sábado, 2 de novembro de 2024

dia dos finados

uhhhhhh! uhhhhh! 
o fantasma do meio-século
assombra as arcadas da minha vila
ele troca o lenço, com várias cores,
tantas quantas consegues temer.

nos cemitérios desta aldeia
as almas penam por cima das covas
os mártires chocalham com violência as tumbas
os malditos rabiscam os anos à missa
os vendidos finados cosem as faixas
e os vampiros celebram a noite na capela.

partiram os espelhos, uhhhhhh!
perderam as chaves, ohhhh!
o portão está aberto, eeeeh!
que grande algazarra, ahhhh!
e os porquinhos fuçando, ihhhh! ihhhh!

epa, mas a terra não é nossa
dizem eles no ouija, com muito respeito
apareceram os donos, são quem as trabalha
e fomos apeados do nosso descanso.
logo hoje, no dia dos mortos?
não, já lá vão muitos anos
o luto se esquece e o tempo passando
para nós são eternos para vós são mandatos.

foi aí que entendi que o tumulto que ouvia
não eram os monstros e a companhia
mas sim diabretes de sangue pulsando
fugindo do raio de luz que nos guia
e agora montados colorem as vestes
conforme um sinal que vai caindo dos céus
o cavaleiro da fome aprendeu um segredo
e as almas famintas deambulam nas ruas
ainda antes do corte, vivinhos vivinhos.
a pé e a trote, são todos tão sérios
no medo do escuro e no medo do fim
que negam por cima do tranquilo jazigo
os ossos tremendo por baixo das botas.

uhhhhhh! 
a porta norte e a porta sul
estão apinhadas de malta!
uhhhhh e eles nem sabem que são os mesmos!

correu tudo pra trás dum carvalho bem velho
só não foi exilado porque gigantes não existem
vendo de cima ele piscou-me o olho
e continuei a fumar o cigarro à janela.

máquina de enrolar

o tabaco de enrola deixa um cheiro nos dedos
sacia bem menos e deixa um rasto que é tosco
parece que andei a chafurdar em bolachas
e espalhei as migalhas para cima do colo.

o cheiro do fumo alivia depressa
e seca-te a vista cá dentro um pouco
especialmente se formos mais do que um
por muito que isso não seja comum.

maquineta de ferro, fiel companheira
conheço-te as dobras e os fios do teu gráfico
não és a primeira nem a segunda
uma lição que devia tirar com certeza.

vivemos no lixo, dormimos no chão
troquei-te por outras que entretanto não estão
o teu tapete encardido não me repele o prazer
de contar contigo quando o camelo acaba.

que belo cabelo refletes à luz
assimétrico e baço, caleidoscópio o padrão
a tua curva ligeira agrada ao meu tato
e aprendi para que serve na televisão.

folha de amber, filtros magrinhos
o papel que o fecha, smk
são consoantes do fumo
e constantes da vida.

tchk - fechei
e saiu mais um
como sempre.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

chique / beleza escondida num vestido caro e fanfarrão, não esquecendo que se escapa dos genes e se apresenta em seda fina

ricas danças com armani com couro e loro piana,
pondero como cheiram os flatos no átrio
em caxemiras tão finas e as rendas de frança
reminiscente da pompa da carne sem forças
as ancas finas, juventude gasta
nos saquinhos ressequidos de velhotes
de boa casta.
admito, invejo.
quando espreitava entre as cortinas
como corriam essas narinas pelas colheres de prata
mulheres de exemplo, amplas, exóticas,
da beleza que escultores capturavam em estátuas
para mim um porno do tempo
que a vossa laia chamaria de sacro.
o poeta é um burro que sonha
com coisas pequenas, como pessoas
ou como as urtigas espetam
nos traseiros dos pobres.

o poder vocaliza a sua cantiga
em toda a alma vazia, castiça,
amiga, puro no desejo inocente 
o pecado. 
eu sinto-o, no vento e na espinha
e nos encontros à meia luz
atrás de portões cerrados e elétricos,
os motoristas chegando pelos raios do dia
apanhando uma mão cheia de bêbados
em fato e gravata e gente mui gira,
vedando os trapos da sua grupeta
aos sabores variados da alta cultura.

a voz de dentro não me deixa atuar.
a voz de dentro não me deixa ambição
senão a devoção profunda que vai fechando
os corrimãos que vão para baixo e para baixo,
onde as lâmpadas piscam em passos esbeltos
seguindo silhuetas do fundo do lago.

