segunda-feira, 30 de setembro de 2024
tampas em estanho sentado, em pé, andando, em pé, ouvindo, parado, sentado.
sexta-feira, 27 de setembro de 2024
quintais entre espécies e a manhã de sexta-feira
das estacas desta tenda
a humidade enrugando-lhe o sintético
outubro na goela, pressionando à acção
pelo ar rarefeito do espaço enclausurado.
no jardim oitavo, deitado e bombarda
os miguéis da minha vida, uns certificados
e os outros em placas. iguais no registo
da memória, são considerações
matinais, como um bocejo
ou o sonho com os andes, descrito numa pauta.
esfriado como onde moro,
o amarelo nas paredes e nos dentes
e olho para a serra, a missão por cumprir.
é com vagar que a névoa sobe
eu sigo-lhe as pisadas com timidez
fervo a água que o ajuda
um coador, o vapor,
o grão moído que fumega
e o cheiro conhecido
mais um início de jorna.
será chuva e serão quente, misturas alquímicas
de plantas lembranças e do cenário.
passeriforme, a vizinhança em melodia
por cima de carros e tratores e os gritos
das pessoas que nos fitam com suspeita
a siringe como a vida, em mim dedos e teclas.
são as medalhas doutra era, fósseis do destino
poupados na fé e na persistência do contínuo amanhecer
a evidência, a meta, a única coisa que importa.
é a hora da muda. as borras pelo chão, comida
que brota para vós, filhos do futuro que persiste
assim como nós, que contamos as fibras
das cordas que estouram.
quinta-feira, 26 de setembro de 2024
o lar nos anos 20
nas arcadas de um tasco, o meu lar.
quebra a onda contra rochas
num jantar à luz de tochas
o dilúvio desta era, um desgosto que debochas.
pudera, foram mentes, caveiras
e a opinião de charneira
são retalhos na manta da fera.
espera, a virtude alcança
uma mão que descansa
e a outra no cutelo, matança.
o ardor da falta de tento
jogam-se todos ao vento
e permanece a dor.
casa tua, onde a queres, senão em contramão?
nascer, viver sem crer
crescer sem nascer,
uma só vez.
o lar que reclamas são as paredes que nos trancam
nas correntes do crime e do castigo.
e concordo pelo sebo
que escorro pelas botas
salva a vida do acaso
por uma mão cheia de vigotas.
todas plantadas pelo outro
bateis o pé eu bato o couro.
quarta-feira, 25 de setembro de 2024
palavra & permanência
da ignorante imprudência de se achar pertinente
ei-lo, no jusante, esperando que caiam as gotas
como folhas num outono da cidade
o chão pegajoso
temperamento perigoso
as barbáries da espécie.
bicho de ares, espelha o nada quando nada vale
tudo pode, das poucas vezes que brilhou.
tampa em alumínio, ferrugem da ausência
foi o descarte fugaz, brilhantina da memória
posta em causa numa lupa, encarnada
encontrada e com os indicadores roxos.
a raiva e a ira, pergunta e resposta,
a cabeça exposta ao céu nublado
e chuviscando no império em terra.
e encontrões, desconfiança que brota
da consideração que vacila
no momento que precisa.
bisquei o poço lamacento
um perfeito que lamento no deboche
tirando a capa que sacode
com o vento no regresso.
contornando um vidral antigo, baço
raso, crasso, craveira incerta
e una apenas em si.
terça-feira, 24 de setembro de 2024
fora da mesa
uma janela, o cinzentão, mesa redonda sem toalhas nem rodeios
descansavas no leito que algures na memória foi o nosso
branco e sujo que esconde nas mantas a adolescência, os ais
de estendais e bandeirinhas, sexo nação e umas galinhas
brisas na fresta entre o pecado e a tentação, agora guardando-me o couro.
misturamos a sede com a fome, explosivos corroendo
a resiliência duma porta bem fechada, trancada noutra dimensão
um senão, sois a minha animação e talvez por causa disso
faço furos no resguardo e penduro tantas faces
quanto as que consigo convidar.
o convívio, uma conversa amena e banal
sem te levantares trago-te a marmita meio morna
mas duvidando dessa escolha ofereci-te uma fatia
da minha, que rejeitaste porque preferes a tua.
cansado às cinco da matina, a cama feita sem coberta
esta casa nem existe
casados de auguro e esferovite.
cantiga de setembro
tem o seu pico no poente
e o meu trajar doente
compras pela sucessão.
