quinta-feira, 28 de novembro de 2024

para o guecas

a yamaha do gueli azul e branca
tem a idade da kiki, provavelmente
o menor cão que já vi.
ele fala sozinho porque já estourou a mioleira
com compadres que esticavam a linha
em pares e triplas e misturas excessivas
quando a música parou e viu-se órfão
o brilho da consciência pediu um descanso
que durou até agora, já lá vão vinte anos.

a mota quando passa vem pela calada
tem poucos cilindros, está gasta
porque antes de trabalhar na fábrica
ele foi estafeta, um presságio da geração
freeter que espreitava das esquinas de mumbai.
o verdadeiro taxista do cinema
levando bocados quentes de prazer
dos fornos a lenha sujos
ou o melhor pão da cidade
na chuva, nos dias de geada
cruzando os ciprestes sem saber
o vagar da companhia na praça do brasil.
descansava na boca com um fininho
as caras doutros tempos às vezes ajudam
mas não deixam de estar longe
e foi assim que o conheci.

hoje trabalha numa fábrica de lentes
vê-se sozinho na esteira, por sorte
e quando voltou para gastar o almoço
vinha com raiva da senhora
responsável pela segurança na linha de montagem.
suspeito que sei a causa
porque os dias felizes com o irmão
a ver a neve na colina
já se foram
resta a yamaha azul e branca
os olhos vidrados na estrada
os dentes consumidos pelo fumo
e o silêncio.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

fonte da juventude

tomo o meu lugar
e um copo brilhante abana entre nós
em segredo outros tantos, aqueles que me sentam
aqui com quem sejas à minha frente.
eu sou um homem de lugares e quem lida comigo
sabe bem a que me refiro. talvez não.

o trânsito passa, o vocábulo escorre
para cima da mesa, pelos dedos pousados no colo
pingando pelo canto, paciente até cair
nas calças de ganga gastas que militantes do bairro
desdobram e usam e dobram e guardam e desdobram
e vestem nas visitas às ruas mal iluminadas do beira tejo
ou nas margens doutro rio que nos acolha.
assim vão-se apresentando os anos que passam
e as faces que se gastam mais depressa que elas.

somos jovens, não há casa neste beco
que não nos tenha visto pequenos de mãos dadas
com a gente grande que nos fez a folha.
chamas de cronos ao passar da brisa
que fez a barba espessa
eu nunca acreditei nessas supersticiosas
formas de ver fenómenos.
o tempo anda connosco e o subsolo
continua cheio de ratos em silêncio
com as suas famílias, os avôs de poucos meses
respeitam a norma sem medidas que os aflijam.

vê aquele sinal de proibido
ele não obriga a nada
mas riscamos-lhe uma cruz
porque obrigamos nós a ele
que respeitasse a nossa adolescência.
agora que foi outono por dez vezes
ponderamos pedidos de clemência 
de justiça ou paciência, a responsabilidade chamando
pela janela da vossa casa.
continuo a ver um sinal entre as estrelas
um extraterrestre desejo de conhecer as feições do infinito
ontem foi agora
e há dez anos também
e quando nasci já cabia nos meus ossos
os socos que demos aos reguilas
que rangiam os dentes na escola
porque não tinham sapatos capazes.
rapazes sem tento
foi tudo agora
quando piscas os olhos
continua a ser presente.

trago um casio prateado que bate convosco
e ele não se gasta e nem eu
os riscos que leva no visor são medalhas
de honra da guerra. mas ele bate
e vocês são puxados
cada vez mais depressa
para os bueiros entupidos de folhas
e do lixo que a rotina gera.
estou aqui ainda
agora mesmo
vestido por noventa anos
por outros tantos manos
pelo reino do largo dos cães
as durezas enrijaram a mira
e ela áspera aponta no vosso peito
que vai cedendo à mentira que o tempo passa
e o pó se ajunta.

não entendo
vou para o espaço
serei colono na lua
sem peso que comporte
esse túmulo a que chamam face.

a vida é linda
quando o mundo gira
e a gente fica
romanos, cavernocas
batendo com paus
fazendo fumaça
rumo às estrelas
e se ficarem por terra
lamento
lamento mesmo
perderam o compasso da batuta
e como no retrato que envelhece
as barbas brancas fizeram da alma
um jazigo pútrido e infeliz.
quem sofre com a cruz nos olhos
não está proibido a nada
e vive para sempre.

