quarta-feira, 14 de agosto de 2024
PESSOA
jogos olímpicos
acende antes da razão
como uma tocha em movimento
correndo toda uma nação.
pássaros sentem solidão
castores dormem em leito feito
macaco sabe ser ladrão.
e fazemos todos meio igual
no que difere o homem
do teu clássico animal?
é uma ideia que não passa,
é a busca pela Graça
ou a estafa duma caça.
o supor. o louvor.
o suor.
terça-feira, 13 de agosto de 2024
o pombo
uma mirando a paisagem de cima
pequeno posto de vigia
invisível aos nossos olhos
ignorantes
que confundem ex-amigos
com outros mais raros, os ariscos
que não se deixaram enganar.
o pequeno jardim que circundava
o cafézinho onde eu estava.
iam elas saltitando ágeis, vocal gentil,
notas agudas pela brisa
e o chefinho do alto
a passar as coordenadas.
e saquei-lhes uma fotografia
mas na típica brutalidade primata
que me ata a este corpo
afugentei sem surpresas o trio
e na imagem só verde, lixo e sujo.
pronto e prestes a voltar para a redoma de fumo,
surge o pombo, o ex-amigo,
e pousa junto à minha mesa, quase como se soubesse
que em mim guardo toda a culpa da nossa espécie.
olhou-me com o meu olho, o único,
como se soubesse.
reparei que as mainás fitavam do topo do prédio ao lado
atentas, talvez curiosas,
talvez perdoando com a Verdade entre as penas,
como se soubessem.
o pombo, junto às minhas pernas,
coxeando levemente
enquanto ciscava as brechas no granito
percebeu que o contemplava
e olhou-me novamente nos olhos
com uma ternura tão injusta
que me partiu o coração
e eu comecei a chorar
atrás dos óculos escuros.
meio entorpecido
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
segunda-feira, 12 de agosto de 2024
suplemento ou metadona
sin, sim, metido como a mentira
entre a língua e a gengiva, omisso
uma lomba no bigode que pica
como um tumor aparente
se a vista for peregrina
ou de rapina.
pois assimilas na alma as cicatrizes
que criaste para esse aspecto duro
de impressionar meretrizes com orgulho,
win, é preciso às vezes
mas mais na alma que nos dentes.
divago, entre campos, como sempre.
engolidos à força com esforço,
adorno que pesa no espírito
trocando a Graça por graça
fritando lentamente a massa
cinzenta
como uma folha em branco reciclada.
terça-feira, 6 de agosto de 2024
uuuuh! na chuva, em língua estranha
cego por teu vislumbre
encantando, quem és?
o teu nome?
vestido liso, leve, que promessa
que sois. entregue aos andares
do teu passo que nem sei
culpo o nei, coitado,
e sonho contigo.
hmm.
passos de dança, líquido
esquecer é substância.
luta contra um verso,
tudo o mesmo
com o medo que escrevo
mas distante nada temo.
sabe lá, sabes lá.
saber ao que se vai,
o que se quer, ao que se arrisca
um plano claro e amplo como o céu
posto nos teus olhos.
quadrados mais reais o que vi
em planos térreos e certos
táteis como o chão e o pão e um não
escondido no silêncio e algures aqui.
trato artesão, de autor
só tu linha reta
entre agora e o querer
e entre saber e querer.
certo, como nunca
e incerto, como sempre.
cigarros sensações francesas
de corcel preparado muito acima do meu bode,
da minha ride e do meu bote,
como um filme que te ensina a ser
e a sonhar e a crer.
nunca seria um dean
óbvio,
mas há tanto dean neste plano
tanto dean meio zarolho e mundano,
tanta distância em um poema...
mano
acende.
parte dois para nós
sonho grande largo e arrojado
filhos da serra e do sado
um momento educado, prefeito
como um chefe doutra nação
atrás no sítio e no tempo.
falhou-te o vislumbre
e o sábio saber do teu instinto?
um sonho russo ilustrado,
bem sei, é difícil crer.
o mesmo som. volume igual e
puxa tudo, sem frequência que o absolva.
o fim posto, todos sabem,
tu sabes,
então é um negativo inútil.
assim vou maquinando a narrativa
pondo folgas em trincas presas
que eu sei ou creio ou quero
que sigam soltas e frouxas.
