terça-feira, 15 de outubro de 2024

diário do barreiro I

que bem se dorme sem o peso dos sonhos
os olhos trancados a sete charros, que beleza
o silêncio e o tempo a passar rápido.
mais cinco minutos, levanto-me à pressa
e nem tenho ramelas.
divindades descansaram nesta noite
a raiva trocou com a moleza.
desperto e com a espada à cinta
vejo pela janela um buraco finalmente tapado:
acabaram as obras, boas notícias.


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

culpados em par, dois tipos de medo: passado (eu) e futuro (tu)

estou mais forte. 
mais violento
suspeito
porque os conflitos desbocam à minha beira
com a facilidade dum fogo que pega uma acendalha.
esta energia suada cansa e um dia
sei que se vai esgotar, 
no escuro e num estouro.
ganhos escorços escondidos
atrás de tumbas que plantastes cá dentro,
seus asnos.
perdoo-vos e perdoem-me, dos céus
ou das profundezas do oceano que nos separa.

um que não é igual aos outros,
quando fiz tremer o chão em ira
que apontei para cima
vi-os aos montes suspirando
pela minha perda de paciência
mas um, apenas um, símbolo de muitos
colou à ocasião a sua paixão devoradora
e oculta, e largou um feixe de olhares
endiabrados, coitado, e o nó dos dedos 
a estalar, uma raiva que esvoaçou
com um sorriso.
a ocasião foi péssima e abri uma linha
nas dívidas da essência, não cobra juros
mas nunca fica salda. é o preço justo
que paguei mais de mil vezes,
o meu corpo servindo de testemunha.

sabes, 
suspeito que algo aqui está um pouco mal contado.
o sininho debaixo das mantas está a tocar
e o que toca entende mais do que eu destas coisas.
porque fazer fintas quando se tratava dum impulso?
cheira-me ao velho osso contra osso
a tua vontade contra a minha
submissão a regra.
eu detesto esses joguinhos
nunca fui de competir
nem com pares nem com primos,
só fantasmas de tempos primordiais
e mesmo assim sou meiguinho.
agora lanças-me a mão em braço-de-ferro
e quanto mais penso mais sentido faz
eu nem tenho nada a ver com isso
mas vejo-me frente a frente, pendurado
num balcão de madeira, a optar
por ser cobarde ou aceder
às tentações da tua esburacada auto-estima.

eia que estourou o cano novamente

mais uma obra nesta rua
um remendo ao serviço mal resolvido
da semana passada. estouraram os canos
e com um chuvisco ligeiro o quarteirão 
ficou uma lagoa castanha, até aos tornozelos.
o primeiro dia passou e deixaram a poça secar
e hoje resolveram finalmente intervir. 
os velhotes do bairro agradecem o espetáculo grátis
e circundam o buraco que os funcionários da câmara
fizeram mesmo à frente da minha casa. vejo-os da janela,
os bonés sujos de tinta misturados num mar de lama
e cabeças grisalhas. 
já la vão quase 12 horas e ainda ouço as máquinas
brrrr brrrr brrr - escavando e transportando terra
de um lado para o outro. 
parece que o arranjo não é final, só um refeito
no remendo anterior, desta vez conforme o que deveria ter sido.

infelizmente para mim, e para si leitor,
neste bairro não vejo as putas na beira da estrada
nem vejo o crime violento de perto, nem tiros
e as escassas sirenes fugindo do trânsito
são muitas vezes para acudir uma idosa solitária
e não mirabolantes perseguições à hollywood.
aqui não moram carros rápidos nem palmeiras
cobrindo a costa em recortes cénicos
nem atores ou ministros, pessoas públicas de
"respeito".
não é subúrbio nem é metrópole, 
a classe média não morre de tédio
os pobres não moram nos pátios.
só um bairro assim, assim-assim
velho e devagar, adultos cansados
e um comércio local dos tempos da expo,
as crianças jogam descalças em campos
sujos mas gradeados. a bebida faz mais vítimas
do que o crack. armas nem em sonhos. 
vemos os buracos no chão
e os enguiçados procedimentos da junta
a descobrir o asfalto
que cobre esta terra cansada.

