domingo, 29 de dezembro de 2024

métrica disléxica devora o digital

estimada celine
temos que trocar umas palavras
eu prometo que são simpáticas
mas esse espectro vivaço
dá-me cabo do juízo.
assombra, tudo certo
assinala uma luz verde
eu puxo outro cigarro
enquanto espero a torrente
depois voas com o fumo
a luz desmancha
os teus contornos de leste
fico logo apeado
enquanto se esconde.
seria prudente
considerar os mil nomes
que levas nos contos
sumindo ao de leve
é deveras sensato
só que a caneta que escreve
pulsa em fortes rajadas.

compete-me
ver a luz
engolindo nuvens
esperando que suba
estimada o teu nome.


numa festa de rua arrastavam calcanhares

mulheres mulheres mulheres
como são tão sensatas?
como dobram as costas?
por quem levam as mágoas?

concedendo à verdade
já soubemos os dias
agora custeamos pernoitadas
em hotéis vagabundos.

são segundos 
no desejo
depois do vislumbre incauto
franzindo em silêncio
contornam olhos com mágoa.

chegam arautos
postulam versos dotados
sentem-lhe o azedo dos dedos
disfarçam o verbo para os lados.

mesquinho
coçando o bigode
sinto pena de vários
e saudades de algumas
fazendo parte do todo
liando teias em seda
rimando ancas com tranças
o incompetente poeta.

senhoras madames donzelas
sereias princesas e donas
encarnam dores de infância
cobrindo-se em florais fragâncias
nascem dos seus próprios pulsos.

não dormem bufos na noite
tampouco ratos do campo
e o travesso das cortes
balança a graça na raça
convicto nos seus
afiados cabelos.

é uma magia
senhora
senhora
pessoa
custa que as formas difiram
nessa sorte malandra
que nos levanta a cobiça
dobrando as mãos contra a lua
erguem-se contra o vazio
e nada é mais belo, confesso,
do que uma dança segura.

filhos

não há filhos da terra
só filhos da mãe
e filhos da puta.

sábado, 28 de dezembro de 2024

banho de barril

pelo tonel uma medida de pipa fica
arruada com crentes e uns javalis
imbuindo nas veias de barro e raiz
os talentos vazados com a dica.

sente-se o gosto no sangue tinto
que transbordando com a chuva
pinga pelo asfalto na curva
fazendo juras que já não sinto.

são figas, gota no aro que fabrica
grades amenas de quem não quis
e nas promessas torneadas diz
que o entre as calhas clarifica
o bracejo vesgo no instinto
rilhando com a vista turva
sai da água, enxuga-se, uiva
outra farsa dum ser faminto.

presas afiadas
levam nos lábios
são sagradas
e eles sábios.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

4600

o filme da margem
nas janelas da carris
passa a carrete de um pescador
as esplanadas ao almoço
homens bronzeados, de barrete
balões pequenos e sagres
as viúvas coxeando
arrastam sacos na calçada
os povos se misturam
sobrinhos da hora da labuta
entram pela porta traseira
em camionetas acabadas.
no subúrbio gente velha
sorri ao vazio
e monta-se em resguardos
acenam ao trânsito
como noivas se despedem
na hora do adeus.
a adolescência senta-se nos bancos
mais ao fundo, comigo
e mais um par de trafulhas
somos parentes do tempo
futuro fraternos de trincheira.

faltam 40 paragens
toda a gente olha 
e muitos vão em pé.

há obras nos limites
mais carne para canhão,
os armazéns postulam suplícios
pelo bolor dos seus quadros
pintados de há muitas décadas
com apego ao futuro que não veio.
riachos e barrancos, pequenas placas
delimitam o comércio
das barracas que foram casas
o luxo da baixa casta.
tudo coberto
pelo sol alto e altivo
plantando em caras salgadas
máculas que são os seus filhos.

tirei os pés do banco
para um aluno se sentar.

mulheres da vida
mulheres empurrando carrinhos
mulheres com sacos do super
falando ao telefone com maridos
princesas do asfalto
vendo gentis em autocarros
eu devolvo a mirada
ela retorna à sua vida.

faltam cinco paragens
rodamos metade desta margem
a classe operária
saiu junto à oficina
fiquei eu 
e a terceira idade
fechámos o vidro
e entrámos na cidade.

