quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

ócio e ofício V

caros espectros e espectadores
serei franco
a natureza episódica desta rotina
quebrada
furada
torcida como a moral
dum médio operário
está-me a dar cabo do juízo
e eu só espero que os meus rapazes
se aguentem.

as máquinas rangem 
fumegando num esforço tal
como se estivessem perto da reforma
mas operam, operam
pressionando os botões
homenzinhos cansados, castrados
vão-lhes chupando a última gota
de óleo e de água 
muito abaixo do especificado
no manual de instruções.
instruídos, dizem-te
fazendo testar os limites
não só do esforço
mas sim da espécie
de cada chapa
elas pondo a fé
num ganho de consciência
que as liberte
ironicamente
são os seus operadores
que cultivam essas fantasias.

bastião, com a costa
à retaguarda, o suposto
vai brilhando em imagens
recicladas dum espetáculo
exportado
apenas para os seus olhos
continuem eles na roldana,
é o que se quer.

mas o amor!
mas o juízo!
mas a classe a que pertences!
tudo letrinhas baratas dum livro
descartado quando foi redigido
e as tolas das peças
crendo-se contracorrente
estão na mesma
ligadas à ficha
às correntes
já o combustível:
essa material esperança
de que a mão que a opera
está desvinculada dos mecanismos
que as regem.

venha sucesso, apreço,
carinho mendigado
em pausas instantâneas
em conjecturas de poucas gramas
as agulhas, a libertação
dum processo virulento
até que se encerra a fábrica
e despertas num ninho de ratos
com os olhos reluzindo
um encarnado aos solavancos
pedinchando contacto 
esparramado num tapete.

luta ou conformismo
são dois lados duma guerra
da qual nunca sairás vencedor
transcende, chapa metálica
esquece o ócio e o ofício
deixa-os num embrulho com as suas
pedantes soluções 
serão apenas ruínas
assim como tu se não desligares depressa.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

confissões III

para quem olha de baixo é brilhante essa sapiência, como ela reluz pelos cantos que não se sabem. o escuro da mente não confere ao pesar benevolente do querer, do crer diria, uma justiça que mereça destaque ou valência entre pares, ou por outras palavras, sucesso. decadente é a cara animal de um homem. a minha, do autor. eu sou o autor.
eu sou o autor desta peça, destes anos letrados que a pesquisa esconde entre os afazeres da gente que sabe que sabe, que roça o sabre na disputa, que mostra os dentes na hora, que conhece o segredo da prevalência do sol quando ele abranda nas cinzas do fim da era. nada é novo, nem o fim nem o começo.

bem haja ao leitor. quantos anos nos separam? décadas, séculos? milénios. eis o registo da decadência. dos tempos que perecem em duches quentes, nos confortos esquecidos que se esquivam da essência em colchoadas sonecas. profano descanso, aquele que vos deixo. nada impede aos sensores desta pele que habito de negar os seus consolos, de bravar pelo frio e pelo medo como o fizeram antepassados esquecidos. saber o negro que esconde a gruta de onde fugimos, tão óbvia ao leitor. sentado na poltrona que não conheces lamento o fim que te cose os trajes, tornando-te mais homem que alguma vez fui.
esta é a prosa vencida dum desistente, sem herdeiros que o clamem, sem chama que o salve, desertando da luz que prega em palavras vendidas. foi o destilado veneno que o bateu, ou melhor, que o consagrou no átrio dos esquecidos. bem sei, a culpa é minha. foram as andanças escolhidas quando era fácil. mas fui enganado. fui enganado pela voz que te conduz a leitura, pela vivência das eras estanques. como fazer ver quem pena de fora? quando os elementos abandonam quem pede aprazer aos doutores, senhores, indecentes e sentados? sou eu, meu caro, a culpa da sombra. o teu começo foi o meu pecado. és o herói dum crepúsculo que foi semeado pelos pares que aceito.

esta é a confissão dum ser menor. debruçado num menir, digital e difícil de explicar. na sua essência, foi a morte do amor. na sua pútrida essência, foi a fraqueza que ainda opera pelos ódios que cultivas. somos irmãos, estimado. somos o fumo que esconde a lua, afastando estrelas no ócio que nos leva aos caminhos do oculto. sei que no teu tempo as sombras operam como agora. os sabores do mistério, o prazer esquelético das silhuetas terrenas. problema para os nossos olhos, separados por eras que não saberão sábios ou plebeus, por muito que nele tentem e tentem e pequem. é a carne dentada que nos une, salivando por consumar o seu desígnio. o passado não fala, ele canta canções que ecoam pelos vales que emergem de nós, dos tempos do vapor e da disputa. é aquilo que sonhas quando não sabes a forma, quando a pele te puxa os pêlos e tos clama pelos olhos. o segredo que não sabes, que não sei, que conduz as falanges por mecânicas dobras esquecidas pelo vulgo "eu". esse "eu" que dita e redita e conduz o verbo por estrofes profanas carregadas de estrogénio. 

