quarta-feira, 30 de outubro de 2024

8º na gago

o trânsito vai gaguejando
por baixo dos nossos pés
num dia de pouco trabalho
fazendo tempo com a malta
fugindo do chefe no cigarro
com os cabelos ao vento
com os compinchas de guerra
com gente grande e massuda.

foi daqui, crime numa cena,
quanto te fui buscar para o cinema
e tornaste-te na mão que destrancou
o rumo de centenas de poemas
ou quiçá dezenas, ou dúzias, 
números nunca foram o meu forte
mas contei contigo.

quiseram as sinuosas estradas
debaixo da redoma de vidro
que agora contemplasse de cima
o caminho que terias feito
se tivesses cumprido com o plano.

isto não é queixume, até é engraçada
a volta que os carros fazem
descendo a avenida, cruzando a ponte,
metem o pisca e seguem para o outro lado
aquele para onde foste, rumo ao aeroporto
pelo subsolo. 
observo-o fluindo, o homem da cigarrilha
que vai testando a sua sorte à minha esquerda
deve envelhecer mais comigo
do que tu. já lá vão mais de três anos
e entrámos no mesmo dia
eu a medo, ele não sei,
mais um bancário qualquer
que comia gelados e fazia pouco
como nós, mas menos sensível
à chuva e aos ventos da outra margem.
ele já foi, tu já foste, ficaram
4 marmanjos e uma miúda nova
que na altura não conhecia
e acho que é para ela
esta 301ª entrada n'affalencia.

dia a dia, letra a letra, o passado
desmanchado em linhas curtas
que servem de marcas na via
para navegarem esta história
duma pessoa banal e perdida
num terraço a meio gás
como tantos tantos outros 
que só daqui consigo ver.

amiga escondida atrás dos óculos
de sol, num dia nublado como este,
eu sei que cá estamos
mas não há sol contigo em vidro
atrás de vidro atrás de vidro.
observas quatro malandros
como eu vou vendo o trânsito lá em baixo.
entendo. radias uma força que me obriga
a reprimir a vontade. não é a toa
que os caminhos da rotunda
deram à volta entre tu e a outra.
que segredos esconde este percurso.

começou a chover, jogámos as beatas
no pilarete-cinzeiro. os carros
seguem passando
e faço planos de fugir.

amigo do dente azul

pára, cuidado, para antes que te façam a folha.
a alta patente fez-te tremer nos sonhos
os teus mestres fizeram-te comer pela calada
temer a matemática, o teu talento escondido.
talvez seja a última pessoa que se lembra
de como eras bom com cartas e contas.
deixo-te esta pequena homenagem
os compinchas do bugalho, 
a tua avó contou-te com apreço
como todas as pedras no terço,
e o rufia do teu cota partiu-te um dente,
filho da puta. 
tinhas um sorriso honesto na mesma.

havia muita mágoa e tragédia escondida
naquela turma. podiam ser umas bestas
mas foram cravadas em aço quente
e cintas de couro velando pelas nossas costas
como as unhas do diabo cravando na fruta
do pecado, pingando lágrimas que foram traumas
e que passávamos uns aos outros 
entre sorrisos deprimidos,
escola miserável.
somos rijos, sois rijos
e os que não foram dentro
ou não se conheceram no fundo do copo
vergam a mola com orgulho e família
espero
ou jogam nos prados infinitos da alegria.

uma leitura idiota daqueles tempos
é que havia brutos e minorcas
escondidos. não podia ser mais estúpido
como os professores, coitados, não
entendiam chavo de crianças. o luxo
um pedaço de plástico, os lápis mais baratos
da loja d'artes, o casaco do outlet,
umas barrinhas fininhas de haxixe.
não são desculpas, são reflexos
de como éramos miudagem da casta baixa
agora temos olhos na cara 
e a neblina na vista
e podemos fugir
dos buracos na calçada.
antes não.

lembras-te 
quando a inês roubou a caixa dos valores
sem a conseguir abrir
foi um filme, corremos o bairro todo
e ela acabou por devolver, muito envergonhada,
e nós chamando "cara de peixe!"
porque pecado maior era ela ser feia
que ladra?

lembras-te de como não havia
ódio na sueca
nem facadas de amor
nem drogas ou bebida
só violência natural
gozões e gunões
e alguns dando a parte fraca?

