quinta-feira, 13 de novembro de 2025

quadras por dezembro

os anjos no caminho do parque
dançando à volta da cidade
entre as folhas das árvores
aquelas que te faziam alergia.

são brancos como a neve
noutros lados mais altos
e são translúcidos por dentro
mas que natal tão secular.

pessoas pastam nas calçadas
olham para baixo conformadas
espreitam os reflexos nas montras
de clínicas que só sanam carapaças.

cheira a pão e frituras
depois a fumo e castanhas
na noite perfumes, casacos
e por fim a fumo novamente.

o oculista tem umas luzes
pontuando mais um ponto
e brilhando sem fronteiras 
esbatendo a percepção.

venha a ginja, mão erguida
pelos que estão de partida
por muitos anos de vida
pela memória imbuída.

um abraço a todos e boas festas do barreiro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

passageiro

essa adolescente forma que assumes
quando caem os panos e é a sombra
dum canto recôndito que faz de vera
vera vera vérité, visível e reconhecida
dos que testam e tentam, arrisco
um tento desse V
grande e descomprometido V
gra-an-an-de
assumiste, vestiste, foste, exprimido
e sem palavras, o perfil do ideal
contra luzes difusas de postes
mal estacionados, manos no parque
fumegam das janelas, é fácil perceber.

assim que topas e topas, como quem sabe
ai, ei-los, em duplas, em plena noite
falam, são quem são
é difícil ser-se mais lindo que um
par honesto parado num canto.

mas sou um gajo
gaja.

mas sou um mano
mana.

e a seda pálida foi um palco,
um cénico espanto que diria
eis
digna e jovem, eterna 
sem percalços fraterna, um rasgo honesto
duma mana, mano
d'alguém da vida, e é alguém
mano
os filmes vivem sobretudo nestas pavimentadas
a contragosto passeatas
o cristalizar do instante
mana
mas eu sou um gajo
mana
peço que te lembres desse real
carnívoro
animal e carcomido de fome e querenças
mana
ciente, presente
como todos.

há dúvidas - naturalmente
pisados pelo castigo dos contos não existirem
e o cínico, os ascos da nossa volição
constantemente insistem em oscilar entre
um sonho
um sono
um apreço pela simpática
bondade de ser ou estar
presente.

fugaz ser-se um...
filho - comandado
uma pergunta:
pai do seu verso
pai do querer honesto
desdém pela fácil forma como
dilatam essa cura, curva
apertada
volvendo-se nos seus poros e pêlos
de expressar o que não conta
os códigos - tão fáceis
lábios trancados
desafiando o verbo entre pontes
que cruzar seria
tirar a magia.

porque eu sou um gajo
mana
nos meus sonhos
somos um
nunca seria, nunca creria. 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

gládio: fachada e vislumbre

clarks na mesa. castanho no branco
os óculos mais a hora, acessórios 
por quem me tomas.

soberanos contornos estampados na farda
do leite materno ao leito que expira.
fecundidade, predileto alvo nos peitos dos homens
predadores a monte, predadores a norte
predadores que rasgam os trevos da sorte.

conflito por um adorno trocado
trocadilho trocado
muito bem, que engraçado.

pouco mais é que um passeio por pertences
aqueles por quem me tomas
teimarei tantas vezes
em subtrair-me no lar.

isento e nu
mestre ancião
coberto de tinta
deitado no chão.

ira contra o oponente!

faz-se a máscara armadura
os sapatos batidos, o relógio folgado
cobre-se a vista de riscos dentados
segue:
o embate, gáudio golias
contra o incauto autor
palavreado manso e tirano
mano-a-mano.

temo, treme o disfarce
humano por dentro
e não uma bruta besta errante das caves.

volta por fora

rodam rodam na rotunda
a toda a hora em toda a parte
ela nunca se mexe
nem eu
nem os dias desta gente.

melindra
vendo os olhos na via
é periferia - vai a vida
vagando vertebrada
uma voz viúva 
volta à rotina.

vestes a verme forma
da vaidade.

