quinta-feira, 21 de novembro de 2024

a base e o beiço

um pentágono só é malvado
feito de betão na nova roma
ou no chão duma cave escura
porque, por exemplo, numa face
abençoada pela santa beatriz
a geometria bem preserva
as bochechas de hollywood 
os olhos do nilo baixo
ou os lábios que escondem
caninos afiados e um sotaque arrastado
carnudos, encarnados, delineando
uma clavícula emergindo
em seda fina, pálida e sensível...
enfim
pode ter a mesma forma
e não é ruindade, pelo contrário!
falamos dum sagrado artefacto
que poucos singrarão nas suas vidas.

gestos pra quem te endente

articulando o que quero 
com a empregada ao telefone
soube a intimidade rica
pois entendíamo-nos perfeitamente
nos gestos mal amanhados, ela com a cabeça tombada
prendendo-o entre a bochecha e o ombro magro
a vozinha da amiga mais alta do que nós
e do que a máquina de café
apontando para o que eu queria
para a garrafa de macieira
o cartão entre os dedos como num truque de magia
cortando o ar tipo um maestro que para a banda
e uma pequena vénia de obrigado.
é tão simples falar despretenciosamente
quando sabemos exactamente o que se quer
um objectivo simples como um copo, uma bica
mais do que ser ouvido, ela sabia
e isso foi simultaneamente
sensual e competente.

bebi lentamente o copo
pensando anedotas, ponderando estes versos
não foi apaixonante
apenas um espontâneo deslumbre
e gostava de lhe ter apanhado o nome
para espetar aqui no título.

se ela tivesse sussurrado 
vamos fugir para marrocos
tapando o microfone
para a amiga não ouvir
teria ido
bancado tudo
sorriso na cara
palpitando cá dentro
quimiorreflexos ao rubro
mas depois desligava
e víamo-nos de frente
e a magia se ia
porque as palavras dominariam
por cima da simples vontade
de fazer um pedido.
rogo que não desligues
portanto virei-me de costas
voltei para a mesa
ela continuou a chamada
e eu terminei a bebida.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

para um destino perdido

sonho simples o meu
uma padaria com o ben
e 12 filhos contigo
cada mês uma festa.

quando deixar de ser um compadre trocará os mistérios pelas verdades, no caso o vocábulo, o teu nome (outra vez outra vez outra vez outra vez)

entupo as artérias de sódio
porque quero pô-lo a pulsar 
como se fossem os últimos segundos
da peça da qual toda a terra é um palco.
encho-o de fumaça como a neblina
que torna os retratos lindos
contra a luz da cidade que pulsa
em carros, transeuntes e as montras
das lojas que transcendem quando estão fechadas.
diabos do néon ilustram 
as vontades que palpitam
num coração sedento de vontade
de ver os olhos reluzindo
entre os baços momentos
que guardamos em fotografias.

bafo, bafo, bafo
já disse mil vezes
as paredes quadradas
deste meu claustro se enchem
e ficam amarelas como as páginas
e o fígado de um miserável.

eu quero dizer o teu nome
porque a tua imagem inspira
todos os poemas do mundo
e não posso porque sou...
não sei, amigo do teu amigo
compadre do teu amante
cúmplice de pecados que condeno?
foda-se, que em segredo eu queria
que ele morresse numa esquina
trágico e enamorado de ti
para que o seu legado fosse intocável
assim ganhava ele e ficava eu
e tudo seria feliz
para mim, claro.

já te rasurei o nome em tanto verso
sinto-me um censor fascistoide
a oprimir as volições do coração 
honesto e vitimizado de dezenas de segredos
e centenas de fantasias
com o azul que guardas nos globos
cor de metais raros
que só se revelam com complexos processos
químicos, eruditos mecanismos para replicar
aquilo que nasceu dentro da tua cara belíssima.

devo ter amado umas dez vezes
e o íntimo deste corpo vagabundo 
conheceu metade e gastou a outra
em encontros malvados da fraqueza
do tento, com a cruz ao peito
sendo pilantra pela noite fora.

hoje sonhei com a tânia
foi engraçado
era sobre os declives da carne
mansa, mas por trás das vedações
que davam forma à narrativa
havia um certo prazer onírico
em falhar no objectivo de tal forma
que ela saiu zangada e eu
acordei desperto e feliz
como raramente acontece.