a névoa paira nos banquinhos da costa
e o fumo dos cigarros esvoaça com o fôlego
do povo que ruma daqui em frente, pela avenida sem termo
sentados em calçadas de pedra trocando palavras vulgares
o trautear cinético sintetiza desejos de permanência
e eu pisquei os olhos e tudo foi agora em toda a parte.


a terra gira como humanos na cama

confirma-se, os dias encurtam neste canto
e no breu o fogo arde no céu longe
é o castigo dos que partiram
e levam a tocha para o outro lado.

fitando as estrelas dependurado na janela
vemos a colcha negra se alargando no horizonte
como piolhos numa cabeça coberta num véu grosso
tudo se mexe e nada te explica como.

cobrindo a vista
eclipsando a chama ténue
os vultos do dia
dançam livres de formas.

sombras roxas e douradas
derrubam castelos
determinam castigos
fazendo caminho pela terra virgem
daquilo que não se atreve a aclarar.

é o papel do outro lado
pois quando fechas os olhos
permanece tudo cá 
e confias plenamente nisso.
assim anoitece duas vezes
assim sofres tantas mais
fazes a rota do poço
e tornas ao ponto de partida.



cervantes desengane-se

sancho pança, o tolerante
escoltava borrachos pelo prado
daqueles de hidromel e vinhaça
sem sonhos literários
apenas fermentados.

que romance tão contente
desciam as escadas da beirada
de declives rochosos com musgo
dispondo de espada, selim, escudo
fatiando os montes
mutilando a cevada
mas não se lembram de nada.

as cisternas temiam
ainda mais que os moinhos
os heróis no seu caminho
eram senhores de milagres
e da água brotavam
pesados cantis de bagaço.

livros de receitas
bestiário de castas
iludiam d. quixote
e ele fugiu da corte
um enólogo andante.

assim fica escrito o conto
à luz da grande ciência
consumido por fervorosos desejos
as indigências da vontade
deixam uma grande ressaca.


terça-feira, 26 de novembro de 2024

as gralhas acordaram tarde
ouvia-as do meu quarto
elas chamavam por mim
não será hoje mas um dia
voaremos juntos pelo vale.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

gruesome fin

fugi fugi fugi fugi
e fugi fugi fugi fugi
e novamente fugi fugi fugi fugi
fugi fugi fugi fugi
e mais outras porque o sol pôs-se e eu quero que ele fique lá no aterro onde ele se enfiou
até que um peixe lhe coma os olhos lazarentos 
e os crustáceos façam da sua casca um penico
e os diabos do fundo do mar puxem esse nojo pelas fissuras do abismo
fugi fugi fugi fugi fugi fugi fugi fugi fugi.

a luz apaga-se
as janelas acesas da vizinhança zombam da minha cara
insistindo em continuar como se o fim não fosse certo
tipo um fio solto que puxas e puxas
para comprovar em que momento a linha acaba
se haverá peça que resta
ou se salta um botão
se calhar fica tudo igual?
burro, se fores convicto que chegue
até um vestido bem liado perfeito vai virar um novelo informe
como os pensamentos imbecis que voam quando a lua não chega
ou quando a hora não muda
nem com dois anos de espera
nem com a fé a que te agarras
nem com mil desculpas ao vento.

fugir então torna-se apenas lógico
doutro modo vou começar a jogar pedras
contra a puta das janelas que não apagam
e ainda acerto em alguém que não tem nada a ver com isso.
eu não quero fazer mal a nada
eu só queria que a luz fosse boa
e que a minha pele brilhasse com as estrelas
em qualquer parte da jorna o ouro da inocência
resplandecendo na galáxia em sorrisos tímidos
e de mãos dadas com o destino.
não
é
assim
nunca
seu
labrego
perverso
se ela bate nessa cara pálida e manchada
uma traça pousa para te avisar
que te escapas ao castigo
volta para a toca bicho fedorento.

hoje o amor da minha vida casou-se
e mudou de nome
e tomou-o dum terrone.

um murro sem esforço
sana as vozes da madrugada em destiladas
magias que delapidam os pulsos de plebeus
e pela calada a nova apoteose.