é uma contradição, estou ciente
chamem-lhe desafio ou o presente
cantem as musas de milão
o subtexto profundo da nossa sessão.

maresia, mármore rijo das vossas festas
exclusivas murmurando
as fontes as tochas o hino à alegria
embalado e absorto em pastilhas alquímicas.
raras fortunas de gente bué esperta...
fosse a vontade mais fraca
fosse a vontade mais forte
teria mais versos para contar.

coberta a mesa de cinzas e coisas
baratas e ofertas do supermercado
vivendo as cruzes da ribalta burguesa
numa tela em vidro e cristais da ciência.

as princesas da vossa
o caramulo da minha
considero as jogadas que faria
para ver as polacas em brilhantina
para ouvir o cognac em névoa trufada
para saber os segredos ocultos de proust
para dobrar estas costas
e vomitar num quintal
adornado de linhas e flores do sul.
a sul.

vou-me meter no partido
vou espetar-lhes a faca
nos patrões e mentores que me abrem as portas
entre palavras sensatas e doces e cheias
de lealdade corporativa pelos lobbies de hotéis.
ou então far-me-ei secreto e gostoso
com os cílios batendo nas vossas carteiras
e montarei um embuste, o crime perfeito.
cabeça bandida, a vista sensível
não decide se belos são os montes ou as serras
ou os contornos garridos imbuídos em luxo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

meias verdades

sangro do nariz
porque dancei no duro
e dei com a cara na parede

confissões II

mata-me antes de partires, saedades do verão dos nossos corpos. vacilo com tantas, vou largando as pistas escondidas no meu blog semi-anónimo (este), vou sonhando com outras. foi a ti que joguei as mãos na hora do aperto, minha vontade pulsando no teu sufoco. é uma ideia estúpida e datada, eu sei, mas é verdadeira. quem lê sabe que normalmente este é um dos meus temas favoritos. é mesmo. jaz na sombra um mentiroso do pior, que não sabe ser honesto nem que lhe custe a vida. cada história um ponto extra, cada trama um desfecho falso, não na essência mas sim na estrutura. eu creio genuinamente que a natureza da Verdade, a tal com v grande, é que o ponto transcende ao contexto. não é preciso ser um génio para saber dessas coisas, mas gostava de clarificar duma vez por todas. a essência sou eu e o mundo que apanho pelos fragmentos latejantes do meu olho cansado, vendo as cores todas que consegue ver, que chora e fecha com a luz forte. saedades, mudei-lhe a forma e as letras. és tu. será vã a forma como eu creio que isto está tudo desenhado? talvez, talvez. faz demasiado sentido e a intuição tem sido boa amiga, portanto vou confiando com desconfiança nas linhas que são desenhadas por esta folha em branco de plágio e trágico e claro, bebida, que é o vosso humilde autor.  se me vissem agora saberiam, com umas calças às bolinhas, manga-cava do tamanho dum obeso, pólo negro por cima, cobrindo a brancura que estimo, e um casaco verde do meu avô que uso todos os dias mas só em casa. gostaria de acreditar que sou uma ramificação do seu legado, meu estimado e competente ancestral. ambos amamos mulheres. ambos gostamos de pão. ambos tememos apenas a Deus. estavas armado, eu não, mas isso foi uma questão geracional. a minha mãe acha o mesmo, acho eu, mas ela não pensa muito nestas coisas. é inteligente mas não é prudente. entendo, seria igual na posição dela. mulher sofrida e com cara rija. nas poucas coisas que somos iguais, isso é uma. queremos ser fortes, não é? não somos. 