feliz caralho!
finalmente!
os dias são poucos e a espera é longa
quando se vive agarrado às memórias
da paixão verdadeira.
dancei e dancei e pulei
e fui olhar o destino de frente
e voltei e fui ter com o miguel
e bebi um bagaço majestoso
e paguei mais por isso
porque quero que ele viva
tanto ou mais do que eu
que sou novo no corpo
e velho na alma.

venha daí outro camelo
cheio de sede e cheio de palha
e de moléculas que me agarram 
como o sal que jogo cá dentro
e no chão e na cama quando me deito.

escrevo iniciais e vontades malandras
sei que serias feliz, pelo menos nos dez segundos
de êxtase que teríamos em equipa 
se o outro mongo se fosse finalmente.
fogo, estou aqui a dizer tantas vilanias
mal me reconheço, deve ser isto a que chamam
de amor fátuo.

queimei as mãos no calor da tua imagem
que guardo na memória, mesmo mesmo,
foi leve e foi efémero
e eu peço todos os dias
que o amigo volte
e me dê mais uma chance.

amanhã sei que vou acordar
com outra senhora nas pálpebras
e tudo será diferente e as letras
vão ser literárias e corridas e despidas
mas hoje foste tu
acho que vai ser assim durante um bom bocado
e terei saudades de tudo que não foi
e não vai ser porque sou um cobarde
escondido na toca atrás de teclas
que batem com o ritmo dos cigarros.

correr ou morrer
um dia o destino vai responder
e o que calhar será
mas hoje é a filha russa
iberando pela internet
os teus óculos escuros
são heroicos e inocentes
como a iris duma princesa
e a alma duma poeta.

a taberna do miguel

só hoje me apercebi que a dona paula
treme muito as mãos e eu não sei
se é como o resto da gente do café
por causa da pinga e tal
ou se é alguma doença qualquer
mais infeliz. ela é muito educada
e serve-me sempre bem
nunca tive motivo de queixa
acho que até fica feliz quando apareço
porque devo ser a pessoa mais nova
pelo menos por metade da idade
do que o segundo a seguir a mim.
ela deve ter uns quarenta anos diria
talvez um pouco mais, talvez seja filha
dos donos do café, eles normalmente
tomam conta daquilo sozinhos 
mas à hora do almoço a velharia
para toda lá e a dona paula ajuda
no caixa enquanto o miguel
tá na cozinha e a esposa atende às mesas.
visto de fora ninguém diria  
uma taberna como esta
a servir tanta refeição
a verdade é que tabernas
sempre foram pra comer e beber.
pela cara desta gente não me parece
que isto vá aguentar muito mais que dez anos
eu ajudo como posso
peço sempre o meu café, o meu rissol
e ao anoitecer lá vou buscar o bagacinho
mais outra bica, que me serve o senhor
depois de um aperto de mão
que conquistei com a minha fidelidade.
a dona paula a estas horas já não trabalha
mas fica a beber cervejas com os cotas
na próxima tomarei nota 
a ver se ela também treme no fim do dia.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

os perdidos perdidos da história

consegues ouvir os artilheiros?
sussurram canções com um milénio
e os ramos zumbindo ao longe
sabem quem são os primeiros
as cartas que guarda, austero monge
fraterno compadre, latino e arménio.

consegues ouvir os comandantes?
as botas arrastam-se no pântano
é a hora da sorte e é a hora do sul
deslizam no gelo, batem os dentes
com os ventos do mar sem vista azul
escudeiros de um sonho malthusiano.

um coração em rufos baixos
na hora do gelo e na hora da morte
o rufia dos palácios seca o pano
no cadáver de jovens machos
cachorros do mato, o bruto do dano
que sustêm o silêncio tirano do norte.

ouves as gotas caindo nas folhas?
são lágrimas de amigos, as manchas na têmpora
restam os suspiros que enchem a ânfora
e lançam ao ar o som de passarinhos
perdidos e trancados em pias bolhas
que estouram pelos temíveis caminhos
da marcha nobre dos opressores
titulares heróis, mestres, doutores
professores sanguinários sem espinha nem medo
que desatemos com fé os nós deste enredo.