pára, ex-amigo, não sei o que é
feito de ti nem dos teus
mas desejo-te o melhor
mesmo que não tenhas sabido
ter tento na mão pesada.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

abancado no cenozoico

o banco do junot estava lascado e tosco
perdido num jardim na alma de monsanto.
achei a metáfora bonita, pus o meu melhor sorriso
e o ben sacou-me uma fotografia.

o que são inimigos 
quando a história não passa?
são os mesmos versos, em línguas distintas
no ferro frio, predadores à caça
senhores das sete quintas
ou colinas.
chamas-lhe quinas e eu devia
mas perdido nas esquinas atrevidas do teu legado
esqueci-me de quem fomos. 
esqueci-me do que somos.

saúda a pátria, marcha nas fileiras
contra os canhões e contra o pó que s'alevanta
mesmo que estejam do teu lado. 

eu não sou de cá nem de lá
tu também não, leitor.
és de ontem, do mesozoico,
os cordéis que te atam ao barro
foram liados por pássaros
com a chama no bico
e o sangue nas penas.
riscos não são heranças
muito menos que os passinhos duma alvéola
no campo a brincar com os irmãos.

és sobrinho dos grandes xás
és o grande soberano
és o filho dos carpinteiros
fugiste das minas de carvão
e da plantação de algodão.
foste castrado
foste preso ao chão que cultivas
foste mecenas e orador
em nome do Senhor.

quando marcharam em nome dum sonho lindo
foste tu contra outro tu
tu tu tu
e tu tu tu
fugiste e lutaste e cantaste e juraste
que a paz seria eterna só depois
de mais um turno na torre.
as tuas pombas serão arruadas
e nada será nem paz nem eterno.
nessa altura seremos fósseis
a carburar numa nave engenhosa
e invisível.
mas o sorriso num banco de pedra
será para sempre: 
nos dedos,
numa memória feliz 
com amigos de sangue
tu e eu e tu e tu. 
nós.

domingo, 27 de outubro de 2024

para a americana no banco alto do pub

cheguei com os meus pés fedorentos ao cúbico
que digo que é meu. a fumaça ainda não conseguiu
escapar deste degredo, nem eu.
puxemos outro, em boa medida.

chamava-se the couch, apesar de não ter sofás
nem assentos a gosto. lutámos para sentar
mas valeu, porque um bar de pessoas agarradas
ao desporto é mais do que uma maré daquilo
que a arte chama de arte, seja o que for
a arte.
amámo-nos num bar de jogo e dardos.

tenho compinchas, fiéis escudeiros das batalhas
contra e com a normaleza, milhares de anos
pingando contra o balcão. somos primos
e família nesta. jogo da vida, as apostas
contra uma placa que roda luzes. golos
contra as lágrimas que reprimes.

dancemos, americana,
o pó será o que resta.
as vossas festas nas coxas
são um consolo elástico da devoção
duma mulher racional. no mundo da vontade
fluímos como crianças, pombos que respondem
às esmolas de gentes melhores.
dançámos sim, para salvar a vida
daqueles que sentem a vida
na pele e na alma e naquilo
que faz a vida ser a vida e não uma conta
de merda e rotineira
mais uma peça na trama da grande
vontade que nunca foi a minha
nem a tua 
nem a nossa
nem a de um porco que estica o pescoço
na matança mas se lembra que foi
filho de Deus
como eu
e como nós
e dançámos por ele
e por nós.

somos crianças
como cavalos no pasto
sem fé, só vontade
de fugir das moscas.
pele grossa, coração que bate
contra a vontade das preces
que a gente seja
da vossa.
nunca
nunca nunca.

filha americana, salvas-me a vida
sendo devota do vosso amor
das ancas carnudas que tu
e o teu rapaz jogam contra bancos
de três pernas num bar de jogatinas
disfarçado de tuga no meio da avenida.
sei os teus passos e sabes os meus
e sabemos o preço do pecado
e da pele rija que a gente
guarda os dois no juízo
de sermos decentes.
fugimos e fizemos família
numa dobra sem resposta
nem retorno. os teus olhos azuis
e os meus, breu como os abutres
na hora da morte, 
a carne à mostra e eles salivando.
coração de plástico
sou teu vassalo
e serei plebeu
até o fundo do poço tornar o desejo
num parasita que consome
a vontade dos bons seres
que passeiam no prado
com nome e elegância.
amei-te por minutos
e fugiste por tempo igual
e fingimos que não
pelos meus irmãos
e pelo teu amor.
pele grossa, tento sensato
de pessoas adultas e
acima das frequências
que são as vidas
de pessoas elásticas.