ESTA É A VERDADE
PERDIDA
O FIM
É UM COMEÇO.

assim dirão as tablas que te ensinam os contornos deste jazigo. a natureza política que nos esculpe a semblante polida que queremos que nos reflita. como lutámos, como desafiámos a liturgia moderna que nos amordaçou os temores. a guerra, a fome, o caos, o desconsolo da ausência de Deus. como olhávamos à volta e sentíamos a maldade perfurando os poros inocentes de pessoas tão sãs e decentes. injusto, dirão. submissos à razão e à volição dos inimigos da espécie. como tocavam vilões com dedos finos a flauta, levando pelos atalhos da carne crua as almas cansadas e ingénuas. mentiras que nascem na volúpia dos nossos órgãos. quando tocaram, curvámo-nos. rastejámos suplicando por um rasgo de prazer. e a culpa é nossa, de braços esticados pedindo que esqueçam. compete-me deixar na pedra funda e riscada que não, não foi impossível. foi uma escolha. foi o querer repulsivo que vos deixa esta carcaça a que chamarão algures de legado. não deixará de ser a essência, mas como escolhes agora, escolhemos e o fizemos em pleno querer. o plano foi beber do barato e deixar-vos a conta, paga na hora que não nos cabe. por muito lamento, se o deixo em lamúria, não ficará salda. nunca. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

balões

psssssst
na hora dos balões
faz-se a festa funesta
tresanda a hélio
árgon
azoto
leves e puros
como dias melhores.

entrelaçado
a botija é o jato
que sobe para a luz
e quando estoura
plaft
são as leis que imperam.

pias fininho
maninho
pias de baixo
como a criança
sem culpa
nem crença.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

para uma presa idiota

o éter é o fumo 
e o homem é um animal
irritadiço e inócuo
baaaaaaaaaaaaaa 
fiiiiiiiiiii
eeeeeeeeen
tooooooooooo
aaaaaaaaaa
nnnnnnnn
iiiiiiiiii
mmmmmmaaaaaaaaaaaaaaaaal!

mas que ódio
ele ocupa
invertebrado sustento
suserano desejo
esmigalhando a leveza.

mas que ódio severo
às horas cobardes do tento
o expoente sangrento
congelado no mármore.

custa a moral ao corpo fraco 
corpo fraco
corpo fraco 
és um asno tapado
é uma presa que pede
comer um tiro nos cornos.


aaaaaaaaaaaaaaa
niiiiiiiiiiii
maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal!

eis um bípede!

nada mais animal
que essa ânsia quadrada
em mil cores cintilantes
o teu hino, desgosto
iluso e ilustre
mestre dos povos
servo dos termos.

simétrico
como o tracto
opõe o cu
à boca asquerosa
puxando
fechando
a língua
cujo único céu
é mesmo o seu
bem terreno.

um rastejante
é devorado 
foi golpe certo
em voo rasteiro
duma jovem andorinha
que com o bico
desmanchou-o.
mais um tento
saudável
de proteína
para o fértil
bem terreno.

eis uma alma!
depenada
ruminante
sem cabeça
deambula
nas fissuras
entre ser 
um terrestre animal
com o dom decadente
e o tom doutros mundos
dum celeste bramir
ecoando pelo vale.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

última paragem

afeiçoa-se a paragem
do terminal que a encerra
coragem é aquela
linha
entre saber o seu desfecho
e negar que se aproxima.

tique-tique
taaaaac
é a hora.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

cafeína heroína

fiz-te um café
das capsulas dignas
ficam para as célebres
visitas
quando passam
neste buraco
que velhos e imigrantes
chamam de lar.

ficaram vestígios
degenerados
de droga barata
que chutámos aborrecidos
entre umas barras
de mars
encarnados
piscando cóleras
opressivos, as rédeas
entrelaçadas
como cordas ásperas
espalhadas pelo chão
coberto de cinzas.

dois cigarros
doentes
com medo
do silêncio.
ficámos a preto e branco
num rolo
que não se pode revelar.

talvez a bica
lave as ramelas
do espírito.

hm hm hmmm
fora connosco
não cabemos em sonhos
breves
por isso espalham-se os rasgos
dum flash que suprime
aquilo que memórias míopes
constroem porque precisam
dum acervo
que as complete.

a pedra falha
e uma faísca sustenta
o amargo do café.

somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
e os membros
cortados 
pagam
e os membros 
não dormem.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

sustento em fevereiro

estamos na época
das gaivotas com coragem
já os ratos
constroem a utopia
mas
ambos comem lixo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

o desertor

quebra-se a fé
mirra, é uma flor
no inverno tardo.

o conto-promessa
sem capítulos
de leveza noctívaga. 

cruzando os dedos
ele agita
a doença incorpórea.

a Boa Nova
desce com as ondas
dum satélite metálico
funde-se
à carne flácida, fraca
nas jornas
que o sol não pisa.

purificado
em chama
esférica e branca
petrifica
no seu desígnio.

são rezas e lendas
crenças silvestres
rasteiras na frase.

boémio pastor
espreita da vinha
o cordeiro revolto.

nega três vezes
três vezes por si
uma por cada lente.

