segunda-feira, 21 de outubro de 2024

remoinho

remoinho roda roda

pelas ruas pelas vias

pelas casas pelas vidas, as suas as tuas

as minhas, as que foram e as que duram

e as que sumiram em becos ou bares.

os encantos bafientos sopram no fundo

da garrafa. a maré é baixa, persistindo

com um nevoeiro denso que oculto

dança com pedras de gelo e vais tiritando

à medida que o descobres, uma volta de cada vez.


remoinho roda roda no calendário sem descanso

há uma voz no seu alcance, um alguém

que tu já foste, pedindo socorro, clemência,

um marinheiro ou um pescador inócuo

e sem ajudas. 

roda o mundo

ou roda o barco,

roda roda roda.

vai lançado as memórias

porta porta fora.

roda roda mais,

tudo e todos, todos os dias

e noites.


batendo os dentes te esqueces

e de manhã só um enjoo e a culpa

de ter andado tanto à roda.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

top 100, 10% foi um ganho de 20 cêntimos

under the gun, 3bet

o gajo ficou tilt, é a oportunidade

trago um par disfarçado, só ases

e o flop foi mesmo um flop

para ele. 


dizem que os poetas de agora

não sabem jogo nem truques

mas só os da revista maria

dos dentes ou das dores

que escrevem de peixes e pontes

e a serra, tã linda.

eu também gosto muito da serra.


posso ao invés ser de estátua

de toga e sandálias calçadas

os meus deuses com nomes 

extensos e protagonistas

de novelas com suave

erotismo. ohh o incesto

e a estética!


os casca-rija, casacos de couro

o robe, o prinz, o godis, a mariasa, o PMESS, o albges

trocando o botão, mexendo fortunas

milhares testando não a sorte

mas a paciência e a lucidez

e um brilho divino, injusto,

que cante vitória uma vez.


nos intervalos vou tirando notas

quando não faço pausas para bicas

ou mijas ou um dourado nas pedras

para descer devagar como a estratégia

que se emprega numa mesa de torneios

com tanta escumalha como esta.

gente da boa, mas escumalha.


pondo as fichas nos meus versos, espero

que se entenda que a chuva quando cai

não faz cinema ou tragédias, só rega a sina

dos pecadores que são todos, dos malandros

e das senhoras que sonham nas manhãs

com os óculos escuros a meio da cara

no parque de estacionamento ou

no sofá, depois de horas e horas

de cromos e gunas e os camionistas

e os taxistas e os filhos do dono

do café, uns trocos a render aqui

ao invés de empurra-los na coca, à deriva

com mais um par de betos estúpidos.


quando perdi já tinha um prémio

de consolação que ao menos cobriu

os custos de entrada e um mcdonald's 

mas não o uber de volta para casa,

então voltei a pé e de barco e a pé.

feitas as contas ainda poupei mais

do que se tivesse ido para o bairro

mas fiz menos em amigos.

a gaja que tinha mais fichas quando saí

era muito bonita, tinha um ar espanhol

e o cabelo platina pintado com ares

de bióloga ou de enfermeira nas altas horas,

das que passa receitas por baixo do balcão.


perdi contra um par de noves

vinha de kq casados

mas não bateu nada

pra fazer par com a minha mão.

sobrou umas migalhas que três ou quatro

blinds comeram sem chance de me desafogar

nesta fase avançada do torneio. 

já me doíam as costas também.


inocente, um puto descobre mulheres

protuberâncias para vós
nas coxas carnudas de mulheres
nas ruas. balançando com o vento
reféns da gravidade, nada de errado
em tirar-lhe um pedaço e servi-lo
num grande banquete para a tropa
da saúde, meninos param a corrida
pelos segredos da vida adulta, simples 
e cénica, contida nas glandes que brotam
pela primeira vez a céu aberto.
um toque de midas, o tacto amolece
no suave do tecido que tas cobre,
a ampulheta nas costas
esparramando a areia do ritual de passagem.
como tenta o tempo
e as protuberâncias atrás da vida!

a menina da bola

quando prendeste essa camisola
do real madrid nuns calções largos
que te faziam os tornozelos finos
o cepo enredou-se nos meus
e foi bonito o sonho que sucedeu.
marreco, os estorninhos
voam em bandos como a vida
segue sem tratos de estima
pelos veladores que sozinhos
guardam os cantos ao parque.
nem amor nem desejo
nem carinho nem futuro
a quatro rodas, a tosse
da voz fina perdida 
em afazeres mundanos.
nada disso.
a coisa em si, pelo que é
e pelo que foi, a equipa
vencedora molhando a espinha
com um suor nervoso e suspeito
das intenções que um canino
afiado e guardado aguarda
na mirada calada que manda
pelas linhas no jogo.


