segunda-feira, 9 de setembro de 2024

duty free

um canivete duty free entra comigo a bordo
foi o meu ar inocente e tranquilo, naturalmente
protegido da suspeita, inofensivo,
nem o desprezo da cara franzida a meio
nem as baixas da tripulação
nem o meu broche discreto dos anos noventa
agarrado à minha malinha de mão, preta
e descaracterizada
nada
passei insuspeito e nas margens de tolerância das máquinas
tanto e tanto, a sorrir com a ponta da língua pousada nos dentes,
até podia ter trazido impresso na carteira
uma cábula ou uma trapaça de mirim traficante.
será fácil
ou é fácil porque?

trago mais crimes que vontade
mas também trago mais maldade que suspeita
um equilíbrio mais simétrico que o sorriso
deste segurança fardado à minha frente.
eu tenho um grupo, é o disfarce
vamos a trabalho ou a prazer
digo
como se fosse numa frase tão simples
dizer pra onde se vai e o que se quer.

tenho libras, euros
dólares ou dollars
e um canivete suíço
encarnado e com uma cruz na pega
trago um chocolate para a minha mãe
e um disco para um amigo
também.
confio na minha suspeita que este fulano nem me está a ouvir
só a bater o olho, se pareço nervoso,
um procedimento eficaz vendo as outras escolhas
que ele faria se fosse livre.
tirei o tabaco do bolso a medo
o instinto tomando a decisão certa
fazendo-me crer pela razão errada.
muito simétrico e dutiful

a bordo, uma avioneta minúscula
encaixotado contra uma família,
com a criança e a mãe ao lado, junto ao corredor
único.
a criança com toda a naturalidade entrou numa ansiedade
de estar ali trancada tantas horas, 
encaixotada contra um fulano
que escolheu o assento mais barato.
a filha cada vez mais nervosa
a senhora espreitando pela janela uma fumaça sem forma
o fulano a fingir que dorme.

a inofensiva arma-saca-rolhas dormiu a viagem toda
despertando apenas em casa, para dentro duma gaveta.
dizem que aqui nem mesmo um canivete pode ir no bolso de qualquer jeito
é verdade
e eu trouxe isto numa viagem mui longa e controlada
com cada passo gravado e arquivado conforme os regulamentos
ainda assim temendo mais um acaso da rotina,
a parte infiel do nosso rosto servindo melhor
quando cremos nos nossos próprios esquemas.
depois acordei e esqueci-me de tudo.

sábado, 7 de setembro de 2024

arrogam-te

sou imbecil
quando amando as migalhas pelo chão
vejo uma trilha de meus pares
dos meus primos.

sou imbecil
franzindo com desleixo 
das aras erguidas em cimento lerdo
onde suborno é alcance.

apanhei-te duvidando
da pedra suja a que chamas de casa
seu imbecil ousado
de botas e fardo usado.

paga, pega o que cabe numa taça 
e enche-a até à boca
e até aos dentes 
pingando tinta pela camisa branca.

medalha de mérito, troféu de presença
filhos dum pau e da descrença.

esquina do meio bairro, os bravos matadores

vide, os heróis! ahhh, como velharias numa montra 
o estofado completo, um de chapéu da cruz campo
vários em cores descondizentes, rodando vagarosamente
pela via pública que CONQUISTARAM, os bravos,
sentadinhos em couro antigo e com cheirinho a pinho 
do wc pato, agarrado à cinta escondida atrás da barriga.

desvia-te,
desvia-te que as tuas solas não valem uma ponta de um bigode
dos corcéis destas lendas vivas, os senhores da madrugada
as marias amarradas à cómoda, batendo pó e palmas
quiçá o próximo sinal seja no goucha
e por isso andam todos com a telefonia no máximo
não seja hora de partir em heroico desenlace novamente. 

ohhh juventude herodiana, acho eu
devorando criancinhas com mais de meio século
mal sabeis o que é ligar um rádio, como era difícil
importar e fazer da terra chão que se habite
agora no paraíso das máquinas (whodunnit?)
o que é feito do cante da andorinha
onde anda a moagem de um sol simples
amizades de tempo e espaço, cravadas na areia
e com raio menor. circulais com essa pressa
com os chinfrins na vista, seja o verde
ou esse ócio a que chamais solidão.