domingo, 13 de outubro de 2024

qual é o logro?
tenho plantas mortas no jardim
os planos que fiz, uma grande estufa
uma hortinha diversa e composta
em cada raiz a resposta
dos enigmas que fome traz.
o esforço e a disciplina
a rega persistente, preparada 
com rigor em tábuas de cálculo
as flores, as calorias e as ervinhas miúdas.
parecia tudo um grande encanto
persistindo nas jornas em canto brando
um assobio suave que se mistura
com o piar dos primos plumados
que se sentam nos galhos da cerca viva.
parecer não é ser
e nenhum dos legumes brotou
e as flores negaram-se a pôr cor
nas suas pétalas, que só apodreciam
em caules magrinhos.
o dia das plantas mortas.
não há rega que salve um corpo
furado, considerei uma queimada
mas temo pela cerca
que dá forma ao quintal.
terei que medir, uma a uma
de joelhos na terra com uma lupa
e assim farei, cobrindo a fuça
com a mão ao alto, testando
o equilíbrio em dificuldade desde novo
como as folhas que tombam com o peso
para o lado, quebrando aquilo que a nutre.
é uma coima do mau presságio
ou do mau ofício, trabalho mal feito.

resta um campo doente
e uma estrutura em vidro
vazia, que arrelia o tento
em torna-la numa chuva de cacos,
diamantes afiados eutanasiando
os suplícios do pasto, amarelo e de gravilha.


resolvido em acordo e consenso

assinemos um acordo a três tempos
cobrindo as promessas a curto, médio
e longo termo, as causas da discórdia
resolvidas em trâmites legalistas mui oficiosos
e jurisprudentes na cartilha de responsáveis.
das partes, multilaterais em mesa posta
um andar com janelas sem cortinas
que escondam observadores de causa neutra
a estirpe passiva.

toca a campainha do escritório
toca novamente pelas madeiras antigas
e a louça de oferta de tratados do passado.
toca uma terceira vez, impaciente
homens grisalhos sobem as escadas que guincham
com as passadas da trupe do direito,
sapateando em couro e graxa pelos séculos
desta casa disfarçada entre as outras.

entram quatro homens, o sr. procurador
descalçou-se à porta, sente-se capitão
e sentou-se na poltrona mais perto do bar
serviu-se um cocktail e apressou o jantar
os secretários permaneceram em pé
guardando as portas com malinhas
também em couro e graxa, mas escuras
e vincadas. cheira a tabaco e a velho.
discutiremos o futuro, disse um deles
e escrevinhou a data e o número da ata
no canto de um bloco com papel químico
a tirar o duplicado como se fazia antigamente.

ninguém quer que seja grave, mas com essas
poses de réu em pleno crime, a ocasião
que o permite, é difícil negar. as impressões
unânimes fazem um juízo simples, 
poderás pagar em dedicatórias e sendo
outro, ou então um exílio voluntário
que resolva a disputa em silêncio.
é o meu papel, esse?
o duplicado, sim.
entendo, sendo assim que escolha resta
a letra da lei é pesada e cobre-se de pele
dura e calejada, as palmas sujas 
de tinta preta, é o que dá
escrever com pena.
resolvido o atrito, garante a paz que faz a noite
ser calma e descanso,
garante o próspero conforto da liderança de amanhã
e salva o futuro da espécie
o arauto da ordem das causas nobres.

tiradas as notas, vestimos as capas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas

juventude em desfile observa o mundo à volta

uma lembrança na janela
a marcha arrasta-se na areia
e virámos costas ao seu hino
e marchamos com ela.
somos crianças de cravo ao bolso
a fortuna no conto e o discurso no ponto
heranças do vislumbre inocente
e filhos de um pai doente.
torna, vira a esquina
desce rumo ao mar,
o atlântico e as gaivotas
de bicos serrados, aprendendo
a honesta forma de roubar
às mãos que as domaram.
marchamos, chinelos e botas
e na bolsa os pesos
que um braço fino não aguenta.
nem espingarda nem vício
só as bolhas de sabão
que fogem da janela em direção à marcha
e seguem viagem muito adiante
por ruas sem corpo onde não há caminhar.
por isso marchamos
ali e dali para fora.



caderno diário

é por demais evidente que esse caderno foi forjado
esses rabiscos nojentos, caligrafia asquerosa
pisando as linhas como os passos de um drogado
ora sobe, contorce-se toda em espasmos, cai
ora desaparece numa linha fina e tímida
um murmurar qualquer ou uma língua antiga
e expira, como o passado em tábuas de argila.
esse espelho não informa a minha imagem.