crimes do ódio

as besteiras da crença, sorte infeliz
na voz das vigas, coberta de ferrugem,
levanta-se no leito de cola e vime
e canta preces aos céus, o santo d'outrem.

foram dias celebrados, o canto das musas
os suplícios do ermo da canalha que acusas
postos à prova na hora, na cena do crime,
ganha forma conforme o que essa voz diz.

foram dias de luto, no último alento
escapou-se-lhe a alma e partiu-se em mil peças
rendendo-lhe pouco o esforço e o talento
seguirá com a morte nas suas caleças.

sim! 
vesti-me de negro e de um robe rubro
e fugi do convento com as velas acesas
para que visses na noite o trilho das rosas
que morriam nas mãos do senhor de outubro.

sim!
perfídia vontade que atenta em horror
os poetas cantando e dando louvor
o juízo nos olhos, o sangue no bico
perscruta no pasto do alto do pico
caçando as cores que não clamam o fim.

mentiras que baste desse focinho honesto
jaz no exílio, seu filho do barro
pendura a roupagem na ponta da haste
restará um reconto do teu fato funesto
e da tua indolência pouco mais que o tarro.

sim, é o teu fim
traidor!

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

ócio e ofício iv

que preguiça!
um cão velho ladra para as motas dos estafetas
o meu pc chia e ronca com a ventoinha no máximo
a outra eu tive que tirar porque entrelaçou-se com um fio
e fazia um cagaçal que até das escadas se ouvia.
passam carros com turbo e trotinetes elétricas
passa o dia correndo e sem pressas
desde o almoço que estou colado ao sofá
de barriga para baixo com o nariz afundado
no meio de pó e cinzas. meti 3 despertadores
um para uma pausa
outro porque tinha mesmo que ser
e o terceiro como a linha vermelha
entretanto já passaram mais uns 45 minutos.
toque no computador do trabalho

pus-me na escrita a ver se das palavras
desentope a vontade de ser burocrata
nham, que delícia, os ofícios de gerir
e entregar e aprontar e corrigir e apontar
os erros das máquinas e das pessoas 
enquanto uma mosquinha perdida
tenta fugir desta sala de fumo.
toque no computador do trabalho

as janelas da casa escancaradas deixam correr
uma brisa agradável que vai badalando os meus
finos fios de cabelo da franja. olhei-me ao espelho
e parecia muito natural. o ecrã preto do trabalho
reflete a minha sombra. o relógio não perdoa
toque no computador pessoal
isto já nem é preciso, é um vício ou uma nóia
qualquer.

mais duas horas, vamos lá, eu consigo
a chuva vai-se acercando, topo-lhe o cheiro
e lembro-me que ainda preciso lavar a roupa.
tanto me ocupa e eu tenho uma bolha
na coxa que eu nem sinto mas quero tanto
estourar num duche morno. 
não posso, não consigo ouvir o teams da casa de banho
com a torneira aberta e correndo livre
como os carros que cortam o vento
e os guinchos dos seus travões
desviando-se do buraco na estrada que nunca
vai ser definitivamente fechado.
toque no computador do trabalho

que pregui- despertei! 
a correnteza bateu a porta
do escritório ou da sala
ou do jazigo de um burocrata.

profecia falhada

pensávamos que o agora ia ser
bing bing bing
glublublublu
ping
ok computer
glublublublu

mas na verdade foi beats de drum
e vuuuuuuush

rimar, cringe
e quem finge que não é
tem o gosto de um bebé.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

arroio

nunca estudei artes
nem na escola nem fora
a faculdade fi-la porque não tinha desculpa para não trabalhar
e certamente não seriam artes uma justificação digna 
para fugir da loja da minha mãe.

essas memórias, o fim da adolescência e a entrada
nos jovens e magros vintes, bons tempos
e agora com demarco e the smiths
posso largar um sorriso escondido 
já que abandonei essas pretensões
d'artista.

nessa época os arroianos pareciam-me fascinantes
ainda parecem, cínico que sou não posso negar,
mas o encanto dessa altura ainda brilha
quando remanescente a rádio passa
uma memória feliz.

