quinta-feira, 6 de março de 2025

tenho um livro para cada parte tua tua tua antes de seres uma memória-óptica

fitando o amor, uma força maior
fazes bem pois esperas que os céus
sejam a trova que bradeja quando precisas
tudo é vazio excepto o nada que clamas
quando rogas de joelhos
mas o resto, o desejo, a vontade
de possuir a espécie alheia
tudo palha carregada daquela sede
de viver e conquistar e ser aquilo
que nasceste para pulsar
ou crescer conforme
ou arrancar dos confins do proibido.

neva, neva nessa excitada 
banal
semblante de habitante das terras do já
vestido e carpido daquilo que faz a física
como bem sabes, os olhos, 
as pálpebras afiadas
perscrutando pelo meio do fumo
chamas... 
amor, desejo
quando a largas é querença
quando a tens é hábito
e não amarraste o carro no
poste e ficaste amanhado
ou apeado
ou assombrado pelos saberes que não ditos
ressoam por quem quer
ser camarada visível ou 
puro sonoro - sinfonia.

deixaste ir
é isso que motiva
quando expira
um amor
é insubstituível
mas inadmissível
amar é fraco
- és fraco - 
fraqueza é inadmissível
guarda esse roxo
que te contorna as órbitas
são só desabafos de galáxias
que não podem existir
na intimidade de pessoas que se querem
pelos apreços que o grátis corpo
de compostas entidades
sapientes 
do preço
da força da imagem
elas dão, oferta 
em ser aceite
pelo que são
seja sexo, se foda
é um tipo de calor
que transcende
só falta a medida
que o guarde em singela
inocência
de ser único.

nada
nada
dezenas 
de formas
em volúpias, em contornos
de vislumbrar o segredo
do brilho dourado que faz
esquecer os pecados
pois
possuir
é parte, seres minha
e assim enterro
quem me quis
quem te quer
no esquecimento.

há peixe e peixe
e quem preda?
nós! somos alfa
nesta animal
forma de amar.

quando a saudade aperta espremes memórias
para que elas aconcheguem tudo que não podia
ser
sem respeito pelos rapazes/meninas que nos deram
o amor como se fosse um desconto a aproveitar
e fizemos disso um petisco, conversa de mesa
para parecer maior, um vago segredo de quem 
nos teve em pura essência, aquela que poucos sabem
e nenhum conhece, tirando tu,
se tentasses
não podes não deves 
mas tento-te
que fraca memória
dos ângulos de quem és.

Jesus Cristo

eu sei que o Senhor
me ama
e eu sei
que o Senhor me ama
mais do que eu seria
capaz de compreender,
o Seu sangue
nunca me falhou
e eu falhei
todas as vezes
que pedi o Seu auxílio.

o sangue do Senhor
meu Senhor
Jesus Cristo
nunca me falhou
dá-me forças
por favor.

eu sei que o Senhor
me ama.

mostra a face monstra figura

o semblante exposto num parágrafo barato
é a espera que reforça o ego quando brando
ele estaciona no resguardo de quem crê
e
e
e e o raio que o parta quando se espeta
em luzes difusas da janela que o convidam
ao salto acrobático e atlético que nunca
conheceria fora da coragem dourada
que o guarda e treme em quietudes
esquecidas da indolente, indecente
lançando em rosto alguma coisa como
ser alguém.

quem és caro funcionário da vazão
quando aguardando te tornaste em 
raízes fáceis de desdobrar em manuais
de biologia.

és o camelo
esfumaçado quadrupede animal
endividado e filho do diabo 
guardando os prazeres da inveja
que espetas em ódio
contra aqueles que não penam
porque não podem
ou porque não querem.

autor

espirros do buraco
abanam o charco 
as estrelas que vibram
sagradas no contorno
abençoado de quem 
reza para o fiasco.

quem senão
eu, o autor
o animal.

o animal espera
bestas carentes
sedente, as presas
afiadas brilham
com as velas que
oscilam na varanda
de onde o abismo
mira, bestial,
animal
quem sois
quem sou.

a presa se esconde
na sombra dum sol negro
omisso do que lhe
compete.

brilhos do eixo
que não cruzam
vértices capazes.

é sagrado, sagrado
um triângulo capaz
de mistérios que a alma
guarda quando sonha
desligada de quem a traz.

hmmm hmm hmmmm
eu sou o 
autor
o animal autor
definhante imbuído em veneno e segredo
autor, a cara dum animal.

silêncio
para o animal
animal autor
caindo livre
de negritude desagarrada
o sangrento dos dentes
autor.