é o enlace do encanto
pôr o anel na tua mão
mais um sonho inconsequente
nem na manhã fazes de santo.
vivo os prazeres de um rei
mas não vejo bem de onde
pois que a riqueza esconde
o que hei de desejar
n'sei, uma família um lar
ou o manjar da terra santa
é acordar que o galo canta.
e o isco lançado, contraponha
chamas a isto escolha
numa manhã de terça-feira
fiquei de cama na ronha
na beira rolha e garrafa
o cobarde de castigo
certo que agora se ponha
no caralhinho que o acolha.
segunda-feira, 23 de setembro de 2024
cavalo sem trilho
não se nomeia nem se registam histórias
é preciso mais que um
e as vozes da noite suspiram um caos inconsciente
que fica ancorado no desespero da solidão.
em tempos como numa casa humilde
cujas paredes rugosas do tempo e da chuva
guardam segredos felizes e histórias da juventude.
sem memórias é apenas uma ruína.
até ao sol quente e ao fim dos tempos
(agora)
passadas passadas do passado
ateadas ao fogo pelas estrelas e pela loucura.
impar nas origens parcas do esqueleto
a miséria, os insetos, pequenas formas de vida
sem maldade, só confusas, mas em paz
reino amplo e jovem.
renascimento ou escaldão, a vista encarnada
dos raios que o claro devolve de baixo.
como as cobras, que também sou de carne
e osso, não devo temer o veneno na língua.
a sul, o passado que guardo em lágrimas
a norte, de onde vinha e de onde chego
a oeste, as ruínas e os seus fantasmas
a este, a imensidão da estrada, o caminho infinito.
sem nome nem coisas
nem memórias nem conquistas
só a paz que fiz bem
ou o melhor possível.
sexta-feira, 20 de setembro de 2024
ilha-terapia
um pedaço de pessoa estirado
nos braços de uma mãe alheia
a clareza do argumento suspensa
submersa em ouro e cristal
líquido, puxados do sal da terra
eu, uma poltrona branca numa clínica
com sorrisos agarrados à cifra.
e cinzas, rugas que brotam da alma
e pintam-me o corpo com a idade
as termas do zelo borbulhando.
uma mensagem na garrafa
parte desta ilha, com cheiro forte
uma promessa que faço, numa palavra
fraco
o desenho dum sorriso decadente
estampado em vincos atrás dos olhos.
sem ti e sem muito, corda amarrada no poste.
à resposta, ao retorno, uma mancha de areia
no sertão de mar e sal, atlântico
como os tempos da luneta, lente riscada
a pega podre de escorbuto, púrpura
a realeza dum senhor guardando a terra
e o palácio-solitude. algures
um mapa dirá o caminho.
fim da minha hora, o sol posto
e morto, afogado,
pago o pecado, seguro cobrindo.
o revolucionário
as figuras transmutando pelo sistema
incorporando em si a revolta
do revolucionário.
o vazio pairando no teto do quarto húmido
o vazio cortando a luz que entra pelas brechas da persiana.
acende um cigarro ou um charro ou um charuto
acende os neurónios ou a vontade ou a volição
que nega no nevoeiro composto de nada e algo.
lentamente corroída pelo tempo, é relativo.
procura na marcha um encanto, uma meta
tudo sendo como é, o suposto um mero sonho
ou embuste duma crença.
pela folga entre chão e porta
e entra-lhe pelas narinas impuras mas jovens.