é Deus
que diz toma rumo
juízo
razão em laurear a princesa
dos versos perfeitos
e que se lixe o trauma
que levas na fronha
é só a lição que comprova
que andavas torpecendo sem premissa
por vales sem vida
cultivando degredo.

foge foge foge foge foge
e continua bandido porque um dia serás apanhado
e vai ser dupla a perdição
uma pelas dores do corpo
outra porque levas com elas e amochas
mártir sem causa
engolido no tempo dos dedos tesos
e das memórias fracas.

o homem solitário de Deus.

eis o desfecho
pistolas de dedos
disparando contra o busto
armadilhando o futuro do discurso
se seguires pelos caminhos da força plena
e não das fraquezas da alma que se debruçam
e revelam a busca que nunca
conheceste senão quando a esposa
ex-noiva
se juntou do seu par funesto a quem lanças injustiças
como se fosses parte desse gambito.
perdeste a dama
e fugiste por isso
aceita porque o Senhor dá-te sempre a resposta
e as medias conforme aquilo que precisas
por isso
roga
e põe-te de joelhos
escória imunda.

ahaha.wav

ELA É FELIZ 

apenas um filho Dele
com ódio pulsando
por causa do tempo.

é de noite
a luz incomoda
circulando a cidade
tudo segue
e tu também.
já caíste para o lado
agora odeias cordeiros no mundo das nuvens.
a manhã vai chegar com o peso das pedras
e depois sem promessas
no máximo
eu gosto da minha mãe
mas o amor evaporou
e tornou-se um fim macabro
em francês ou russo ou o diabo que os guarde
lá na fossa onde me leva.
por isso
fugi fugi fugi fugi fugi
e fugi fugi fugi fugi fugi
não digam a quem fica.

errata

ora terão que perdoar a retificação
mas nas observações sobre a taberna do miguel
mandei uma pequena peta, foi inconsciente
só que não posso deixar passar 
fosse burrice ou intencional.

hoje em contrarrelógio (ou contra-relógio)
fui tomar o cafézinho do almoço
e estava lá o irmão do miguel que também toca aquilo
mas tem andado fora porque tem cancro
ele não me disse directamente
também não é preciso ser detetive para perceber
complicou-se bastante na semana passada
felizmente hoje está muito melhor.
prossigo:
a "dona paula" estava a ajudar a pôr umas garrafas
na montra que fica ao lado da máquina de tabaco
e de conversa com um velhote qualquer
ele dizia "ah maria, tu hoje estás cá à noite?"
ela respondeu "não sou maria, sou ana"
"cármen...?"
"então e se eu o tratar por urso?"
bem, imaginem o barrete que meti
com as orelhas para cima.

portanto clarifico
a senhora que treme é a ana
o miguel é o miguel
e a dona paula é a esposa.


domingo, 24 de novembro de 2024

lembranças e um apelo à sabedoria do templo sem respeito

teria um diálogo civilizado contigo
se guardasses a adaga na cinta
deixando soar a lâmina nos seus
claustros de cabedal
descansadinha e sem perigo. 

o mundo tremeu porque
já não nos encarregamos disso.
há jeito nessa loucura avariada
de gente que nunca carpiu?

notifica-me quando voltares
quando os dedos pulsarem por
provocadoras sensações de ódio
que geminam as intempéries
e dão tanta tanta vontade de espetar
estes indicadores suaves garganta abaixo
até o léxico sair num molho nojento
"chama-me nomes
uma besta, duas, 
um porco que fuça
e a porca que o abriga".

sendo cruel como os inocentes
quando dormem e se esquecem
da maleita que cultivam no silêncio
penso em duas estrelas
uma brilha longe e proibida
nos cárceres da fantasia
muito se dança no quarto maçónico
em nome dessa sábia dimensão
que se pinte boaz em mais que cobre
e os cães ao largo mijam
por cima dessa idiota premissa.
a outra carrega nas vestes
medalhas de mérito que certificam
a chama que procuras.
parece melhor
não bom
real e autêntico
melhor.
o mapa do labirinto está aberto
e a lua cheia chega em vinte dias
hora de tomar uma decisão
contra os pilares secretos da ordem.
eu estendo os meus, no meio das mãos
mas olhando em frente percebo
que o insulto que aflijo
é a voz que compele
e erectos se entendem, realmente,
conforme esses desígnios 
sagrados, sarcásticos e efémeros.

