segunda-feira, 14 de outubro de 2024

eia que estourou o cano novamente

mais uma obra nesta rua
um remendo ao serviço mal resolvido
da semana passada. estouraram os canos
e com um chuvisco ligeiro o quarteirão 
ficou uma lagoa castanha, até aos tornozelos.
o primeiro dia passou e deixaram a poça secar
e hoje resolveram finalmente intervir. 
os velhotes do bairro agradecem o espetáculo grátis
e circundam o buraco que os funcionários da câmara
fizeram mesmo à frente da minha casa. vejo-os da janela,
os bonés sujos de tinta misturados num mar de lama
e cabeças grisalhas. 
já la vão quase 12 horas e ainda ouço as máquinas
brrrr brrrr brrr - escavando e transportando terra
de um lado para o outro. 
parece que o arranjo não é final, só um refeito
no remendo anterior, desta vez conforme o que deveria ter sido.

infelizmente para mim, e para si leitor,
neste bairro não vejo as putas na beira da estrada
nem vejo o crime violento de perto, nem tiros
e as escassas sirenes fugindo do trânsito
são muitas vezes para acudir uma idosa solitária
e não mirabolantes perseguições à hollywood.
aqui não moram carros rápidos nem palmeiras
cobrindo a costa em recortes cénicos
nem atores ou ministros, pessoas públicas de
"respeito".
não é subúrbio nem é metrópole, 
a classe média não morre de tédio
os pobres não moram nos pátios.
só um bairro assim, assim-assim
velho e devagar, adultos cansados
e um comércio local dos tempos da expo,
as crianças jogam descalças em campos
sujos mas gradeados. a bebida faz mais vítimas
do que o crack. armas nem em sonhos. 
vemos os buracos no chão
e os enguiçados procedimentos da junta
a descobrir o asfalto
que cobre esta terra cansada.

domingo, 13 de outubro de 2024

qual é o logro?
tenho plantas mortas no jardim
os planos que fiz, uma grande estufa
uma hortinha diversa e composta
em cada raiz a resposta
dos enigmas que fome traz.
o esforço e a disciplina
a rega persistente, preparada 
com rigor em tábuas de cálculo
as flores, as calorias e as ervinhas miúdas.
parecia tudo um grande encanto
persistindo nas jornas em canto brando
um assobio suave que se mistura
com o piar dos primos plumados
que se sentam nos galhos da cerca viva.
parecer não é ser
e nenhum dos legumes brotou
e as flores negaram-se a pôr cor
nas suas pétalas, que só apodreciam
em caules magrinhos.
o dia das plantas mortas.
não há rega que salve um corpo
furado, considerei uma queimada
mas temo pela cerca
que dá forma ao quintal.
terei que medir, uma a uma
de joelhos na terra com uma lupa
e assim farei, cobrindo a fuça
com a mão ao alto, testando
o equilíbrio em dificuldade desde novo
como as folhas que tombam com o peso
para o lado, quebrando aquilo que a nutre.
é uma coima do mau presságio
ou do mau ofício, trabalho mal feito.

resta um campo doente
e uma estrutura em vidro
vazia, que arrelia o tento
em torna-la numa chuva de cacos,
diamantes afiados eutanasiando
os suplícios do pasto, amarelo e de gravilha.


resolvido em acordo e consenso

assinemos um acordo a três tempos
cobrindo as promessas a curto, médio
e longo termo, as causas da discórdia
resolvidas em trâmites legalistas mui oficiosos
e jurisprudentes na cartilha de responsáveis.
das partes, multilaterais em mesa posta
um andar com janelas sem cortinas
que escondam observadores de causa neutra
a estirpe passiva.

toca a campainha do escritório
toca novamente pelas madeiras antigas
e a louça de oferta de tratados do passado.
toca uma terceira vez, impaciente
homens grisalhos sobem as escadas que guincham
com as passadas da trupe do direito,
sapateando em couro e graxa pelos séculos
desta casa disfarçada entre as outras.

entram quatro homens, o sr. procurador
descalçou-se à porta, sente-se capitão
e sentou-se na poltrona mais perto do bar
serviu-se um cocktail e apressou o jantar
os secretários permaneceram em pé
guardando as portas com malinhas
também em couro e graxa, mas escuras
e vincadas. cheira a tabaco e a velho.
discutiremos o futuro, disse um deles
e escrevinhou a data e o número da ata
no canto de um bloco com papel químico
a tirar o duplicado como se fazia antigamente.