o tráfego cantando as suas melodias atonais
o tráfico balizando o desespero intemporal
um tubo de escape em ambos.
no cinismo, uma dança bem presente
que só me custa compreender.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
Rascunhos II
Recebi a bola. Não sei o que levou o mister a pôr-me aqui à frente. Sou defesa, foi ele que me descobriu a posição. Treinei para isso. A resistência nula, a ocasional explosão de velocidade, muita antecipação, passe rijo e sem magia. Atributos típicos da defesa, mas um par de pés esquerdos num número 9. Talvez a retidão do meu controlo seja útil para não inventar demasiado ao ataque. Pouco importa, compete-me fazer um trabalho digno. Sou eu ou estaremos sem ponta, mesmo havendo um natural no banco. Coitado, ele já não aguentava, a verdade é essa, e não havia muita escolha entre mim e os rapazinhos do meio, baixos e velozes.
Olho em volta, vejo o 10 a abrir pela minha direita para fazer o 1-2. Os meus passes podem ser retos mas não são assim tão precisos. A defesa deles está motivada pois sabem que conseguem ganhar a bola com uma pressão forte. O desafio está em conseguirem fazê-lo cedo que baste para não estoirar o que resta da energia logo numa jogada. Como previsto, o gajo pediu bola. Um central e o lateral descem contra nós em velocidade, mas se o meu passe sair na profundidade certa o meu colega chega lá antes dele. Não deixa de ser um passe arriscado. Ouço o meu trinco a arfar atrás de mim, criando linha pelas costas. Se o ala subir o mais aberto possível, eles conseguem fugir por ali. Nem sequer o estou a ver, mas seja o que Deus quiser. Recuei a bola de calcanhar sem olhar, qual Neymar do Alto da Guerra. O Pedrinho recebeu bem e mandou um jardão pela direita, bola bem jogadinha. Infelizmente o lateral deles percebeu o nosso esquema e foi-nos pressionar ainda estava eu a vangloriar-me do passe fabuloso que fiz. Karma, diriam alguns, mas eu não acredito nessas coisas. O defesa intercepta a bola e desvia com o peito para fora. Seria aqui que eu tomaria o meu fôlego e recuaria lentamente para a linha do meio campo. Lamentavelmente para os meus pulmões, hoje sou o avançado. Vi que o ala se preparava para um lançamento rápido e tive que correr pela vida até à entrada da área. Ele lançou a bola alta, apostando na minha altura, uma boa escolha. Dei-lhe um toque como quem desafia um compadre na sueca, levantando a cabeça e jogando ligeiramente para trás. É o segundo recuo que faço e só toquei duas vezes na bola.
O nosso defesa que devia ter recebido e devolvido, já com a vista toda cinzenta da estafa, atrapalhou-se e um miúdo da equipa deles foi-lhe lá roubar a bola. Saiu em velocidade pelo meio e ninguém nem uma falta conseguia meter. Eu teria conseguido. Mais, nem sequer teria perdido a bola. Quero dizer, fresco como estou agora. O cansaço extremo é o meu pior inimigo, e é por isso mesmo que só entro no fim do jogo. Suspeito que duvidava mais da decisão do treinador do que necessariamente da competência do meu colega. Nenhum desses pensamentos é útil agora. Não estou acostumado a ter tempo para pensar quando estamos na iminência de sofrer.