vede, evidilha presa numa memória
vimo-vos nas massas pousadas em sorriso 
agora um pretexto para jolas e uma pequena dancinha.
vide, a caixa da tia, abriu o presente e 
desapontou: a lança, o rumo e o sentido.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

homínimo

el pueblo s'alevanta cuntigo, compadre
sobreviva ao consolida
sobre a vida, sobre a vida
sopas de crias, minha crida 
querida, menina de rosas negras silvestres.
póneis chifrados por presas mansas
doméstico menor,
amoras se ajuntam e sujam-lhe a ponta dos dentes caninos.
brigas e intrigas
qu'el gran pueblo s'alevanta
e liberta o tibete
aberto, coca e cola
remendos de farinha na oficina
garras felinas em toxinas meninas
mantidas a finas unhas compridas
ffffffalei-te do gás da quinina
ffffalhei-te vagas cominas
valência frequente, pé frio
pé quente
passo
passo
passo
longe
e o eco, desembrulhando-lhe a sina
affalência.

bandeira amarela

o vulto das gaivotas passa entre os raios de um sol se pondo
doente, cansado, à espera de um amanhã que sempre vem 
mas nunca muda.
baixei a viseira, a gravilha cuspindo-me na cara com desdém
a pretensão de gostar sem saber
e com o sol escondi-me atrás do baço e do riscado
e fiz-me ego e volição e noite.
muito acima deste plano, o valente da humildade plena
rodando veloz, voltas intemporais, filho de um carpinteiro
quando nasceu? será o seu apreço e a sua estima
uma virtude emprestada da carcaça despida duma espinha
que a ligue a céu e chão?
terá fugido para o abrigo último ou simplesmente antecipado
o resultado desta prova? em ambos, obviamente vencedor.

a coragem enche-me os pulmões e circula em si
nariz trancado, beiço rijo, vista parda 
levanta um fumo misturado de tabaco e óleo
um melro pousado no meu ombro esquerdo
vai-me dizendo verdades bonitas, mentiras precisas
virado para a frente, uma flecha certa 
aponta para onde vamos, seja qual for a rota.
saltam roncos como erupções, o vulcão da fé
acordado na turbulência correctora
o medo prende-se no acrílico e faz-lhe um risco
a barreira, um quisto sistino e guerreiro
marcas na estrada por onde passam.

o melro pia, abre a viseira
sente o ar por onde passas, o pó que se levanta
como curva a dor perante a voz.

o punho cerrado como no adeus, vontade expressa
e pendurada no peito de cabeçudos, brilhando
por um mar deserto com manchinhas verdes e azuis.
vira, vira,
volta rápido
a armadilha donde fugiste tranca-me no mesmo turno
e o ouro do fim da era deita-se lentamente sobre todos.
nunca tão rápido.
a vontade de vencer, emergente
sentes o tremor da fraqueza no pulso exposto
sentes o tremor da fraqueza nos ombros leves
o melro pia, cautela, perseverança
mas bati o pé com força e enxotei o meu compadre
decisão de um pavão,
e acabei na parede, coberto de pó e espuma
que não foi fruto do meu labor.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

fim de agosto

os dias encurtam no meu país
todos os anos, reduzidos
à vã previsibilidade do sol
e dos céus.

é aquela fase, afigura-se propícia
cubas pousadas das vindimas
esmagada pelo calor e pelos pés
peludos da vida ou reluzindo
da lente que os trouxe.

prensei e prensei e pensei
que um raio de luz que disparava
duma falha na cabana da adega 
foi um sinal ou um presságio
colheita mansa, a dança na cesta
foram valsas em terços.

valsas em terços
as trincas pousadas nos barris
garfos usados e facas da poda
as aranhas nos cantos, cantando
e a jorna tímida
escondida debaixo das saias
do outono precoce.

os talos cunhados para as barbas desfeitas
ou para as barbas nojentas, manchas na pele
do calor de carpir noutra era
ou da calçada grande que faz de manta
de solos contaminados
ou de cama
de sonhos abandonados
num cálice ou num meio litro
de combustível do chão
fugido das unhas.

o homem de aço
sorvendo bagaço
as tremedeiras da mão
com dias num presto
e a colheita feita.

middle managers
marketeers marqueteiros
batoteiros, beca cringe

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

hymenoptera

relógio não
uma onda fluída
moléculas em equipa
passinho passinho passinho passinho passinho passinho passinho passinho passinho passinho 
outra, rebenta na rocha
danças ao microscópio.
abelha perdida
sem flor
crustáceos esmagados no bico das gaivotas
sozinha perdida
bzzzzindo por aí
ela mesma
flagelo a olho nu.
foi ciscada na barriga de um peixe corajoso
e morreram ambos.

