há uma esplanada de esquina
faz de bom esconderijo
com um duplo às secas, a dita
baça e acostumada, já da casa.
agora é raro que aqui venha sozinho
não sei bem, talvez não queira
perder cara, tão tapada
pois bem, vim na mesma, sem razão
na mesma na mesma
sem razão
dirão, diria, digamos
- pois pois -
deixem-me explicar o espaço
são quase nove da noite
que no verão quer dizer pouco
bem sei
é de dia, um traço cinzento,
uma abébia das nuvens.
o calor tem sido insuportável
mas hoje não
então rodei
rodei
rodei
e pus-me aqui.
à volta há um gradeamento
que dá para umas escadas que descem
o café à esquerda
e mesmo de frente um restaurante
all you can eat, sushi, mui meu amigo
dos que já sabem o meu pedido meu amigo
assentem na rua os empregados
os estafetas
meus amigos
sem abacate e um sake quente
meus amigos.
todas as suas janelas corridas numa só parede
dão mesmo para esta praceta
e quando se come observam-se
velhos nas mesas brancas
raramente eu
quando calha, com amigos
hoje não.
tudo que existe descrito
eles comendo os temakis
eu na água baça de balão
nada invulgar até aqui.
quis o destino fazer uma partida
muito amigável
lamento a sentimentalidade
mas a roda joga e o resultado
sendo em essência um absurdo cómico
parece - é - d'inspiração superior
que o Pai existe e como deve:
rege a tragédia
rege a comédia
um balanço perfeito
só Ele o domina.
das cinco janelas estavam eles no meio
que cinemático, centrado:
um homem que me odeia
uma mulher que me deseja
ou desejava, desejou, aparentou
e que eu estimo, até onde se pode
quando se trata da imprudência
dum libido com o tanque cheio.
senti uma franja e uma brisa
não fiz caso
é a moda, são os tempos
e paguei o bagaço duplo
desmascarado e julgando
refletia
era a nita
essa mesmo, a bendita, a esquiva
e esquecida
nita
mais o seu adamante e infiel pretendente
com a brisa e uma fita
ambos perceberam mais ou menos ao mesmo tempo
ele jogou-se de lado
ela permaneceu mas franziu, remexeu em silêncio.
eis uma nota dissonante:
eu!
ri-me em qwerty e pensei
"vieram vós ao meu abrigo
que culpa tenho de morar
neste bairro?"
tentarei descreve-los
entre olhares de lado
às escondidas.
vocês sabem, esta madame
evita-me
como a doença mortal
como a peste
como a hora de ponta no pragal
e ele odeia-me
portanto espreitar é um desafio
mui mui perigoso
estamos de frente afinal...
consegui!
ela está de azul e tem a franja rasgada
por um tufo fino cruzando-lhe os olhos
é um penteado muito digno
apraz, nostálgico pois claro
o que não parte daquilo que já foi?
foram ver um rapper
foram uma cena banal
por um preço surreal
dot fode-os
dirá diria
direi
diriam:
não são
como nós
como noés
espera, perdi-me
há ali outra pessoa?
parece não parece?
foda-se o verso
agora tenho que perceber
se está ali alguém
eles não são como nós
né chat - digo, leitores?
o homem é tão pequeno que não percebo
se são mesmo eles
cheira a charros
atrás de mim estão dois brothers
mais um mano
a fumar na berma pendurado nas grades
clareza, levantaram-se
ele é mais alto que ela
isso não é coerente dado que já estive ombro a ombro
com ambos e ele é minúsculo
portanto...
foi tudo uma ilusão
um balão vazio.
eles pagaram, saíram
perscrutaram o pátio
viraram costas e seguiram pela rua do hospital.
eu fui buscar outro copo
fiquei sem bateria.