Um contra um, frente ao nosso grande redes, o miúdo mandou-a alta, fora e longe. Os defesas da equipa dele fizeram uma careta ao mesmo tempo, até eu senti-lhes o vento do suspiro. Faltam 15 minutos para acabar e ainda ninguém conseguiu meter uma que seja lá dentro. Isto não é comum na nossa divisão: ou estamos todos a ser estrelas, ou está a ser um jogo particularmente miserável. Pela cara do público, que está maioritariamente concentrado no bar, diria que é a segunda. O pai do Veiga está a ver o jogo da linha contrária aos técnicos, mas isso é só porque ele quer criar confusão com o árbitro. Hoje tem estado calmo, possivelmente porque ainda não sofremos golos. Tenho que ter cuidado com o fanatismo meio bêbado deste homem agora que estou cá à frente. Normalmente jogo no centro com o filho à defesa, e em casa não há partida que não seja maioritariamente este senhor ali ao nosso lado aos gritos com tudo que seja possível: chamar nomes à arbitragem, recomendações táticas, uns grunhidos que servem para nos motivar, chamar nomes às mães dos adversários, ralhar quando os nossos avançados falham golos, chamar nomes às mães dos árbitros... e se a bola cai-lhe perto, nunca se impede de dar uns toques, meio embananado, que acaba com o esférico no proverbial quinto do caralho. Eu até aprecio o senhor, deve ser o único que poderíamos considerar como claque. O resto fica ali nas mesas do café, à espera que o jogo acabe. Sei que faltam 10 minutos para o fim mais rapidamente pelo fumo da churrasqueira do que pelo relógio eletrónico.
Todos os jogadores em campo estão exaustos, o dia seco e quente é certamente o grande vencedor de hoje. Ouve-se o pai do Veiga a gritar uns impropérios lá do fundo, o barulho da estrada e os velhos a amanhar os sacos de carvão. O nosso redes demora a por a bola em jogo, dando a todos uma oportunidade de apanhar ar calmo. Vencer foi um par de segundos para descansar.
A verdadeira história do Euro 2008
Ao início era o Euro 2004, um filho meu (Deco) e do Ricardo Carvalho. A ideia era simples, responder à indústria carreirista e chupa-pilista com uma magazine verdadeira e sem qualquer tipo de influências externas, como dinheiro, fama, acesso, drogas ou qualquer outro tipo de subornos e patrocínios. Via-se que até na menor publicação com algum alcance um desses cancros se esgueirava inevitavelmente, criando barreiras de entrada que para nós eram escandalosas, principalmente quando falamos de uma forma de arte que se democratizou tão rapidamente com a ascensão e massificação do computador. Surge então o Euro 2004, como tantas outras, fruto de alguma inocência e ingenuidade da nossa parte. Não deixava de ser nobre por isso. O meu papel era de crítico, e o Ricardo Carvalho escolheu a trupe e fazia reportagens.
Antes de prosseguir, uma nota sobre nós. Conhecemo-nos à pala do João Moutinho há muitos anos atrás. Eles amigaram-se antes de os conhecer, em eventos de música. Nessa altura ainda estava muito longe desse meio, mas já escrevia. Fui crítico de videojogos, eventualmente jornalista, e forumeiro batidíssimo. Cultivei os meus gostos de forma insular, e cheguei a um ponto de convergência com o Ricardo Carvalho que nos fez clicar à primeira vista, tornamo-nos bons amigos imediatamente. Também eramos ambos estupidamente pobres, o que criava ali uma solidariedade implícita. Com o passar dos anos, ele com uma bagagem muito maior que a minha, fomos cultivando as nossas identidades à volta da cena musical. Eu preocupado com o agora, ele com a história. Personalidades e sensibilidades complementares mas bastante distintas debaixo duma lupa.
Naturalmente, aquele primeiro impulso criativo não tardou. Eu comecei a mexer mais com o PC, aprendendo os básicos da produção com uns fones de 15 paus e o computador da minha mãe ("da casa", dizia ela). O Ricardo Carvalho foi sempre muito investido em participar no que quer que seja, mas muito raramente (até hoje) embarcou no processo de criar. Pelo menos que eu saiba. À medida que dava os meus primeiros passos como criativo, ele abordou-me para arrancar com o Euro 2004. Nas suas origens, era pouco mais que uma página numa rede social que entretanto já está em vias de extinção. Fazíamos daquilo um depósito de links do Youtube com música obscura, recém-lançada ou não, no máximo a ocasional posta de pescada com uma opinião qualquer. Com os nossos chegados todos seguindo a página, vimos um pequeno crescimento pela primeira vez. O logotipo feito pelo meu bom amigo Quaresma aguentava-se na janelinha da foto de perfil, as nossas recomendações contaminavam os feeds dos nossos amigos.