os 20s de novembro

na mercearia à frente do meu prédio
um casal chinês muito reservado
sabe bem o que a casa gasta
afinal são eles que acolhem os pedidos
do misterioso chapeleiro da verderena.

devem saber que se trata duma época festiva
os consumos aumentam, há guloseimas e álcool
pesado, nozes e amendoins salgados
petiscos de toda a espécie, enlatados
e granulado, farinha com fermento,
favas, pão de forma, queijos diversos.

é um bom palpite
falham apenas porque festa e rotina
são partilhadas pelo mesmo público.

entendo, normalmente é tinto rasca
conservas, feijão verde
uns rebuçadinhos para a tosse
(na verdade para as bruxas
que rangem os dentes trancadas no quarto)
miojo, como se diz na minha terra,
um pacote de leite singular
fiambre extrafino para a dieta
e mozarela fatiada da mais baratucha.

tratas-te bem quando a hora cai
e as noites entram pela tarde.
assim termina novembro.

caminhas para três décadas
estou cá fazem duas
mais um pauzinho singelo
que marca vinte e uma jornas
entre o sado e o tejo.
qual champanhe, moscata
roxo como as unhas dum marceneiro
que ficou perdido em vera cruz
e que lança sinais de fumo
com a lenha que estala
com as próprias mãos.
um orgulho de homem.
 
venha daí um brinde aos velhos tempos
ferrugentos empoeirados velhos tempos
inconcebíveis e imperdoáveis velhos tempos
nada como viria a ser velhos tempos
prometido herói da nação
soberanas virtudes dum grande líder
prudente e filósofo velhos tempos
ergamos as taças, charutos fumegando
tornam a vista turva àquilo que produziu.
tchim-tchim
brindando um fulano mascarado
um chinês, a dona bagaceira
os gatos perdidos do rés-do-chão
que se deixam estar e sobem as escadas
porque sentem um amor vazio
na véspera dos teus anos.

vinte velas
são as que cabem no maço
e sopras
uma de cada vez
pela noite fora.
parabéns!

mau presságio

eu tenho uma vaga suspeita
que algures nos confins da minha querida
e pouco visitada arrábida
se terá desmoronado uma formação
rochosa bem antiga e importante.
digo isto porque quando
a brisa manda do seu fôlego salgado
os assobios do topo da serra
eu costumo conhecer quase todas
as cantigas, as finas melodias
de melros e trilhos em declives
que metem medo e respeito
os passos dos grupos em excursões
as cénicas curvas sem guardo
serpenteando pela baía.
hoje o tom não era o mesmo
havia um cochicho moribundo
entre os silêncios da sua pauta
um áspero escondido na neblina
as asas de passarinhos batiam ariscas
e longe dos caminhos sinuosos.
parecia coagida à cumplicidade 
por um crime qualquer
nervosa, irrequieta, espreitando pelas folhas
como quem avisa
"não entres
por favor
aqui já não descansam sombras
elas andam por aí 
determinadas
deambulando com as silvas entre os dentes
na cara pústulas de seiva tóxica
de cimento e amargura
por baixo dos olhos, no canto da boca
não entres por favor
contenta-te com as saliências
que encaras ao longe
quando voltas à tua terra
e acena-me quando fores
porque terei saudades tuas"

que arrepio
a tenebrosa sensação
de que nem ela é inocente.
será com culpa
ou será vítima
de patifarias obscuras
cultivadas no seu âmago
com o piar dos mochos
que fogem das labaredas.