também fui aluno e fiz desenhos e coisas
malvadas das palavras e das imagens que trazem
mas isso era uma capa falsa e pouco humana
reiterando um sentimento infantil sobre pessoas
popular, poético, dramático, empurrado aos rapazinhos
e às miúdas pelas artes que aplaudem as massas
que vimos pela primeira vez. a redoma, um insecto,
a injustiça entre as patas, titulares referências 
de letras densas e difíceis, segredo que o poço
guarda na negra névoa que esconde o seu fim.

filho de professoras e de olhos alheios
mete pressa nesse pulso, fogo nessa página
mancha-a de vinho suor e cinzas
imagina seres amplo e claro, as meninas
cantando esta estrofe em coro, sorrisos
que a máquina agora pode curar
ou empurrar para uma lista de compras
e nos teus consumos singelos
revelas a farsa que escreveu o caderno.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

treinos de pessoa colectiva

o gabinete das faces rápidas, lisas
mentiras são precisas na horas perdidas
ou anos ou vidas, tentativas furtivas
de encaixe perfeito, maestro da banda
o indicador a batuta, a seleção a batota
e um coração omisso, de fininho crescendo
por habitats habitados pelos prazeres da carne
e a preguiça do hábito. um escape uma fuga
as grandes canções desta tuga.

o poeta chato exprime, dialético e complexo
e em engate, aguarde, palavras afónicas
e sujeitos oníricos, baratos como uma roleta
no dicionário, o vernáculo arcaico
servindo-lhe de manta que tapa a punheta
tipo saldos no armário, a vergonha escondida
como sois meu caro, um mosaico
obscuro nos versos e em stanzas
mas no mundinho vivido pedindo-me ganzas
na cave, às escuras, o som comandante
e o poeta aspirante compondo com mão firme e dura
uma tortura invulgar no timbre da nossa cultura.

é um desgosto platónico, sim
em mim nem uma nota de ódio, sério
a descendência forasteira e os vizinhos do prédio
com o disfarce de culto não falamos de assédio
mas sim de um fidalgo cortês e régio.
o nobre: sexo e pagão e um milhão
de franjinhas, as amigas um texto
rindo com o sacrilégio, a morte na cauda
guardam amoras no cesto.

percebo, a apanha e a orquestra
os teus tons de palestra em casa mansa
fomos todos criança, a lição é clara
se olharmos para isto não como rutura
ao invés uma aula de literatura
e tu com postura, no gabinete
a tal pista, fazendo um minete
para mandar na revista.
não me publica, não me critica
um celebrado involuntário
maior que o artista invertebrado.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

frente fria sacode-me os pêlos

bons ares do norte
trazem a chuva e um fresco puro
duro na espinha como um pé descalço
em azulejo.
a tempestade bate os seus tambores 
os caninos afrouxam, é hora
do retorno à toca. o conforto
da matilha, equipa mais que família
ordeira em funções e acções
lobos que fundam cidades
que fundam reinos
que fundam impérios
que reinam os céus
e as ruínas que deixam
quando extinguem o eixo
da sua virtude.
os donos do agora, canídeos 
e os de ontem, corvídeos
uma conta sem soma zero
o preço do seu sucesso
enterrado na neve que trazem
os ares do norte.

limpezas

mencionei anteriormente que limpezas são uma purga
e que não me aflige o nojo e o grotesco
até lhes acho mais piada do que ao banal e ao estéril
e às bugigangas em fila empoleiradas num pedaço de madeira
pendurado no contraplacado barato que colaram por cima da parede
antes de te mudares para um sítio a tempo certo.
levanta-se então a questão, porquê a faxina
se apraz a desordem e a ordem por igual, equilibradas
como na vida e na guerra?
caros, orientalismos à parte, compete-me
compete-nos, se me permitem,
que a agulha avance nem que seja uma medida
por cada passo e em cada linha
se nos dota a visão uma noção de justiça
se lhe metemos os dedos imundos pela carcaça
atirada contra os bueiros na calçada desta vila.
essa distância fria e míope não é paz, é tolerância
aos crimes da mentira e da ganância 
e se nos tocam
então assim é a resolução, o toque nosso. 
a missão é a mesma
intemporal e anciã
nem um passo em frente sem coragem
sem saber que amanhã será pior
provavelmente
mas tentaremos, com a mente e com o corpo
cicatrizando as feridas de ferro velho e pregos soltos
com um balde uma esfregona um pano e um monte
de produtos com cheiros a flores e rosas e o amanhecer
de um dia claro no vale da esperança
com os joelhos em lama e pedra e sangue, pagando promessas
feitas pelo diabo nas sombras a que chamamos bom senso.