Entra o site. O Ricardo Carvalho com o tempo foi recolhendo uma grupeta para nos ajudar a levar o Euro 2004 para o próximo passo, e investimos em algumas pessoas com vontade de escrever e também experiência. Embarcou também o primeiro (e quiçá o único) vilão desta história, o Pauleta. A ele competia ser meio que o gestor do site, encarregando-se inclusivamente da parte mais informática e dos custos do servidor. Relembro que eu e o Ricardo Carvalho éramos estupidamente pobres.
Agora, com uma cara bem oficial e toda uma equipa de jornalistas, críticos, fotógrafos e tudo que era preciso, a coisa cresceu e bem. Mas nem sempre crescer é bom. Tirando o eventual texto épico (em extensão) do Petit, a página focava-se cada vez mais em cobrir a "actualidade", especialmente a cena dos concertos do país. Notava-se também um certo viés para certos tipos de Rock em detrimento de... todos os outros géneros. Não liguei e não ligávamos, creio eu, mas isto levou-nos a um certo afastamento do projecto. As postagens crípticas de links no Facebook começaram a ser reprimidas por serem pouco "profissionais". Eventualmente os meus textos deixaram de ter protagonismo na página, ficando ali num cantinho de castigo junto das outras coisas mais interessantes. O Ricardo Carvalho já só cobria o pontual concerto a que mais ninguém ia. A nossa dessatisfação e perda de controlo começava a aumentar exponencialmente.
O clímax não tardou. O Ricardo Carvalho apresentou uma crítica a um disco de Kuduro (mainstream) que foi simplesmente rejeitada pelo Pauleta, que neste momento já se comportava como o grande manda-chuva do Euro 2004. Isto levou a um grande debate no balneário. Porque caralhos havia o site se tornado numa publicação de Stoner? A matriz original era o ecleticismo e a liberdade total das garras da "cena". E agora, ironicamente, eramos uma revista que cobria coisinhas populares dum nicho ao qual nem pertencíamos. E era tudo branco. Digo: o público, as bandas, o staff e a página. Eu nem gosto de incorrer muito neste tipo de observações, mas na altura ainda não era parte do pensamento colectivo a sensibilidade quanto a este tipo de questões (sobretudo em Portugal). E não deixa de ser verdade. Quando a crítica de Kuduro foi rejeitada, não me consegui conter e disse ao Pauleta que ele era um racista no armário. A ofensa foi tomada muito a sério e eu fui expulso do meu próprio projecto. O Ricardo Carvalho ainda se aguentou, mas percebeu que o Euro 2004 já não era o que tinha sido, certamente não era o que tínhamos imaginado.
Afastados do nosso primeiro bebé, agora crescido e uma grande desilusão, partimos para outra. Certo dia, o Ricardo Carvalho pergunta-me "bora fazer outra vez uma magazine? desta vez sem emplastros". E assim foi. Originalmente "Euro 2008 pela vingança", encurtou-se o nome e nasceu o Euro 2008. A equipa seria vencedora, tudo amigos próximos de ambos. Novo logotipo, feito também pelo Quaresma, com um ponto gigante no centro, o ponto que fugiu do Euro 2004. Planeámos uma revista em papel, com separadores feitos na altura pelo Simão Sabrosa. Mas éramos miseravelmente pobres, e coisas físicas custam dinheiro e muito grind. Eis que o Ricardo Carvalho decidiu transformar a revista numa editora de música. E eu compus a primeira edição, e a segunda a meias.