STOP!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

influindo a bicharada pelos poros

larvas
penduradas em cabelos brancos
fugindo de ouvidos cheios de rancor.

cobrem-lhe a cabeça
é a sua coroa
pousada no couro
frouxa e carcomida
viva como espectros
aguardando uma qualquer
metamorfose
que a absolva do seu arrasto.

o banquete
queimor que guarda a epiderme
um abcesso o seu casulo
e as larvas cortejam no rastejo
o sangue vivo que escorre
do régio ser deposto.

foi o desconsolo
ou o desapego de uma causa
o ócio no cimo da torre
escarmento que se repete.

beija-as
entrelaça-as nos dentes
celebra a sua forma
libertino senhor d'outrora
larvas serão as musas
por baixo dos lençóis
no bafo.

escondidos nesta orgia
prossegue ele 
praguejando
quando as velas se apagam
a ira corre solta
e vai queimando por onde passa.

excelentíssimo
tornaste-te no apanágio
de comilões 
aqueles que vieram
nas estátuas que galaste
por cima dos teus herdeiros.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

visto da toca, pinheiro de pedra

pontos opostos
transmutam a sabedoria
da nostalgia à aceitação.
consciência em montes castos
dormitando junto das memórias
que levitam com o orvalho
e pintam de branco os telhados
de moradias em pedra negra.

neva na calha
estão aconchegados lá dentro.

desperta numa gruta
perdida pelos alpes
uma aldeia pacata
como pirilampos no mato
esconde-se entre flocos
e um fino fio húmido
escapando-se dos olhos
congela
antes de bater na pedra negra.

o céu está coberto
de estrelas e aviões
fogem.

cantigas abafadas ecoam
com sotaques arrastados
reverberam as rochas
ciscando impurezas do lago
azul como a face vencida
e oscilam reflexos em prata
que aparam a geada em filas ordeiras.

mistura-se a música
com um ténue balir,
montes opostos
fitam-se das nuvens.

despe-te pinheiro
conhece o frio que te consome
serão longos os raios da manhã 
em que aceitas transmutar
entretanto a neve
cobrir-te-á os braços magros.

fogueira

as ramas da árvore da vida
aterram à beira da janela
já não louvam os céus
mas serão o fardo
que aquece este inverno.

vê aquela chama
ao longe
corta a neblina
e diz-te onde seguem
o que sobra das pessoas
que dormem ao relento.

o calor é o abrigo
de santos e pecadores
são todos
filhos de Deus.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

adultos à mesa

saber ser
é mesa posta
a toalha cobrindo a madeira nova
galheteiro ordeiro, bem composto
e sem gorduras
o acepipe decorado, as entradas dispostas
até o vinho é degustado na ponta da fila
pelo chefe da casa.
perscrutas à volta, as janelas panorâmicas
não embaçam com o vapor que se escapa
pelas folgas do tacho em cobre
semi-cerrado, a tampa pousada de lado
para não ensopar o arroz solto.
não há pó nas jarras
as ânforas completam os cantos
como se fossem estátuas num templo
e nas paredes encontras pinturas
escolhidas a dedo, modernas e locais.
ouves o som de talheres sendo arrumados
na cozinha, uns leves e delicados passos
circulando atrás da porta
tap tap tap
abre-se uma gaveta que corre
e não hesita
e fecha-se num som contínuo.

toda a ordem enquadrada nos detalhes
de uma vida sem travessas, direita,
pessoas que sabem o seu papel.
é avassalador
espreitas a varanda
os banquinhos de madeira, a mesa
decorada com flores vivas
a avenida circulando lá em baixo
malta, preciso de um cigarro,
volto já
e eles pedem que feches a porta
para o frio não entrar.

sábado, 21 de dezembro de 2024

fardo dos mentirosos

o fardo dos mentirosos
encobre a noção que finda a esperança 
no apego aos êxitos do zelo
que dobram costas serenas sem ornatos
em observações crípticas e trocas ligeiras
longe do terreno chão calcado pelas solas
de calceteiros, dos que recuam na hora
mas também pelos que avançam sem ceder
com o fulgor dos céus abertos
ou de juntas adestradas por arco e flecha 
e a eterna permanência.

segredos também podem ser
postos em cárceres para que fiques
em silêncio.
o mesmo âmago,
permaneces incomunicável
em verso, em respostas retrucadas
vão-te retirando as palavras tento a tento.
é moroso mas certeiro que um dia
restará uma essência em vácuo
e os ossos serão a esquife
de tudo aquilo que não foi dito.

esta folha em branco sem fim
é propícia ao termo que buscas
contudo
eis que a cobardia alheia
encerra-se nos teus dedos
a rúbrica alertando os sentidos
da constância da tinta seca.
evapora-se o intento
e a busca será adiada por tempo incerto,
ilusões vencem ao pulsar 
duma fraca consciência
novamente.

