terça-feira, 6 de agosto de 2024

cigarros sensações francesas

ena! eis que se apresenta uma princesa
de corcel preparado muito acima do meu bode,
da minha ride e do meu bote,
como um filme que te ensina a ser
e a sonhar e a crer.
nunca seria um dean
óbvio,
mas há tanto dean neste plano
tanto dean meio zarolho e mundano,
tanta distância em um poema...
mano
acende.

parte um pra vós
parte dois para nós
sonho grande largo e arrojado
filhos da serra e do sado
um momento educado, prefeito
como um chefe doutra nação
atrás no sítio e no tempo.

ena! já te ias perdendo
falhou-te o vislumbre
e o sábio saber do teu instinto?
um sonho russo ilustrado,
bem sei, é difícil crer.

estouros lançados são de um nível
o mesmo som. volume igual e
puxa tudo, sem frequência que o absolva.
o fim posto, todos sabem,
tu sabes,
então é um negativo inútil.
assim vou maquinando a narrativa
pondo folgas em trincas presas
que eu sei ou creio ou quero
que sigam soltas e frouxas.
caem-te as plumas e a frágil idade,
optimista, penso eu,
se for mais sábio saberei mais,
penso eu.
tantos o fizeram
tantos o farão.
espero.

sonoplastia francesa, uma franja que reluz
ao sol, sensibilidade que sei tanto
e tão bem
o humilde toque e o não-saber 
frustrado, cansado,
esforçado em crescer,
bem capaz,
uma senhora.

nota a inversão intencional neste verso
meta-meta como quem és e como quem sois.

ena! atreve-te
atreve-te a usar nome, malandro
debaixo da luz e debaixo do pranto
tapado encarcerado em décadas
passadas e cansadas.

são duas linhas 
simples e não recíprocas
interruptor que não te atreves
a acender.
tão fácil: oi
desiste agora,
há um futuro tão largo aqui.
interruptor que não te atreves.
pois. 
quão profundo o querer?

és o george? vale tudo.
claro que não.
contudo
nos sonhos, de olhos abertos,
segredos expostos, pecados tratados,
vale tudo? 
pensa bem.
pois,
acho que sim.

há um texto por nascer
e embrionário aqui fica
sobre nós e sobre vós,
na superfície. mistura-se bem
com o que quero e o que acho
sobre ti.
 nunca saberias e sabendo
nunca admitirias.
sol posto que me fita
azul como nunca foi.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

entrecampos

entrecampos, saudoso colega
lembrei-me de ti e dos nossos bons tempos
com a fita fazendo de trela, aventurando-se pelas andanças capitais,
hoje concretamente, como tu
também me encontro algures entre campos.

um lado sinuoso, promissor e distante
fotogramas estilosos, talvez a tua essência
céu azul, tu azul, verde por dentro,
promessas de um outono doce.

o outro pelas costas, fama e proveito
de memórias do campo grande, da escola de 17
feito num oito, encarnado invertido
esboços de um sorriso pendurado no casco de um barril.

três mainás rasam-me no ombro
e isso faz-me feliz.
que bom saber que confiam em mim
tão próximo, neles confio. estão a transitar
de um campo para o outro.
o meu passarinho azul inveja e pia
e o eco do cristal ressoa-me pelo espírito,
só ele sabe. 

no vale do agora, eu
ternamente a lembrar-me de um auge passado
considerando seguir os meus amigos plumados
como um ímpeto da vontade 
debaixo da mesa maquinando uma ideia
que compete mais acima do que letras.
no vale do agora vejo de baixo
debaixo da sombra das nuvens e de árvores centenárias
que sombreiam lá do alto dos dois campos.

a noite aproxima-se, o silêncio contamina
é um fumo pesado, espalhando-se no chão cérceo
ao nível da vista. 
o vento assobia no vale, os pinhões vão caindo 
aos estouros, uma urgência ou apenas
o eterno prenúncio do maduro.
é hora de escolher.