A filosofia manteve-se. Uma grupeta sem chefes e caciques, amigos, e editar música obscura e boa (espero). O meu papel desta vez foi reunir o grupo e efetivamente fazer os sons, nas primeiras edições. O Ricardo Carvalho faria de manager, fazendo uso das sua super-sociabilidade e personalidade carismática para abrir novas portas, fossem elas para concertos, promoção da editora ou recrutamento de novos artistas. As decisões paradigmáticas eram feitas em unanimidade, a comunicação era directa e num grupo desorganizado.
O primeiro obstáculo foi logo com um dos primeiros outsiders, o Paulo Ferreira. Depois de ter editado o 4º lançamento do Euro 2008, arrependeu-se por um motivo qualquer e pediu para o removermos de todo o lado: da numeração, da página, da "loja". Ameaçou-nos com advogados e tudo. Custou muito, principalmente ao Ricardo Carvalho, que tão cedo via a legitimidade do nosso projecto em causa por causa dum Paulo qualquer que não sabe cumprir compromissos. Acabamos por atender ao pedido e retroactivamente relançar a 4ª edição com outro jogador, o Cristiano Ronaldo. Muito melhor, também. Ficou o assunto tratado.
Depois deste pequeno incidente, o crescimento continuou. Vínhamos já com umas 8 ou 9 edições, uma melhor do que a outra. Os concertos para os artistas da editora cada vez mais frequentes. Mesclávamos lentamente com a "cena" da cidade. O Ricardo Carvalho era o ponto de contacto de todos com o resto do mundo, e não havia coisa que não lhe passasse pela vista. Talvez por isso o seu prato foi-se enchendo demasiado depressa, e rapidamente percebemos que tínhamos um gargalo aqui, o que limitava o potencial que cultivámos. Começam a surgir as primeiras sementes da discórdia.
Outro ponto de tensão era a continua fricção entre o Simão Sabrosa e o Ricardo Carvalho. Na altura justificada com "o Simão tem alguns traços erráticos", era comum estes dois colidirem fosse por que motivo fosse. Isto criava uma dinâmica complicada, cada bola um traço a cortava. Muitas vezes eram até argumentos compreensíveis de cada lado, mas pontualmente revelava-se que havia um qualquer toque de ego aqui, nos dois. Muito tempo depois soube, pelo Cristiano Ronaldo, que havia um contexto subconsciente relacionado, claro, com um esquisito triângulo amoroso. A vida, hilariante como sempre, desapareceu com esta senhora em menos de nada. Hoje um deseja-a longe e morta, o outro deixou de acreditar na monogamia. As sequelas não desapareceram, no entanto. Atribuo muitos dos problemas que sucederam e o escalar desta relação tensa no balneário a este subtexto manhoso.
Vi-me obrigado a tomar a posição do jogador que me era mais próximo. Primeiro porque partilhávamos uma certa ética de trabalho e uma qualquer visão do futuro do Euro 2008. Segundo, um dos principais nomes dentro da editora era o nosso trabalho em conjunto. Assim, tornei-me meio que um advogado do Simão Sabrosa, geminando numa espécie de dupla polícia bom e polícia mau. Fosse o Sabrosa demasiado impertinente, competia-me mitigar as dores dos dois lados. Não havia ainda uma clara divisão faccionária dentro da editora, mas esta não tardaria a revelar-se.
Entra o mister Felipão, aqui conhecido como Scolari. Vencedor e com um registo quase imaculado, apercebeu-se dos nossos afazeres cedo na vida da editora. É o seu trabalho e o seu talento, diria. Perceber o que é bom antes dos outros. Aproximou-se do colectivo primeiro através do Ricardo Carvalho. Ficou extremamente impressionado com alguns dos trabalhos que já tínhamos publicado. Reiterou a sua primeira impressão indo a um par de concertos que correram bem. De opinião feita, a sua jogada inicial foi ajudar a aumentar a escala dos espetáculos, abrindo-nos portas a casas maiores. Em seguida, ofereceu um meio-que-estágio ao Ricardo Carvalho. Note-se, estamos a falar dum treinador que provavelmente teve debaixo da sua asa uma série de estrelas nacionais, e indo mais longe, agenciando grandes referências internacionais. Uma oportunidade de ouro. Em retrospectiva, sinto que havia muito mais em comum entre ele e o Ricardo Carvalho do que eles achavam, mas a realidade é que eles não se deram assim tão bem. Talvez a falta de disciplina, talvez a falta de noção. Seja qual for a explicação, houve aqui uma pequena oportunidade que estava a escorrer-nos pelos dedos.
