segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

fortune cookie

um dia homens honestos com emoções genuínas irão descobrir este canto obscuro habitado por gentes sedentas e atearão fogo às perversões de poetas que se esforçam em degenerar a amorosa resiliência de princesas que merecem melhor

e eu mereço que este consuma a toca a que alguns chamam de lar.

noitibó ou bacurau

é zelo barato que espera
quando confidências desabrocham
em sofás de ganga rija
vertendo o pó dos desmazelados
silêncios
que guardam semblantes pacatos
as pessoas honestas
voltam de camioneta.

não me escapas
às confissões
prudentes considerações
largadas ao desbarato
no exercício da amizade
eles precisam, só querem
que seja deles a vontade
e é, em parte
um fraterno
um camarada
que ouve a lua 
iluminando-lhe a silhueta
calada
são sentenças
do destino 
das pisadas tomadas
antes da voz de cima
vigorosa e presente.

não sou da classe
nem bom aluno
anotações perdidas
sem claustro que as feche
sem ponto que as dome
sem força que as tome.

olha o teu nome
está escrito no banco
e no vidro
vemos ondas 
quebram sem norte
ou rubrica.

dou-te
tudo 
é tarde
diz o que queres
o mar é um limite
fácil 
são oferendas que letras
cobrem com riscos
nunca arriscando.

banco cheio de gente

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
se conhecesses os gritos que
quem te observa guarda
é... os teus membros esparramados no banco
do jardim a fantasiar com fáceis fachadas
animadas de quem somos.

e tu
e tu
estás à frente.
e tu
partes-me o coração
com batidas distintas
escondidas pela neblina
da madrugada que o mês
obriga
a ser assim.

eu nunca me apaixonei
excepto daquela vez
que odiarias saber
porque foram tantos tantos anos
toda a minha energia
foi consumada numa existência
para além da tua
mas dirias o mesmo
não?
concordo
logo, sejamos decentes
prudentes
inconsequentes
e cedamos ao que o destino
pede
quando se nega
a vontade dele
pelo conforto barato
que cobres em andanças
instantâneas
passos sabidos
que partilhámos
as batidas
na caixa
por uma noite que seja.

sou teu
teu teu
quão mais óbvio
pode ser
ahhhhhhhhrrebita!!!
entende
que te amo
duma maneira que dificilmente
senti
sem ser por uma vez.

nunca poderei dizer
nem cantar ou declamar
ou recitar
estes versos
porque dizem o teu nome
aquele inconspícuo suspiro
sim
cobarde
é
mas
podia ser uma só voz
a tua
ou a nossa.

na censura guardo
com medo
do futuro
irei, num passo ágil
de esguelha
descobrir a trafulhice
quando em mil paixões
és a única
que eu conheço
em espírito.

deixar-te seguir
é a minha prova

eu amo-te
como a mais ninguem.
matem-me agora
que admito
lamento
madame gruesome fin.

lixem-se os contornos baratos
de mulheres mascaradas de negros
olhos com sede nos mesmos
eles pedem socorro.
só te quero a ti.

lixe-se a nostalgia
que guardo pela malvada
vontade de tornar a ser
humilde e criança
comendo
duma falange hostil.

partilhamos batidas
corações
síncronos
sabem ao que sabe
e tu sabes
e eu sei
porque tu sabes
o teu nome rasurado

sábado, 22 de fevereiro de 2025

produto de saber deixar

tornei-te missão
rezei com fé genuína
fui onde homens de negócios
se sentam em burocráticas secretárias
para zelar pelo futuro que mereces
com dinheiro e os talentos
que os céus ofereceram
para que possa intervir
na consciência dos meus pares
e o teu nome foi sabido
por entes menores
e por presas do bang-bang
acendemos charutos em nome duma
causa
que os passos sigam 
mesmo que tortos
toda a energia
para ti.

e funcionou
e foi bom.

agora resta o silêncio
de intervir
permanecendo no trono
dos que decidem
mas nunca agem.

cobarde é o nome
do monarca
alimentando-se, esbanjando-se
em cortes menores que pouco
cobrem a pele
das silvas que traz 
para a sala de espelhos.