campo pequeno, para a alma
campo grande, pela glória
entrecampos, até sempre.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

no game november

chamam-lhe late game, fim de jogo
quando estás perto da última forma, de um boss final
a tua roupagem é a mais rara, os itens imprescindíveis,
só a poção máxima e mais forte serve.
a música fica mais tensa, as sombras ocupam-se do mapa
e encontras-te num corredor pomposo e texturado
porta trancada na retaguarda, só caminho adiante.

escondido do outro lado um mistério, ou a capa
o propósito de toda a jorna
aquilo a que chamam clímax
ou atividades de substituição (existencial)
dependendo de que lado da cela se pensa.

codificado, jogador preparado
reparas num transeunte atípico, em contramão
suspendes a descrença pois sabes onde estamos.
planeado, jogador preparado
espada e escudo, uma sombra de leste
esperando correr as letras miudinhas.
pinturas de artificio cobrem o negro que os vitrais escondem.
começa a cena e não acaba o jogo,
como? chamam-lhe pós-final.
mete mais um crédito e volta a tentar.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

sequóia e um homem-animal

sequóias matutinas filtrando a luz
com a facilidade típica dum ente experiente
fitando-nos formigas efémeras, rodando impertinente
e com ares de importância. 
guarda o caminho a cruz
nas costas e adiante, cobrindo o largo do percurso
que persistimos com raízes
ligeiras, na superfície.

enrolado num bosque, perdido da vista
dos meus amigos milenares
esqueço-me que ares respiro,
por isso pousei a boina num ramo
e dediquei-a ao Senhor. mas esqueci-me.
sem testemunhas, sem ser o Próprio,
guardando-a em segredo numa casca da Sua idade,
eis um saber que transita da alma
e escapa na mata.

o fiel fumo duma fogueira
acendida no instinto de guardar uma vista
ou assombrar o grotesco. 
o corpo feito num tronco
adormeces.
amanhã estarás de volta a bosques mais familiares,
apartado do juízo, entregue à adolescência
do sintético que te cobre o jazigo. 

quarta-feira, 24 de julho de 2024

trato / a imagem / a sombra

imagem, o que é é como é
o que não, quiçá se faça ou quiçá desista
abdicando de pretensões de estética
no domínio da sua realização.
palpitam-se nas menções
a malvada regra aritmética
que até nas contas do seu desígnio
expressa senhor e servente 
pela fita das juízas, segundos com milénios,
e o resto da cavalaria do estamos a tentar.

proporções, com ou sem rácio,
atento ao suposto
perdido por momentos.
serenos, montadores ativos se debruçam
nos contos sem tento
do terço incolor
mostrando com o peito cheio de gosto
as magias do esforço e da dor.

rege piamente a origem
a causa primordial
eu cansado, imaginem,
tentando ir além do bem e do mal. 

terça-feira, 23 de julho de 2024

observação mercenária.

envelhecemos devagar, com tempo.
torna a manhã a apresentar-se, às vezes um castigo
repetidamente a embaraçar-nos 
no nosso vulnerável e profundo descanso.
ena, umas rajadas sonoras
e uns raios de luz,
ena. o nascer do sol, igual
a si e igual a sempre.
nem um feijão brota em um dia.

a observação:
aqui temos uma unidade tão pequena mas tão ampla
infelizmente sliced e diced
entre inúmeros calendários
partindo tartes das minhas tardes
mas saciando nenhum propósito.
talvez ter tempo para isso, se isso. para mim.
no geral? não saberia dizer.
ou orgulho no ofício, ou na perícia,
uma fé convicta, com traços de ilusão
qualquer que seja, observa-se claramente
o tempo acorrentado, mutilado, 
desfigurado nas regras que o mantinham isento.





segunda-feira, 22 de julho de 2024

um tapete a penantes é um pássaro morto e espezinhado no chão, dizimado pelo trânsito da gente que o pôs a viver naquele sítio, que, tratando o evento de forma totalmente indiferente, age como se nada fosse. 

 -----

eu não consigo categorizar o meu email
como saberia categorizar espécies?
delego a quem sabe ou ao tempo
se ninguém sabe.

___


três versos em contra-relógio
retilíneo, grafia antiga
perdi o momento e o resto de um beijo.