Mesmo assim, o Scolari deu-nos mais um prémio, talvez o maior até aqui: uma grande reportagem em jornal mui nobre e conhecido, talvez o maior do país. Não fizemos capa mas fomos o foco da edição. Nós, a nossa chapa (colectiva e individuais) e um extenso artigo que navegava pelas origens da editora, o nosso contexto e as nossas influências pessoais. Um momento impar na história do Euro 2008. No entanto, a sombra tornou-se cada vez mais óbvia depois deste feito. Na altura demos-lhe pouca importância (considerando a escala), mas olhando para trás não dá para negar que por esta altura já estavam estabelecidas duas claras equipas dentro do plantel. O Scolari da nossa, mas o Euro 2008 da outra.
Devo admitir aqui uma certa responsabilidade. Os meus problemas pessoais, especialmente com relacionamentos, tornaram-me menos disponível e algo distante do coração do projecto. Um lar complicado fez-me uma pessoa complicada no lar, uma história mais velha que o Novo Testamento. Baldei-me a momentos chave, dei prioridade a outros assuntos em detrimento da equipa. Não foi por mal, mas foi um erro que cometi várias vezes. Quando dei por mim, já era um suplente na própria equipa que criei. Acresce ao drama a rivalidade entre o Simão Sabrosa e o Ricardo Carvalho, por esta altura já absolutamente inevitável.
O ambiente era mau. Eu mais preocupado com a minha situação em casa, o Simão sabotando tudo sem ter consciência que o fazia, o Ricardo Carvalho enfiando-se no mundo da noite e das raves cada vez mais. Depois de uma sequência de encontros falhados, foi num festival/showcase com o nosso nome que o comboio descarrilou. Era suposto ser, para além da grande mostra a editora, a festa de lançamento do dito disco que viria a substituir a tal 4ª edição do Pauleta. Tudo correu mal. A toxicidade sentia-se no ar. O Ricardo Carvalho chegou bastante atrasado, o Simão Sabrosa estava piurso, os donos do espaço estavam insatisfeitos com a nossa desorganização. Eu até estava... okay, mas pouco investido em todo o desenlace. Uma série de más decisões de todas as partes, e o sucedido foi: no nosso concerto, o Sabrosa passou-se e teve uma completa quebra emocional a meio da primeira música por causa duma falha técnica qualquer (e eu feito urso continuei a tocar como se nada fosse). Fora isso, a noite atrasou-se tanto que o principal evento da festa, o lançamento do disco do CR7, foi encurtado para menos de 20 minutos. Ninguém saiu feliz. Nisto resultou que o Ronaldo nunca mais tocou ao vivo, e o ponto sem retorno estava cada vez mais próximo para nós.
Eventualmente fomos convidados (eu e o Simão) a fazer uma edição muito mais profissional por outra seleção. Ou melhor, era o que parecia na altura. Falou-se numa parceria entre estes novos editores (na verdade eram uns velhos) e o Euro 2008, mas rapidamente isto virou mais um ponto de desacordo. Escalou e escalou, sem contar com todos os filmes que já tinham corrido até aqui. Finalmente a corda rebentou.