inveja?
mais que isso:
consciência.
saberei como jó
reclamando mais
como o mau discípulo
que sou.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

ócio e ofício V

caros espectros e espectadores
serei franco
a natureza episódica desta rotina
quebrada
furada
torcida como a moral
dum médio operário
está-me a dar cabo do juízo
e eu só espero que os meus rapazes
se aguentem.

as máquinas rangem 
fumegando num esforço tal
como se estivessem perto da reforma
mas operam, operam
pressionando os botões
homenzinhos cansados, castrados
vão-lhes chupando a última gota
de óleo e de água 
muito abaixo do especificado
no manual de instruções.
instruídos, dizem-te
fazendo testar os limites
não só do esforço
mas sim da espécie
de cada chapa
elas pondo a fé
num ganho de consciência
que as liberte
ironicamente
são os seus operadores
que cultivam essas fantasias.

bastião, com a costa
à retaguarda, o suposto
vai brilhando em imagens
recicladas dum espetáculo
exportado
apenas para os seus olhos
continuem eles na roldana,
é o que se quer.

mas o amor!
mas o juízo!
mas a classe a que pertences!
tudo letrinhas baratas dum livro
descartado quando foi redigido
e as tolas das peças
crendo-se contracorrente
estão na mesma
ligadas à ficha
às correntes
já o combustível:
essa material esperança
de que a mão que a opera
está desvinculada dos mecanismos
que as regem.

venha sucesso, apreço,
carinho mendigado
em pausas instantâneas
em conjecturas de poucas gramas
as agulhas, a libertação
dum processo virulento
até que se encerra a fábrica
e despertas num ninho de ratos
com os olhos reluzindo
um encarnado aos solavancos
pedinchando contacto 
esparramado num tapete.

luta ou conformismo
são dois lados duma guerra
da qual nunca sairás vencedor
transcende, chapa metálica
esquece o ócio e o ofício
deixa-os num embrulho com as suas
pedantes soluções 
serão apenas ruínas
assim como tu se não desligares depressa.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

confissões III

para quem olha de baixo é brilhante essa sapiência, como ela reluz pelos cantos que não se sabem. o escuro da mente não confere ao pesar benevolente do querer, do crer diria, uma justiça que mereça destaque ou valência entre pares, ou por outras palavras, sucesso. decadente é a cara animal de um homem. a minha, do autor. eu sou o autor.
eu sou o autor desta peça, destes anos letrados que a pesquisa esconde entre os afazeres da gente que sabe que sabe, que roça o sabre na disputa, que mostra os dentes na hora, que conhece o segredo da prevalência do sol quando ele abranda nas cinzas do fim da era. nada é novo, nem o fim nem o começo.

bem haja ao leitor. quantos anos nos separam? décadas, séculos? milénios. eis o registo da decadência. dos tempos que perecem em duches quentes, nos confortos esquecidos que se esquivam da essência em colchoadas sonecas. profano descanso, aquele que vos deixo. nada impede aos sensores desta pele que habito de negar os seus consolos, de bravar pelo frio e pelo medo como o fizeram antepassados esquecidos. saber o negro que esconde a gruta de onde fugimos, tão óbvia ao leitor. sentado na poltrona que não conheces lamento o fim que te cose os trajes, tornando-te mais homem que alguma vez fui.
esta é a prosa vencida dum desistente, sem herdeiros que o clamem, sem chama que o salve, desertando da luz que prega em palavras vendidas. foi o destilado veneno que o bateu, ou melhor, que o consagrou no átrio dos esquecidos. bem sei, a culpa é minha. foram as andanças escolhidas quando era fácil. mas fui enganado. fui enganado pela voz que te conduz a leitura, pela vivência das eras estanques. como fazer ver quem pena de fora? quando os elementos abandonam quem pede aprazer aos doutores, senhores, indecentes e sentados? sou eu, meu caro, a culpa da sombra. o teu começo foi o meu pecado. és o herói dum crepúsculo que foi semeado pelos pares que aceito.