___

altivo, amigo dos mendigos
certo dos perigos
arisco ou arrisco?

___

ontem assumi que ia parar
e há dias, meses,
gastos no inventário vencem ao geist.

_________

quarta-feira, 17 de julho de 2024

vosso professor
não porque sabe mais,
nem porque tem talento
com ensinar ou educar
só sabe dizer o suposto a horas certas, 
e as impressionantes mentes absorvem o escarrar
duma consciência veloz
que não se atreve a ser boa
porque tem medo e passou frio.
desculpa de merda.

sapato furado como a moral
do malandro que se prega capaz,
um rapaz, mas se afiambra
sem espécie nem género
da conveniência predileta
que para tantos é luxo
e para outros desperdício.

queria mesmo que fosses livre.
queria mesmo que fosse livre.
subir custa,
custa o ego e tempo 
mas recuperas no purgatório,
sem pressas.
sem pressa.
nanananananana nanana nana.

e o teu amor mano?
(mana)
essas convicções fortes?
tem poder
mas...
e essas convicções fortes?
tá liberto do desejo
e... as convicções fortes?
hmm
nanananananana nanana nana!
nanananananana nanana nana!
nanananananana nanana nana!
nanananananana nanana nana!

falando honesto e despido da estrutura fácil de esconder coisas entre versos
e estrofes
teehee

a sério, falando honesto e despido da estrutura fácil de esconder coisas entre versos e estrofes, eis uma descrição correcta do que se está a passar: são oito e dez (notem, até nas horas!). o espírito está estupidamente energizado do cocktail sagrado (alcool destilado seja como for + mendigos e altivos). uma coluna chunga tão velha como este blog toca a mesma playlist de sempre: um misto de personagens, que variam no gosto musical mas regressam com frequência aos mesmos ciclos e sons. uma paisagem que já teve sol por hoje, mas agora esconde-se na privacidade duma renda algures. sempre de olho na janela, vendo-os (vendo-vos?) a desenvolver a sua história, o seu conto. os passarinhos doces que aprazem sensibilidades incompreensíveis adornam a vista. uma ventoinha mecânica abafa janela fora os ares parados da memória e do escapismo, e voltas a bater tecla. 

aqui tens,
~um poema. 
uma confissão, 
um mistério.
um professor destinado
a engarnar-se que sabe o que não faz.

terça-feira, 16 de julho de 2024

para depois do sol maior

pões-te K.O. num instante
considerando que até nas luzes de estar por ti
pareces-te mais franco e mais afiado
e capaz, um rapaz.

a narrativa apresenta-se bem, até
é o que é mas pinta-la bem, usted
fazes quê? ré?
pois, não.

tu tututu tu tu tutututu
sendo vilão em sol maior
bem-aventurado pelas andanças
que dizes tão cínicas,
considerações atípicas dos membros do plenário
acho eu, quer dizer, 
talvez faça sentido na vossa casa
assim, agora, no centenário duma causa
justa
em todo o caso
vilão em sol maior
tu tututu tu tu tutututu
tu tututu tu tu tutututu
tu tututu tu tu tutututu
so criminal.

um gajo mau
ou um gajo podre?
lanchinhos em cascais
pra ∞

um gajo tão podre, tão raro
que seja tão óbvio, tão claro
com goticúlas que lhe pulvilham 
o rosto sem esforço
e realçam o pálido
da face magra,
coitado.

tu tututu tu tu tutututu


sexta-feira, 12 de julho de 2024

a colmeia de vidro

estacionado num terminal rumo a lado algum
pelo menos dentro desta cabeça de chapéu
calhau depressa corre dum breu comum
evitando percalços, banhadas com
nenhum safo, de poucos fazendo fel, 
fiel,
um mandarim mal-amado, maltratando um sócio,
vestido de zumbidos baratos e cansados.

tira a cinta e descalça a velhota na cadeira
de rodas, rodeada de fardas e olhares menores 
fazendo-se grandes e fortes,
bigode barato e cansado zumbindo
com o larapio de horas, metade aselha
metade abelha,
esvoaçando por maletas de camponeses
como um jardim de flores metálicas
com as sépalas guardando o que sobra 
da dignidade destes compadres 
que na sua traição penduram
os ofícios dos seus vindouros.