Fui convidado para aquilo que mais parecia uma comunicação formal de divórcio. Aparentemente uma reunião "normal", fui arrastado sem o meu parceiro de banda para um face a face com o resto da editora. A parte que estava do "meu lado" já tinha basicamente desistido do Euro 2008, mas estavam lá na mesma. Sem qualquer tipo de cerimónias, o Ricardo Carvalho, sentado ao meu lado, virou-se de frente para mim e despediu-nos da selecção. A mim e ao Sabrosa. Tecnicamente não era algo aplicável a mim, sozinho, mas era óbvio o que isto queria dizer. Estava a ser novamente expulso do meu projecto. Ainda me tentei defender, dizer que não era advogado de pessoa alguma e tal, mas o bicho estava cá fora e não havia forma de o meter novamente para dentro. Competiu-me aceitar o desfecho e sair pela porta das traseiras.
Eles nunca tiveram coragem de resolver o seu drama. Encontraram-se algum tempo depois, um para um, mas já a merda estava consumada. Esse encontro pouco mais foi do que um raminho de paz do Ricardo Carvalho e do Simão Sabrosa um para o outro. Fico feliz por se tolerarem, mesmo que num véu de educação superficial. Não deixa de doer ter que largar mão da minha segunda criança.
Depois deste fatídico momento no centro de treinos da Alameda, o que sucedeu foi relativamente previsível. Por uns tempos a selecção andou sem rumo. A "minha" parte da equipa, que incluía o Scolari, afastou-se totalmente do Euro 2008. Eventualmente a editora ganhou rumo novamente, e encontraram uma mão cheia de talentos que deram nova vida à coisa. O Ricardo Carvalho começou a ver os frutos nas suas aventuras pela noite, e estabeleceu uma série de contactos importantes que ajudaram a pôr o Euro 2008 em bom porto. Hoje em dia são sem dúvidas uma das mais importantes do país, com todo o destaque que merecem, fruto principalmente da resiliência do Ricardo.
Eu desencantei-me lentamente com todo esse mundo. Pendurei as chuteiras, fiz-me invisível tanto quanto podia. Perdi a família, um par de gatos, a editora e vários amigos no processo. Agora tenho uma pequena mágoa que me impede apreciar plenamente as raízes da música. O que faço é para mim, desapareci do radar e dediquei-me antes às corridas.
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
ócio e ofício II
quantas vezes faz a cultura
do ócio virtude
fungando pelas tarefas para que te amanhes?
será profissão escrita e arte e sonhar
ou o ofício está em torna-las concretas
e comunicáveis?
dilemas para vós, claro,
só na fuga do que sou
encontro o que quero
só na fuga do que queres
encontras a minha estória
escrita entre pausas
e pautada pelo escape.
e retirado antes do almoço.
duque peralta discursa
tanto quanto formos verticais
um reflexo cortado, metade sonho metade vivinho.
armadura bem janota, sapatilha cascuda
veneno lento cobrindo a lâmina
sangue atrás dos olhos, nova vista
como bandeiras num parque de nações.
brilha para cima e para baixo
e para todo o lado, menos em frente
que golpeia na sombra e ilude o seu alvo.
pousou a espada e no discurso
desabotoou a túnica que lhe cobria o tronco
e falou com imagens hormonais, normais.
fiquei incrédulo e confuso
e fui pastar com o gado,
eu, uns malandros, vários pombos, um cãozinho
e a memória de um peralta.
intervenção exterior
as cinzas em partículas pousadas na mobília da minha sala
a vizinha de cima trancou-se cerrando portas e persianas
e eu vi-me aflito para fazer igual.
em baixo a idosa vociferando mais alto que a tv, um som que cobre a rua
junto com a manta de pó que ventilamos para fora da minha casa.
e os detritos fazem sombras intermitentes
acanhados e jogando-se aos cantos
atrás de telas e estátuas que colecionei até aqui, na cabeça dos santinhos
que guiam um qualquer tipo de leme do topo duma estante elevada.
que os afazeres aprontam-se só com o reflexo da lua
o requerimento tardou em deferir
assumi que fosse por entre o cá dentro e o lá fora
ser apenas breu e lances de escadas
e as aranhas que as guardam.