as estrelas brilham entre a persiana fechada de um apartamento algures no coração da verderena. é de onde vos escrevo. é de onde eu produzo, de onde eu vivo, de onde eu escondo os meus pecados. alguns chamarão a isto de culpa latente dum cristão de mentalidade escrava, eu chamo a isto pura realidade. achas-te tão acima? achas que isto que partilhamos não é trágico e submisso? servo é a cona da tua cota meu puto. claro que somos servos, mas não de palavras que a gente trouxe coxeando pelas ruelas estreitas da história moderna. desculpa o palavreado mas sou mesmo um boca suja de primeira, como a ponta dos meus dedos e as vozinhas que me tentam nesta casa escura. não é a culpa que rege, é a consciência. não a consigo desligar. ela é cruel e às vezes malvada, mais do que os rombos que por baixo da manta vão fazendo frente às consequências do que sou, ou tento. saedades, que tesão. saedades, que solidão. quem me conduz neste teclado? achas mesmo que é uma fraqueza, uma falha no desenho? serias burro, não o animal porque esse é belo, se achasses que sim. mas falas tanto de ti e da tua vida, dizes. é verdade, narciso existe em cada lago. olha como eu me olho. mas olha como tu olhas para como eu me olho. e olha para esta frase. faz sentido, ou não? é possível que não. a história dirá se faz sentido, Deus dirá se tinha razão. é provável que não, mas pronto, como vós, sou burro. o símbolo, o insulto e, gostava de acreditar, o animal. mas escondo-me atrás de penduricalhos. vão-me na cabeça e no pulso e no coração que bate, a custo, porque faço-lhe mal. tabaco e álcool, miséria auto-imposta. a minha ex-psicóloga e o chatgpt concordam que passo demasiado tempo ponderando e pouco tempo agindo. vão-se lixar, eu faço para caralho. eu jogo a pele em todas as jornas, contra a sorte e contra o vento. choro com os pombos, os meus primos plumados, rio com os velhos e dou-lhes sorrisos que levarão para casa e pensarão "ainda há jovens com a inocência da terra". é mais uma mentira que lhes conto mas eles não sabem, e no meu pecado dou-lhes uma paz que vai para a cova com os seus dentes postiços e as suas doenças terminais. eu amo-vos, senhores do café, esposa do miguel, filha de alguém. nós não somos em nada iguais e somos em tudo iguais. teríamos sido amigos em tempos.  talvez família. a minha é igual, sem semelhanças, mas somos ligados pelo laço do sangue na mesma. emerge a noção das vossas doenças e das virtudes. genético desígnio.

perco-me em considerações sobre pessoas que conheço há pouco, mas apraz-me ser parte de alguma coisa. um bairro, eu sei que não é o meu, mas por agora pertenço. conhecem-me pelo bagaço e pelo chapéu. viram-me os olhos poucas vezes, o que faz sentido. sou só um reflexo deles, para eles e por eles. tenho a cruz no peito escondida, primeiro porque a fé é muito mal interpretada, segundo porque não me compete pô-los no juízo. uma vez disse que eu era a fúria Dele. mais uma patetice desta cabeça coberta e sem experiência. só fui para ti, e fugiste. acho que fizeste bem. honestamente, quem poderia aguentar com as consequências turbulentas deste paciente aguardando diagnóstico num hospital onde nunca irá? durante esses seis anos interrompidos vivemos a vida como nunca, ao menos isso temos que admitir. o tritão bem podia ir destruindo as vontades e o resto desta casa, mas vivemos um amor intemporal. a sorte que eu tive, raios, só posso agradecer. quantas pessoas correm esta terra sem saber o sabor da paixão na fronteira entre Deus e a loucura? pecámos também. beija-me antes de partires na próxima volta.