a tentação na janela, fila pronta
bolas de fogo guardam a insegurança do vosso ego
na boa-vinda e nas esteiras
falando de erros e besteiras.
perscrutei à volta, pisei um prego,
vi uma montra
e um sinal proibido. 

quarta-feira, 3 de julho de 2024

tricéfalo+1 (200 poemas!)

eu leio a tua prosa
a toda a hora
e penso nela
a toda a hora
e cada hora
é um poema
cada hora
é uma memória
que perdemos nos ses
e nos ais
e nos mas
e nos tais
momentos que perdem
ou perdemos os dois
por sermos tão longe
e por seres tão...
tão.
por seres tão tão...
isso tudo.

tremi num swing estranho
quando um gajo ficou graúdo
ponteiro que bate num áspero implacável
crescer
é isso,
isso tudo.

já meti este desafio na cara de tantos manos
perguntei sobre moral e sobre saberes que pouco entendo
queria fechar negócio, saber que ia bem
mas a tropa cansou-se, afastou-se
tornou-se memória, meteram-se além.

aqui, aquém
crendo que tento é razão
sentado numa varanda de improviso
equilibrando um cinzeiro na beira
- sem guardo -
lá em baixo seria parte dum poema
de versos sem tempo e estória.

pan-óptico letrado
uma lente desfocada
e cada hora um ai, um se
uma confusa distância que podem ser milhas
meses
ou heranças da alma
com séculos estornando 
estrofes misturadas
de tu
tu 
tu
e tu.
caiu 
- a chamada - 
mais um tapete a penantes.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

tinder tinker sailor hi

olá
cansei da maquilhagem na bio.

direi com clareza e prudência
os sabores que aprazem
e os amigos que sabem
com quem conto e com quem escondo
qual é a build e qual é o monte.

censurar o início
não é claro
hmm

eis ver-me no fumo
escondido nos teus olhos.

serei honesto.

procuro vingar na vida, fazer-me capaz
juntar umas patacas
mudar-me para a aldeia
dançar com os cotas
ouvir sons antigos
dançar com os cotas
tirar o casaco
e lembrar-me de pouco.

a felicidade do pouco
ocupa uma mente
pouco ocupada
como esta.

liguei, estava ocupado. 

com a minha proposta
juntar-me uma senhora
capaz e prudente,
sagaz e indecente.
como cheguei aqui
como chegar aí.

procurei-te na esquina, jorrei convicto
e capaz e imprudente
como um jovem que arrisca
como deve e como pode
inocente e invicto.

suei quando vi o produzido
neste papel de electrões 
zigomáticos rojões
a estourar como o bom ano no espírito 
em forma de à minha frente.

penhorei o céu por um gemido
eu acho 
eu não, mas eu acho. 
teria razão, 
não? 

era um apelo e tornou-se um desabafo
quase sempre igual quando se está igual
ao que se está sempre que precisas de um desabafo
não?

quem dá de comer aos porquinhos?
o plano é esse,
voltando ao tema.
os vizinhos não nos dão de comer 
aos porquinhos.  
convém dois 
não? 

quem dá de comer aos porquinhos?

entendes agora o meu dilema
a jogada que te apresento 
vou dizer mais uma vez:
que canoa se faz de a meio
que gruta começa no ouro
que dança se faz depois do som?
pois dançar com os cotas. 

talvez fuja amiga,
talvez não saiba mesmo mesmo.
talvez não saiba
mesmo mesmo.
hmm.

olá.
cansei da maquilhagem mesmo mesmo.

censurei o início
porque não sei falar
com os olhos.
porque tremo e olho
para bandeirinhas e nuvens
tudo menos
os teus olhos.


o que é isto que eu não sei e ninguém pode saber? 
mente que desafia a morte 
não tolera o doce gentil de uma pessoa melhor?
patético.

assim nem verdade, sem censura.

quem dá de comer aos porquinhos?
quem dá de comer aos porquinhos?
hmm?
são letras e olás 
desesperos na rede 
gritinhos? 
toda a gente está a ver
uma cena triste.

pois eis que serei honesto.
eis que aqui estou, em texto mesmo
mesmo mesmo
um rapaz capaz e prudente
a dizer o que pensa
com a voz que cobre
o que pensa.

olá,
tinder tinker
sailor spy.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

o relógio 
foi um sonho
que bateu
até ao almoço

tempo microscópico
a ordem vem antes da sequência

(fim)

____________

fazes o três com a mão assim
e ela faz o três assim
e eu faço como fariam o zero
sem primos nem pares
impecável.