sábado, 26 de outubro de 2024

a batalha moderna vista em canais do telegram

nas linhas da frente um coronel foge
para debaixo dumas silvas horrorosas
para se esconder do drone que o caça.
o resto do regimento já virou rega
para as sementes do ódio.
em silêncio, sustendo a respiração,
ele pensa nas suas vitórias, no que foi 
feito dos seus tempos de civil, 
os amigos idiotas trocando rodadas
entre si, pobrezinhos que não escapam
de silhuetas despidas e do contorno
da garrafa. foi inútil.
ouve as hélices cortando a folhagem
aproximando-se.
ele tinha namorada, amou
como conseguiu, não bastou
e depois partiu para feitos
honrosos, à espera de consolo
no átrio dos seus antepassados.
ele múrmura o último apelo
aos céus. sem resposta.
um grande silêncio
e anónimo se foi
no meio das silvas
tingidas de negro e vermelho.

o operador celebra a vitória
e risca o nome de outra pessoa
que pode ou não ser ele.

paciência, nem tudo foi ontem

os dias felizes são calmos, desavisados
e passam num instante. as coisas importantes
não acontecem em dias felizes.
podem ser loucos, frenéticos, que abalam
o mundo. terramotos, dias de guerra, uma cimeira,
o advento do profeta. podem ser mágicos, mas nunca
felizes. 

nos dias felizes os melros partem 
e as folhas caem nos jardins,
guardam-se os sapatos no armário
e deixas-te encostar no parapeito
a ver as pessoas passeando tranquilamente.

o fumo e o fogo ficam na ponta
do amanhã à espera que os tumultos
voltem. só amanhã,
porque hoje foi um dia feliz.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

para o pistão

pistão vais prensando as dobras nessa peça
e na próxima
próxima
próxima
próxima
ao infinito.

trocam-se as chapas mas continuas maquinando
com os vapores correndo, abrindo e fechando
os homens olhando, mexendo na placa
e carregando em botões coloridos e arcaicos
que não entendes,
só sabes prensar prensar prensar.

estamos na mesma equipa
a óleo e ferrugem. 




as luzes da verderena

anoitece, bebo um café numa esplanada vazia.
as luzes nas salinhas e nos quartos acendem:
brancas, alaranjadas, algumas roxas, outras piscando
com a tv ou o pc onde descansa a verderena
depois de mais um dia de trabalho, quinta-feira.
ouvem-se os pardais aconchegando-se nos seus ninhos
e o vidro das garrafas batendo meio cheias nas mesas
mas já não se sente o cheiro a bom comer escapando-se
das janelas escancaradas das cozinhas, a água correndo na pia,
só motociclos baratos correndo a via sem potência
com as suas malas amarelas ou verdes, a luz difusa
dos seus travões reflectida na calçada humedecida.
assim foi segunda, terça, quarta, hoje, talvez amanhã
verei alguns jovens passando em grupinhos, bem vestidos,
em terços ou quadras, provavelmente rapazes
às vezes de chapéu, às vezes encapuzados, tímidos
e em preto e branco contrastando com as suas coloridas
ambições de garotos. o meu desespero com eles.

nas portas dos cafés do outro lado da estrada
vejo velhotes tomando a última antes da ceia
já tombando para os lados e cortando o silêncio
do bairro com palavreado alto e incoerente
discutindo uns com os outros sobre temas
que ficarão submersos no grande vazio da memória
que a caixa puxa pelos tornozelos para o seu domínio.
fui buscar um bagaço, mas estou escondido
num canto escuro, vendo o tráfego e esperando
que neste café de mãezinhas retornem as pessoas
que ainda fazem jantares em família.

um morcego cisca as traças que dançam à volta
dum poste agora aceso e que me tirou das sombras,
pelo menos a olho nu. diz-se que eles são tão precisos
mas a forma como mergulham mostra que na cidade
são só amigos fazendo grandes saltos de fé e sobrevivendo
em números mais do que em perícia. pessoalmente
isso parece ainda mais fascinante, como devotos
aos seus instintos eles se arriscam no mar das gentes.