ninguém quer que seja grave, mas com essas
poses de réu em pleno crime, a ocasião
que o permite, é difícil negar. as impressões
unânimes fazem um juízo simples, 
poderás pagar em dedicatórias e sendo
outro, ou então um exílio voluntário
que resolva a disputa em silêncio.
é o meu papel, esse?
o duplicado, sim.
entendo, sendo assim que escolha resta
a letra da lei é pesada e cobre-se de pele
dura e calejada, as palmas sujas 
de tinta preta, é o que dá
escrever com pena.
resolvido o atrito, garante a paz que faz a noite
ser calma e descanso,
garante o próspero conforto da liderança de amanhã
e salva o futuro da espécie
o arauto da ordem das causas nobres.

tiradas as notas, vestimos as capas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas

juventude em desfile observa o mundo à volta

uma lembrança na janela
a marcha arrasta-se na areia
e virámos costas ao seu hino
e marchamos com ela.
somos crianças de cravo ao bolso
a fortuna no conto e o discurso no ponto
heranças do vislumbre inocente
e filhos de um pai doente.
torna, vira a esquina
desce rumo ao mar,
o atlântico e as gaivotas
de bicos serrados, aprendendo
a honesta forma de roubar
às mãos que as domaram.
marchamos, chinelos e botas
e na bolsa os pesos
que um braço fino não aguenta.
nem espingarda nem vício
só as bolhas de sabão
que fogem da janela em direção à marcha
e seguem viagem muito adiante
por ruas sem corpo onde não há caminhar.
por isso marchamos
ali e dali para fora.



caderno diário

é por demais evidente que esse caderno foi forjado
esses rabiscos nojentos, caligrafia asquerosa
pisando as linhas como os passos de um drogado
ora sobe, contorce-se toda em espasmos, cai
ora desaparece numa linha fina e tímida
um murmurar qualquer ou uma língua antiga
e expira, como o passado em tábuas de argila.
esse espelho não informa a minha imagem.

também fui aluno e fiz desenhos e coisas
malvadas das palavras e das imagens que trazem
mas isso era uma capa falsa e pouco humana
reiterando um sentimento infantil sobre pessoas
popular, poético, dramático, empurrado aos rapazinhos
e às miúdas pelas artes que aplaudem as massas
que vimos pela primeira vez. a redoma, um insecto,
a injustiça entre as patas, titulares referências 
de letras densas e difíceis, segredo que o poço
guarda na negra névoa que esconde o seu fim.

filho de professoras e de olhos alheios
mete pressa nesse pulso, fogo nessa página
mancha-a de vinho suor e cinzas
imagina seres amplo e claro, as meninas
cantando esta estrofe em coro, sorrisos
que a máquina agora pode curar
ou empurrar para uma lista de compras
e nos teus consumos singelos
revelas a farsa que escreveu o caderno.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

treinos de pessoa colectiva

o gabinete das faces rápidas, lisas
mentiras são precisas na horas perdidas
ou anos ou vidas, tentativas furtivas
de encaixe perfeito, maestro da banda
o indicador a batuta, a seleção a batota
e um coração omisso, de fininho crescendo
por habitats habitados pelos prazeres da carne
e a preguiça do hábito. um escape uma fuga
as grandes canções desta tuga.

o poeta chato exprime, dialético e complexo
e em engate, aguarde, palavras afónicas
e sujeitos oníricos, baratos como uma roleta
no dicionário, o vernáculo arcaico
servindo-lhe de manta que tapa a punheta
tipo saldos no armário, a vergonha escondida
como sois meu caro, um mosaico
obscuro nos versos e em stanzas
mas no mundinho vivido pedindo-me ganzas
na cave, às escuras, o som comandante
e o poeta aspirante compondo com mão firme e dura
uma tortura invulgar no timbre da nossa cultura.