eu socius 
brotam do chão
vizinhança intolerável.


filhos do corpo, pais da redoma

odiei-te à primeira e à segunda
nos teus ofícios exímios
nessa beleza boémia, a falsidade rápida
a justificação da minha suspeita.
em pouco confirmou-se quase tudo
que era vão o esforço, entregue às 
predações da morfologia citadina
arranhando os céus com uma promessa
de que tudo era possível 
se a combinação fosse certa
e a visão alta.

engolia os teus sermões entre tragos e whiskey
e os grunhidos peristálticos, quase gritos
esperando que pousasse livro e cigarro
o desagrado de um fantasma
que assombra a máquina, binária e reptil,
adversário que não treme e só hesita
perante o concreto, nunca sobre o tormento.

é assim, pronto
ensinas-me de prosa
e tantas forma de ver tecidos
e os seus padrões e como assentam 
em corpos bonitos
e eu vou anotando com desleixo
e vou guardando mais razão
e vou tentando o fantasma do sótão
que se ergue em segredo frustrado.

tolerando-te com rancor frio e analítico
predicado num geist com pouco zeit
fomos passeando pelas tuas memórias
conhecendo a família, o pai ausente
as espinhas duma rosa caprichosa.
ena, pensei eu, a meio do caminho
e quanto mais caminhávamos,
eu, tu, o fantasma, a máquina que o ata,
o pássaro escondido, 
alienados uns dos outros com uma destreza
típica de poetas e escritores,
mais percebia que andávamos em círculos
talvez pensando, talvez fugindo
e caiu-me a ficha com estrondo
um espelho no chão
plim

era uma redoma
que nos trancava cá dentro
ou nos vedava do resto
e viveste no corpo
como poucos
e como eu
e eu nunca pensei
que neste ódio que guardei
iria encontrar o meu reflexo.

és atriz e profeta
faço túneis no subsolo
todos filhos do mesmo barro
eu, tu, o fantasma, a máquina que o ata
e o pássaro escondido.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

frágil

enfermo, entenda-se
do juízo ou do querer
pois quando abres a cristaleira
copos em vidro fino brilham
como riquezas principescas
e quando a sede ataca
jogas à boca essa caneca
corrida dos anos e gasta
da tinta que lhe conferia mistério e carisma.

enfermo disparaste a caneca
contra o chão com violência
tal que sentimos o abalo
a milhas e milhas
e as pecinhas de cerâmica
cortaram as nuvens
e choveu em agosto.
quando vi o nublado 
atípico da época
já lhe sentia o cheiro a húmido
e os céus se resolveram apenas
a confirmar esta intuição.

agora escorre nas calhas
e desce pelas ruas, rumo ao rio
e desce por suas margens, rumo ao mar
e desce pelo mar, rumo à negritude do abismo.

ninguém apanhou o estilhaço
e quando abriste a copeira 
para tirar o prometido
tudo virou areia, que misturado com a chuva
fez do cristal um barro informe
sujando-te a ponta dos dedos
e escorrendo lentamente
para cima dos cacos da velha caneca.

pendurei-me na janela
nesta casa de lama
feitoria minha, construída com tempo
supus que despertavas
e bebi um copo à nossa
num cálice de ouro
que escondi de templários
do mundo das nuvens.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

o mundinho bem vivido, rumores // sanar ou encarar

um certo vício no odor
fétido que cobre a cidade
e os seus dejectos
inspecionado com intriga 
lazão montado com nojo
que desprezas, e eu entendo,
só que será sempre um ser terrestre,
domesticada vivência equestre
acompanhado de moscas que zombeteiam
o processo pedestre que torna a matéria
nesta forma abjecta, vulgo necessário
o almoço delas e o nosso fascínio
mórbido e orgânico.

duas condessas
a primeira fugindo
a segunda nadando
em lagoinhas de ouro
em ácido puro, remédio
do ego
ambas em burros
com seus condes e suas aias
tapete que numa faz de véu
e na outra de chaimite
desbravando com seus comparsas
e as suas aias
um exótico e pútrido encanto
com o chão profano e macio.
à conquista do ardor que lhes permeia a vontade
uma fitando para dentro, caos evidente,
que produz ordem em rosas e mil flores, chagueira
que trouxeste dos séculos mais prósperos
e agora morre numa terra imprópria.
a outra regando sem dar vida
com o deleito que pacífica
a dita vontade antiga
como uma ejaculação necrófila
por cima desses mesmos sonhos.
quando o mundo treme a gente abana
quando a gente hesita o mundo abranda.