terminei o meu copo e o outro, talvez pegue um frango
a voltar para casa. talvez um vinho e arroz de cenoura
para acompanhar. o passeio informe aldraba o meu passo
torto e vou aos tropeções até casa, rezando que os meus 
desacatos à cidade não passem da minha postura.
acendi um cigarro para ocupar-me a mão direita
e ele aceso parece uma pequena bola de energia
ou uma alma ilustrada que pousada nos meus dedos
vai passeando pelas ruas comigo, vendo de baixo
aquilo que eu vejo de baixo também.

este caminho parece tão grande
visto de baixo 
com uma alma que caminha em segredo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

o meu passarinho azul

eu tinha um passarinho
azul e muito lindo
ele fazia par
com o outro dentro de mim.
esse mesmo que estão a pensar.

ele tinha um nome, vocabulário,
várias danças, uma música,
tocava o sino quando se sentia sozinho
e eu corria pra ir ter com ele
e ficávamos os três
ele no meu ombro
eu sentado no chão
o de dentro espreitando com orgulho.
uma família de quatro, humilde
e desajeitada, em quartos separados
mas ouvindo tudo que passava.

eles dormiam em paz
e eu ia mandando o fumo
pelas janelas para não magoar
os seus pulmões sensíveis.

nós éramos parecidos
filhos sem pai, encontrados ao acaso
o medo uma estupidez, falta de noção,
a mesma mãe: maestra deste lar.
os espelhos fascinavam com uma força magnética
talvez porque nenhum tinha a forma do outro
e os olhos buscavam o calor da semelhança 
que partilhávamos no espírito.
eu espreitava, ele voava contra ele
os dois submissos à reflexão
e o de dentro coçando
as cicatrizes. 

mas estávamos doentes
os quatro
e isso foi o fim
porque nenhum se entendia
de cama
eu com raiva
ela com desgosto
ele sozinho
o outro anémico.

e assim foi o fim.
se eu pudesse escolher
e sei que o de dentro diria o mesmo
se piasse como dantes
continuava enfermo
até as bombas caírem
e fazíamos a conta
todos do outro lado,
a deles mais fácil 
que a minha.

mas o tempo voa
e as sementes ficam
e todos se foram
e fiquei eu
e o passarinho que guardo em mim,
ambos em silêncio
um afogando o outro 
entre o choro e a bebida.



a senhora da papelaria perguntou-me se estava tudo bem
eu nem tinha dito nada
e demorei 1 minuto pra escolher as mortalhas


tudo fraqueja:
a vontade
a perspicácia
a sorte e os seus filhos
a herança
a família
a força dum homem brando
a força dum homem justo
a força dum homem grande
a realeza
a mão na matança
o brilho nos olhos
o dom
o fogo que pega nas folhas secas
o bom
o juízo final
o orgulho
o momento de clareza
o orgasmo masculino
o empenho do atleta
os espelhos desta casa
os amigos verdadeiros
os encontros ao acaso
os braços em esforço
os mundanos
os profanos
os mentirosos
os destros
os tempos de infância
as pingas da chuva
as mulheres no dia da mulher
as acendalhas
as aves e as cigarras
as horas que passam
as vítimas dum crime
as preces aos céus
as máquinas
as cruzes na igreja
as novidades
as histórias desta terra
e eu.

as flores do mal são um livro
e um manga e um anime
e os dias que passam
neste mundo que fraqueja.

quando li que o amor era uma libélula, vomitei

a monumentalidade é oca
ou dito doutra forma,
essas efígies são uma ganda banhada.

maltratada é a nossa escrita
que vive no tempo das carroças
e dos cultos à virtude, vã
e sem peso nem medida.

se eu fosse pelo que corre
nas linhas conhecidas, seja na rede
seja em terra... meu Deus.

ama-se com jeitinho, 
vive-se nos idílicos jardins
dum grande palacete
e a princesa desce as escadas
com as papoilas e as tiaras
e a paixão sorri e voa
nas asas duma ilustre borboleta.
que românticos :)
que contemporâneo S2
é claro que amor é o golfo
que arde na tv
quero dizer, 
fogo que arde sem se ver.

poupem-me.