olhos na estrada
roda roda como um vórtice
na cidade.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

chuva dourada nos investigadores

calçado, pousado no corrimão
que nunca serviu de apoio
porque são só um par de degraus rasos
e tresanda a mijo porque o canto
é perfeito para um mijo tímido
quando é de noite e ninguém se lembra
da tua vontade de mijar.

fluí a vila pela uretra
amarela do alcatrão e das beatas
no chão.

oh mijão!
ele tá a mijar?

faltou-lhe o ar
foi ao chão
com a mão do dever da violência
legítima, dirão,
diriam, que digam
eu não.

devir, então que seja
uma brecha que se veja
transpõe e almeja:
transgressivo saber de fechar a matraca.

ignorante presença a dita
senciência que te verga
a humildade e, de verdade,
mascara a timidez com grandiosos
sonhos de inteligência. 

enfermos e contidos
sem termos convido-os
aos tentos da vida amada
prudente boca calada
vários são os segredos
bem mantidos.

volta para a copa
sem medos ~~ sem cobras
meu tropa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

o veredicto das penas

por fim o canto das gaivotas.
espreita, a plumagem já diz
o outono chegou.

de matéria conterrânea ao fruto do trabalho, uma janela transatlântica

fortuna equilibrada numa linha
saltando plataformas verdes, magrinhas
compactada numa caixa - noutra caixa
pediu uns dias de baixa mesmo a tempo
e roda com o mundo:

nos títulos de grandes editoriais
nomes são coisas, pessoas animais
a rã, o escorpião, o caga-luz na alvorada
obeliscos e rotundas, talvez mais obras na estrada
um escuro pano de fundo, naufragam espólios
algures, algures.

treme a linha, expira
um arrítmico palpitar
um vagar extenuado por essas formas
do globo composto por várias janelas.

mira - os olhos na taça
o ar dum suspiro final
normas de bom cidadão
mazelas da coabitação.

roda, o céu faz-se claro
não toma notas
ouve o som do trânsito cruzando a avenida
olhos vermelhos repousam em bossas roxas cansadas
por um cão que morre, e faz-se luto
famosos de nome e de cara penam, faz-se a luta
considera e se informa, seca as mãos
no jornal.

a linha a linha a linha
sobe e desce e sobe e desce
um sismo grosseiro
interrompe-te o turno.

babel em toda a parte
salve-se a fortuna dos desígnios
da linha e do traço.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

antibiótico

uma terapêutica pigarra
reclama do fumo
guarda o silêncio.

canta adiante, camarada
assobia uma canção
traqueja no pousio.

domingo, 28 de setembro de 2025

voto de silêncio domingueiro

calmo e indiferente, dia neutral:
foi assim que anotei esta minha última
folga.
a tarde tranquila, a neurose contida
cheira menos a tabaco, anoitece mais cedo
é o único sítio onde não importam as cores,
aqui - escondido do mundo
num descanso partilhado e merecido por ambos.

silêncio desinspirado, palco perfeito
para encenar as memórias em espaço seguro
o baixo contraste cinzento e amarelo
dá um brilho arrastado às primazias do espírito.
como foi? por onde passa o dedo inquisitivo?
sim, imaterial desejo, és tu
no banco dos réus
um processo sem júri ou juiz
só um pau trespassado por um prego
que anuncia a sentença quando bate na carne.

paga-se o crime com sangue
a vaidade com tempo
língua dobrada e o preço do medo
vazio, estúpido e glutão.

se o amor e a verdade são uma só
frequência originária, de passo certo,
então aqui neste meu limbo arrendado
espreita-se da janela enquanto cruzam a avenida
nem assombrado nem ansioso
impávido ouvindo o roncar de carros velhos
quebro o sigilo proclamando a questão:
onde estarão
nestas caixinhas iluminadas que pontilham 
o horizonte?

o eco responde com palavras soltas
que só se ouvem no espírito:
encontrar o Pai,
lavar a alma
e tornarmo-nos um.

imateriais desejos
estão perdoados
autor
renova a vontade com a voz humilde
deixa que o mistério incorporar-se-á quando
for a hora, quando for de noite
tudo será memória, que vestirás com carinho.
a pena é a essência dos seres
noutra palavra, natureza.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

aristogatos doutorados

é um principio vazio, esse do eu.