pensei no fim meio convicto
medi o despertar na linha, o contacto
com os meus pares, o meu par
que exista algures num destroço que se faça
imóvel e capaz.
sem termo.

largar a doçura do que apraz
no passado só vestígios
em termos certos, concretos
determinado e mordaz, moderno
e o chapéu capacete cristaliza
um clímax nefasto e necessário.
salva-te a alma,
a retina incolor, negro na vista
como uma ilusão,
a iris céu profundo,
quase reto, quase perto
e antes do fim do mundo
e antes de todo o mundo.
dá-me forças no momento
o infinito por um luz
que finjo que não vejo
no caminho e no desfecho.

mistura de nações
todas as canções 
são o teu nome
e nada temo no tremor
um filho do pudor
rezando males por bonança
crendo a confiança
que desenha o caminho
nós e um filho
dois ou três ou quatro
nos escombros do que não foi.


estática no texto

senhora e filha, porta adentro 
mirando duma mesa em esplanada ocasional
percebem-se bem os fantasmas da mãe
que assombram o rés
e incorporam a criança pelos olhos
e ouvidos.
tirei um golo do veneno clássico
os movimentos, neuróticos, impacientes
tão certos do que nós somos
estas vilas mornas e incoerentes, feitas em pedra
do mais fácil, evidência de quando vendemos
o jogo por um duche quente.
criança de olhos abertos, sorvendo na alma
fantasmas antigos, demónios, bandidos,
tudo normal, eis o carácter.

mais um golo, meta pronta
que ontem jogamos à bola e foi bom
reproduzindo aquilo que em tempos foram pais
ou mestres, ou apenas um servo humilde
que deu termo à causa anunciada
e dedicada ao prenúncio da Mensagem.

falei disso, sem coragem por optar
mas serei isso, se o destino optar.

que prova preciso?
a tentação, rolando pela mesa como dados
incertos, esperando a certeza da sua instância,
no caso imóveis,
no meu, bafando entre dentes amarelos.

um bom chapéu, o futuro
escadas acima, sobem elas,
e vejo que à volta a vida segue.
agora não, imortalizadas ficam
nesta ilha perdida numa rede.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

braços e ancas e pulsos e a juventude eterna

rodando pratos numa vara
a pequenez posta à prova
com ódio macio, barbudo
com ódio latente, sistémico
estratégia ou equilíbrio,
preservação e sapiência
cruel
cruel
ambos por igual.
assumes tu.

a maldade filha do castigo
o silêncio da vivência
sois tão mais que nós
na vossa força que tresanda?
é a força que abranda
os tentos dessa tenda
que é larga e convexa
gemidos de salvação
tratando tratados da nação
perdida e procurando socorro.

palavras
cruzadas
eu
tu
em par
em suspeita
guerra aberta
um contra o outro
um contra o outro
e a vida aqui.

prisão perpétua

trancado no roxo eterno
servo de nações, filho do alto duma torre
o mirante, capitão 
chão feito de ar e um vapor
a que chamam nuvens
delicadas na vista, fumo da narina
entupida, estagnada
a resposta, lenço imbuído 
em jasmim e lavanda
invisível. 
queimei a laringe
e prossigo, na mesma sala,
as cortinas tentação, encarnado
vivo e brilhante, dobras cinéticas
que preenchem o contorno lilás
desta prisão. mil anos
mil anos e mais outros
perdidos de vista sem conta
que redima o silêncio de redomas
tão certas, concretas
como a corrente que me joga contra o chão
estocado com mil anos
mil anos e mais outros,
a pele cedendo de podre
a entropia consome a matéria
e a memória fumega
pelos cantos da sala, levantando pilares
como teias em seda fina, cinzenta
cor do futuro que espreito
pela fechadura.

trancado no roxo eterno
servo de nações
o juízo, a Porta Aberta
salivando da vontade
preso pela perna em aço frio e raso,
ora afrouxas a trinca
ora espreitas lá fora.
limpando a testa, descanso na cama
pondero ambos, resoluto
mais que o ferro que me amarra.
hmm, não. queria eu.
ora afrouxas a trinca
ora espreitas lá fora
é uma escolha
o destino no desfecho
abrindo as cortinas como um teatro
do mundo inteiro, em cena
nesta prisão de mil anos
e mil anos e mais outros.