quinta-feira, 20 de março de 2025

os não-poetas

cruzam a esplanada dos
verdadeiros poetas, os da raça
e casta baixa, baixa
de pessoa
mas polidos e versados
poetas.

desbotados, cansados, uns quantos
casados
vivem no canto duma mesa
entre o vidro barato, a cerâmica
gasta e cinzeiros improvisados
tipo copos, potes de nesquick
latas abertas por unhas com crack
ou ganza barata,
à escolha do freguês
escumalha
no mercado das caras.

eu disse que eu disse
que eu disse que eu
disse
que isto é gente rafeira
só esses prestam
para contar o que
nunca se pôde.

passam letras no ódio
frases convertem-se ao culto
de fases lunares e diagramas
tramados
frustração, o que são
tédio mascarado de coragem
bem sei, sou eu
ou nós,
os ditos poetas.

contável, risível, aplicado
verdade com v pequeno
de facto, foto estanque apodrecendo
num passado algures
que ninguém guarda
sem ser a vergonha nostálgica
burra, besta do buraco fervente
insistindo em preservar o que seja
deste lapso inconspícuo duma face
em ruína
fantasiada por gentes bandidas
esquecidas da cegueira da despedida
precoce, de tudo que disse
dos cães raivosos, doentes,
suicídio como um queijo suíço
apodrecendo na dispensa.

fortes são os largos braços
dos atletas que treinam
esta máscara teimosa.

terça-feira, 18 de março de 2025

estagnação

as horas não passam
ficam apenas empilhadas
na torre de carne 
atrás de um sussurro
o som da chuva
e o cheiro húmido
ora com olhos abertos
ora com olhos fechados.

mão em copo

água fresca da torneira
corre pelos dedos
apraz como cai.

dura, muito dura
um movimento contínuo
acumula sedimentos.

mata e limpa
em canos com ratos
enche o bule
e ferve para o lado.

água fresca da torneira
o meu santo remédio
uma ribeira singela
em margens de prata baça.

segunda-feira, 17 de março de 2025

o porco

és sarilhos foda-se 
dizer quem és
sem medo da sombra
que te concebeu
e me concebeu
porque no fundo
somos iguais
cabelos negros e gengivas
vivas
esperando
consumar o segredo
que a chuva protege.

odeio como me privo
de estar preso nos contornos
das partes indecentes
duma dança, dama
melancólica e romântica
claro, sejamos francos,
o desejo jaz
entre olhos que vibram
na possessão
dum homem sem apego
às ancas que guardam
a vida e a espécie.

de tantos apreços
sede barata da espera
elas deitadas, castradas
dum vómer efémero
trincado e esquecido
esvoaçando em pares, o cheiro
a veludo se espalha
entre o fumo
e a hora de ir.
quem permanece
senão a cara-memória
de seres fundo 
e pecado
que me pune o cristão
querer, espelho da alma,
mamas e couro pedindo
com calma, uma cama,
um abrigo, vívido e digno
do deleite que a sua 
donzela parecença
suscita quando 
arrebita, ah-ah-ah (!)
sê minha, diz-me
em berros glutões.

toma o timão
e todos os meus desígnios
barato veneno, filho
e bento servente
sou teu, teu
teu 
teu
teu
e não saberias
excepto quando te prender
os cabelos contra os punhos
um malvado
misantropo porco
ouvindo os devassos
pedidos de mais
e que se lixe
quem somos
quem fui e 
quem és
quando somos um.

possuir é d'animal

decalques confidentes se escapam
duma barba por fazer, esta
que vos conta os tilintantes prazeres
de ser desejado novamente, em brilhantes
ocasos que espreitam o imprudente noctívago.

cheia de razão
cheia de ego
sagrada e esperançosa, o seu escape
se esconde, a corda e o gás
são símbolos do que foi
vésperas silenciosas e sem esperança
que as guarde do pecado.

faces reluzem
contra mãos iluminadas
são os santos que cantam
esperança
a vontade guardada
por animais
sedentos
como... como...
eu, o autor
o animal autor.

a pele brilha
num sonho barato
de três euros e meio
contorno duma efígie
que redime sendo
o que é
seda delicada em casulos
desprotegidos.

predador
animal
o escuro dos olhos
no fundo do sol.

animal
animal
animal
que sou.

sexta-feira, 14 de março de 2025

faróis, luz de presença

comem pó e ficam de pé
sem confiança, só certeza consumada
de que é o que é o que é
o vento passando o boné
entre transeuntes e maquinaria
pesada, na beira da estrada
lindos fumos da vontade
ela leva quem quer e quem pede
que se leve pela turbulenta
calçada.