consegues ouvir os sonhadores?
dormem de cima e planam em terra
assim como os vemos, oxalá,
quando a cabeça pousa e os senhores
se extinguem do pesadelo que aqui há
e na virtude do ermo dobram a serra.

um irmão perdido do outro
mouco, de óculos, medicado,
estaremos serenos no potro
até o som do machado
perdido no crescer das vinhas 
nas horas tuas e nas horas minhas
o momento das preces serem ouvidas.


segunda-feira, 18 de novembro de 2024

para um dilema corriqueiro

o meu problema é que quando jogamos cartas
eu deixo-te ganhar porque senão privas-me
do teu colo, meu abrigo, e durmo sozinho no sofá.
fora das horas em conversa miúda
respondi com desdém para que entendesses
subtilmente o meu desagrado com essa autoridade
natural e opressiva que herdaste há pouco tempo.
fui diplomático e acessível, pouco áspero
dado o contexto, não entendes mesmo assim.

podemos parar de jogar
ou ficar em silêncio
se eu durmo mais vezes na sala
perdes o que resta do respeito
e se dormes tu vira a casa ao contrário.

vês como afinal não somos assim tão diferentes?
amocha pelo amor à santa.

sábado, 16 de novembro de 2024

no soalho do castelo de cartas // fúria a sete pés

largar as braçadas desamparadas
é o advento da prudência na fronha
onde a cabeça quita as contas do outro lado.
balança o que mede são os cochichos
da voz maligna que opera em coro
com milhares de demónios 
no ócio, no medo, na pujança do que apraz
nos pêlos da barriga e nas pupilas gustativas.
para de gemer 
para de tremer
vês cortes nos membros, foi trabalho
sem fiança do descontrolo adolescente
e já não és adolescente. és grande!
que grande!
lê novamente
g r a n d e
como a diversão na feira
que soooobe e desceeee 
pondo a miudagem aos gritos
uma moedinha por uma emoção.

nota que a fachada carrega áureos domínios
que compete à razão sensata reabilitar
(domesticar)
...
não sabes falar sem ser infantil
tipo um bicho que vive no mato
e grunhe com as sombras
chumba no teste do espelho
e ataca tudo o que palpita vida.

ÉS GRANDE, MALUCO
é hora de mostrar a mão
três quinas, dois terços
nada mau
pena que o discurso é uma caixa de dados
e deixas rolar, rolar, rolar 
até caírem da mesa.

esquece, continua a espernear
contra a frente fria
esmurra a secretária com força
da próxima ela devolve-te o troco
e ao invés de abrires um dedo
ela agarra-te as pernas e manda-te pela janela
tão grande no mastro
enorme na queda.

soldador

estas vigas estão expostas
e as soldas são frouxas
foram feitas à pressa
por homens cansados
bem-pago trabalho 
de cancro e queimaduras.

pode não ser problema meu
mas vivemos todos neste prédio
quando ele desabar vamos ressentir
o custo, a desgraça e as mãos alheias.

ferro fraco
liga fina
a chuva persiste
ferrugem mancha as quinas
à sombra.

as velas apagam-se para luís linceu

chegando à cena do crime, o detetive
pousa o sobretudo na haste de mogno
da cor do chão e dos armários no corredor.
sem tirar o chapéu espreita as reacções
à sua chegada, de soslaio, e depois sim
o pendura no mesmo gancho que o casaco. 
perscruta novamente, em tom de desafio
num vagaroso movimento lateral.
os suspeitos estavam no fim do hall 
em frente à sala de convívio
uma das vítimas estava no quarto, deitada,
divisão em direcção oposta ao salão grande.
o mordomo estava preocupado e pediu a todos
que se descalçassem, a madeira era frágil
mas ninguém cumpriu
excepto uma das testemunhas que aguardava
pacientemente à esquerda do detetive.

muito bem
disse, puxando do cachimbo,
parece-me que temos mais um clássico
o crime passional
e todos ficaram chocados.
senhor agente, meu senhor, como pode saber
se mal acaba de chegar? 
ora ora, este caso é na verdade mais velho
do que eu, só estamos perante uma nova
iteração da ancestral fraqueza da carne.
e puxou uma traga pesada
e largou o fumo denso pelo corredor.