acho que estão agora a entender muito do que se tecla neste canto escondido nos confins da internet, entre os desconhecidos e as tentativas falhadas de fazer parte de alguma coisa. se chegaste aqui é porque sabes quem sou. ou então o destino fez da suas, mas a primeira é mais provável. sorte a minha que letras agora são praticamente gratuitas. gastarei todas para contar a história duma pessoa vulgar, bruta, incompetente, ciente de si e do espaço, dando sermões a passarinhos que já viram isto e muito mais vezes sem conta. cada pena desenhada por milhões de ano, pelo medo do fim, pelo fogo dos céus, pela tristeza do verão, pelos céus chorando em meses frios. desculpem-me, leitores e aves do mundo, pelos ralhetes constantes e pelas observações inócuas duma pessoinha barata e canídea. o que compele é uma vontade de deixar presente que a vida não são só coroas e inteligências raras, sabedores da cultura, colecionadores e outras estirpes de especiais. há gente podre. há gente podre e triste e mentirosa e honesta, como eu. animais sem léxico, poetas sem rimas. gente da letra minúscula, servindo ao Senhor sem saber ao que vão. sou eu, são pessoas do mundo, são os passos que ficam na areia quando a gente anda na praia e vê as pegadas perdidas pelos caminhos escondidos onde ninguém vai. poucos confiam no acaso, mas pelo buraco da agulha, quem passa? experimenta mete-la debaixo de água. algumas gotinhas. escolhidas? duvido. especiais? claro que não. 

jogando à beiça a caneca, estampada pelo meu cunho, venha daí mais vinho branco e quente. outra confissão que certamente não surpreenderia um leitor. quem vos fala é um bêbado como o pai, como o avô, e provavelmente como todas as gerações anteriores. considero isso uma prova da minha casta, a que chamo de "baixa" neste blog. não porque são pobres ou escravos ou serventes de gentes grandes. só pessoas comuns, banais, existindo pelos séculos que desaguam aqui. claro que há nobres, padres infiéis à fé, filhos de violações dos senhores da história, bastardos, herdeiros das mentiras de mães sedentas. mas isso somos todos, desculpem-me pessoas de sangue azul. algures na linhagem espera uma infidelidade que circula nas veias e que te faz ceder aos apegos do sexo. agora que este foi banalizado parece fácil crer num antes e depois, mas a verdade é quase oposta. as regras rígidas fizeram que a tentação desse vida. o pecado é o nosso pai e mãe. agora, com as desculpas prontas e a vontade liberta, eis que o destino nos conta mais uma: não nascerá sucessor! eu acho isto muito engraçado. parte de nós nasceu nas traseiras de um estábulo pelos suores secretos e cheirando a cerveja barata. agora que vale, acabou. é hilariante. chamem-lhe o preço a pagar pela noção, a resposta errada à pergunta, o desfecho correcto, o que for. é uma anedota muito bem feita. o que podemos tirar daqui é: o nosso sangue impuro só responde às fronteiras da nossa capacidade. saberemos isto em mil anos melhor do que agora, mas deixo aqui por escrito. não quero ter razão, só quero que se saiba. 

agora pergunta o leitor: então, qual é o ponto? se o amor corre nas paredes da carne fraca, se a vontade falha, se o pio só existe no bico dum pombinho, de onde vêm estas emoções tão convictas? e eu respondo: saedades são todas, mas ela em si. saedades é a morte menos um.  foi e será a última gota do que aquilo que não sabes pede. saedades foste tu (não me atrevo a dizer o teu nome), a joana, a filipa, a tânia, a raquel, a menina na camioneta, a saldanha (que vergonha do meu próprio nome), a cátia, a beatriz, a maria, as ilustres em 2d, a rita, a rita, a outra rita, a outra filipa, a mayara, o engate duma noite. o poder da beleza, o vergar das costas fracas perante o belo feminino. saedades foste uma, mas ensinaste-me todas. beija-me antes de partires na próxima volta. mata-me se partires outra vez. os teus olhos esbugalhados num clímax a fingir que nos matamos é a imagem que resta duma pessoa fraca, da família perdida, de considerações vazias e de um apartamento escuro algures na verderena onde fomos um.

comédia e tragédia e as sombras da babilónia

nunca deixarei de ser surpreendido
pela falta de fé, pela falta de crença
como estas voltas são todas
tão únicas, tão bem desenhadas
à nossa imagem, à nossa vanidade
ao mesmo tempo rodando nos dados
do acaso do pó e supostos alienígenas
e coisinhas miúdas que não se entendem
e ninguém crê, raios, como?