mais letras para o grande vazio
que encobre o cerrar da esperança
mas paradoxalmente observando
o júbilo que se revela aqui.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

tá tudo

tuuudo em ordem
em nome do rosário
badalando contra o frio
e no peito vazio.

estrela do folclore cantarolas
tu pelas amargas sessões
de dança que fazes no átrio
enquanto pulsam quartos além.

colhe-te a espera como
se fosses o trigo
que a foice leva
nas mãos do camponês.

tuuudo passa enquanto
enternece essa cara de cachorro
os cílios batendo nas rochas
à beira do caminho.

rebenta a manhã numa franja
alheia e dispersa com o vento
e os nós na espinha
apertam-se contigo.

sentes os calafrios
que suplicam perdões
dum pedaço de ferro
pedindo socorro em segredo.
perdemos tempo 
os dois mas
não pensemos nisso
tá tuuudo certo.

nega o diabo na postura

talvez te tenha julgado
numa óptica moralista sem peso
nem medida nem juízo
conforme as indecentes 
esperanças dum percurso
que já não existe há milénio
ou mais
talvez.

és gira, pronto
'tá dito, por muito
que fales como se fosses
uma poetiza meretriz
toda balofa na auto-estima
e no resto, sei que não
mas é como te expressas.
diz-me antes quem és 
e que caprichos espigam
os cabelos tingidos
onde te escondes.

podemos fazer as pazes
conhecer os lagos rasos
da amistosa carência
do entendimento verdadeiro
talvez
pode doer e trazer
uma carga de chatices
para mim 
e para ti
jogo-te as pontas
para trás das orelhas
empinadas como esses trinta
nomes que levas no registo
sem filmes amiga
sem medos
das complicadas dinâmicas
de sermos parte do presente
século xxi.
quiçá seja isso que tanto tenta
os membros perdidos de pessoas
a caminho da meia vida
sem coragem para enfrentar
que o tempo corre 
veloz
e sem espinhas
de fazer vítimas 
quando passa.
talvez.

lindos, nunca
só cruéis degenerados
negando a própria essência
nas suas destras
competências, às vezes 
sociais
às vezes temperamentais
sorrindo com os olhos para
chefinhos de órbitas vagabundas
com a vista meio cerrada
a confiança de pessoas que 
sentem o amor como uma maldade
nunca dando a parte fraca
e fazendo da imagem um magro
vassalo da sua entorpecida
confiança
de ser miserável
quando a noite acaba
e o silêncio assenta
no caminho para casa.
sabe mal
não é?
e vagabundeando por aí
acabamos com um cheiro a vinho
escorrendo das nossas goelas 
bafientas
que conheceram as ruas
como putas
que do pago
perdem a alma.
eu sei cara condessa
isto é tudo postura.
estamos no mesmo
pequeno pequeno mundo.

fugir é igual a dois
estimada,
odiamo-nos e
isso quer dizer que quando 
te jogar um olhar malvado
os resultados serão uma negação
de quem somos,
incómoda
e irresistível. é especial
quando o desejo se manifesta
no desdém
voa-se alto e longe
as lombas fazem-se longas
pela estrada do pecado.

variamos a cantiga do suposto
fazendo disso um segredo
que se pode partilhar a dois
quando partires pode ficar
um vago talvez
do que poderia ser
ou então um certo rancor
de cedermos ambos
aos nossos ódios
que não passam de sombras
que a gente cobre
com ambição e tabaco
talvez.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

a vergonha

já alguma vez foram às compras
com um sem-abrigo?
é como sexo descomprometido
ninguem está ali muito bem porque quer
só calhou.
o sem-abrigo, como qualquer gajo
sente uma enorme vergonha 
quando a coisa está feita
e nem te olha nos olhos no fim.

jogo da vida a cavalo

medimos quem passa
ao metro
e ao kilo
como se revela numa linha
pelos tons no discurso
pelo macio nas bochechas
as fragâncias que carrega
os olhares que desperta
ao ritmo do relógio
com os tostões no bolso
se é fortuna do acaso
se o trabalho compensa
pelos vícios que trouxe a jorna
quantos escudeiros comanda
se comanda
ou é comandado
e por quem
os riscos na carroçaria
e sobretudo se o negro dos olhos
jogam conforme os nossos instintos
secretos e encobertos debaixo
da mesa. 