uma luta, hoje vencem os da desembaçada
e petulante insistência
um optimismo invulgar quando é de noite
ou de dia ou de tarde ou toda a parte
que queira que seja alguma hora
concreta
derrotam-se vendettas
no corajoso compasso alterado
dum singelo e bendito
dia que acaba.

como fitam pelas laterais
os desejos calados!
como esperam a hora
os palpites da querença!

sorri-se na ffalência
no lusco fusco
nos travões embaçados
da falta do seu trato
acelerando sem prudência
por caminhos panorâmicos
enquanto sorri um casal
mal-cheiroso e cheio de vida
cobertos de negro
são mais que as luzes da estrada.

um dia teremos
pele rija
corações sensíveis
porque nem sempre é
castigo a vicissitude
de se ser assim
há quem jogue
e jogue
e perca
e ganhe
quando perde
sobretudo quando um passeio
se torna desfile
dum vitorioso fim de estação.



quarta-feira, 12 de março de 2025

lavam os olhos

sim, são soluções cómodas
simplicidades
que tornam e tomam
esta fugacidade
tão ágil que
apraz com o custo da
essência 
a vértebra frágil
mais as três sentenças
em nome das preces
das forças ou crenças:
hm hmm, hmhmhmm
um grandes suspiro
é fácil e fácil
e fácil... abrigo
intuitos certeiros dum passo
a seu tempo
badalam pertences que moram
em pautas.

placebo mordaz
conforta em seguida
em notas sinceras 
o compasso apertado
cumprindo a vontade
dum par solitário
que espreme em notas
a voz do seu éter
o assere mais digno
funesto desígnio.

doiradas as luzes que pintam
os traços 
vincados contornam
a alma senhora,
amigo
a conexa
vontade de ser
algo em outra 
mais outra
outra parte.

uma voz na tua esfera
ressoa e descansa
quem sendo
senão um raio dum galho
inútil 
mas, mas...
mais florido?

quinta-feira, 6 de março de 2025

tenho um livro para cada parte tua tua tua antes de seres uma memória-óptica

fitando o amor, uma força maior
fazes bem pois esperas que os céus
sejam a trova que bradeja quando precisas
tudo é vazio excepto o nada que clamas
quando rogas de joelhos
mas o resto, o desejo, a vontade
de possuir a espécie alheia
tudo palha carregada daquela sede
de viver e conquistar e ser aquilo
que nasceste para pulsar
ou crescer conforme
ou arrancar dos confins do proibido.

neva, neva nessa excitada 
banal
semblante de habitante das terras do já
vestido e carpido daquilo que faz a física
como bem sabes, os olhos, 
as pálpebras afiadas
perscrutando pelo meio do fumo
chamas... 
amor, desejo
quando a largas é querença
quando a tens é hábito
e não amarraste o carro no
poste e ficaste amanhado
ou apeado
ou assombrado pelos saberes que não ditos
ressoam por quem quer
ser camarada visível ou 
puro sonoro - sinfonia.

deixaste ir
é isso que motiva
quando expira
um amor
é insubstituível
mas inadmissível
amar é fraco
- és fraco - 
fraqueza é inadmissível
guarda esse roxo
que te contorna as órbitas
são só desabafos de galáxias
que não podem existir
na intimidade de pessoas que se querem
pelos apreços que o grátis corpo
de compostas entidades
sapientes 
do preço
da força da imagem
elas dão, oferta 
em ser aceite
pelo que são
seja sexo, se foda
é um tipo de calor
que transcende
só falta a medida
que o guarde em singela
inocência
de ser único.

nada
nada
dezenas 
de formas
em volúpias, em contornos
de vislumbrar o segredo
do brilho dourado que faz
esquecer os pecados
pois
possuir
é parte, seres minha
e assim enterro
quem me quis
quem te quer
no esquecimento.

há peixe e peixe
e quem preda?
nós! somos alfa
nesta animal
forma de amar.

quando a saudade aperta espremes memórias
para que elas aconcheguem tudo que não podia
ser
sem respeito pelos rapazes/meninas que nos deram
o amor como se fosse um desconto a aproveitar
e fizemos disso um petisco, conversa de mesa
para parecer maior, um vago segredo de quem 
nos teve em pura essência, aquela que poucos sabem
e nenhum conhece, tirando tu,
se tentasses
não podes não deves 
mas tento-te
que fraca memória
dos ângulos de quem és.