hoje vi um filme
coisa comum, bem sei
mas foi uma comédia
e a cada dia que passa
aprendo um passinho, uma dobra
das voltas que as pulguinhas
vão dando para explicar
um texto mais velho que o azeite

o mundo existe
entre o orinoco flow
e as aventuras do sean
seguindo os truques de zardoz
percebes, leitor, ouvinte, amigo
que as raízes são as mesmas
assim como a forma
o compasso
as oitavas fugindo de beethoven
pelas mamas de malucas
de los angeles que foram usadas
com respeito, acho eu, para mais uma
historieta divertida e nietzschiana
sobre como Deus morreu, oh não
mas... 
a cruz, o que foi?
quem O matou?
bolas, li passagens do texto
e levei com spoilers

de bissau a milão né?
do café ao moinho, do tornado
à loucura, do vulcão aos peixinhos
o sopro segue
e a gente canta
e bebe e come
e fode (muito pertinente)
e quebramos as regras do jogo
cremos nós, gnus mugindo
pelos vales
cantou a tartaruga:
oh a humanidade!

sou um servo Dele e aprecio
obrigado pelas risadas e pelas lágrimas
e pela vida boa que levo
sentindo no pelo cada espinha
que escapa da dentada faminta
dum glutão como eu

8º na gago

o trânsito vai gaguejando
por baixo dos nossos pés
num dia de pouco trabalho
fazendo tempo com a malta
fugindo do chefe no cigarro
com os cabelos ao vento
com os compinchas de guerra
com gente grande e massuda.

foi daqui, crime numa cena,
quanto te fui buscar para o cinema
e tornaste-te na mão que destrancou
o rumo de centenas de poemas
ou quiçá dezenas, ou dúzias, 
números nunca foram o meu forte
mas contei contigo.

quiseram as sinuosas estradas
debaixo da redoma de vidro
que agora contemplasse de cima
o caminho que terias feito
se tivesses cumprido com o plano.

isto não é queixume, até é engraçada
a volta que os carros fazem
descendo a avenida, cruzando a ponte,
metem o pisca e seguem para o outro lado
aquele para onde foste, rumo ao aeroporto
pelo subsolo. 
observo-o fluindo, o homem da cigarrilha
que vai testando a sua sorte à minha esquerda
deve envelhecer mais comigo
do que tu. já lá vão mais de três anos
e entrámos no mesmo dia
eu a medo, ele não sei,
mais um bancário qualquer
que comia gelados e fazia pouco
como nós, mas menos sensível
à chuva e aos ventos da outra margem.
ele já foi, tu já foste, ficaram
4 marmanjos e uma miúda nova
que na altura não conhecia
e acho que é para ela
esta 301ª entrada n'affalencia.

dia a dia, letra a letra, o passado
desmanchado em linhas curtas
que servem de marcas na via
para navegarem esta história
duma pessoa banal e perdida
num terraço a meio gás
como tantos tantos outros 
que só daqui consigo ver.

amiga escondida atrás dos óculos
de sol, num dia nublado como este,
eu sei que cá estamos
mas não há sol contigo em vidro
atrás de vidro atrás de vidro.
observas quatro malandros
como eu vou vendo o trânsito lá em baixo.
entendo. radias uma força que me obriga
a reprimir a vontade. não é a toa
que os caminhos da rotunda
deram à volta entre tu e a outra.
que segredos esconde este percurso.

começou a chover, jogámos as beatas
no pilarete-cinzeiro. os carros
seguem passando
e faço planos de fugir.

amigo do dente azul

pára, cuidado, para antes que te façam a folha.
a alta patente fez-te tremer nos sonhos
os teus mestres fizeram-te comer pela calada
temer a matemática, o teu talento escondido.
talvez seja a última pessoa que se lembra
de como eras bom com cartas e contas.
deixo-te esta pequena homenagem
os compinchas do bugalho, 
a tua avó contou-te com apreço
como todas as pedras no terço,
e o rufia do teu cota partiu-te um dente,
filho da puta. 
tinhas um sorriso honesto na mesma.