"eu", alguma coisa que desabrocha
contorce-se pelos rugidos bravos
de leões famintos e raivosos
ou o raio que o parta.
tá.
arrisco que sejam mais gatos lambidos
passeando a verbose nas línguas cortadas
em escrivaninhas maciças e desocupadas
não vá o instinto aventurar um trespasse
às tarefas diárias de arrochar ou ciar.
miau, o esplendoroso despertar da consciência
miau, ele dorme nas caixas que adorna de rótulos
miau, são espelhos cromáticos que adoram o sol
as redomas que travam um querer supetão
um rasgo liberto com os dentes no chão.

dessas crias soturna só mesmo a pelagem
que esvoaça no bafo duma voz papagaia
repetem os nomes remetem aos temas
sabido é dizer que se penteiam neles
puxando dos lados revelam a testa
mais o crânio velado de dentes caninos.

II
há dois sem partida? sim

III
é que as partes tornam as dores mais fortes
o sensível mais fundo, a dureza mais dura
a estrutura comanda e a estrutura expõe
o apreço tão sábio dos fortuitos legados
esses ficam pegados à lomba e aos mil
desígnios que guardam para falar de foda
a estética forma de vestir com vernáculo
desabafos rendidos ao querer ancestral.
esta vírgula é um brinco
vírgula
a outra é um chapéu
traço
esse fica nos cílios, agarrado às ramelas
penduricalho nos pêlos à volta do olho.

como passa vaidoso o senhor desta selva
coroado por normas da escola de chicago!

miau miau
faz-se de alcoólatra
foi ao terapeuta
bebeu uma jola
ó filho de baco
atrasou-se um bocado
esqueceu o cachimbo
do filtro moderno 
protege os pulmões
decora os sermões!
sem ar não há voz
sem voz o rugido
se afoga em catarro
e ficaria despido.

miau miau
copo dourado que comanda a boémia
burguesa vontade da fuga de classe
esquece essas bestas que vivem no tasco
derrete-lhes a vista uma bibliografia.

mas o ouro pôs-se omisso
assobiou uma cantiga esquisita
sem instrumentista
a melodia era bela
mas os seus ouvidos de gato
não entendem a prosa
de um passeriforme. 

V
4 perdido, quartos trocados.

desculpe mas o meu cupão diz
que este é meu e não teu... 
sabes ler não sabes?
tá.
podes vir já que eu não trouxe bagagem.

VI
no alto da lua, minha musa, lúgubre e sã!
fita o teu reino de tinta da china
vê o vaza-barris, guardião do espólio
cantando o porteiro aos teus pretendentes
os algarismos casados que não os poetas
os poetas castrados batendo punhetas.
hã?
os algarismos cansados que não são poetas
os ilustres letrados pousando as lunetas.
(perdão).

miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau!
miau miau miau miau miau.

miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau.
miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau.

miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau,
miau miau miau miau miau.

miau miau miau miau miau,
miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau!

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

miasmas

dois lixos, dois baldes
o grande
onde vai o podre
do que fica por fazer
e o pequeno
a argamassa dos
lenços sujos com cinzas.

fazem as beatas de larvas
famintas
crescem lá no fundo
caixas de cartão o seu casulo.
chegará a hora
da metamorfose
e todos seremos
repulsivas borboletas.

domingo, 21 de setembro de 2025

os dentes

os meus dentes parecem tão frágeis
quando os sinto na ponta dos dedos
o tacto dum homem
grande - grande
homem
da guerra, que trinca
os ossos tépidos
de carcaças cunhadas pelas presas
de seres maiores
meu homem, meu homem
algures virão 
pelo mundo
as unhas, os dentes
as botas que bates
serão o fim
de alguém.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

trotineta

trotineta com vagar pela avenida
vê as vistas, os cães puxando as trelas
de senhorinhas viúvas que já só amam
animais e revistas de fofocas,
os pombos e os melros, mais ariscos,
o reflexo da costa que adorna
a água poluída, para tainhas 
e a populaça corajosa,
homens de chapéu com as suas canas
içadas lá ao longe onde os raios
pescam com eles.