é um desgosto platónico, sim
em mim nem uma nota de ódio, sério
a descendência forasteira e os vizinhos do prédio
com o disfarce de culto não falamos de assédio
mas sim de um fidalgo cortês e régio.
o nobre: sexo e pagão e um milhão
de franjinhas, as amigas um texto
rindo com o sacrilégio, a morte na cauda
guardam amoras no cesto.

percebo, a apanha e a orquestra
os teus tons de palestra em casa mansa
fomos todos criança, a lição é clara
se olharmos para isto não como rutura
ao invés uma aula de literatura
e tu com postura, no gabinete
a tal pista, fazendo um minete
para mandar na revista.
não me publica, não me critica
um celebrado involuntário
maior que o artista invertebrado.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

frente fria sacode-me os pêlos

bons ares do norte
trazem a chuva e um fresco puro
duro na espinha como um pé descalço
em azulejo.
a tempestade bate os seus tambores 
os caninos afrouxam, é hora
do retorno à toca. o conforto
da matilha, equipa mais que família
ordeira em funções e acções
lobos que fundam cidades
que fundam reinos
que fundam impérios
que reinam os céus
e as ruínas que deixam
quando extinguem o eixo
da sua virtude.
os donos do agora, canídeos 
e os de ontem, corvídeos
uma conta sem soma zero
o preço do seu sucesso
enterrado na neve que trazem
os ares do norte.

limpezas

mencionei anteriormente que limpezas são uma purga
e que não me aflige o nojo e o grotesco
até lhes acho mais piada do que ao banal e ao estéril
e às bugigangas em fila empoleiradas num pedaço de madeira
pendurado no contraplacado barato que colaram por cima da parede
antes de te mudares para um sítio a tempo certo.
levanta-se então a questão, porquê a faxina
se apraz a desordem e a ordem por igual, equilibradas
como na vida e na guerra?
caros, orientalismos à parte, compete-me
compete-nos, se me permitem,
que a agulha avance nem que seja uma medida
por cada passo e em cada linha
se nos dota a visão uma noção de justiça
se lhe metemos os dedos imundos pela carcaça
atirada contra os bueiros na calçada desta vila.
essa distância fria e míope não é paz, é tolerância
aos crimes da mentira e da ganância 
e se nos tocam
então assim é a resolução, o toque nosso. 
a missão é a mesma
intemporal e anciã
nem um passo em frente sem coragem
sem saber que amanhã será pior
provavelmente
mas tentaremos, com a mente e com o corpo
cicatrizando as feridas de ferro velho e pregos soltos
com um balde uma esfregona um pano e um monte
de produtos com cheiros a flores e rosas e o amanhecer
de um dia claro no vale da esperança
com os joelhos em lama e pedra e sangue, pagando promessas
feitas pelo diabo nas sombras a que chamamos bom senso.


terça-feira, 8 de outubro de 2024

almoço em alhos vedros

viemos de longe, fomos aos pássaros
na costa. vimos colhereiros, garças
flamingos, patos, gaivotas, piscos,
gralhas, um perna-verde e pernas-vermelhas
mais uma rola e um pardalito a voltar
e muita gente pobre na apanha
do berbigão, da navalha e de corruptos
como se diz na minha suposta terra.
aberto o apetite, bateu uma fomeca
de marisco, evidente, e fomos mais pra junto
da cidade, ou aldeia ou o que seja.
um raposão de fama ampla, vistoso nas redes
e sujeito d'honra com uma mão cheia de menções.
das redes o mais bem cotado.
entrámos em trio, vimos uma casa meio cheia
domingo em pleno almoço. já salivando
do bacalhau à minhota que escolhi antes de entrar
se lixe o marisco
fomos interrompidos pela anfitriã, 
que desconversou e fez-nos crer que uma mesa
abriria só daqui para uma hora.
fomos pela rua abaixo à procura do comer
e uma casa pequena, sala única, letreiro escrito à mão
chamou a atenção com um vistoso cartaz
LEITÃO DO DIA 
e lá fomos, a leitão e choquinhos à algarvia.
uma delícia
no fim uma gorjeta dos donos, um bagaço verde-absinto
diziam eles afrodisíaco. ora realmente
fodi o bolor da parede da cozinha
com a energia que trouxe da marmita.



segunda-feira, 7 de outubro de 2024

grato catarro

escarrei de dentro da vontade
e saiu um musgo negro intenso
que me cobria a laringe e a traqueia
e tudo que era parte dos meus
interiores recobros
que guardam fumaça grossa
e o vocábulo proibido do espírito.

cuspi para o abismo
escutei agarrado com medo aos cantos
não ouvi nem splash nem pim nem sinal do fim.

voltei costas, inspirei fundo
o ar da liberdade destapou-me a vista
as cores voltaram, os músculos descontraíram
e começaram a doer como nunca,
cheira a podre e a corpo sem vida. 
à pressa, três dos mercantes do passado,
enredados nas teias da cave,
fizeram suplícios aos demónios
e fizeram suplícios ao que foi
das eras malvadas, dos tempos sem ar,
mas não três vezes conseguem bater
à porta, e eu persisti e fiquei estanque no meu passo.