havia muita mágoa e tragédia escondida
naquela turma. podiam ser umas bestas
mas foram cravadas em aço quente
e cintas de couro velando pelas nossas costas
como as unhas do diabo cravando na fruta
do pecado, pingando lágrimas que foram traumas
e que passávamos uns aos outros 
entre sorrisos deprimidos,
escola miserável.
somos rijos, sois rijos
e os que não foram dentro
ou não se conheceram no fundo do copo
vergam a mola com orgulho e família
espero
ou jogam nos prados infinitos da alegria.

uma leitura idiota daqueles tempos
é que havia brutos e minorcas
escondidos. não podia ser mais estúpido
como os professores, coitados, não
entendiam chavo de crianças. o luxo
um pedaço de plástico, os lápis mais baratos
da loja d'artes, o casaco do outlet,
umas barrinhas fininhas de haxixe.
não são desculpas, são reflexos
de como éramos miudagem da casta baixa
agora temos olhos na cara 
e a neblina na vista
e podemos fugir
dos buracos na calçada.
antes não.

lembras-te 
quando a inês roubou a caixa dos valores
sem a conseguir abrir
foi um filme, corremos o bairro todo
e ela acabou por devolver, muito envergonhada,
e nós chamando "cara de peixe!"
porque pecado maior era ela ser feia
que ladra?

lembras-te de como não havia
ódio na sueca
nem facadas de amor
nem drogas ou bebida
só violência natural
gozões e gunões
e alguns dando a parte fraca?

pára, ex-amigo, não sei o que é
feito de ti nem dos teus
mas desejo-te o melhor
mesmo que não tenhas sabido
ter tento na mão pesada.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

abancado no cenozoico

o banco do junot estava lascado e tosco
perdido num jardim na alma de monsanto.
achei a metáfora bonita, pus o meu melhor sorriso
e o ben sacou-me uma fotografia.

o que são inimigos 
quando a história não passa?
são os mesmos versos, em línguas distintas
no ferro frio, predadores à caça
senhores das sete quintas
ou colinas.
chamas-lhe quinas e eu devia
mas perdido nas esquinas atrevidas do teu legado
esqueci-me de quem fomos. 
esqueci-me do que somos.

saúda a pátria, marcha nas fileiras
contra os canhões e contra o pó que s'alevanta
mesmo que estejam do teu lado. 

eu não sou de cá nem de lá
tu também não, leitor.
és de ontem, do mesozoico,
os cordéis que te atam ao barro
foram liados por pássaros
com a chama no bico
e o sangue nas penas.
riscos não são heranças
muito menos que os passinhos duma alvéola
no campo a brincar com os irmãos.

és sobrinho dos grandes xás
és o grande soberano
és o filho dos carpinteiros
fugiste das minas de carvão
e da plantação de algodão.
foste castrado
foste preso ao chão que cultivas
foste mecenas e orador
em nome do Senhor.

quando marcharam em nome dum sonho lindo
foste tu contra outro tu
tu tu tu
e tu tu tu
fugiste e lutaste e cantaste e juraste
que a paz seria eterna só depois
de mais um turno na torre.
as tuas pombas serão arruadas
e nada será nem paz nem eterno.
nessa altura seremos fósseis
a carburar numa nave engenhosa
e invisível.
mas o sorriso num banco de pedra
será para sempre: 
nos dedos,
numa memória feliz 
com amigos de sangue
tu e eu e tu e tu. 
nós.

domingo, 27 de outubro de 2024

para a americana no banco alto do pub

cheguei com os meus pés fedorentos ao cúbico
que digo que é meu. a fumaça ainda não conseguiu
escapar deste degredo, nem eu.
puxemos outro, em boa medida.

chamava-se the couch, apesar de não ter sofás
nem assentos a gosto. lutámos para sentar
mas valeu, porque um bar de pessoas agarradas
ao desporto é mais do que uma maré daquilo
que a arte chama de arte, seja o que for
a arte.
amámo-nos num bar de jogo e dardos.

tenho compinchas, fiéis escudeiros das batalhas
contra e com a normaleza, milhares de anos
pingando contra o balcão. somos primos
e família nesta. jogo da vida, as apostas
contra uma placa que roda luzes. golos
contra as lágrimas que reprimes.