nem que seja por breves minutos
para beber o white american depois
do turno no editorial da revista
(que acabou mais cedo),
desembacem as lentes desses óculos
e vejam com atenção como seguem
pelas calçadas calcetadas
o que sobra deste povo 
e o cheiro a vinho e a charros
misturado com um pivete a churros,
fritos, mais as tochas eletrónicas
nas esplanadas dos camones.

esse disfarce que andamos a espetar
no presente, como se ele fosse uma
criancinha que os pais desfilam
nas ruas das terriolas na véspera de carnaval,
todo roto e remendado
de tal forma que acho que se pode dizer
que é algo novo, uma paródia
ou uma caricatura de almas mais mansas
que não habitam neste plano há séculos.

os cabeças-de-faculdade também não ajudam nada
andam aí endinheirados q.b., que sérios,
nas passeatas dos seminários
e as gentes do povo, os poetas,
a miudagem com ambição,
fica tudo na calha, entre o cinzeiro
e a porta do bloco.
"mas é tudo aberto e grátis!
não entram porque não querem!"
eca yuck ehhh >:(
tentativamente, matem-se.

eu detesto mesmo mesmo
fazer críticas e apontar este meu dedo roído,
mas quando li que o amor era uma libélula
vomitei-me todo. 
se ao espírito não apraz
as bênçãos da intuição
ao menos considerem os números
e o nível do diálogo que rola
nos outros meios.
é o mínimo que podemos fazer
para nos mantermos pessoas
seja da normaleza seja da casta baixa
o que importa é ser a gosto.

eu fosse um viajante
teria essas rimas em pouca conta
e mandaria um sorriso cínico
"como é tansa esta trupe"
mas não é preciso ser assim
basta teclar com coragem
mais que destreza
como os pintores imaginam o mundo
e o esforço e o tempo numa tela.

desabafo completo
vou buscar o raid e exterminar
o resto desta bicharada asquerosa
e pondero seriamente reformar o ponto
até que ele volte um dia


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

as flores na tua casa

pequenos pauzinhos enfiados um a um
pelos poros, pelas narinas, pelos ouvidos,
pelas entranhas, pelo focinho, pelas feridas
abertas, pelas entradas, goela abaixo, dourando
os cantos obscuros carcomidos de plástico
com luzinhas redondas que piscam quando
inspiram o caminho de flores que foi feito.

rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega

as flores de ontem, a flora de hoje, os prantos fecundos
da glória e da mágoa. 
pauzinhos na caixa, a tabla
toca os teus passos pelo pasto.
as flores da foice, o trigo dança com o vento
que os cobre de pétalas, roubadas ao que foi
ou talvez nunca foi sem ser na cabeça de homens
coroados pelo sol e pela coragem.

enfia-os, acende-os,
a brisa carrega o seu fumo
pelo vale das memórias.

foste uma pessoa em tempos
NOJENTO
mas pessoa
NOJENTO
e de carne fraca
NOJENTO
com as costas arqueadas
sem o peso de nada.

rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega

mais e mais e mais e mais 
fechando o quadrado que tranca
tão perfeito os cantos à casa
cujo esqueleto é agora
moscas mortas, mofo,
desejos omissos, segredos plantados
em palitos fininhos que, todos os dias,
elevam as hormonas do flagelo
que chamas e não responde.
NOJENTO
todas as flores murcham um dia
e darão de comer aos bichos da luz
e às almas da noite que vagueiam
pelos contornos do planeta
sem destino, desencontrados,
largados da fé que agarra a mão amiga.

enfia o cigarro dentro desses livros
e rega a estante e joga-lhe fogo
queima todas as partes podres
dessa cova a que chamamos lar.


mk ultra-sexooo no youtube

quando abri o jornal vi uma peça sobre 
hipnotismo erótico.
boa, mais fanfarronices da virtuosa
massa digital. 

que bem sabe acordar com os pêlos dos ouvidos
tinindo e os intestinos aos saltos e um aroma
a enjoo pousado nas paredes suadas do quarto.
a tal prisão do costume, penso para as gavetas
cheias de camisas amarrotadas, mas quando leio
as notícias e vejo que se andam a deixar levar
por cassetes de hipnose, pois... até parece
ridículo o meu drama recorrente.

como conseguem? 
vozes artificiais dando termos
à submissão da vontade, uma proeza que sempre julguei
um truque barato de feira. talvez me faça vítima
do sensacionalismo do clique. seria fácil
encaixotar esse tema assim, 
lamento mas é real.