terça-feira, 8 de outubro de 2024

almoço em alhos vedros

viemos de longe, fomos aos pássaros
na costa. vimos colhereiros, garças
flamingos, patos, gaivotas, piscos,
gralhas, um perna-verde e pernas-vermelhas
mais uma rola e um pardalito a voltar
e muita gente pobre na apanha
do berbigão, da navalha e de corruptos
como se diz na minha suposta terra.
aberto o apetite, bateu uma fomeca
de marisco, evidente, e fomos mais pra junto
da cidade, ou aldeia ou o que seja.
um raposão de fama ampla, vistoso nas redes
e sujeito d'honra com uma mão cheia de menções.
das redes o mais bem cotado.
entrámos em trio, vimos uma casa meio cheia
domingo em pleno almoço. já salivando
do bacalhau à minhota que escolhi antes de entrar
se lixe o marisco
fomos interrompidos pela anfitriã, 
que desconversou e fez-nos crer que uma mesa
abriria só daqui para uma hora.
fomos pela rua abaixo à procura do comer
e uma casa pequena, sala única, letreiro escrito à mão
chamou a atenção com um vistoso cartaz
LEITÃO DO DIA 
e lá fomos, a leitão e choquinhos à algarvia.
uma delícia
no fim uma gorjeta dos donos, um bagaço verde-absinto
diziam eles afrodisíaco. ora realmente
fodi o bolor da parede da cozinha
com a energia que trouxe da marmita.



segunda-feira, 7 de outubro de 2024

grato catarro

escarrei de dentro da vontade
e saiu um musgo negro intenso
que me cobria a laringe e a traqueia
e tudo que era parte dos meus
interiores recobros
que guardam fumaça grossa
e o vocábulo proibido do espírito.

cuspi para o abismo
escutei agarrado com medo aos cantos
não ouvi nem splash nem pim nem sinal do fim.

voltei costas, inspirei fundo
o ar da liberdade destapou-me a vista
as cores voltaram, os músculos descontraíram
e começaram a doer como nunca,
cheira a podre e a corpo sem vida. 
à pressa, três dos mercantes do passado,
enredados nas teias da cave,
fizeram suplícios aos demónios
e fizeram suplícios ao que foi
das eras malvadas, dos tempos sem ar,
mas não três vezes conseguem bater
à porta, e eu persisti e fiquei estanque no meu passo.

russos em letras e de pecado pesado na alma
a culpa que lhes brota pesando como em mais alguém,
é a prova da sua virtude.
todos erram, não há vontade sem que a tente
uma sombra agarrada às paredes do conforto.
expirei, uma poeira ligeira dançou
com os ares da vida. são os santos
a celebrar uma conquista honesta.
somos o sal da terra
mas do palato humano
que saboreia os tempos a custo
o sal é o segredo que apura a vista
que rega o peixe a apraz na carne
e assim sendo, nós
o sal da terra
mas vós
o sal da vida.
obrigado.

sábado, 5 de outubro de 2024

outfits

 , pausa
... reticente
pouco além das minhas cores
sei-lhes os nomes e sei-lhes as dores
altivas, mantidas na frequência
da decência, machão de eva
e esposa de adão, no sertão
da minha beira, turbilhão
sem fada ou conto
. ponto
desgastado e desgostoso com as sequelas
fatelas de ver damas, donzelas
barões e bons alunos, filhos de papi
gatunos, introversão no pilarete
nas malinhas de pano, a erva
a onça, os lenços, os dentes
contentes e acenando ao minarete
o chamado um ruído
de conversas honestas e sorriso atrevido.
quem pertença, a linha no pulso
e um cigarro avulso no café ao lado
dançando cadeiras com misturas de classe
condizendo fitas para que alice galasse.
passe, que eu passo
- traço
riscado na tela que trazem na estampa
o buarque o tóninho e a sylvia plath
haja quem cace com gato
haja quem castre um cacho
juntinho no bafo
de vinho e bagaço.
nós, manchas brancas, cabelo brilhante 
um passo que cansa, a vista nos focos
sujeito aos toques que arrisco na dança.
ora, dança
~ the music stops.
azar, 
manchei-me nos lotes que circundam a festa
quando ia bazar dei-te um beijo na testa
e o teu batom encarnado sujou-me
o casaco pausado. 

