foi o meu ar inocente e tranquilo, naturalmente
protegido da suspeita, inofensivo,
nem o desprezo da cara franzida a meio
nem as baixas da tripulação
nem o meu broche discreto dos anos noventa
agarrado à minha malinha de mão, preta
e descaracterizada
nada
passei insuspeito e nas margens de tolerância das máquinas
tanto e tanto, a sorrir com a ponta da língua pousada nos dentes,
até podia ter trazido impresso na carteira
uma cábula ou uma trapaça de mirim traficante.
será fácil
ou é fácil porque?
trago mais crimes que vontade
mas também trago mais maldade que suspeita
um equilíbrio mais simétrico que o sorriso
deste segurança fardado à minha frente.
eu tenho um grupo, é o disfarce
vamos a trabalho ou a prazer
digo
como se fosse numa frase tão simples
dizer pra onde se vai e o que se quer.
tenho libras, euros
dólares ou dollars
e um canivete suíço
encarnado e com uma cruz na pega
trago um chocolate para a minha mãe
e um disco para um amigo
também.
confio na minha suspeita que este fulano nem me está a ouvir
só a bater o olho, se pareço nervoso,
um procedimento eficaz vendo as outras escolhas
que ele faria se fosse livre.
tirei o tabaco do bolso a medo
o instinto tomando a decisão certa
fazendo-me crer pela razão errada.
muito simétrico e dutiful
a bordo, uma avioneta minúscula
encaixotado contra uma família,
com a criança e a mãe ao lado, junto ao corredor
único.
a criança com toda a naturalidade entrou numa ansiedade
de estar ali trancada tantas horas,
encaixotada contra um fulano
que escolheu o assento mais barato.
a filha cada vez mais nervosa
a senhora espreitando pela janela uma fumaça sem forma
o fulano a fingir que dorme.
a inofensiva arma-saca-rolhas dormiu a viagem toda
despertando apenas em casa, para dentro duma gaveta.
dizem que aqui nem mesmo um canivete pode ir no bolso de qualquer jeito
é verdade
e eu trouxe isto numa viagem mui longa e controlada
com cada passo gravado e arquivado conforme os regulamentos
ainda assim temendo mais um acaso da rotina,
a parte infiel do nosso rosto servindo melhor
quando cremos nos nossos próprios esquemas.
depois acordei e esqueci-me de tudo.