onde estudei jogávamos as facas no mato
para o texugo não nos atormentar o juízo
nunca as usávamos para nada mas dava
uma certa sensação de segurança
quando voltava para casa no inverno
com as minhas amigas de fato de treino.

esse primeiro contacto com a porta da arroio
foi como se o carnaval tivesse antes sido
toda a minha juventude, vestido de preto
e calçado dado pelos amigos que fiz
tornando-me num jovem do ócio e da vida. 
vocês, os exóticos, confiantes na roupa barata
que nunca precisou ser, os cabelos coloridos,
os rapazes judeus, caracóis sem vergonha
fumando as pontas uns dos outros que compravam
em avulso no café à porta da escola
e nem professores vos impediam
de fazer lixo e correr os riscos e tentar nos erros
que a idade exigia. 
era difícil enxergar do fundo do rio
como brilhavam as vossas cores, xadrezadas, 
e a purpurina colada na cara de meninas
atrevidas em palavras e vislumbres.

há uma neblina pura que quando inspiramos
limpa os pulmões e torna a vista mais clara.
são os céus a dizer que sim, essa nostalgia
aconteceu e foi bonita como foi. 
como foi.





para um amigo de mau gosto

tu não consegues ver um filme decente
nem que to atirem à testa.
sentado no coxim já gasto
pernas peludas esparramadas
em cima do tapete da tua avó:
venha daí mais uma tarte de palhaços,
em diversidade representados,
aos trambolhões e risadas mortas
que eu chamo de branqueamento e tu 
maquilhas de cultura.
não, isso não é nenhum paris, texas
só lhe sujas o nome
é uma cagada de festival, ainda quente
e direita para os catálogos
de quem não sente os impulsos da volição.

afastei-me um bocado e apanhei ar
sei que debaixo dos poucos cabelos
que ainda te cobrem o cocuruto
há algo sentido, genuíno em bondade
e eu descanso e fumo um cigarro
e outro cigarro
para ter calma e não te partir
essa tv gigante que só passa merda.
somos amigos mas fazes-me beber para ser mais fácil.

a voz da pretensão aproveita a quebra:

então estimado, cansado? pois, essa gente de carne e osso guarda pouco debaixo do chapéu. se te mexesses nem que fosse por um dia estarias na linha do mais alto gabarito

aquelas secas francesas? os nites mudos
na noite, a pobreza bibelots para pensadores
e trafulhas com sorte? cruzes, tirem-me
desse filme e do outro. vou mas é ler
baudelaire e ver south park.

prendas às pombas

amável pombinha, deixei-te umas sementes
no parapeito da janela do quarto.
sois vista e sou todo ouvidos
penas que quebram águas e nos adornam 
capacetes, 
queria uma em glória e grande
para escrevinhar cantigas de traição e saudade
assim da asa, cinzenta e branca como as noites
das cidades a norte.
a tua dieta de pão e lixo é o trato
que te demos mas não o que sonhamos,
nem agora nem nunca. a tua nuca reluz
contra o sol o roxo real, o verde da vida
e as gotas que persistem.

cão de caça e cão de raça
endividado em tacanhez 
cheirando pombinhas amáveis
uma de cada vez.


entre as margens

entre a margem sul do tejo
e a margem norte do sado
e entre sotaques pindéricos 
e pronúncias emprestadas do algarve
e de évora. os pescadores nos bairros velhos
entre retornados e recém-chegados.

da capital não há mais a explicar
que toda a arte nesta casa ou é sobre ela
ou é contra ela. 
a ambição refém dum complexo cobarde
o tal medo de crescer, de mexer com mais
do que as patetices da vila, novela quase milenar.
a autenticidade joga contra o pesar da idade
dizem, o real está no chão, nos caminhos
de terra já batidos, postos em fotos
a preto e branco. 
e como foram batidos? pergunto.
não foram caras lisas
fugidas da herdade da família
seja a sua ou a de onde trabalhavam?
se o que vale é puxar carroças e carpir
então deixem-me puxar carroças e carpir
com a pobreza à espreita num denso matagal
e os animais no quintal balindo pela vedação
que os protege da sua mente simples de rebanho.
não foi para isso que trabalhámos.
muito bem, sabe-se que não,
vergar a mola é produto do desejo
e o que compele no esforço é uma promessa
de descanso, a paragem idílica no comboio
da meia-idade. agora sentados à porta da estação
olham para as margens de dois rios e deixam-se estar
no tal real que construíram. a norte as gentes grandes
e a sul as raízes. 