dancemos, americana,
o pó será o que resta.
as vossas festas nas coxas
são um consolo elástico da devoção
duma mulher racional. no mundo da vontade
fluímos como crianças, pombos que respondem
às esmolas de gentes melhores.
dançámos sim, para salvar a vida
daqueles que sentem a vida
na pele e na alma e naquilo
que faz a vida ser a vida e não uma conta
de merda e rotineira
mais uma peça na trama da grande
vontade que nunca foi a minha
nem a tua 
nem a nossa
nem a de um porco que estica o pescoço
na matança mas se lembra que foi
filho de Deus
como eu
e como nós
e dançámos por ele
e por nós.

somos crianças
como cavalos no pasto
sem fé, só vontade
de fugir das moscas.
pele grossa, coração que bate
contra a vontade das preces
que a gente seja
da vossa.
nunca
nunca nunca.

filha americana, salvas-me a vida
sendo devota do vosso amor
das ancas carnudas que tu
e o teu rapaz jogam contra bancos
de três pernas num bar de jogatinas
disfarçado de tuga no meio da avenida.
sei os teus passos e sabes os meus
e sabemos o preço do pecado
e da pele rija que a gente
guarda os dois no juízo
de sermos decentes.
fugimos e fizemos família
numa dobra sem resposta
nem retorno. os teus olhos azuis
e os meus, breu como os abutres
na hora da morte, 
a carne à mostra e eles salivando.
coração de plástico
sou teu vassalo
e serei plebeu
até o fundo do poço tornar o desejo
num parasita que consome
a vontade dos bons seres
que passeiam no prado
com nome e elegância.
amei-te por minutos
e fugiste por tempo igual
e fingimos que não
pelos meus irmãos
e pelo teu amor.
pele grossa, tento sensato
de pessoas adultas e
acima das frequências
que são as vidas
de pessoas elásticas.

sábado, 26 de outubro de 2024

a batalha moderna vista em canais do telegram

nas linhas da frente um coronel foge
para debaixo dumas silvas horrorosas
para se esconder do drone que o caça.
o resto do regimento já virou rega
para as sementes do ódio.
em silêncio, sustendo a respiração,
ele pensa nas suas vitórias, no que foi 
feito dos seus tempos de civil, 
os amigos idiotas trocando rodadas
entre si, pobrezinhos que não escapam
de silhuetas despidas e do contorno
da garrafa. foi inútil.
ouve as hélices cortando a folhagem
aproximando-se.
ele tinha namorada, amou
como conseguiu, não bastou
e depois partiu para feitos
honrosos, à espera de consolo
no átrio dos seus antepassados.
ele múrmura o último apelo
aos céus. sem resposta.
um grande silêncio
e anónimo se foi
no meio das silvas
tingidas de negro e vermelho.

o operador celebra a vitória
e risca o nome de outra pessoa
que pode ou não ser ele.

paciência, nem tudo foi ontem

os dias felizes são calmos, desavisados
e passam num instante. as coisas importantes
não acontecem em dias felizes.
podem ser loucos, frenéticos, que abalam
o mundo. terramotos, dias de guerra, uma cimeira,
o advento do profeta. podem ser mágicos, mas nunca
felizes. 

nos dias felizes os melros partem 
e as folhas caem nos jardins,
guardam-se os sapatos no armário
e deixas-te encostar no parapeito
a ver as pessoas passeando tranquilamente.

o fumo e o fogo ficam na ponta
do amanhã à espera que os tumultos
voltem. só amanhã,
porque hoje foi um dia feliz.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

para o pistão

pistão vais prensando as dobras nessa peça
e na próxima
próxima
próxima
próxima
ao infinito.

trocam-se as chapas mas continuas maquinando
com os vapores correndo, abrindo e fechando
os homens olhando, mexendo na placa
e carregando em botões coloridos e arcaicos
que não entendes,
só sabes prensar prensar prensar.

estamos na mesma equipa
a óleo e ferrugem. 