depois considerei usos práticos
(que grande ironia, desculpa senhores
da cia)
e depois desconsiderei, pois não sou ouvinte.
não serei orador, apesar de parecer
divertido e vizinhança dos talentos
que emprego.

depois considerei usos perversos
e vieste-me à cabeça novamente
e lembrei-me que mal me lembro 
do teu rosto, quando me pediram
uma descrição só sabia dizer
coisas que gosto e não aquilo que és.
um auto-hipnotismo dos rufos
que tocam debaixo das mantas.

voltando ao bambi, é uma leitura interessante,
mas descartarei com zelo estes fetiches
marados de deixar que me caguem
dentro da razão. ou de cagar
na dos outros, já agora.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

a normaleza

cheguei a casa, tombado da bebida
como sempre, o cigarro encostado
ao canto dos dentes nas escadas
e atirei contra o sofá o chapéu
e quase toda a roupa, pus-me em 
cavas e na cruz que escondi e agora
anda livre contra o espelho.
hoje, um dia grande
seja pelo tempo que passou
seja pelo esforço que foi feito
em misturar-me convosco, normaleza
os filhos do tempo e da destreza
de saber navegar nesta era.
os espíritos das ruas conduziram-me
aos lugares que preciso
os colegas, os amigos, conhecidos
encaixotados no logro do ofício
como desbravámos os cantos
fingidos, a vontade respondendo a lento termo
às preces daquilo que precisas, estalando entre
ser tão ESPECIAL e ser tão NORMAL.
fui de uber, como sempre, com medo
do suor no pêlo de vos ser próximo
e lembrei-me de um mano que assim é
a toda a hora em toda a parte, 
e nunca mais julgarei essa
melindrante vontade de escapar.
estavam tantos, em grupos difusos
unos no sítio, incapaz de fazer caminho
próprio pelas luzes que piscam entre os toldos
das esplanadas que cobrem um hotel de luxo. 
os herdeiros e uns fidalgos
da normaleza estacionados
com os pipos jorrando um cheiro a gomas 
e melão, que nojo, odeio esse cheiro
falso e aceitável.
fomos, comemos, eu não,
só fingindo que esses petiscos
eram bons e eram filhos
das estrelas todas que quedavam
no placar que vi logo à porta.
a massa fria, o porco cru,
cenouras cortadas em trato raro
para a plebe que fascina
com essa comida de resina
valorizada pelos que sabem de comida
de resina.
logo será hora duma chamuça
bem-feita e que apraz às vontades
da prole.
o dia foi labuta, como sempre
mas como nunca, testando
vocábulos numa língua que mal sei.
atrasos são critérios de vontades
medidos por quem não as sabe
e nem as sonha.
feita a obra, treinos para pessoas
que não existem por agora, pessoas
que não existem por agora,
como eu, mas eles não sabem.
a normaleza não sonha, acho eu
e se sonha não são sonhos de gente
mas sonhos de senhores que se escondem
algures entre "tinha que ser de mim"
e "não fosse eu então quem?".
sois plebeus, como eu
e como os meus.
esta foi a parte simples.
o céu e as aves adornam a vista de pessoas
que não entendem nem céus nem pássaros
mas são gente que nem eu, camponeses
como eu, mascarando os seus dedos calejados
como eu, tentando as vontades cheias de entradas
como eu, vivendo a meio gás com toda a pica
como eu.
tirámos umas fotos, jogámos umas piadas
ao vazio desta conversa, sem princesas e 
uns duques que na sua sapiência perderam
o juízo e optaram pela competência duma forma
burra e honesta, talvez como eu
mas não tenho documento que comprove.
apetece-me fugir
apetece-me fugir
diz-me a voz no fumo
do camelo. 
fumei um, e dois
e três, nas fronteiras
da piscina iluminada
de leds e inglesas
que jogam os seios
contra os ares.
são quatro estrelas, dizem eles
mas mal conheço constelações,
os senões pendurados numa cinza
por bater.
desde que foste isto tem sido muito difícil.
desde que foste isto tem sido muito infeliz.
desde que foste isto tem sido tão... plástico
aprendi tão bem os artifícios da vontade
da normaleza.
pum pum pum pumpum
pum pum pum pumpum
batem corações a quatro tempos.