os suspeitos desta vez eram uma dupla
bianca cilix e rivaldo agenor, cúmplices
prováveis que estavam cientes das suspeitas
e pouco faziam para mascarar o seu nervosismo.
não há corpo não há vítima não há crime!
disse zangado
ela assentiu com a cabeça.
a testemunha era lúcio belo, ferreiro e amigo
da vítima, luís linceu, que lamentavelmente
não foi poupado desta vez. ele estava acordado
no mundo das bestas mas para sempre recluso
nos confins da sua alma, partida em 50 pedaços
um para cada trago, abraço, carinho,
momento perdido e suspiro das garras que riscavam
a prata fina da casa, pálida pele de heroína.

não é a primeira vez que nos encontramos
diria até nem a segunda nem a terceira
e com todos os benefícios da dúvida
não consegues guardar o punhal na cinta.
rivaldo esboçou uma feição ingénua e malvada
como uma criança petulante que acredita nas suas mentiras.

e tu bianca, mestra deste domínio, que te leva
a atear fogos em palha seca e sem prudência?
a vítima balbuciou que não havia provas
palavras vazias duma pessoa vazia.
o detetive devolveu com um olhar compreensivo e triste
e puxou mais um bafo do seu cachimbo.

lúcio tomou o mesmo lado, acusando-o
de se precipitar em passar juízo.
eu estive aqui, vi quase tudo.
pois, retorquiu, quase
para completar esse quase cá estou.

seguiram todos para a sala grande
sentaram-se nos sofás de pele, sujos de cinzas
e com algumas nódoas de vinho
contrastando com o brio do resto da divisão.
o cheiro a tabaco colava-se às madeiras
misturado com a humidade que vinha da manhã lá fora.

o crime é o amor
os malfeitores amam
e é difícil apurar onde a linha do desejo
acaba e a da paixão começa.
as vossas faces gritam culpa, afinal,
que humano existe sem a força primordial
da tentação flamejante?
o problema é, como muitas vezes acontece,
que o debaixo da toalha é mantido em sigilo
forçado pela vergonha e pela decência que vestem
prontamente quando se tornam transeuntes
na massa indiferenciada que circula pelas ruas.
o meu papel, qual houdini em caça às bruxas,
o nosso papel é jogar as mãos a esse pano
e fitar de frente os olhos negros que operam
quando a noite cai e os inocentes dormem.
um segredo intacto é um pecado que será pago
mil vezes mais nas voltas que estão por vir
e para poupar os impecáveis que ainda não nasceram
compete-nos arcar com as dores da verdade
crua e exposta que arde e no seu fogo
cura os devaneios dos compadecidos.

as lágrimas trancadas faziam os olhos
azuis de bianca embaçarem, brilhavam
como cristais acabados de polir à luz do sol
joias em seda clara. 
é boa a hora honesta, estimada,
e sugiro que acabemos agora com isto.
ela não cedeu, cerrou os punhos nas costas.

tu, rivaldo, filho de reis e plebeus,
com carinho guardo a memória 
de quando servimos juntos
nos velhos tempos de recruta.
já na altura não tinhas controlo
nessa vontade voraz que se esconde
na pacatez e no charme tranquilo
duma pessoa despretensiosa. 
a máscara compete a todos meu amigo
talvez essa que vestes agora esteja presa com afinco
e se do meu intento se escapa, não do Dele 
com certeza. 
noutra vida cometeste o mesmo erro
e foste perdoado
e foste perdoado novamente
e aqui também serás, não sou juiz,
mas alguém tem de pagar pelo espírito 
que se apagou como uma vela ao vento.

o mordomo e a testemunha ficaram em silêncio.
normal, pensou o detetive. 
quantas pessoas querem ver a vida alheia
em cacos? quantas querem assumir a responsabilidade
só porque o destino quis que estivessem lá
e tivessem os sentidos todos em dia?
só o malfeitor gosta de ter a faca na mão
a verdade na outra, como um refém
troca o desgosto pelo prazer de contemplar
o fim trágico dos mortais
que repetem e repetem
os mesmos enredos
por toda a história.