+ mais sensato agora, certo que em tudo
há contraponto beato, honesto
acessível um pouco, como o choco em setúbal.
@ aqui, festa de arromba
mas sou de lá lá lá.
>.<



sexta-feira, 4 de outubro de 2024

a sombra da ciudad

as crianças nas janelas espreitam uma figura negra que circula
bafienta e cansada, pronta a desistir de tudo, com a raiva nos olhos
e os punhos cerrados pela indiferença que habita no coração 
da populaça que optou pela aragem dos iguais, banais,
camuflados na indiferença, vítimas de si e em si, donzelas
em apuros sem herói que as salve do transtorno dos confins
do mundo velho e sempre igual. 
bate em porta e porta e porta, um remédio que se esconde
numa igreja que bem sabe, qualquer uma, a cruz em madeira pálida
é o descanso das pombas que sapientes observam o trânsito da espécie
que trocou dentes por farpas na mente, gatos vadios, predadores
de fé e crença, achando-se mais que uma cobertura de pele
e nojo que lhes afigura a imagem que plumam com tanta devoção.
a sombra roda, encharca-se em lagos medievais, comuns
aos senhores e aos plebeus que os servem, dignos de honras
e servos de gala e pompa, solidários nos tempos em que a fé
era produto da necessidade, tempos fáceis como carpir
uma terra nunca árida, capaz e brotando aquilo que a gente
precisa e crê, incensos badalando aos domingos que o crente
nem entende, mas aprende, humildade no espírito
que a devoção do meteoro extinguiu como uma bomba.
túmulos nas caras dos pacatos.
os zeros que fazeis de desacatos.
olho cego, vista plena
perante a consciência.
jovem de sorriso entristecido, uma miúda
que não sabe se muda o traje da sua manha
perante os corvos que descansam em mantas prenhas
de maldade e sujeição, o pé dormente da labuta
que lhe rende o conduto para um propósito moderno, consequente
da tradição recente e, ironicamente, milenar
de ser igual e ser um par destacado na presença
a semelhança, a diferença
a fé e a crença
uma criança na janela
vê a sombra passar, pingando
as gotas que lhe escapa dos olhos
para o peito do seu reduto, um produto
do seu tempo, inevitável confissão.
passei pelo filme a meio, desenhos assemelham-se
a manchas do sol poente, morto e extinto em água
como a dor e a mágoa, as serpentes da vontade
comprando-lhe o espírito pela sua ambição
de ser algo e de ser parte, triste figura
que me assombra a cidade.


ócio e ofício III

contrarrelógio, letras da dependência
da pequena paz do espírito, escapando
com indolência da gaiola de ferro.
cada passeio uma jogada imprecisa
correria em quanta parte, toda a arte
do ofício encapsulada num sorriso fingido
que se extingue com o hábito.
serve-me bem, o correr e o suor
que mancha a camisa.
essas medições intolerantes, a expectativa
que seja mais a vossa capa do que
fique bem na minha
consumindo por dentro uma espécie rara
capaz, tombada para os lados
que oferecem qualquer tipo de consolo
um almoço, outra pinga em estômago 
de aço, vazio e impecável
muito resiliente aos transtornos
que o vulnerável não sabe
conter no seu próprio âmago.
ventriloquista que comanda o aparato
em movimentos a velocidades dobradas
dá-me um descanso conforme, justiça conforme
um rasgo claro de esperança
que as noites serão brancas
e a beleza da cidade se revela
não só nas mãos de pilantras
que coitados, sem culpa, acabam nas ruas
com mais honestidade na cara
do que a que eu meto numa câmera. 
os músculos contorcidos, a visão
alheia para sempre manchada da fraqueza
dum osso que se cura em curto trato.
sois impacientes, sois sim
juízes mais duros que Ele
o castigo nos ossos
as horas no ofício.