russos em letras e de pecado pesado na alma
a culpa que lhes brota pesando como em mais alguém,
é a prova da sua virtude.
todos erram, não há vontade sem que a tente
uma sombra agarrada às paredes do conforto.
expirei, uma poeira ligeira dançou
com os ares da vida. são os santos
a celebrar uma conquista honesta.
somos o sal da terra
mas do palato humano
que saboreia os tempos a custo
o sal é o segredo que apura a vista
que rega o peixe a apraz na carne
e assim sendo, nós
o sal da terra
mas vós
o sal da vida.
obrigado.

sábado, 5 de outubro de 2024

outfits

 , pausa
... reticente
pouco além das minhas cores
sei-lhes os nomes e sei-lhes as dores
altivas, mantidas na frequência
da decência, machão de eva
e esposa de adão, no sertão
da minha beira, turbilhão
sem fada ou conto
. ponto
desgastado e desgostoso com as sequelas
fatelas de ver damas, donzelas
barões e bons alunos, filhos de papi
gatunos, introversão no pilarete
nas malinhas de pano, a erva
a onça, os lenços, os dentes
contentes e acenando ao minarete
o chamado um ruído
de conversas honestas e sorriso atrevido.
quem pertença, a linha no pulso
e um cigarro avulso no café ao lado
dançando cadeiras com misturas de classe
condizendo fitas para que alice galasse.
passe, que eu passo
- traço
riscado na tela que trazem na estampa
o buarque o tóninho e a sylvia plath
haja quem cace com gato
haja quem castre um cacho
juntinho no bafo
de vinho e bagaço.
nós, manchas brancas, cabelo brilhante 
um passo que cansa, a vista nos focos
sujeito aos toques que arrisco na dança.
ora, dança
~ the music stops.
azar, 
manchei-me nos lotes que circundam a festa
quando ia bazar dei-te um beijo na testa
e o teu batom encarnado sujou-me
o casaco pausado. 

+ mais sensato agora, certo que em tudo
há contraponto beato, honesto
acessível um pouco, como o choco em setúbal.
@ aqui, festa de arromba
mas sou de lá lá lá.
>.<



sexta-feira, 4 de outubro de 2024

a sombra da ciudad

as crianças nas janelas espreitam uma figura negra que circula
bafienta e cansada, pronta a desistir de tudo, com a raiva nos olhos
e os punhos cerrados pela indiferença que habita no coração 
da populaça que optou pela aragem dos iguais, banais,
camuflados na indiferença, vítimas de si e em si, donzelas
em apuros sem herói que as salve do transtorno dos confins
do mundo velho e sempre igual. 
bate em porta e porta e porta, um remédio que se esconde
numa igreja que bem sabe, qualquer uma, a cruz em madeira pálida
é o descanso das pombas que sapientes observam o trânsito da espécie
que trocou dentes por farpas na mente, gatos vadios, predadores
de fé e crença, achando-se mais que uma cobertura de pele
e nojo que lhes afigura a imagem que plumam com tanta devoção.
a sombra roda, encharca-se em lagos medievais, comuns
aos senhores e aos plebeus que os servem, dignos de honras
e servos de gala e pompa, solidários nos tempos em que a fé
era produto da necessidade, tempos fáceis como carpir
uma terra nunca árida, capaz e brotando aquilo que a gente
precisa e crê, incensos badalando aos domingos que o crente
nem entende, mas aprende, humildade no espírito
que a devoção do meteoro extinguiu como uma bomba.
túmulos nas caras dos pacatos.
os zeros que fazeis de desacatos.
olho cego, vista plena
perante a consciência.
jovem de sorriso entristecido, uma miúda
que não sabe se muda o traje da sua manha
perante os corvos que descansam em mantas prenhas
de maldade e sujeição, o pé dormente da labuta
que lhe rende o conduto para um propósito moderno, consequente
da tradição recente e, ironicamente, milenar
de ser igual e ser um par destacado na presença
a semelhança, a diferença
a fé e a crença
uma criança na janela
vê a sombra passar, pingando
as gotas que lhe escapa dos olhos
para o peito do seu reduto, um produto
do seu tempo, inevitável confissão.
passei pelo filme a meio, desenhos assemelham-se
a manchas do sol poente, morto e extinto em água
como a dor e a mágoa, as serpentes da vontade
comprando-lhe o espírito pela sua ambição
de ser algo e de ser parte, triste figura
que me assombra a cidade.