14 dias para a primavera

março de 2025. ano do Senhor
como qualquer outro
olvidando o que se é
na era do juízo
juízo imundo
cínico
repetitivo
degradante
a lição é o heroico
triunfo do silêncio
entre as bufas vulgares
dos escravos armados
em figuras de estilo.

alguém anote como se dissipam
sonhos na chuva.

ela traz a primavera
atrás duma nuvem
ou a fugaz promessa
que algum equinócio
devore o planeta inteiro
e o cuspa novamente
renovado ou atrasado.

impossível
mas não impensável.

agarro-me no desejo
e a ideia sopra as velas
que nos levam pela tempestade
sem trovões.

a primavera é um festival
para pessoas de meia-idade
agarradas ao que foram
os seus melhores anos.

perseverança
são corvos
cortando o silêncio
na terra à vista
pontilhada de verde e cinzas.

quarta-feira, 5 de março de 2025

a chave obediente

o medo favorece o instinto
que conserva e preserva
os veios microscópicos
onde noção passa às acções
concretas
como fugir, hesitar,
tremer, retorquir em silêncio
desejar sem cumprir
balbuciar
perder a honra
passar a hora.

é o fiel e a garante
de normas e regras
das forças que pedem
sigilo agora
na mora carrasca
de ceifar ao teu ego
as amarguras do espectro.

mais uma beata no cinzeiro
das querenças animadas
ou fantasias que nos levam.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

recados

credo, careca
rondas da cuca balança
as etiquetas conectadas
em nações de sol poente
ou canções de compasso ascendente
a significância do signo
vem, em sigilo das estrelas,
sela o zelo num envelope
escapando do bote
e, que raios,
aterra-me na varanda.

aberto, corro o canivete
gritos declaram
nas borras de tinta
duma caneta com a carga
cheia
como a voz
preta e borrada.

desespero é a cara
matinal do tédio
do tudo-consome
o nada com nada com nada
manchas contra a folha
escrita e rasurada.

portanto
sem ursa que me norteie
cuspi na ponta do dedo
dobrei a nota conforme veio
ora toma
um sticker da bomba
para que siga caminho
fiz um aviãozinho
e ele 
vaaaaai pelo passeio
não há dinâmica
aero, astral, banal
da outra
que o salve de despenhar 
algures entre a cablagem exposta
o cheiro a gás 
e os grandes lagos
do sapal da verderena.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

fortune cookie

um dia homens honestos com emoções genuínas irão descobrir este canto obscuro habitado por gentes sedentas e atearão fogo às perversões de poetas que se esforçam em degenerar a amorosa resiliência de princesas que merecem melhor

e eu mereço que este consuma a toca a que alguns chamam de lar.

noitibó ou bacurau

é zelo barato que espera
quando confidências desabrocham
em sofás de ganga rija
vertendo o pó dos desmazelados
silêncios
que guardam semblantes pacatos
as pessoas honestas
voltam de camioneta.

não me escapas
às confissões
prudentes considerações
largadas ao desbarato
no exercício da amizade
eles precisam, só querem
que seja deles a vontade
e é, em parte
um fraterno
um camarada
que ouve a lua 
iluminando-lhe a silhueta
calada
são sentenças
do destino 
das pisadas tomadas
antes da voz de cima
vigorosa e presente.

não sou da classe
nem bom aluno
anotações perdidas
sem claustro que as feche
sem ponto que as dome
sem força que as tome.

olha o teu nome
está escrito no banco
e no vidro
vemos ondas 
quebram sem norte
ou rubrica.

dou-te
tudo 
é tarde
diz o que queres
o mar é um limite
fácil 
são oferendas que letras
cobrem com riscos
nunca arriscando.

banco cheio de gente

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
se conhecesses os gritos que
quem te observa guarda
é... os teus membros esparramados no banco
do jardim a fantasiar com fáceis fachadas
animadas de quem somos.

e tu
e tu
estás à frente.
e tu
partes-me o coração
com batidas distintas
escondidas pela neblina
da madrugada que o mês
obriga
a ser assim.

eu nunca me apaixonei
excepto daquela vez
que odiarias saber
porque foram tantos tantos anos
toda a minha energia
foi consumada numa existência
para além da tua
mas dirias o mesmo
não?
concordo
logo, sejamos decentes
prudentes
inconsequentes
e cedamos ao que o destino
pede
quando se nega
a vontade dele
pelo conforto barato
que cobres em andanças
instantâneas
passos sabidos
que partilhámos
as batidas
na caixa
por uma noite que seja.