jovens de preto e branco em bando
ziguezagueiam na calçada com os seus
sincopados passos
e os sonoros severos
duma atitude que não lhes cabe na camisa
larga que os cobre até aos joelhos.
um fulano de bigode e uns óculos quadrados
segue atrás meio aos gritos,
uma conversa zangada que atazana
a vizinhança, corta os roncos
das motas e o pulsar dum pistão elétrico
o plástico aos chocalhos, um zumbido
de poste em poste
de poste em poste.

sobe uma rua esburacada 
não cai, mas treme,
vê-se na vitrine duma loja fechada:
um semblante aforme por baixo
duma carapaça de tecido.
endireita-se, espreita, faz-se rijo
contornando os obstáculos
não tem hora de chegada
não tem compromisso que o preocupe
só segue trotinetando
por esse seu barreiro velho
até que os minutos se esgotem.
de quem?
ou os dele 
ou os da trotineta.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

fica escrito um ano novo

mesmo que eu fique por aqui
mesmo que não reste uma memória
da pessoa que por sua sombra
me dê um qualquer tipo de nome
fique nobre, ralé, cego, enfermo, sem termo,
e o meu caro se perca 
ou se encontre, feliz e com um vigor
daqueles que nunca vi quando 
as ruas eram as nossas donzelas fortunas
quando havia um homem e um assobio
umas palavras doces que dão força
fé
alguma vontade que diga
amor verdadeiro
paisagem doce e dourada
quando tudo voar com o fumo
duma ampulheta grave e baça
mesmo assim
lembrar-me-ei duma escolha justa
quando demos as mãos
em silêncio, pelo menos
tanto quanto posso:
tu no veneno, prestes a explodir,
e algures numa rua que dava
para a igreja
ouvimos a chuva, o filho dos olhos
azuis.
sabíamos sim, um dia a chuva
cairá
pois somos tudo,
persiste-se assim
sendo nada.

dizias coisas
como mérito e justiça
que tontice
disse eu
a música tomou o lugar
das palavras baratas
o ano seguiu mais um passo
não houve um festejo
nem panelas, nem fogos
ouvimos a voz
de lobisomens e cães
o poeta 
a guitarra
um carro velho enguiçado
e a chuva
lá fora
cá dentro, num rosto pálido,
dois.

fizemos uma corrida
dormiste, brincaste
e mesmo que o mundo
me coma por dentro
por fora
ou por quem me tomas
nunca isso 
volta atrás.

nunca se perde um segundo
tá tudo bem
não pensemos mais nisso.

conto rapace

uma carcaça tende
a centrar muitas atenções...
é tão rica, já ali
pronta e sem esforço
uma bênção, bem,
talvez não para o coitado
que a carregou em vida.

seres menores, rastejantes
roedores, aspirantes,
as crias de um grande tirano
os cangaceiros nos seus bandos
uma presa faminta e sem escolha
comendo por igual
o sol quente e o chão seco.
as moscas cortam o silêncio astuto
de uma fauna cautelosa.

havendo corpo, há ciclo.
pergunto:
que amparo tem um ciclo
com as línguas nas veias
mais os dentes nos ossos 
e as larvas nas costas 
e as garras de fora? 
os olhos descrevem
o horizonte rolando, vai-se enchendo de pó
faz um energético lanche.

há o controlo em equipa
e a força da besta
de quando em quando só o grito 
supera o peso dos números
ou o tamanho dos músculos
ou o influir da cultura.

barulho
sedimentos
adrenalina
a energia constante
é uma atração para todos.

pergunto:
há camaradagem aqui?
não. 

famílias, colegas:
o amoral imperativo
do bem-estar e bem-fazer.

a carne desperta mas não traz piedade
a vontade comanda mas não traz piedade
a competitividade esgota a piedade
numa savana - que inútil
aqui e agora...
também não traz piedade.