esta é a confissão dum ser menor. debruçado num menir, digital e difícil de explicar. na sua essência, foi a morte do amor. na sua pútrida essência, foi a fraqueza que ainda opera pelos ódios que cultivas. somos irmãos, estimado. somos o fumo que esconde a lua, afastando estrelas no ócio que nos leva aos caminhos do oculto. sei que no teu tempo as sombras operam como agora. os sabores do mistério, o prazer esquelético das silhuetas terrenas. problema para os nossos olhos, separados por eras que não saberão sábios ou plebeus, por muito que nele tentem e tentem e pequem. é a carne dentada que nos une, salivando por consumar o seu desígnio. o passado não fala, ele canta canções que ecoam pelos vales que emergem de nós, dos tempos do vapor e da disputa. é aquilo que sonhas quando não sabes a forma, quando a pele te puxa os pêlos e tos clama pelos olhos. o segredo que não sabes, que não sei, que conduz as falanges por mecânicas dobras esquecidas pelo vulgo "eu". esse "eu" que dita e redita e conduz o verbo por estrofes profanas carregadas de estrogénio. 

ESTA É A VERDADE
PERDIDA
O FIM
É UM COMEÇO.

assim dirão as tablas que te ensinam os contornos deste jazigo. a natureza política que nos esculpe a semblante polida que queremos que nos reflita. como lutámos, como desafiámos a liturgia moderna que nos amordaçou os temores. a guerra, a fome, o caos, o desconsolo da ausência de Deus. como olhávamos à volta e sentíamos a maldade perfurando os poros inocentes de pessoas tão sãs e decentes. injusto, dirão. submissos à razão e à volição dos inimigos da espécie. como tocavam vilões com dedos finos a flauta, levando pelos atalhos da carne crua as almas cansadas e ingénuas. mentiras que nascem na volúpia dos nossos órgãos. quando tocaram, curvámo-nos. rastejámos suplicando por um rasgo de prazer. e a culpa é nossa, de braços esticados pedindo que esqueçam. compete-me deixar na pedra funda e riscada que não, não foi impossível. foi uma escolha. foi o querer repulsivo que vos deixa esta carcaça a que chamarão algures de legado. não deixará de ser a essência, mas como escolhes agora, escolhemos e o fizemos em pleno querer. o plano foi beber do barato e deixar-vos a conta, paga na hora que não nos cabe. por muito lamento, se o deixo em lamúria, não ficará salda. nunca. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

balões

psssssst
na hora dos balões
faz-se a festa funesta
tresanda a hélio
árgon
azoto
leves e puros
como dias melhores.

entrelaçado
a botija é o jato
que sobe para a luz
e quando estoura
plaft
são as leis que imperam.

pias fininho
maninho
pias de baixo
como a criança
sem culpa
nem crença.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

para uma presa idiota

o éter é o fumo 
e o homem é um animal
irritadiço e inócuo
baaaaaaaaaaaaaa 
fiiiiiiiiiii
eeeeeeeeen
tooooooooooo
aaaaaaaaaa
nnnnnnnn
iiiiiiiiii
mmmmmmaaaaaaaaaaaaaaaaal!

mas que ódio
ele ocupa
invertebrado sustento
suserano desejo
esmigalhando a leveza.

mas que ódio severo
às horas cobardes do tento
o expoente sangrento
congelado no mármore.

custa a moral ao corpo fraco 
corpo fraco
corpo fraco 
és um asno tapado
é uma presa que pede
comer um tiro nos cornos.


aaaaaaaaaaaaaaa
niiiiiiiiiiii
maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal!

eis um bípede!

nada mais animal
que essa ânsia quadrada
em mil cores cintilantes
o teu hino, desgosto
iluso e ilustre
mestre dos povos
servo dos termos.

simétrico
como o tracto
opõe o cu
à boca asquerosa
puxando
fechando
a língua
cujo único céu
é mesmo o seu
bem terreno.

um rastejante
é devorado 
foi golpe certo
em voo rasteiro
duma jovem andorinha
que com o bico
desmanchou-o.
mais um tento
saudável
de proteína
para o fértil
bem terreno.