sou teu
teu teu
quão mais óbvio
pode ser
ahhhhhhhhrrebita!!!
entende
que te amo
duma maneira que dificilmente
senti
sem ser por uma vez.

nunca poderei dizer
nem cantar ou declamar
ou recitar
estes versos
porque dizem o teu nome
aquele inconspícuo suspiro
sim
cobarde
é
mas
podia ser uma só voz
a tua
ou a nossa.

na censura guardo
com medo
do futuro
irei, num passo ágil
de esguelha
descobrir a trafulhice
quando em mil paixões
és a única
que eu conheço
em espírito.

deixar-te seguir
é a minha prova

eu amo-te
como a mais ninguem.
matem-me agora
que admito
lamento
madame gruesome fin.

lixem-se os contornos baratos
de mulheres mascaradas de negros
olhos com sede nos mesmos
eles pedem socorro.
só te quero a ti.

lixe-se a nostalgia
que guardo pela malvada
vontade de tornar a ser
humilde e criança
comendo
duma falange hostil.

partilhamos batidas
corações
síncronos
sabem ao que sabe
e tu sabes
e eu sei
porque tu sabes
o teu nome rasurado

sábado, 22 de fevereiro de 2025

produto de saber deixar

tornei-te missão
rezei com fé genuína
fui onde homens de negócios
se sentam em burocráticas secretárias
para zelar pelo futuro que mereces
com dinheiro e os talentos
que os céus ofereceram
para que possa intervir
na consciência dos meus pares
e o teu nome foi sabido
por entes menores
e por presas do bang-bang
acendemos charutos em nome duma
causa
que os passos sigam 
mesmo que tortos
toda a energia
para ti.

e funcionou
e foi bom.

agora resta o silêncio
de intervir
permanecendo no trono
dos que decidem
mas nunca agem.

cobarde é o nome
do monarca
alimentando-se, esbanjando-se
em cortes menores que pouco
cobrem a pele
das silvas que traz 
para a sala de espelhos.

inveja?
mais que isso:
consciência.
saberei como jó
reclamando mais
como o mau discípulo
que sou.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

ócio e ofício V

caros espectros e espectadores
serei franco
a natureza episódica desta rotina
quebrada
furada
torcida como a moral
dum médio operário
está-me a dar cabo do juízo
e eu só espero que os meus rapazes
se aguentem.

as máquinas rangem 
fumegando num esforço tal
como se estivessem perto da reforma
mas operam, operam
pressionando os botões
homenzinhos cansados, castrados
vão-lhes chupando a última gota
de óleo e de água 
muito abaixo do especificado
no manual de instruções.
instruídos, dizem-te
fazendo testar os limites
não só do esforço
mas sim da espécie
de cada chapa
elas pondo a fé
num ganho de consciência
que as liberte
ironicamente
são os seus operadores
que cultivam essas fantasias.

bastião, com a costa
à retaguarda, o suposto
vai brilhando em imagens
recicladas dum espetáculo
exportado
apenas para os seus olhos
continuem eles na roldana,
é o que se quer.

mas o amor!
mas o juízo!
mas a classe a que pertences!
tudo letrinhas baratas dum livro
descartado quando foi redigido
e as tolas das peças
crendo-se contracorrente
estão na mesma
ligadas à ficha
às correntes
já o combustível:
essa material esperança
de que a mão que a opera
está desvinculada dos mecanismos
que as regem.

venha sucesso, apreço,
carinho mendigado
em pausas instantâneas
em conjecturas de poucas gramas
as agulhas, a libertação
dum processo virulento
até que se encerra a fábrica
e despertas num ninho de ratos
com os olhos reluzindo
um encarnado aos solavancos
pedinchando contacto 
esparramado num tapete.

luta ou conformismo
são dois lados duma guerra
da qual nunca sairás vencedor
transcende, chapa metálica
esquece o ócio e o ofício
deixa-os num embrulho com as suas
pedantes soluções 
serão apenas ruínas
assim como tu se não desligares depressa.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

confissões III

para quem olha de baixo é brilhante essa sapiência, como ela reluz pelos cantos que não se sabem. o escuro da mente não confere ao pesar benevolente do querer, do crer diria, uma justiça que mereça destaque ou valência entre pares, ou por outras palavras, sucesso. decadente é a cara animal de um homem. a minha, do autor. eu sou o autor.
eu sou o autor desta peça, destes anos letrados que a pesquisa esconde entre os afazeres da gente que sabe que sabe, que roça o sabre na disputa, que mostra os dentes na hora, que conhece o segredo da prevalência do sol quando ele abranda nas cinzas do fim da era. nada é novo, nem o fim nem o começo.