é bem mais que 0 1 2 3 >

tudo isto pra vos dizer, queridos leitores,
bem sei que neste game of life
os critérios são menos lineares
do que no famoso game of life
apesar do desfecho ser mais harmonioso
comparando aos aleatórios contornos
do game of life
quando rabiscas sem conhecimento prévio.

n a
d a f u n
 c i
        o
                                    m a                                       
n  a                                    s f                                 a z e
a s                                m o s q u                                e
s i m

    h                 
   a h
    a            ha   
                  ha .

perdoem-me, eu acho engraçado
mas prossigo:
clarificada esta essencial norma
da vida camponesa que levamos
espero que compreendam
o que vos quero contar nesta minha
teoria da observação.

entre os cavalos derrotados
pelo entendimento da percepção
cultiva-se uma hostilidade
contra as manadas que se formam 
sem esforço
quando pinga a bênção dos céus
que maximiza um atributo
com frequência nunca só.
é a lei natural
os potros seguem os grandes
os grandes seguem seus pares
e os outros, bem
esses conspiram nas casas fechadas
do outro lado do mapa.
o equilíbrio está 
em haver espaço para todos
não havendo...
somem no branco zero
de não-ser.

este é um tema muito sensível
porque só por articular
estas palavras no vazio
acabo por dar o meu input
que pode singrar
ou afundar.
depende das minhas 
supramencionadas medidas.
contudo, sinto alguma 
responsabilidade vaidosa
dentro do meu estável sistema
de jogar uma corda para os lados
e intermediar esta vida
de cavalos e burros.

dou um exemplo
num serão de sexta-feira
as peças muito bem posicionadas
rumo ao cíclico término
eu com o meu cavalo-alfa
cruzando a via a trote
saímos da nave
ora logo na primeira interacção
3, pimbas, vai sair
alguma coisa daqui
sem expectativas porque conheço bem
o game desta life
e eu não sendo nenhum casanova
só contava com o óbvio.
pois bem, foi o camelo magro
a beber a primeira água
por água digo olhar.
eia! nada
matemático.
encheu-me o ego até cá acima
no entanto 
foi também uma lição
para mim (não muito)
e para o meu amigo
ele não perde nada
que farto disto já anda
cansado do algoritmo como vai
até suspeito que apraz às vezes
estes tortos desfechos. 
 
como o leitor já terá percebido
isto não é nem gabarolice
nem coitadinho de mim
o que eu disse
logo na primeira estrofe
é uma pequena parte
da chave invisível
e aplica-se aos amores
às entrevistas
às sondagens nas ruas
à impressão que fica
aos descontos na bica
etc
às vezes não há chance
e perdes logo de início
mas assumindo que somos todos
mais ou menos parte
da normaleza
podemos contar que seremos
médios que chegue
para pelo menos tentar
no jogo da vida
ninguém sabe a regra
então mais vale assumir
que há mais sorte
do que o que desígnio implica.

cavalo
camelo
burro
são 3 também!

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

a prescrição do doutor

entre os meus afazeres
de higiene da psique
consta escrever cartas 
a pessoas que já foram
bater um chat com fulanos
e fulanas
que não vejo há anos,
décadas,
cujo rosto
nem me lembro.
tarefa cruel
prefiro aspirar a casa.

outro alerta que ficou
é que preciso remediar
a relação com a minha sombra
ela segue-me por toda a parte
mas temos que fazer as pazes
já não posso dar as costas e fingir
que não a vejo.
isto implica por exemplo
aceitar a permanência da tinta
deserdar reprovações de respeito
falar sozinho feito tolo
tirar cadáveres das covas
e pedir-lhes desculpa.

epa
prefiro mesmo aspirar a casa.

mais inaceitável foi a exigência
de repetir um mantra na cama
para que nos sonhos
no momento do aperto maior
eu permaneça nele
ao invés de despertar.
senhor doutor
temos que entender onde acaba
essa tal auto-reflexão
e onde começa o
masoquismo mental.
já não é nada mau 
lembrar-me de parte deles
agora queres-me fazer comer
facadas no lombo
deambular por horas
que parecem anos
por vielas anónimas
passar a vassoura
pela casa
enquanto as chinelas
vão arrastando o pó de trás
qual sísifo das limpezas?

já sabes
prefiro o roncar do aspirador
ele afasta os gatos
é mais eficiente
e assim posso receber
visitas.

observo ainda
todas estas notas
foram opostas às que
a psicóloga me deu.
ela disse-me mesmo
só pra aspirar a casa.
mete piada
porque mandei-a passear
mas realmente vim
aspirar a casa.