queimam-se as efígies e o estalar
da fogueira é o tambor que pauta 
os assobios da colina com sangue nos pés
e os pedregulhos rebolam em direcção
a setúbal.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

um raio optimista passa pela calha no sótão

as cores e as formas descrevem cantos ao abrigo
que se forma antes antes de existir
noutro plano distante, remoto e indiscernível.
pintado, iluminado, obra feita ou abandonada,
gasto pelas rixas entres as gentes que entram
e saem e voltam a entrar,
carcomido pelos fungos em profunda solidão,
riscado pelas patinhas famintas de seres menores,
tudo toca nos seus claustros
revestindo ou despindo as suas camadas
com o fôlego do que há.
nunca muda no seu domínio
só o cartão de visita
quiçá a morada, o número na porta
mas tanto quanto torne o mundo a girar
contemos sempre com o grande lar.

um difícil exercício da consciência
é saber diferenciar entre essa essência
e a sua tradução no espaço térreo
por certo haverá alguma forma
de ligar, ou religar, estes universos tão distintos
mas até aqui, no território da linguagem,
a matéria se confunde
apesar de ser fácil sentir a diferença
uma criança consegue.

esta é a causa do flagelo
que importuna os sensatos
os dados à vida
os dedicados à causa
os convictos
os corajosos
os tímidos
os reprimidos
aqueles que sofrem nas sombras
dispostos a dar a face
pela pele que o próximo habita
e os justos, inseguros,
e todos.

quando terminou um sonho lindo
inspirado em verso e glória
uma intuição gentil dissipou
fruto das unhas tacanhas
agarradas a dedos gordos e possuídos
mas também pela fúria na face
com a rubra cara da mágoa
de sonhadores e poetas
fraternos companheiros na grande aventura
da nossa alargada família.
com esta tendência trágica, mais que milenar,
militarizando as crenças em discursos de poder
e em chamados à acção
a matéria triunfou sob o abrigo
e devorou o seu filho.

seguimos em frente vendados
e começamos a ver cores
fora do espectro sensível
chamam-lhe ilusões, visões 
em mentes despertas.
primo contra primo
irmão contra irmão
tal como no início
assim se afigura o corrente.

temos onde ficar
disso não tenho dúvidas
nem que seja entre as larvas
que rejuvenescem o barro
de onde partiu a palavra.
atenuar o fogo da queimada
que se alastra pelos bosques
na superfície que define tudo
é um mistério que guarda a lua
os céus 
e as estrelas que nos olham
de há milhões de anos para cá.

as cores e as formas destroem os cantos ao abrigo
formado antes de existir
aqui, agora, concreto e tangível.
virá um outro sonho lindo
e como um prisma revela 
do que é feita a luz
assim se juntarão as palavras
em termo único e vinculado
exumando fogueiras onde primatas
comiam e grunhiam e descobriam
a chama eterna 
no bico duma pomba.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

a base e o beiço

um pentágono só é malvado
feito de betão na nova roma
ou no chão duma cave escura
porque, por exemplo, numa face
abençoada pela santa beatriz
a geometria bem preserva
as bochechas de hollywood 
os olhos do nilo baixo
ou os lábios que escondem
caninos afiados e um sotaque arrastado
carnudos, encarnados, delineando
uma clavícula emergindo
em seda fina, pálida e sensível...
enfim
pode ter a mesma forma
e não é ruindade, pelo contrário!
falamos dum sagrado artefacto
que poucos singrarão nas suas vidas.

gestos pra quem te endente

articulando o que quero 
com a empregada ao telefone
soube a intimidade rica
pois entendíamo-nos perfeitamente
nos gestos mal amanhados, ela com a cabeça tombada
prendendo-o entre a bochecha e o ombro magro
a vozinha da amiga mais alta do que nós
e do que a máquina de café
apontando para o que eu queria
para a garrafa de macieira
o cartão entre os dedos como num truque de magia
cortando o ar tipo um maestro que para a banda
e uma pequena vénia de obrigado.
é tão simples falar despretenciosamente
quando sabemos exactamente o que se quer
um objectivo simples como um copo, uma bica
mais do que ser ouvido, ela sabia
e isso foi simultaneamente
sensual e competente.

bebi lentamente o copo
pensando anedotas, ponderando estes versos
não foi apaixonante
apenas um espontâneo deslumbre
e gostava de lhe ter apanhado o nome
para espetar aqui no título.

