passei a madrugada rebolando no colchão
treinando discursos para uma plateia vazia
na noite passada devo tê-lo feito em sonhos
acordei numa poça suada, ouvidos entupidos
a colcha amontoada no chão, coberto de lençóis
com uma secura na goela que não virou doença
apenas pela injusta resiliência deste corpo castigado.
hoje não fui tão paciente, ou estava menos cansado
assim pela hora do diabo desisti de pretensões
aqueci um leite magro e escancarei as janelas
hora afortunada, tirei o camisão e abracei a brisa
que vazava o fumo desta sala
até que veio a chuva, poucos minutos depois
e por sorte estava em pé e recolhi a roupa.
hora afortunada com certeza.
esta costumava ser a brecha do glutão
caindo em qualquer banal tentação
uns biscoitos, um charuto, bagaços numa taça
sequestros da carne em passinhos leves
a velha cena dos lobos da cidade
vivaços, mascarados de pessoa
com a cruz no peito e a voz dotada
esperando seguidores que não os vejam
enquanto devoram inocentes.
agora emplumam os pêlos, lambem as patas
fazem metas, cumprem planos
colaboram com a presa.
todos querem alguém com quem contar.
com o estendal cá dentro sentei-me novamente
repensei o dia e li um pouco
sobre costumes antigos de carroças enormes
como a casta baixa era engolida pelas rodas
crendo que se tratava duma enorme bênção
coitados
idiotas
não devo praguejar a cultura
mas morrer debaixo da pedra
parece um infeliz fetiche
de quem se queira livrar
da escumalha.
talvez seja hora de sair de casa
a chuva abrandou.
vim cobrindo o medo
com o meu gorro orelhudo
os prédios lançando sombra sobre a sombra
meti-me na estrada
passei pelos cafés, todos fechados
uns pela hora, outros pela morte
quanto mais longe de casa
menos cansado ficava.
passei por uma puta junto à paragem de táxis
parecia ter frio, claro, com a farda que levava
queria trocar umas palavras
mas receei que fosse roubar-lhe tempo
do seu trabalho
e no fundo só queria desembrulhar
a conversa que me pôs aqui para começar.
segui em frente.
no escuro é difícil perceber
mas havia morcegos, ratos, baratas, carochos, traças,
pombos entre calhas e varandas
solitários à janela, homens dormindo nos túneis
em cartões manchados, a folhagem seca
e eu, policiando a verderena.
sem me aperceber discursava novamente
esperando o retorno com atraso, mil palavras
para te convencer que eu sei o que sabes
vamos fugir
pensava
só que na pele de verdade eu adoro esta margem
e os malandros com receio de mexer
quando a luz os descobre.