_______

bater no fundo e fugir
é o que dizem peixes estranhos
mas depois acordei de manhã
e o mundo estava de cabeça para baixo.

tenho que trocar esta playlist.


sábado, 22 de junho de 2024

metem-me medo os tubarões
metem-me medo os tubarões
eles andam em pares
e eles andam em grupos
e eles andam nos mundos
para onde fujo
quando fujo
dos meus medos.

tubarão-martelo perto do prego 
certo do ego, boca que nego
boca que nega
passadas tão óbvias, três vezes que nega
e desvenda na prega
sustento na vida
divina comédia.

metem-me medo os tubarões
quem?
metem-me medo os tubarões
eles rodam em gang, armados
memórias em disco não esquecem
nem choram 
salta-lhes o cheiro
a carne no nada
e eles rodam e rodam e rodam e rodam.

um tubarão chamado augúrio
audaz, capaz,
o outro confissão
que diz
vê-te com quem és 
rapaz,
cruza-te com quem vê,
cruza-te com quem vê e cheira e come.
confissão e augúrio
a terra em farrapos
e eles em pares
e eles em grupos.

metem-me medo os tubarões
metem-me medo os tubarões
metem-me medo os tubarões
falar? 
é suposto mexer?

é suposto mexer?

montarei uma caixa de aço
um salto grande pro fundo
e esse será o meu mundo
e esse será o meu espaço.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

crítica solta

Fazem mais de dez anos desde que partilhei a minha última crítica. Talvez fosse ainda menor de idade. Sabia mais ou menos o mesmo que agora, mas achava que sabia muito mais. Isso revela um pouco como olho para a crítica hoje em dia. Em minha defesa, os críticos nada fizeram para alterar a imagem do gordinho balofo de óculos a odiar pessoas mais talentosas do que ele. Eu nem me vou preocupar em dizer que há excepções etc etc porque, honestamente, ninguém lê estas coisas. Mas resolvi-me a escrever pois se não for aqui, por mim, um pedacinho da Verdade deste mundo vai desaparecer.

Note-se, a minha palavra não é a Verdade. Isso devia ser óbvio. A verdade é que não sei se posso confiar na minha própria posição mental quando se tratam de assuntos de natureza social. Torno-me diplomático por cima da razão e procuro consensos para mitigar atrito. É apenas natural. Talvez este comportamento se torne patológico perante algum episódio mais neurótico ou paranoico, mas aí também encontro muita naturalidade. A mais complexa teia social da História aguenta com todas as bonanças da contemporaneidade, parece até intuitivo que as maquinações da nossa consciência se preocupem mais com a manutenção deste domínio do que com um qualquer deleite visceral em rasgar-lhe a pele e por as cruas mas verdadeiras entranhas cá para fora.

Não, não é com deleito que escrevo. Nem com ódio, nem com curiosidade, nem com interesse. É uma urgência. 

Podemos aldrabar a voz na nossa cabeça tanto quanto quisermos, fechar os olhos com força, doutrinar a mente ativa com ideologia moderna. É inescapável: temos um problema muito grave com a honestidade, todos nós. A Verdade e o nosso entendimento da realidade estão descasados a um nível muito profundo e abstrato.  O resultado, um salve-se quem puder na melhor das hipóteses, ou então um dos mais tiranos e ignorantes exercícios que já experimentamos. Atchim! Em qualquer caso, sinto-nos num escuro profundo, vazio, minado de obstáculos, com braços estendidos palpando o ar às cegas na esperança de esbarrar numa parede que nos dê uma ideia de finito, de forma.

