmentação mente
quando reside na memória
nem passa duma ilusão
uma construção da razão
e iria mais longe
é incolor a verdade
quando despida no grande éter
pois tudo existe num gradiente 
minucioso e preciso
entre a luz e o abismo.

incolor é o pensamento
que tu pintas com a arte
ou a magia da criação.
incolor é a verdade.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

o teu nome aqui, com a falta de coragem que define o porquê de enterrar uma memória

optaste por guardar os ossos do teu ofício
na pele que te cobre os membros finos
dedicando o corpo à causa 
que encontramos juntos em casa
alheia, e eu reprovei com ar tacanho,
hostil, agressivo e possessivo.
uma fratura sobreposta ao tecido já sensível
da tua integre consciência na altura adolescente.
crescendo, aprendendo o cinismo escondido
debaixo das articuladas acções exageradas
e das palavras preparadas para teu prazer,
tempos de mudança, um mau artesão
e um bom exemplo de como a sombra se apresenta
nas cortinas que guardavam os teus olhos absinto.

recuando para tempos mais simples
em que o lar era um quadradinho trancado
no domínio do inimigo, passivo
doutro lado a vista tranquila do descanso eterno 
com um grande pinheiro peneirando a luz do sol
lançando os seus raios afiados
que reluziam pelo teu corpo cru e puro 
como borboletas douradas encantadas.
silhueta grega, prudente atenas
ártemis enquadrada na janela tombada,
de cigarro no canto da boca,
guardei-te num quarto em benfica 
e rezei que bem ficasses
pelo menos muitos anos depois.

não devem ter passado mais do que seis meses
chegamos cansados e frustrados, regados
de álcool barato e o que quer que a rua atirasse
contra as nossas carcaças degradadas
a sala negra aguardando-me fiel servente
e ateei fogo à tua candura, um explorador dotado
de tecnologias incompreensíveis para uma nativa
do amor e da verdade, pessoa decente
contra uma gralha que ralha e malha com os dentes
pingando sangue que sugou do espírito 
com matreirice cruel, moldada em forja de espada
usada em ataques contra a crença e a mente
rito de passagem que carrego de trás
e impregno aos alheios com talento
tão tão mal utilizado.
conseguiste estancar uma parte com a decepção
que se ouvia saindo do teu suspiro,
começaste a chorar, as lágrimas correndo faziam
manchas negras de maquilhagem, como estradas numa
noite perigosa, cílio ligado ao zigoma
pela aflição que provoquei.
mesmo em calma, minutos depois
a evidência do pecado tatuada no teu rosto
e tu encostada à parede, das cenas mais belas que já vi.
tirei uma fotografia e guardei-a até hoje,
serve de memória antes que se varra 
com o absinto cor dos teus olhos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

comarcão fechado
na consciência
faz caso de pouco
faz caos de tudo.

russo e sangrento do nariz
pode ser um acidente ou quiçá
mero produto da consequência.

comarcas da atitude
delimitam as fronteiras
do que podes e do que deves
e podes tudo
mas deves tudo
e achando que obrigas a nada
fizeste uma fita fútil
perdendo tudo pelo rumo.

tudo ou nada
a linha sempre iscada
cana chumbada
pega nesse isqueiro
mete o isco em chama
queimamos todos
e nada melhor que isso
para outro par como tu.

acendi um charuto na boca do vulcão
serei prudente ou serei brasão
para os meus entes chegados e amigos
doutro lado
vendo vista amarela
um olhar cruzado 
extinto
dando azo à vontade
justificando a crença
alimentando o irreal
da tua consciência criativa.

PESSOA

hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha

*cackle**cackle**cackle*
~
pu ku ku ku 

*cackle**cackle**cackle**cackle*

hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah

se aquilo que te apraz, aquilo que gostas
tanto quanto te sacia a vontade da razão
é a realidade pura e pura, dura e crua
então o que esperas? flores e rosas?
danças e cantigas?
tudo como dantes?
seu BURRO
seu BURRO
seu URSO

sim, veste-te de prudente e de crescido
fazendo contas graúdo
semblante que transpira
alguma coisa contra a luz
de frente, 
seu BURRO
aguardente
bagaço
grappa
cachaça
água da vontade que adormeces
no lidar de seres capaz,
um rapaz.

o Senhor guardou-te de tantas dores
sem dizer nada, como um bom vizinho
e mesmo assim foste à revelia
achando que controlas mais que o destino
URSO
BURRO
PESSOA
IDIOTA!

vinho
conhaque
e cachaça

a cruz leve no peito
um farol do consciente
só Ele
da tua equipa
mas BURRO
como és e serás sempre
afogas a voz que te guarda
a única de verdade
na merda em que chafurdas
o que faz sentido,
equivales a um porco sem raça
seu URSO.

hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha

um paraíso barato, montado
para que te rendas
um episódio 3 de 8
certo, nem sequer aguentarias
até ao final do enredo
principalmente se não tomares prudência
na única luz que te guia.
um BURRO
incapaz
seguindo cenouras em forma
de palavras, seios e fortunas.