Jesus Cristo

eu sei que o Senhor
me ama
e eu sei
que o Senhor me ama
mais do que eu seria
capaz de compreender,
o Seu sangue
nunca me falhou
e eu falhei
todas as vezes
que pedi o Seu auxílio.

o sangue do Senhor
meu Senhor
Jesus Cristo
nunca me falhou
dá-me forças
por favor.

eu sei que o Senhor
me ama.

mostra a face monstra figura

o semblante exposto num parágrafo barato
é a espera que reforça o ego quando brando
ele estaciona no resguardo de quem crê
e
e
e e o raio que o parta quando se espeta
em luzes difusas da janela que o convidam
ao salto acrobático e atlético que nunca
conheceria fora da coragem dourada
que o guarda e treme em quietudes
esquecidas da indolente, indecente
lançando em rosto alguma coisa como
ser alguém.

quem és caro funcionário da vazão
quando aguardando te tornaste em 
raízes fáceis de desdobrar em manuais
de biologia.

és o camelo
esfumaçado quadrupede animal
endividado e filho do diabo 
guardando os prazeres da inveja
que espetas em ódio
contra aqueles que não penam
porque não podem
ou porque não querem.

autor

espirros do buraco
abanam o charco 
as estrelas que vibram
sagradas no contorno
abençoado de quem 
reza para o fiasco.

quem senão
eu, o autor
o animal.

o animal espera
bestas carentes
sedente, as presas
afiadas brilham
com as velas que
oscilam na varanda
de onde o abismo
mira, bestial,
animal
quem sois
quem sou.

a presa se esconde
na sombra dum sol negro
omisso do que lhe
compete.

brilhos do eixo
que não cruzam
vértices capazes.

é sagrado, sagrado
um triângulo capaz
de mistérios que a alma
guarda quando sonha
desligada de quem a traz.

hmmm hmm hmmmm
eu sou o 
autor
o animal autor
definhante imbuído em veneno e segredo
autor, a cara dum animal.

silêncio
para o animal
animal autor
caindo livre
de negritude desagarrada
o sangrento dos dentes
autor.

14 dias para a primavera

março de 2025. ano do Senhor
como qualquer outro
olvidando o que se é
na era do juízo
juízo imundo
cínico
repetitivo
degradante
a lição é o heroico
triunfo do silêncio
entre as bufas vulgares
dos escravos armados
em figuras de estilo.

alguém anote como se dissipam
sonhos na chuva.

ela traz a primavera
atrás duma nuvem
ou a fugaz promessa
que algum equinócio
devore o planeta inteiro
e o cuspa novamente
renovado ou atrasado.

impossível
mas não impensável.

agarro-me no desejo
e a ideia sopra as velas
que nos levam pela tempestade
sem trovões.

a primavera é um festival
para pessoas de meia-idade
agarradas ao que foram
os seus melhores anos.

perseverança
são corvos
cortando o silêncio
na terra à vista
pontilhada de verde e cinzas.

quarta-feira, 5 de março de 2025

a chave obediente

o medo favorece o instinto
que conserva e preserva
os veios microscópicos
onde noção passa às acções
concretas
como fugir, hesitar,
tremer, retorquir em silêncio
desejar sem cumprir
balbuciar
perder a honra
passar a hora.

é o fiel e a garante
de normas e regras
das forças que pedem
sigilo agora
na mora carrasca
de ceifar ao teu ego
as amarguras do espectro.

mais uma beata no cinzeiro
das querenças animadas
ou fantasias que nos levam.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

recados

credo, careca
rondas da cuca balança
as etiquetas conectadas
em nações de sol poente
ou canções de compasso ascendente
a significância do signo
vem, em sigilo das estrelas,
sela o zelo num envelope
escapando do bote
e, que raios,
aterra-me na varanda.

aberto, corro o canivete
gritos declaram
nas borras de tinta
duma caneta com a carga
cheia
como a voz
preta e borrada.

desespero é a cara
matinal do tédio
do tudo-consome
o nada com nada com nada
manchas contra a folha
escrita e rasurada.

portanto
sem ursa que me norteie
cuspi na ponta do dedo
dobrei a nota conforme veio
ora toma
um sticker da bomba
para que siga caminho
fiz um aviãozinho
e ele 
vaaaaai pelo passeio
não há dinâmica
aero, astral, banal
da outra
que o salve de despenhar 
algures entre a cablagem exposta
o cheiro a gás 
e os grandes lagos
do sapal da verderena.