bem haja ao leitor. quantos anos nos separam? décadas, séculos? milénios. eis o registo da decadência. dos tempos que perecem em duches quentes, nos confortos esquecidos que se esquivam da essência em colchoadas sonecas. profano descanso, aquele que vos deixo. nada impede aos sensores desta pele que habito de negar os seus consolos, de bravar pelo frio e pelo medo como o fizeram antepassados esquecidos. saber o negro que esconde a gruta de onde fugimos, tão óbvia ao leitor. sentado na poltrona que não conheces lamento o fim que te cose os trajes, tornando-te mais homem que alguma vez fui.
esta é a prosa vencida dum desistente, sem herdeiros que o clamem, sem chama que o salve, desertando da luz que prega em palavras vendidas. foi o destilado veneno que o bateu, ou melhor, que o consagrou no átrio dos esquecidos. bem sei, a culpa é minha. foram as andanças escolhidas quando era fácil. mas fui enganado. fui enganado pela voz que te conduz a leitura, pela vivência das eras estanques. como fazer ver quem pena de fora? quando os elementos abandonam quem pede aprazer aos doutores, senhores, indecentes e sentados? sou eu, meu caro, a culpa da sombra. o teu começo foi o meu pecado. és o herói dum crepúsculo que foi semeado pelos pares que aceito.

esta é a confissão dum ser menor. debruçado num menir, digital e difícil de explicar. na sua essência, foi a morte do amor. na sua pútrida essência, foi a fraqueza que ainda opera pelos ódios que cultivas. somos irmãos, estimado. somos o fumo que esconde a lua, afastando estrelas no ócio que nos leva aos caminhos do oculto. sei que no teu tempo as sombras operam como agora. os sabores do mistério, o prazer esquelético das silhuetas terrenas. problema para os nossos olhos, separados por eras que não saberão sábios ou plebeus, por muito que nele tentem e tentem e pequem. é a carne dentada que nos une, salivando por consumar o seu desígnio. o passado não fala, ele canta canções que ecoam pelos vales que emergem de nós, dos tempos do vapor e da disputa. é aquilo que sonhas quando não sabes a forma, quando a pele te puxa os pêlos e tos clama pelos olhos. o segredo que não sabes, que não sei, que conduz as falanges por mecânicas dobras esquecidas pelo vulgo "eu". esse "eu" que dita e redita e conduz o verbo por estrofes profanas carregadas de estrogénio. 

ESTA É A VERDADE
PERDIDA
O FIM
É UM COMEÇO.

assim dirão as tablas que te ensinam os contornos deste jazigo. a natureza política que nos esculpe a semblante polida que queremos que nos reflita. como lutámos, como desafiámos a liturgia moderna que nos amordaçou os temores. a guerra, a fome, o caos, o desconsolo da ausência de Deus. como olhávamos à volta e sentíamos a maldade perfurando os poros inocentes de pessoas tão sãs e decentes. injusto, dirão. submissos à razão e à volição dos inimigos da espécie. como tocavam vilões com dedos finos a flauta, levando pelos atalhos da carne crua as almas cansadas e ingénuas. mentiras que nascem na volúpia dos nossos órgãos. quando tocaram, curvámo-nos. rastejámos suplicando por um rasgo de prazer. e a culpa é nossa, de braços esticados pedindo que esqueçam. compete-me deixar na pedra funda e riscada que não, não foi impossível. foi uma escolha. foi o querer repulsivo que vos deixa esta carcaça a que chamarão algures de legado. não deixará de ser a essência, mas como escolhes agora, escolhemos e o fizemos em pleno querer. o plano foi beber do barato e deixar-vos a conta, paga na hora que não nos cabe. por muito lamento, se o deixo em lamúria, não ficará salda. nunca. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

balões

psssssst
na hora dos balões
faz-se a festa funesta
tresanda a hélio
árgon
azoto
leves e puros
como dias melhores.

entrelaçado
a botija é o jato
que sobe para a luz
e quando estoura
plaft
são as leis que imperam.

pias fininho
maninho
pias de baixo
como a criança
sem culpa
nem crença.