Isto parece tudo pouco claro, mas aplicado em casos práticos creio que se tornará mais evidente. Por isso, a necessidade desta crítica. 

No passado 1º de Maio fui a uma sessão de cinema que celebrava os 50 anos do 25 de Abril, em Almada. Entusiastas da numerologia, calma. Mas assim foi. Doravante não estarei particularmente preocupado com todos os factos, como os nomes certinhos dos filmes e do elenco, porque me preocupo apenas com a Verdade sobre este tema muito concreto. Também não me parece interessante indexar com as palavras-chave apropriadas um texto desta natureza, como se eu fosse um dos "king-makers" à la Público, aprovando ou recusando os filmes como um Senador pesava a vida dum gladiador derrotado. Portanto a minha primeira palavra sobre estes filmes é de encorajamento aos jovens realizadores que fizeram curtas metragens, participaram nelas ou ajudaram os amigos. Qualquer produção artística é um empreendimento movido por dinheiro ou pura vontade, e todos sabemos que dinheiro e jovens... Enfim, isto não é uma crítica social.

Outro assunto que irei evitar sempre que não for pertinente é a componente ideológica/temática das obras. Sendo uma celebração do 25 de Abril, todos os trabalhos derivavam deste tema, partindo sempre dos pressupostos tradicionais do que foi a Revolução, muito em linha com o que aprendemos na escola e na faculdade sobre a data. Como muitos poemas já existem neste blog a ponderar esta questão, não perderei mais tempo com isso. 

Absolvendo-me já com esta nota introdutória, deixem-me explicar um pouco do que se tratava esta sessão. Um velho (dito doutra forma, um realizador experiente) recebeu dinheiro grátis (foi patrocinado com uma verba designada para incentivar a arte e a cultura) dos seus amigos (do departamento cultural do município de Almada). Este senhor delegou então a parte essencial (fazer filmes) para cinco jovens e ocupou-se de coordenar os cinco realizadores escolhidos juntamente com o resto do staff. Na prática, o que vimos foram cerca de duas horas de curtas metragens, separadas por vinhetas escandalosamente kitsch a que chamavam de "micro-fábulas": texto corrido em cima de um pano de fundo que parecia efetivamente um pano (pano, tipo trapo), fonte próxima do comic sans e um voice-over daqueles que aprendemos a não fazer nos clubes de teatro do secundário.  Primeiro, fábulas são animais a falar. As histórias eram pequenos trechos a descrever cenas humanas, pseudo-poéticas, como "a mulher pendurou as chinelas nos ramos da liberdade". Segundo, as intervenções apareciam como intervalos entre os filmes, e quase todo o público (correctamente) usava estes momentos para trocar uma ideia ou mandar uma mensagem. Era como se na Balada de Buster Scruggs as curtas fossem separadas por cinco minutos de citações e reflexões sobre a guerra civil. Quebra o ritmo e as pernas ao filme que vem a seguir, encaixota-os antes da primeira cena. 

O terceiro ponto não está totalmente relacionado com estes separadores, mas sim com a sua apresentação. Antes da sessão começar, o realizador muito experiente fez um "pequeno" monólogo. Apresentou o filme, detalhando o conceito, as temáticas abordadas, a metodologia que ele empregou, o objectivo dos trabalhos... Assim que ouvi a expressão "cadáver esquisito" em francês fiquei a saber que estávamos a lidar com um professorzinho e não com um artista. Pobres realizadores! O grande porteiro cultural a fazer do talento circo de variedades, numa sala grande e digna como aquela. Serei ingrato por achar que seria tão mais fácil simplesmente dividir os recursos em 5 e deixar a malta fazer filmes? Os jovens realizadores aqui cumpriram muito bem o seu papel e mais ou menos ignoraram o tema. Por muito que os "poemas" tentassem puxar a gravidade para as árvores antigas e os cravos pensativos, os filmes foram para ficção cientifica e contemplações íntimas de pessoas bem reais. Houve excepções, mas na maior parte dos casos foram bem mais longe do que "Os 50 Anos do 25 da Brile" TM que nos foi empurrado garganta abaixo com os interlúdios penxativos e a auto-crítica ao início.  