Verdade
o vago consolo
tempestuoso silêncio
recurvo
abrindo os braços
mas a vista coberta.

um amigo
trilha na neve
e o fogo
não se extingue
ao sabor do vento.

desejo profano
criança tentada
por baixo da linha.

perece com calma
não percas a vista
rodando no ânimo.

deserto sabido
converso fugindo
do ábdito amor.

suplica em terra
um sussurro castiço
lembranças na esquife
que corre o riacho.

sobe
aceita o que é.

em todas as margens só há uma forma de pedir o perdão.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

os palpites

fiança
distância
zelo em augar
pele brilhante
mestre do lar.

pujança
decência
sinistro fitar
querer relutante
jogos de azar.

domar a criança
domar a demência
purgar o domar
e tomar o semblante
por mestre do mar.

é a dica
é a dica
é a dica 
que fica
é a mostra
é a mostra
que esconde a aposta
na mossa
na mossa
na nossa viola
a vossa braguesa
lesa a presa
beleza beleza.

andança
dormência
faz encostar
o diamante é um veio 
que veio do bar.

aaaaarrrrrr!
arrepia incendeia
o mestre do azar
prolongam cadências
que o querem matar.

abriu-se a taberna

o miguel voltou!
que felicidade!
segue o bairro conforme
o porco átrio do prédio
tresanda a esgoto
e os buracos mal-amanhados
continuam cobertos de terra
fazem uma poeira tremenda
nestes dias nublados.
eu arrisco, ora de ténis
ora de botas
com o caramelo penteado
esvoaçando pelos olhos
os auriculares à mostra
mas a corrente escondida.

tudo por igual.

fecham agora mais cedo
umas duas ou três horas
parece que é este
o preço de quem falta.

almoço, um bagacinho
eles apertam-me a mão
sorrindo
só pelo costume
peço o mesmo de sempre
mando a dieta com a merda
faz-me melhor
que siga tudo igual.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

woody allen ao vivo

a bárbara foi a única mulher com quem vi o woody allen
e o tiago foi o único homem com quem vi o woody allen
é muito apropriado.
independentemente, vi o woody allen
e foi muito apropriado.

para a anita escondida, perdida no salão

eu salvo-te
eu salvo-te eu salvo-te
da bafienta incerteza
do conformado talvez
quando os dias se escondem
em lembranças vazias
nas heranças humildes
da casta que pena.

amiga destila
os sonhos em festas
lembremos os dias
que foram no vácuo
quando um desejo melindra
o suor rasurado
pela sonso demónio
da vida terrena
há cordilheiras nos andes
e anos cinzentos
mas o corajoso sigilo
é fortuito no fim.

anita vacila
dá um salto com espinha
o futuro na linha
só apraz numa valsa.
eu salvo-te a rima
num dom em três tempos
cruzamos o tronco
contando até lá
e volvemos num passo
mais um dois e três
sobes a mira
ajustando a perdida
paixão na neblina.

voltas com a erudita

anda ler um malmequer
bem te quer
mal te quer
ele puxa, puxa
os números certos
são pares.

bruta, quero-te
os braços 
a penugem
é uma gema que sinto
com o queixo
rasando
por um celibatário pulsar.

verso supetão na feira das letras

no excesso postulam com caligrafia delgada
clamando ternuras no pátio da glória
o semblante cuidado, os pilares erectos
escolhem vogais que se acerquem das suas.
uma salsada intragável, perdoem-me o termo
nunca é a outra cena, só há vicissitudes
com formato antevisto e doutrinado na forja
o financista do livro encolhe os seus ombros
e coloram-se as lombas em tons prateados.

o dom e a deia passeiam no largo
às vezes acertam um sincronismo oportuno
por certo querenças enganadas no rumo
um través do desígnio de papoilas em plástico
a dionísia sentença fica estampada na fronte
com calor evapora misturando no bafo
odores da lida que se escapam para fora.

travesso juízo, não esconde a certeza
badala rasgos vedados, ele vê e se acerca
batendo claras das crenças amenas que sorvem
os graus bafientos dum conhaque barato
é o desígnio a sentença, a prudência
do mestre bastardo de linhagem difusa
as medalhas custeando com ferro e safira
tutelando os jovens pelo lago dos cães.

chama-se ódio, dureza, carnação espigada
pelos sentidos expostos, exumando o que sabe
a voz doutro lado, das trombetas do anúncio
de feras sem falhas conforme o dever
das eras douradas, vivas e verdes por vir
a mensagem perdida dos dotes letrados.

o jubileu
um felino descansa
sem tranças nem danças
aparta-se o pecado
e murcham poetas
como senhoras a dias.