caem-te as plumas e a frágil idade,
optimista, penso eu,
se for mais sábio saberei mais,
penso eu.
tantos o fizeram
tantos o farão.
espero.
ao sol, sensibilidade que sei tanto
e tão bem
o humilde toque e o não-saber
frustrado, cansado,
esforçado em crescer,
bem capaz,
uma senhora.
meta-meta como quem és e como quem sois.
atreve-te a usar nome, malandro
debaixo da luz e debaixo do pranto
tapado encarcerado em décadas
passadas e cansadas.
simples e não recíprocas
interruptor que não te atreves
a acender.
tão fácil: oi
desiste agora,
há um futuro tão largo aqui.
interruptor que não te atreves.
pois.
quão profundo o querer?
claro que não.
contudo
nos sonhos, de olhos abertos,
segredos expostos, pecados tratados,
vale tudo?
pensa bem.
pois,
acho que sim.
e embrionário aqui fica
sobre nós e sobre vós,
na superfície. mistura-se bem
com o que quero e o que acho
sobre ti.
nunca saberias e sabendo
nunca admitirias.
sol posto que me fita
azul como nunca foi.
quinta-feira, 1 de agosto de 2024
entrecampos
lembrei-me de ti e dos nossos bons tempos
com a fita fazendo de trela, aventurando-se pelas andanças capitais,
hoje concretamente, como tu
também me encontro algures entre campos.
fotogramas estilosos, talvez a tua essência
céu azul, tu azul, verde por dentro,
promessas de um outono doce.
de memórias do campo grande, da escola de 17
feito num oito, encarnado invertido
esboços de um sorriso pendurado no casco de um barril.
e isso faz-me feliz.
que bom saber que confiam em mim
tão próximo, neles confio. estão a transitar
de um campo para o outro.
o meu passarinho azul inveja e pia
e o eco do cristal ressoa-me pelo espírito,
só ele sabe.
ternamente a lembrar-me de um auge passado
considerando seguir os meus amigos plumados
como um ímpeto da vontade
debaixo da mesa maquinando uma ideia
que compete mais acima do que letras.
no vale do agora vejo de baixo
debaixo da sombra das nuvens e de árvores centenárias
que sombreiam lá do alto dos dois campos.
é um fumo pesado, espalhando-se no chão cérceo
ao nível da vista.
o vento assobia no vale, os pinhões vão caindo
aos estouros, uma urgência ou apenas
o eterno prenúncio do maduro.
é hora de escolher.
campo grande, pela glória
entrecampos, até sempre.
segunda-feira, 29 de julho de 2024
no game november
quando estás perto da última forma, de um boss final
a tua roupagem é a mais rara, os itens imprescindíveis,
só a poção máxima e mais forte serve.
a música fica mais tensa, as sombras ocupam-se do mapa
e encontras-te num corredor pomposo e texturado
porta trancada na retaguarda, só caminho adiante.
o propósito de toda a jorna
aquilo a que chamam clímax
ou atividades de substituição (existencial)
dependendo de que lado da cela se pensa.
reparas num transeunte atípico, em contramão
suspendes a descrença pois sabes onde estamos.
planeado, jogador preparado
espada e escudo, uma sombra de leste
esperando correr as letras miudinhas.
pinturas de artificio cobrem o negro que os vitrais escondem.
começa a cena e não acaba o jogo,
como? chamam-lhe pós-final.
mete mais um crédito e volta a tentar.
sexta-feira, 26 de julho de 2024
sequóia e um homem-animal
com a facilidade típica dum ente experiente
fitando-nos formigas efémeras, rodando impertinente
e com ares de importância.
guarda o caminho a cruz
nas costas e adiante, cobrindo o largo do percurso
que persistimos com raízes
ligeiras, na superfície.
dos meus amigos milenares
esqueço-me que ares respiro,
por isso pousei a boina num ramo
e dediquei-a ao Senhor. mas esqueci-me.
sem testemunhas, sem ser o Próprio,
guardando-a em segredo numa casca da Sua idade,
eis um saber que transita da alma
e escapa na mata.
acendida no instinto de guardar uma vista
ou assombrar o grotesco.
o corpo feito num tronco
adormeces.
amanhã estarás de volta a bosques mais familiares,
apartado do juízo, entregue à adolescência
do sintético que te cobre o jazigo.