as luzes da verderena

anoitece, bebo um café numa esplanada vazia.
as luzes nas salinhas e nos quartos acendem:
brancas, alaranjadas, algumas roxas, outras piscando
com a tv ou o pc onde descansa a verderena
depois de mais um dia de trabalho, quinta-feira.
ouvem-se os pardais aconchegando-se nos seus ninhos
e o vidro das garrafas batendo meio cheias nas mesas
mas já não se sente o cheiro a bom comer escapando-se
das janelas escancaradas das cozinhas, a água correndo na pia,
só motociclos baratos correndo a via sem potência
com as suas malas amarelas ou verdes, a luz difusa
dos seus travões reflectida na calçada humedecida.
assim foi segunda, terça, quarta, hoje, talvez amanhã
verei alguns jovens passando em grupinhos, bem vestidos,
em terços ou quadras, provavelmente rapazes
às vezes de chapéu, às vezes encapuzados, tímidos
e em preto e branco contrastando com as suas coloridas
ambições de garotos. o meu desespero com eles.

nas portas dos cafés do outro lado da estrada
vejo velhotes tomando a última antes da ceia
já tombando para os lados e cortando o silêncio
do bairro com palavreado alto e incoerente
discutindo uns com os outros sobre temas
que ficarão submersos no grande vazio da memória
que a caixa puxa pelos tornozelos para o seu domínio.
fui buscar um bagaço, mas estou escondido
num canto escuro, vendo o tráfego e esperando
que neste café de mãezinhas retornem as pessoas
que ainda fazem jantares em família.

um morcego cisca as traças que dançam à volta
dum poste agora aceso e que me tirou das sombras,
pelo menos a olho nu. diz-se que eles são tão precisos
mas a forma como mergulham mostra que na cidade
são só amigos fazendo grandes saltos de fé e sobrevivendo
em números mais do que em perícia. pessoalmente
isso parece ainda mais fascinante, como devotos
aos seus instintos eles se arriscam no mar das gentes.

terminei o meu copo e o outro, talvez pegue um frango
a voltar para casa. talvez um vinho e arroz de cenoura
para acompanhar. o passeio informe aldraba o meu passo
torto e vou aos tropeções até casa, rezando que os meus 
desacatos à cidade não passem da minha postura.
acendi um cigarro para ocupar-me a mão direita
e ele aceso parece uma pequena bola de energia
ou uma alma ilustrada que pousada nos meus dedos
vai passeando pelas ruas comigo, vendo de baixo
aquilo que eu vejo de baixo também.

este caminho parece tão grande
visto de baixo 
com uma alma que caminha em segredo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

o meu passarinho azul

eu tinha um passarinho
azul e muito lindo
ele fazia par
com o outro dentro de mim.
esse mesmo que estão a pensar.

ele tinha um nome, vocabulário,
várias danças, uma música,
tocava o sino quando se sentia sozinho
e eu corria pra ir ter com ele
e ficávamos os três
ele no meu ombro
eu sentado no chão
o de dentro espreitando com orgulho.
uma família de quatro, humilde
e desajeitada, em quartos separados
mas ouvindo tudo que passava.

eles dormiam em paz
e eu ia mandando o fumo
pelas janelas para não magoar
os seus pulmões sensíveis.

nós éramos parecidos
filhos sem pai, encontrados ao acaso
o medo uma estupidez, falta de noção,
a mesma mãe: maestra deste lar.
os espelhos fascinavam com uma força magnética
talvez porque nenhum tinha a forma do outro
e os olhos buscavam o calor da semelhança 
que partilhávamos no espírito.
eu espreitava, ele voava contra ele
os dois submissos à reflexão
e o de dentro coçando
as cicatrizes. 

mas estávamos doentes
os quatro
e isso foi o fim
porque nenhum se entendia
de cama
eu com raiva
ela com desgosto
ele sozinho
o outro anémico.

e assim foi o fim.
se eu pudesse escolher
e sei que o de dentro diria o mesmo
se piasse como dantes
continuava enfermo
até as bombas caírem
e fazíamos a conta
todos do outro lado,
a deles mais fácil 
que a minha.

mas o tempo voa
e as sementes ficam
e todos se foram
e fiquei eu
e o passarinho que guardo em mim,
ambos em silêncio
um afogando o outro 
entre o choro e a bebida.