eis uma alma!
depenada
ruminante
sem cabeça
deambula
nas fissuras
entre ser 
um terrestre animal
com o dom decadente
e o tom doutros mundos
dum celeste bramir
ecoando pelo vale.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

última paragem

afeiçoa-se a paragem
do terminal que a encerra
coragem é aquela
linha
entre saber o seu desfecho
e negar que se aproxima.

tique-tique
taaaaac
é a hora.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

cafeína heroína

fiz-te um café
das capsulas dignas
ficam para as célebres
visitas
quando passam
neste buraco
que velhos e imigrantes
chamam de lar.

ficaram vestígios
degenerados
de droga barata
que chutámos aborrecidos
entre umas barras
de mars
encarnados
piscando cóleras
opressivos, as rédeas
entrelaçadas
como cordas ásperas
espalhadas pelo chão
coberto de cinzas.

dois cigarros
doentes
com medo
do silêncio.
ficámos a preto e branco
num rolo
que não se pode revelar.

talvez a bica
lave as ramelas
do espírito.

hm hm hmmm
fora connosco
não cabemos em sonhos
breves
por isso espalham-se os rasgos
dum flash que suprime
aquilo que memórias míopes
constroem porque precisam
dum acervo
que as complete.

a pedra falha
e uma faísca sustenta
o amargo do café.

somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
somos cruéis
e os membros
cortados 
pagam
e os membros 
não dormem.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

sustento em fevereiro

estamos na época
das gaivotas com coragem
já os ratos
constroem a utopia
mas
ambos comem lixo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

o desertor

quebra-se a fé
mirra, é uma flor
no inverno tardo.

o conto-promessa
sem capítulos
de leveza noctívaga. 

cruzando os dedos
ele agita
a doença incorpórea.

a Boa Nova
desce com as ondas
dum satélite metálico
funde-se
à carne flácida, fraca
nas jornas
que o sol não pisa.

purificado
em chama
esférica e branca
petrifica
no seu desígnio.

são rezas e lendas
crenças silvestres
rasteiras na frase.

boémio pastor
espreita da vinha
o cordeiro revolto.

nega três vezes
três vezes por si
uma por cada lente.

Verdade
o vago consolo
tempestuoso silêncio
recurvo
abrindo os braços
mas a vista coberta.

um amigo
trilha na neve
e o fogo
não se extingue
ao sabor do vento.

desejo profano
criança tentada
por baixo da linha.

perece com calma
não percas a vista
rodando no ânimo.

deserto sabido
converso fugindo
do ábdito amor.

suplica em terra
um sussurro castiço
lembranças na esquife
que corre o riacho.

sobe
aceita o que é.

em todas as margens só há uma forma de pedir o perdão.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

os palpites

fiança
distância
zelo em augar
pele brilhante
mestre do lar.

pujança
decência
sinistro fitar
querer relutante
jogos de azar.

domar a criança
domar a demência
purgar o domar
e tomar o semblante
por mestre do mar.

é a dica
é a dica
é a dica 
que fica
é a mostra
é a mostra
que esconde a aposta
na mossa
na mossa
na nossa viola
a vossa braguesa
lesa a presa
beleza beleza.

andança
dormência
faz encostar
o diamante é um veio 
que veio do bar.

aaaaarrrrrr!
arrepia incendeia
o mestre do azar
prolongam cadências
que o querem matar.

abriu-se a taberna

o miguel voltou!
que felicidade!
segue o bairro conforme
o porco átrio do prédio
tresanda a esgoto
e os buracos mal-amanhados
continuam cobertos de terra
fazem uma poeira tremenda
nestes dias nublados.
eu arrisco, ora de ténis
ora de botas
com o caramelo penteado
esvoaçando pelos olhos
os auriculares à mostra
mas a corrente escondida.

tudo por igual.

fecham agora mais cedo
umas duas ou três horas
parece que é este
o preço de quem falta.

almoço, um bagacinho
eles apertam-me a mão
sorrindo
só pelo costume
peço o mesmo de sempre
mando a dieta com a merda
faz-me melhor
que siga tudo igual.