essas paisagens são embustes, uma máscara
para que não se percam em como cruzaram o mar a nado
e na costa, exaustos, perceberam que estavam onde partiram
e o cimento todo que cresceu entretanto
foram malandrices de gentes grandes
fazendo crer que as terras são um esforço
e não a matriz das mentes sãs. 



terça-feira, 15 de outubro de 2024

sobre o amor

o leitor mais assíduo mandou-me ler poesia moderna
especialmente bukowski, que somos parecidos ou assim
pelo menos nas entradas e nas minúsculas, na falta
de consideração pelos inícios sem grandeza.
tá certo, fui à livraria mais conhecida da cidade
verdade que com duplo sentido
e fui buscar uma colecção sobre amor.
uma das funcionárias surgiu-me há dias num sonho bonito
de riquezas e conquistas, amizades verdadeiras
e o triunfo do espírito perante a carne fraca, unidas
no afeto das pessoas adultas que o censor
prontamente avançou-me da vista.
quando acordei foi como se tivesse acontecido
não me queixo
e com isso consigo afogar o que resta da outra donzela
e não me queixo novamente.
lendo o subtexto que criei na minha cabeça infantil e tapada
fiquei uma semana em cafés a tomar, dando tudo,
mas a coragem bebe-se e depois desaparece
como disse um bom amigo
então fiz questão de lá ir, todo narso, e seja o que
Deus quiser.
ela não estava, que miséria.
atendeu-me um tipo magrinho de óculos mas pouco observador
e trouxe-me o livro
e mais outro que eu pedi de instinto
e ainda me cobrou euro e meio pelo saco de papel.

então, sobre os poemas do homem:
no amor encontrei de tudo, 
conas e mamas
e pixas e sexo selvagem e cus
e pessoas a lambê-los,
paixões de esplanada, gastas numa noite
expirando num duche quente.
não vejo as semelhanças
até porque eu nasci quando ele morreu
mais ou menos
mas estou convicto que preciso duma pessoa deste género
para me ajudar a conquistar uma próxima amante nos meus sonhos.
a última vi-a deitada numa cama, em tronco nu
pedindo pouco mais que uma vida honesta
e por favor livra-me de trabalhar.

diário do barreiro I

que bem se dorme sem o peso dos sonhos
os olhos trancados a sete charros, que beleza
o silêncio e o tempo a passar rápido.
mais cinco minutos, levanto-me à pressa
e nem tenho ramelas.
divindades descansaram nesta noite
a raiva trocou com a moleza.
desperto e com a espada à cinta
vejo pela janela um buraco finalmente tapado:
acabaram as obras, boas notícias.


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

culpados em par, dois tipos de medo: passado (eu) e futuro (tu)

estou mais forte. 
mais violento
suspeito
porque os conflitos desbocam à minha beira
com a facilidade dum fogo que pega uma acendalha.
esta energia suada cansa e um dia
sei que se vai esgotar, 
no escuro e num estouro.
ganhos escorços escondidos
atrás de tumbas que plantastes cá dentro,
seus asnos.
perdoo-vos e perdoem-me, dos céus
ou das profundezas do oceano que nos separa.

um que não é igual aos outros,
quando fiz tremer o chão em ira
que apontei para cima
vi-os aos montes suspirando
pela minha perda de paciência
mas um, apenas um, símbolo de muitos
colou à ocasião a sua paixão devoradora
e oculta, e largou um feixe de olhares
endiabrados, coitado, e o nó dos dedos 
a estalar, uma raiva que esvoaçou
com um sorriso.
a ocasião foi péssima e abri uma linha
nas dívidas da essência, não cobra juros
mas nunca fica salda. é o preço justo
que paguei mais de mil vezes,
o meu corpo servindo de testemunha.

sabes, 
suspeito que algo aqui está um pouco mal contado.
o sininho debaixo das mantas está a tocar
e o que toca entende mais do que eu destas coisas.
porque fazer fintas quando se tratava dum impulso?
cheira-me ao velho osso contra osso
a tua vontade contra a minha
submissão a regra.
eu detesto esses joguinhos
nunca fui de competir
nem com pares nem com primos,
só fantasmas de tempos primordiais
e mesmo assim sou meiguinho.
agora lanças-me a mão em braço-de-ferro
e quanto mais penso mais sentido faz
eu nem tenho nada a ver com isso
mas vejo-me frente a frente, pendurado
num balcão de madeira, a optar
por ser cobarde ou aceder
às tentações da tua esburacada auto-estima.