ócio e ofício III

contrarrelógio, letras da dependência
da pequena paz do espírito, escapando
com indolência da gaiola de ferro.
cada passeio uma jogada imprecisa
correria em quanta parte, toda a arte
do ofício encapsulada num sorriso fingido
que se extingue com o hábito.
serve-me bem, o correr e o suor
que mancha a camisa.
essas medições intolerantes, a expectativa
que seja mais a vossa capa do que
fique bem na minha
consumindo por dentro uma espécie rara
capaz, tombada para os lados
que oferecem qualquer tipo de consolo
um almoço, outra pinga em estômago 
de aço, vazio e impecável
muito resiliente aos transtornos
que o vulnerável não sabe
conter no seu próprio âmago.
ventriloquista que comanda o aparato
em movimentos a velocidades dobradas
dá-me um descanso conforme, justiça conforme
um rasgo claro de esperança
que as noites serão brancas
e a beleza da cidade se revela
não só nas mãos de pilantras
que coitados, sem culpa, acabam nas ruas
com mais honestidade na cara
do que a que eu meto numa câmera. 
os músculos contorcidos, a visão
alheia para sempre manchada da fraqueza
dum osso que se cura em curto trato.
sois impacientes, sois sim
juízes mais duros que Ele
o castigo nos ossos
as horas no ofício. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

uber

 chamaram-me o carro algures para, desculpem-me o francês, o meio do caralho. eu sendo apenas um cota de che setubal, imaginem, nem sabia que donzelas deste calibre existiam. eu no meu dacia xl, apto a 7 pessoas mas que muitas vezes serve de bolt económico, e elas puxando da viagem mais cara possível. um nome estrangeiro, não sei se norueguês ou assim. quando cheguei reparei que eramos uns 10 ou mais tvdes, todos estacionados numa quinta inconspícua algures em azeitão. as minhas passageiras vinham para o castelo de são jorge, em lisboa. podres de bêbadas, oito da manhã. não lhes fiz caso, excepto no receio que me vomitasse pra cima a que se sentou no banco do pendura. fossem homens, teria passado a direito e recusado a viagem. mas elas eram boas e miudinhas magrinhas. eu não queria nada com elas, óbvio, dependo disto para comer. mas fosse um mais malvado? carne para canhão. eu já tinha ouvido falar deste tipo de festas, privadas, exclusivas. eu sei lá de onde sai este dinheiro. contei a história a um passageiro pouco tempo depois, de chapéu e ar prudente e jovem, e ele perguntou-me o mesmo. "de onde vem esta paca?" eu respondi que havia de ser uma quota que pagam todos, dividindo a quinta entre gente estrangeira. ele, quiçá sábio, quiçá paranoico, insistia "isto... já rodei muita noite, já vivi muita embaixadora pela hora da morte. delas sai 0, nem um tusto amigo. se acha que se tratam de jovens a dividir uma despesa, entre elas e eles, está a falhar a grande imagem". olhei de soslaio para ver a cara do tipo. cabelo preto, espigado a escapar-lhe do boné. algures entre um traficante e um elite qualquer, a desafiar-me as convenções. não era a primeira vez que tinha ido apanhar passageiros a este tipo de festa. sempre desconfiei que havia gato, soube-me bem saber que a desconfiança não era injustificada. mesmo assim, não dei a parte fraca. observei apenas que não era única a ocasião. ele sorriu. ri-me de volta e reiterei que elas eram mesmo gostosas. ele assentiu com a cabeça que eu atentamente observava pelo espelho. começou a tocar uma música pop que não sei o nome, mas tentadora. baixo poderoso, acentuado pelo meu bom sistema de som. até aqui vínhamos a falar de crime e filosofia barata. ele só fazia perguntas. às vezes contestava o que eu dizia, dizendo "isso é intrigante, não é?". noutra ocasião teria achado os comentários arrogantes, mas o seu aspecto banal e o sorriso inocente de certa forma tornavam-no honesto, e realmente lançava perguntas que me penetravam as crenças. o pesado cheiro a tabaco ajudava, uma aura a prole como no meu bairro tresandava-lhe do casaco de ganga negro. disse-me que se fosse ele, não resistia à senhoras. teria feito conversa, que seria certo que uma teria alguma paixão por motoristas anónimos como eu. provavelmente tinha razão, mas o puto não sabe o que é este trabalho. é com cada figura. bandidos, gandulos, os filhos da noite. de manhã cedo, nesta cidade, é quando se percebe. a música enchia o carro, mas percebia-o claramente. ele também, apesar de vir com fones postos. ele insistiu "de onde eram, lembra-se o nome?". realmente não me lembrava. "e a idade?". não sei, mas eram jovens. talvez vinte e pouco. perguntei quantos anos ele tinha. disse-me quase trinta. nunca vi um jovem assim, o discurso parecia tirado duma peça com mais de cem anos. as palavras, a maneira como articulava o discurso, a forma como posicionava as perguntas. persistia neste tema, notava-se uma curiosidade que, por sua vez, me deixava também cada vez mais intrigado. será que sabe algo sobre isto? ele não tem aspecto pra ser amigo ou parte deste tipo de festas, eu já levei muito riquinho pelo bairro pra saber-lhes o cheiro. isto era diferente. a aura descondizia com o discurso. "acha mesmo que senhoras desse perfil, jovens e alcoolizadas, lindas como a névoa que pousa na serra e faz os passarinhos cantar, acha mesmo que elas pagam o que seja para uma festa desse tipo? que roupas traziam amigo?". eramos amigos por esta altura, disso não tinha dúvidas. respondi que não eram roupas, eram trapos, umas peças escassas, mas que faziam sentido num verão quente como o nosso. "e já viu disso na noite em setúbal?". respondi que não. "confesso-lhe, não faço ideia do que seja. mas intriga-me, deixa-me tentado. no meio do nada? seria trabalho? uma festa da empresa, quiçá?" instintivamente disse que não, como se a intuição soubesse a resposta antes que eu pudesse processar a pergunta. "pois." olhei novamente pelo espelho, por esta altura via-o inclinado, completamente investido na conversa. tirou os fones. rimo-nos os dois quando cruzamos olhares, e voltei a observar que eram mesmo mesmo boas. ele concordou. "aposto que sim". chegamos ao destino. ele agradeceu a viagem, voltou a por os fones antes de sair do carro. segundos depois, deixou-me uma gorjeta na aplicação e entrou num prédio escafiado, sem sequer tirar a chave. caiu outra viagem e segui caminho. 