*cackle**cackle*

preso, destruindo o domicílio
a especialidade do ANIMAL
que és e serás pra sempre.
só não cortas
porque não podes
o que faz de persistir
mais medo do que coragem.

hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha

ÉS INCOMPETENTE!

jogos olímpicos

a competitividade do momento
acende antes da razão
como uma tocha em movimento
correndo toda uma nação.

um elefante tem respeito
pássaros sentem solidão
castores dormem em leito feito
macaco sabe ser ladrão.

se pelo plano inteiro vivem
e fazemos todos meio igual
no que difere o homem 
do teu clássico animal?
é uma ideia que não passa,
é a busca pela Graça
ou a estafa duma caça.
o supor. o louvor. 
o suor.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

o pombo

vi as 3 mainás, outra vez.
uma mirando a paisagem de cima
pequeno posto de vigia
invisível aos nossos olhos
ignorantes
que confundem ex-amigos
com outros mais raros, os ariscos
que não se deixaram enganar.

os outros dois atacavam com cautela
o pequeno jardim que circundava
o cafézinho onde eu estava. 
iam elas saltitando ágeis, vocal gentil, 
notas agudas pela brisa
e o chefinho do alto
a passar as coordenadas.

emborquei metade do meu copo
e saquei-lhes uma fotografia
mas na típica brutalidade primata
que me ata a este corpo
afugentei sem surpresas o trio
e na imagem só verde, lixo e sujo.

tomei o resto da bebida desapontado.

no fim, rodeado só de conterrâneos, 
pronto e prestes a voltar para a redoma de fumo,
surge o pombo, o ex-amigo,
e pousa junto à minha mesa, quase como se soubesse
que em mim guardo toda a culpa da nossa espécie.
olhou-me com o meu olho, o único,
como se soubesse.
reparei que as mainás fitavam do topo do prédio ao lado
atentas, talvez curiosas,
talvez perdoando com a Verdade entre as penas,
como se soubessem.
o pombo, junto às minhas pernas,
coxeando levemente
enquanto ciscava as brechas no granito
percebeu que o contemplava
e olhou-me novamente nos olhos
com uma ternura tão injusta
que me partiu o coração
e eu comecei a chorar 
atrás dos óculos escuros.

depois eu vim pra casa
meio entorpecido
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

suplemento ou metadona

77 zin, 1 snu 
sin, sim, metido como a mentira
entre a língua e a gengiva, omisso
uma lomba no bigode que pica
como um tumor aparente 
se a vista for peregrina
ou de rapina.

é sempre difícil saber quando
pois assimilas na alma as cicatrizes
que criaste para esse aspecto duro
de impressionar meretrizes com orgulho,
win, é preciso às vezes
mas mais na alma que nos dentes.
divago, entre campos, como sempre.

adornos que pesam no corpo
engolidos à força com esforço,
adorno que pesa no espírito
trocando a Graça por graça
fritando lentamente a massa
cinzenta 
como uma folha em branco reciclada.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

uuuuh! na chuva, em língua estranha

uhhhhhhhh!
cego por teu vislumbre
encantando, quem és?
o teu nome?
vestido liso, leve, que promessa
que sois. entregue aos andares
do teu passo que nem sei
culpo o nei, coitado,
e sonho contigo.
hmm.
passos de dança, líquido
esquecer é substância.

tudo o mesmo,
luta contra um verso,
tudo o mesmo
com o medo que escrevo
mas distante nada temo.
sabe lá, sabes lá.

quão raro, não?
saber ao que se vai,
o que se quer, ao que se arrisca
um plano claro e amplo como o céu
posto nos teus olhos.
quadrados mais reais o que vi
em planos térreos e certos
táteis como o chão e o pão e um não
escondido no silêncio e algures aqui.

esculpi-te numa foto
trato artesão, de autor
só tu linha reta
entre agora e o querer
e entre saber e querer.
certo, como nunca
e incerto, como sempre.