henry, meu homónimo, somos parecidos
e tão distantes no tempo e na realidade
que eu aceito, acho, e tu jogas contra
as efémeras flores do agora, do agoiro
que encantas em humor e frases vazias
como eu, como eu? não bem
mas é parecido que baste
para sermos primos noutro mundo,
pum pum pum pumpum.
tenho que fugir deste subúrbio
sem filhos. faltam tantas horas.
seríamos quê, uns trinta ou quase
mas quem? magros serventes
da miserável vida da cidade,
uns da malha, uns de gralhas, uns dos tentos
que Deus nos reprime, mas a gente joga
e joga e joga e joga e joga e joga.
pego na cruz, sem desculpas, cada um
sabe os crimes que terá de pagar quando chegar a hora
de pagar os crimes.
eu só queria um filho, o pôr-do-sol admitido
como a morte que sempre foi, a família
na lareira contando as histórias
da nossa sobrevivência.
ainda faltam tantas horas para jantar
eu só quero pôr-me a andar pela estrada
batida que vi do uber que me trouxe.
trago a cruz no peito, escondida porque
não sei se serei medido pelos ossos
deste ofício.
contive-me, guardei com fé
e medo e vergonha, mais uma para pagar
depois do agora.
num passeio a Verdade deu-nos uma luz
daquilo que é e daquilo que sonho.
falei com ela e não ficou nada
só umas letras perdidas na resposta
rápida de ser normaleza.
pum pum pum pumpum.
o rio desafia-me a saltar e eu recuso
porque afinal pertenço aqui
e não nos claustros do caos
que eu finjo que desafio com a vontade
mas são só desejos juvenis dum homem fraco.
falta-me um bagaço, talvez
ou falta-me o brilho dum génio.
voltámos, as senhoras decentes
foram mirar o miradouro mais distante
e eu e o resto da corja fomos virar copos
num assento tão quadrado e feito à medida
dos nossos cus gordos e podres da cedência
de fazer parte da normaleza.
controlei-me, o medo da sombra saltar-me
da espinha é mais forte do que ser honesto
e verdadeiro.
fica na conta com o resto.
laura sois tão prudente e competente
e capaz de desbravar estes segredos
tão normais e tão vulgares
e tão precisos e tão cheios de riqueza.
somos pares mas não sei como fazes a tua parte
de ser normal e fazer arte
que apraz aos espíritos do tempo.
as flores do mal crescem, e disso somos todos
culpados. ninguém vê ou só eu?
serei responsável, sozinho?
a lógica diz que não, a culpa diz que sim.
a normaleza é normal
e produto do tempo e das coisas
todas que constrói o presente
e o fez no passado e determina
no futuro.
farei parte, em negação.
farei parte.
farei, mas não faço
por escolha ou medo ou burrice.
ponho o chapéu, tiro o chapéu
e ponho outra vez, vejam-me a coroa
de fiozinhos que me faz parte de vós.
bebi um vinho ao jantar, mais dois
e fugi para fumar às escondidas.
pus o chapéu.
perdidos em conversas sobre a chuva
e como diferem as nossas pátrias
e os comos do esforço, e os quandos
da família, sorri com a vista
que nem vê. somos iguais, digo eu
atrás da franja que me cobre, todo
e inteiro, da nuca aos pés, prometendo
que nunca saberão disto, o meu segredo
de não ser da normaleza.
uma mentira entre muitas.
certo, tenho que fugir agora
senão a fachada virará fumo
no meio de mais vinho.
adeus, foi muito bom,
diz a voz que comanda a razão
e foge. uma hora seguindo
pelas bermas dum passeio em terra
e riscos, para que não faça vítima
dum pedestre transeunte.
as luzes da estrada brilham
entre as folhas das árvores
cujo nome ninguém sabe.
cumprimento cada uma.
no meio delas, um abrigo:
néon barato, pessoas pobres
e enfoco no resplandecente
consolo de fugir dessa equipa,
a normaleza.
aceite logo, joguei-me numa
espiral de whiskey barato e 
café da sanzala, de agora,
sem nomes, sem medos
de fazer dos plebeus
uma casta conforme o que foi.
bebi dois, eis o meu povo. 
sou o mais sóbrio neste bar
e estou prestes a quinar.
voltei de uber, tirei o chapéu
e deixei o vento fazer-me honesto.
foi libertador. sou normaleza
mas em negação.