terça-feira, 1 de outubro de 2024

no mundo do meu chefe

no mundo do meu chefe
o descanso está para breve
as tertúlias passatempos
a vontade uma carraça,
agarrada ao corpo parasitando-lhe 
as últimas gotas de sangue.
vestiu-se, calçou-se, engoliu seco
de pessoas danadas, cães de guerra,
servos de mestres, promessas furadas.
agora, a retoma, pela mão do tempo
que convém certo e justo, igual
antes que tape os olhos.
como qualquer lição, o seu oposto:
a escória e o desgosto, passeios intocados
de vontade na marcha.
os derrotados no meu bar, onde fugimos
do meu chefe. bebemos do mesmo copo
tombamos as mesmas crenças
homens de pelo e espinha e barba
perdidos do juízo que o presente escondeu
sabido e mais que óbvio dos nossos anteriores
mal cheirosos, incolores, prontos para tabefes
em cima de dados e valores.
o meu chefe passa em frente, 
vê-nos todos, os seus pares e ancestrais
costumes plebeus, como a escarra e o tato incerto
jovens misturados, iguais, o juízo pronto
que justifica o ódio, o saber
que aquilo que foi só sucedeu
porque algures na fraqueza
abandonou um eu, o seu,
soberbo em mesurices
a prudência do seu tento inundada em criancices
claro, o progenitor morto em combate, entendemos
a sua fome e o imundo entre a cidade
e uma horta miserável,
a honra em sair da desgraça, sua conquista.
mas o tempo dos filhos sem pai
antecede ao dos pais sem filhos
todos cabrestos na alma
e o vapor fugindo das narinas
num canto escuro.
jogaste-nos ao canto
a cidade imaculada
não cabe nos últimos pingos
do termo desse encanto
mas viveremos muito mais
e de uma arreada lançaremos o mundo aos santos.
não para melhor, nunca seria tão sonso
como o tanso do meu chefe.
lamento, por eles e por nós,
os chefes são pessoas também.