o trânsito vai gaguejando
por baixo dos nossos pés
num dia de pouco trabalho
fazendo tempo com a malta
fugindo do chefe no cigarro
com os cabelos ao vento
com os compinchas de guerra
com gente grande e massuda.
foi daqui, crime numa cena,
quanto te fui buscar para o cinema
e tornaste-te na mão que destrancou
o rumo de centenas de poemas
ou quiçá dezenas, ou dúzias,
números nunca foram o meu forte
mas contei contigo.
quiseram as sinuosas estradas
debaixo da redoma de vidro
que agora contemplasse de cima
o caminho que terias feito
se tivesses cumprido com o plano.
isto não é queixume, até é engraçada
a volta que os carros fazem
descendo a avenida, cruzando a ponte,
metem o pisca e seguem para o outro lado
aquele para onde foste, rumo ao aeroporto
pelo subsolo.
observo-o fluindo, o homem da cigarrilha
que vai testando a sua sorte à minha esquerda
deve envelhecer mais comigo
do que tu. já lá vão mais de três anos
e entrámos no mesmo dia
eu a medo, ele não sei,
mais um bancário qualquer
que comia gelados e fazia pouco
como nós, mas menos sensível
à chuva e aos ventos da outra margem.
ele já foi, tu já foste, ficaram
4 marmanjos e uma miúda nova
que na altura não conhecia
e acho que é para ela
esta 301ª entrada n'affalencia.
dia a dia, letra a letra, o passado
desmanchado em linhas curtas
que servem de marcas na via
para navegarem esta história
duma pessoa banal e perdida
num terraço a meio gás
como tantos tantos outros
que só daqui consigo ver.
amiga escondida atrás dos óculos
de sol, num dia nublado como este,
eu sei que cá estamos
mas não há sol contigo em vidro
atrás de vidro atrás de vidro.
observas quatro malandros
como eu vou vendo o trânsito lá em baixo.
entendo. radias uma força que me obriga
a reprimir a vontade. não é a toa
que os caminhos da rotunda
deram à volta entre tu e a outra.
que segredos esconde este percurso.
começou a chover, jogámos as beatas
no pilarete-cinzeiro. os carros
seguem passando
e faço planos de fugir.