finalmente levantou-se e declarou
o caso está resolvido, os envolvidos
podem agora decidir por que caminho
preferem mediar o juízo.
suspeito que voltaremos a cobrir
a verdade com a manta e seguirá
tudo como dantes.
deixo as minhas notas aqui na mesa
caso mudem de ideias.

o padeiro

o padeiro trabalha a massa quando chega
são altas horas, nem os carros passam
e os vândalos já foram dormir com o peso
da bebida que os compele à acção.

veste o avental, cobre as palmas com farinha
terá que bater, processar, assar, transportar
contar, congelar, fatiar, vender e resistir
à impiedosa rotina do trabalho duro
a pouco ganho, anónimo com as moscas
que descansam em buracos obscuros.
por vezes um ratinho pode chiar em aberto
ou pode o padeiro verter uma lágrima na bancada
mas ambos passam a maior parte do tempo escondidos.

cheira a pão e a maquinaria
os motores da cidade.
ele abre frinchas nas dobras dos dedos 
quase todos os dias
quando joga os tabuleiros na fermentadora
o equipamento já é velho e não desliza perfeitamente.
são mãos rijas as que batem 
as carcaças de cada dia
a gente conta com isso
e ele na madrugada sabe
mas nunca ouve um obrigado.

humilde, o sol ergue-se no teu descanso
o peso das horas e o esforço nos ombros
refletem-se nas bossas por baixo dos olhos
que contemplam sozinhos o nascer de mais um dia.
o presente depende dele
das bactérias
do tempo
do calor
e da água.

obrigado.

estrofes que fugiram do armário

as cuequinhas sugeridas são aquelas que agarram as ancas
num abraço suave de consolo, sossegam o ego e guardam a frescura
do banho quente e cuidadoso que espreitaram com curiosidade
do gancho de sucção onde foram penduradas, como uma bandeira
à privacidade e aos sedutores segredos da higiene.

meias não rotas, por favor, já chega de ser fuinha.
devem ser grossas e quentes e deixar que circule
o sangue sem marcas nos tornozelos
e que fiquem casadas como a carruagem do velho frankie
impar deve ser no máximo o residente, sozinho em ser sozinho.
não é egoísmo, apenas me preocupo com o papel dos objectos.

o resto é uma escolha estética, informal e moderna
expressão de quem figura perante o próximo.
as cores importam, assim como a silhueta que fica
ora misteriosa com as pestanas tocando nas repas
e os olhos atrás da sombra do chapéu aventureiro
ora casual e desportiva, vivendo o encarnado orgulhoso
adornado com bling bling e uns rayban antiquados
o dito equilíbrio do contemporâneo com o nostálgico.

ganga bruta, camisa grossa
pernas finas confeitam os olhos das meninas
que sonham em livros javardos e escondem a vergonha
com tintas e pinturas na cara
blush para que não core
dito doutra forma.

os passarinhos também tem penas coloridas
em tantas formas, e fazem danças nos seus ninhos
e vocalizam descobertas exóticas para impressionar.
assim aperto os botões com confiança
sabendo que a vanidade que reside neste trato
terá por certo uma origem mais genuína
do que a atenção insegura que ponho em palavras.
penso nessas coisas com frequência.
quem conhece as amarras da banal anatomia
melhor do que os tecidos desta casa? querido algodão,
bendita flanela, calças verdes às bolas, largas e arejadas
amigas de guerra, colegas de trabalho, lenço de consolo
nos serões de remoinhos, às voltas comigo
somos parceiros de valsa.

serás
aquilo que te tranca em tons de pele 
rufando os tambores peristálticos
ou aquilo que alcanças 
com os braços abertos e a vista protegida do sol?

olha para baixo
não estás nu
quer dizer, por baixo da roupa estás
mas esse não é o domínio das criaturas
de sangue quente e terreno.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

reza vagabunda

quem quis
senão Deus, Glorioso, em chama eterna
com a vontade entre os dedos.