se ela tivesse sussurrado 
vamos fugir para marrocos
tapando o microfone
para a amiga não ouvir
teria ido
bancado tudo
sorriso na cara
palpitando cá dentro
quimiorreflexos ao rubro
mas depois desligava
e víamo-nos de frente
e a magia se ia
porque as palavras dominariam
por cima da simples vontade
de fazer um pedido.
rogo que não desligues
portanto virei-me de costas
voltei para a mesa
ela continuou a chamada
e eu terminei a bebida.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

para um destino perdido

sonho simples o meu
uma padaria com o ben
e 12 filhos contigo
cada mês uma festa.

quando deixar de ser um compadre trocará os mistérios pelas verdades, no caso o vocábulo, o teu nome (outra vez outra vez outra vez outra vez)

entupo as artérias de sódio
porque quero pô-lo a pulsar 
como se fossem os últimos segundos
da peça da qual toda a terra é um palco.
encho-o de fumaça como a neblina
que torna os retratos lindos
contra a luz da cidade que pulsa
em carros, transeuntes e as montras
das lojas que transcendem quando estão fechadas.
diabos do néon ilustram 
as vontades que palpitam
num coração sedento de vontade
de ver os olhos reluzindo
entre os baços momentos
que guardamos em fotografias.

bafo, bafo, bafo
já disse mil vezes
as paredes quadradas
deste meu claustro se enchem
e ficam amarelas como as páginas
e o fígado de um miserável.

eu quero dizer o teu nome
porque a tua imagem inspira
todos os poemas do mundo
e não posso porque sou...
não sei, amigo do teu amigo
compadre do teu amante
cúmplice de pecados que condeno?
foda-se, que em segredo eu queria
que ele morresse numa esquina
trágico e enamorado de ti
para que o seu legado fosse intocável
assim ganhava ele e ficava eu
e tudo seria feliz
para mim, claro.

já te rasurei o nome em tanto verso
sinto-me um censor fascistoide
a oprimir as volições do coração 
honesto e vitimizado de dezenas de segredos
e centenas de fantasias
com o azul que guardas nos globos
cor de metais raros
que só se revelam com complexos processos
químicos, eruditos mecanismos para replicar
aquilo que nasceu dentro da tua cara belíssima.

devo ter amado umas dez vezes
e o íntimo deste corpo vagabundo 
conheceu metade e gastou a outra
em encontros malvados da fraqueza
do tento, com a cruz ao peito
sendo pilantra pela noite fora.

hoje sonhei com a tânia
foi engraçado
era sobre os declives da carne
mansa, mas por trás das vedações
que davam forma à narrativa
havia um certo prazer onírico
em falhar no objectivo de tal forma
que ela saiu zangada e eu
acordei desperto e feliz
como raramente acontece.

feliz caralho!
finalmente!
os dias são poucos e a espera é longa
quando se vive agarrado às memórias
da paixão verdadeira.
dancei e dancei e pulei
e fui olhar o destino de frente
e voltei e fui ter com o miguel
e bebi um bagaço majestoso
e paguei mais por isso
porque quero que ele viva
tanto ou mais do que eu
que sou novo no corpo
e velho na alma.

venha daí outro camelo
cheio de sede e cheio de palha
e de moléculas que me agarram 
como o sal que jogo cá dentro
e no chão e na cama quando me deito.

escrevo iniciais e vontades malandras
sei que serias feliz, pelo menos nos dez segundos
de êxtase que teríamos em equipa 
se o outro mongo se fosse finalmente.
fogo, estou aqui a dizer tantas vilanias
mal me reconheço, deve ser isto a que chamam
de amor fátuo.

queimei as mãos no calor da tua imagem
que guardo na memória, mesmo mesmo,
foi leve e foi efémero
e eu peço todos os dias
que o amigo volte
e me dê mais uma chance.

amanhã sei que vou acordar
com outra senhora nas pálpebras
e tudo será diferente e as letras
vão ser literárias e corridas e despidas
mas hoje foste tu
acho que vai ser assim durante um bom bocado
e terei saudades de tudo que não foi
e não vai ser porque sou um cobarde
escondido na toca atrás de teclas
que batem com o ritmo dos cigarros.

correr ou morrer
um dia o destino vai responder
e o que calhar será
mas hoje é a filha russa
iberando pela internet
os teus óculos escuros
são heroicos e inocentes
como a iris duma princesa
e a alma duma poeta.