Gostava de passar aos filmes, mas infelizmente houve mais palha. No inicio e no fim da sessão tivemos uma saraivada de entrevistas estilo "talking heads" clássicas. A ideia foi no inicio ter os idosos da altura da revolução e no fim os jovens e as crianças, que viveram distantes do sucedido. Como o tema sugeria, perguntavam às pessoas o que eles entendiam por "palavra", i.e. "liberdade", "democracia", "veludilho" (okay, esta talvez não). Para alem da parolice que mais parecia saída dum programa da Fátima Lopes, aquilo produziu em mim uns quantos efeitos frustrantes e aposto que não-propositados. Falando das partes boas, admito que tem a sua graça observar algumas expressões mais cândidas da população. Do povo certamente podem sair as melhores virtudes e lições. Mas compete ao realizador capturar a essência da coisa ao invés de pô-la simplesmente entre a parede e o boom-mic. Mais um ponto positivo: é sempre agradável ver crianças agir naturalmente. Imprime um certo optimismo saber que ainda se pula e se anda de baloiço na nossa margem. 

Como se percebe, esta é uma crítica ao evento e não aos filmes. O trabalho dos jovens artistas (estes sim dignos do título) foi esforçado e digno, especialmente tendo em conta a notável limitação no budget. Das cinco obras, gostei sinceramente de duas. Uma delas abordava o tema na óptica dum espaço industrial abandonado, os antigos estaleiros da Lisnave. Ex-trabalhadores sobrepunham os sonhos idealistas da revolução com o desfecho decadentista do seu passado ofício: uma carcaça abandonada, estacionada à margem sul, o chão comido por destroços e lixo. Ouviam-se os passos dos protagonistas, que enquanto contavam o seu passado, estilhaçavam o vidro no chão. A fotografia era bela e fazia bom uso da amplitude e da ambiência do estaleiro e do seu exterior. Sou parcial, pois gosto desta sensibilidade do espaço como um interveniente, mas é inegável que esta curta estava milhas à frente de qualquer conceito que o dinamizador desta sessão tinha na sua cabecinha antiquada. 

O outro filme que se destacou tinha uma abordagem quase confessional, e pouco ou nada quis saber do raio da caixinha onde se inseria. Focava-se numa íntima exposição duma personagem feminina em diálogo com um antepassado, a iluminar-lhe o caminho perante as ansiedades da vida contemporânea. A imagem era cândida, muitas vezes filmada com a camera do telefone. À exploração em POV de espaços urbanos e noturnos sobrepunham-se visões nítidas do espaço natural, do mar, do céu, das rochas, pontos imagéticos que serviam de pilar para uma mensagem assumidamente optimista e sábia, como se a natureza se apresentasse como um bastião de segurança intemporal perante estas afrontas aos espírito tão presentes e quase inéditas. O voice-over, aqui bem feito, registava uma pequena nota de advertência, de zelo. No fundo, uma demonstração de amor intergeracional que serve como uma bússola num 2024 filosoficamente materialista, difícil de navegar com a alma. Para além da mensagem cuidada e, acima de tudo, genuína, nota-se também a preocupação da realizadora em manter uma estética contemporânea, inteligente e pessoal.  

Não falarei muito sobre os outros 3 filmes. Foram exercícios interessantes e certamente uma boa base para uma aventura mais bem estruturada. Não era fácil escapar da redoma miserável onde eles foram postos. Criticar de forma áspera o esforço destes amigos compete aos seus amigos, não a um blogueiro anónimo no canto refundido da internet. Não posso, é ingrato para eles e mesquinho para mim. Mas encher um texto de brasas, queimar o organizador da sessão? Isso sim, tanto posso que o fiz mesmo!

Dedico esta experiência aos poucos gatekeepers que percebem que o seu papel é criar espaços onde a arte floresça, não impor circuitos radiantes com a sua cara no centro. Capiche, sr. velho de Almada? Já chega de roubar palmas aos jovens. Já chega de instrumentalizar a história para render carreiras ao invés da arte.