Pai, salva-nos
salva-me 
eu preciso do teu sopro sábio
como sempre deste nas horas vazias
do desconsolo duma alma idiota
que tenta com a mesma trama
em cada noite de rotina
e que sonha sempre
com ela, todas as noites
porque faz tanta falta
o amor verdadeiro.
eu tive essa paixão
e soube-lhe a espinha
e mãos fechadas nas goelas
entre viver e ser
um cruel malvado.
bach, herói,
dai-me inspiração por feitos poéticos
enormes e grandiosos 
a luta dos que ficam, o som da bicharada
humilde que canta solenes discursos
ao Senhor
e que a gente abafa com nojo e desdém
entre os bicos dos pardais
e os cantos das cigarras.

o vinho verte
pelas almas que olham
a madrugada de olhos abertos.
um, o meu, esquerdino
e matutando com desencontros
das gentes boas que sofrem
os amarros da perdição
dos corpos nus.
e Ele, e Ele
quis que fossem felizes
e eu fico feliz por eles
mas também queria
ser por mim.

o Teu sangue cobre a mesa
pelos risos da comuna da ralé
encantada de ideias vulgares que o abjecto
bilhete da carne encanta nos seus devaneios.
És tudo, o amor da nossa espécie
És a natureza encarnada em todas as cores
que só os pássaros contemplam
merecedores da Tua luz, filhos da morte
em caos e fogo e salubres águas que cobriram
a origem disto tudo. meu Pai
perdoa-me, eu desejo o prazer sensível
por Ti e por mim, um enorme e o outro formiga
que segue a cauda duma fila reta
e ciente na sua sociológica forma de ser simétrica.
Pai, canta-nos em oitavas orgulhosas,
somos herdeiros do Teu órgão.
os bosques clamam violinos de força branda
e fé infinita, entre as notas do ocaso intentando
contra a fraqueza que contorna cada junta
de cada osso dobrado perante o Teu saber
e que recusa ignorante
a glória de feitos Teus.

pianos tocam por todos.
meu Pai, Pai de todos,
é tudo que peço.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

se eu fosse uma estrela do folclore

tuuu-rururu
lembras-te dos passeios pela linha do comboio
quando os meus lábios temiam os teus
e desmanchavas os teus prazeres em francês
porque tinhas vergonha do peso da língua
que desejava e escrevia pelos meandros da noite?

tuuu-rururu
e quando as nossas costas arqueavam
na esplanada dum café que tornou-me no que sou
por causa de um chá mais barato do que a droga
e o cheiro do haxixe que permeava os assentos
de estivadores e sucateiros do nosso bairro?

tuuu-rururu
tuuu-rururu
tuuu-rururu
e eu mal cria
que o destino quis
que eu soubesse o sabor da água pura.
depois tirou
e o cano ficou.

tuuu-rururu
fizemos anos nos óscares
porque éramos móveis e intocáveis
porque o que é de verdade não tem forma
nem cheiro nem horas nem datas nem nada
e acaba de repente como o frio
de novembro que chega e mete
toda a gente doente.

tuuu-rururu
e se eu fosse uma lenda do folclore
nos céus?
voltarias?
acordaríamos lado a lado outra vez
até ao último dia?

tuuu-rururu
é incrível como estás tão longe.
do mundo novo não quero nada.


jangada de papiro

dum homem da guerra nasceu
esta terra embaçada de cobardes
que abanam a cabeça quando o vilão
aparece sem surpresas à porta.
a vigia é um homem que dorme na boca-de-fogo
enquanto a carrinha avança sem saber 
se é missão, rotina ou armadilha
ou quiçá resposta a um ataque
lançado pelo dito do outro lado da fronteira.

derrotem-nos
pensou quando acordou
entreguem o ouro a espanhóis
ou a franceses, vejam se me importo.
venham daí os tanques do nosso fim
é hora de lavar os montes encarquilhados
pútrido chão de bastardos e cães de casa
as rugas no solo são o legado que nunca viu
o encarnado e o verde da bandeira.
guerra aos rios 
guerra aos montes
guerra ao dicionário
guerra ao futuro que nunca veio
os artilheiros esperam um sinal
nunca virá
nunca será
nunca seremos
saltemos para o atlântico
mortos para o mundo
e vivos entre os peixes que habitam
o reino infinito das profundezas.

pátria amada
partiu.

nadamos pelas confrarias daquilo que já não é
entre estátuas e legados que foram lavados
pelo sal e pelas fossas,
agora comida para seres microscópicos.