quarta-feira, 24 de julho de 2024
trato / a imagem / a sombra
o que não, quiçá se faça ou quiçá desista
abdicando de pretensões de estética
no domínio da sua realização.
palpitam-se nas menções
a malvada regra aritmética
que até nas contas do seu desígnio
expressa senhor e servente
pela fita das juízas, segundos com milénios,
e o resto da cavalaria do estamos a tentar.
atento ao suposto
perdido por momentos.
serenos, montadores ativos se debruçam
nos contos sem tento
do terço incolor
mostrando com o peito cheio de gosto
as magias do esforço e da dor.
a causa primordial
eu cansado, imaginem,
tentando ir além do bem e do mal.
terça-feira, 23 de julho de 2024
observação mercenária.
torna a manhã a apresentar-se, às vezes um castigo
segunda-feira, 22 de julho de 2024
um tapete a penantes é um pássaro morto e espezinhado no chão, dizimado pelo trânsito da gente que o pôs a viver naquele sítio, que, tratando o evento de forma totalmente indiferente, age como se nada fosse.
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como saberia categorizar espécies?
delego a quem sabe ou ao tempo
se ninguém sabe.
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retilíneo, grafia antiga
perdi o momento e o resto de um beijo.
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certo dos perigos
arisco ou arrisco?
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e há dias, meses,
gastos no inventário vencem ao geist.
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quarta-feira, 17 de julho de 2024
não porque sabe mais,
nem porque tem talento
com ensinar ou educar
só sabe dizer o suposto a horas certas,
e as impressionantes mentes absorvem o escarrar
duma consciência veloz
que não se atreve a ser boa
porque tem medo e passou frio.
desculpa de merda.
do malandro que se prega capaz,
um rapaz, mas se afiambra
sem espécie nem género
da conveniência predileta
que para tantos é luxo
e para outros desperdício.
queria mesmo que fosse livre.
subir custa,
custa o ego e tempo
mas recuperas no purgatório,
sem pressas.
sem pressa.
nanananananana nanana nana.
(mana)
essas convicções fortes?
tem poder
mas...
e essas convicções fortes?
tá liberto do desejo
e... as convicções fortes?
hmm
nanananananana nanana nana!
nanananananana nanana nana!
nanananananana nanana nana!
nanananananana nanana nana!
e estrofes
teehee
a sério, falando honesto e despido da estrutura fácil de esconder coisas entre versos e estrofes, eis uma descrição correcta do que se está a passar: são oito e dez (notem, até nas horas!). o espírito está estupidamente energizado do cocktail sagrado (alcool destilado seja como for + mendigos e altivos). uma coluna chunga tão velha como este blog toca a mesma playlist de sempre: um misto de personagens, que variam no gosto musical mas regressam com frequência aos mesmos ciclos e sons. uma paisagem que já teve sol por hoje, mas agora esconde-se na privacidade duma renda algures. sempre de olho na janela, vendo-os (vendo-vos?) a desenvolver a sua história, o seu conto. os passarinhos doces que aprazem sensibilidades incompreensíveis adornam a vista. uma ventoinha mecânica abafa janela fora os ares parados da memória e do escapismo, e voltas a bater tecla.
~um poema.
uma confissão,
um mistério.
um professor destinado
a engarnar-se que sabe o que não faz.
terça-feira, 16 de julho de 2024
para depois do sol maior
sexta-feira, 12 de julho de 2024
a colmeia de vidro
pelo menos dentro desta cabeça de chapéu
calhau depressa corre dum breu comum
evitando percalços, banhadas com
nenhum safo, de poucos fazendo fel,
fiel,
um mandarim mal-amado, maltratando um sócio,
vestido de zumbidos baratos e cansados.
de rodas, rodeada de fardas e olhares menores
fazendo-se grandes e fortes,
bigode barato e cansado zumbindo
com o larapio de horas, metade aselha
metade abelha,
esvoaçando por maletas de camponeses
como um jardim de flores metálicas
com as sépalas guardando o que sobra
da dignidade destes compadres
que na sua traição penduram
os ofícios dos seus vindouros.
bolas de fogo guardam a insegurança do vosso ego
na boa-vinda e nas esteiras
falando de erros e besteiras.
perscrutei à volta, pisei um prego,
vi uma montra
e um sinal proibido.