terça-feira, 10 de dezembro de 2024

tragam-me a marmita quando voltarem

parece-me que o calendário do advento vai ser 
magriiiinho de fome 
sequiiinho da neve
coi-ta-diiiiiii-nho!
são pedro, lamento imenso os imprevistos,
não me sei amanhar com o que tenho.
as barbaridades que deves ouvir deste fiel
e desaventurado amigo são muitas
marchando papas com leite cru
e a do cavalo cansado então
ufa
já deve estar morto de exausto.
será no que resta deste ano malvado
que tentaremos acertar contas
comes e bebes já foram
pelo menos em mesas festivas
vou levar um boneco, deve servir
faz menos merda que eu
e silêncio por igual
quando estamos taco a taco.

portanto das jantas devo marchar os restos
muito ecológico da minha parte
ou não?
a primeira fica para os compadres
a segunda é para me salvar o pêlo
eu vou a seco e não faço promessas
senão ao de cima
mas para assuntos banais
como este
e outros tantos
não invocaria tamanha responsabilidade.
divirtam-se a montes, pessoas que ficam
e abraços ao chefinho.

carruagem 17 lugar 89

tau, já fomos
partiu o comboio
invencível e derradeiro
do apeadeiro sem bagagens
frequente, cada vez mais
passageiros cada vez mais
amar-se-á no destino
depois da travessia 
dolorosa sem escolha
são vontades de cima
não a minha.

trim-trim
sai do trilho
maluco
ele não para
maluco
que estás a fazer?
nada maluco
só a ver
as locomotivas
do centro
é tudo tão 
simétrico.

partirão em breve
outros tantos
de barco, avião, carro
sozinhos ou em equipa
alguns fingidos
outros manchados 
com a cabeça roxa
e as mangas pingando.

gritos abafados
pelo pantógrafo
replicando imagens
conduzindo a vontade
elétrica 
de jovens a caminho.
muitos virão assim
entre risos
chovendo sapos
os músculos contraindo
com a faísca 
que pisa a linha.

a guerra começa
pela milimétrica bitola
se as linhas se tocam
não haverá regresso
doutra forma
tombam-se carruagens
e fica outro sonho lindo
nas margens da indústria.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

páginas gastas

a forma como destruíste o livro
tomando nota de cada suspiro
faz-me sussurrar uns versos ao parque
e tornaste o romance terreno
num índice bíblico de referências
prudente escolha, dona celine
essas letras carregam mil símbolos
contornos arabescos da poesia sagrada
e dobram o verbo nos simples rabiscos
que construímos sem falar 
onde fantasiam os vagabundos 
com casamentos que nunca virão.

emaranhaste a tinta com a vontade
contando os pontos por cada conto
cheios de paixão clemente
ficaram enumerados nas margens
os desfechos da candura
e o cheiro a eucalipto da estrada
nas pausas ficávamos calados
enquanto norte e sul rodavam
o artigo indefinido fazendo de eixo
entre estar aqui e na lua minguante
as notas dando figura e matéria
aos ilusos destinos que não mais serão.

as estações passam rangendo os dentes
até ao dia em que caiam todos
e ficarão as palavras nas folhas
esperando o regresso dos tempos áureos. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

repousa, marinheiro

bem marinheiro, onde foste atracar
no porto os estivadores cantam em coro
às poucas pescadoras de unhas rijas
com as canas dobradas em plena madrugada
eles já vêm com o fumo no beiço
as mangas arregaçadas até aos ombros
sujos da bota à barba com a graxa dos carros
e do lodo que se acumula nas margens
eles pisam e salpicam porque vão para casa
tomar um banho quente ao amanhecer
pegam um pescado fresco no mercado da lota
que as ditas trouxeram um pouco antes
quando se cansaram da música desses bêbados.

seguiste pelo caminho da beira-mar
fazer tempo com os pombos no parque
os guardas estavam sentados a tomar um lanche
os bandidos encostados a fechar a deles
enquanto as ondas arrebentavam nas pedras
nenhuma se mexia por muito estrondo que fizessem
apontaste o dedo ao horizonte 
mas ele não apontou de volta
tinhas razão em ficar chateado com isso
pousaste o chapéu no banco e deitaste-te nele
como sabe bem ter a almofada pronta.

umas crianças aproveitaram a paciência dos pais
foram para o parque andar de baloiço
equilibram-se bem por muito fina que seja a corda
por muito gasta que esteja a tábua onde se sentam
já não são pneus, é um casco duma árvore
que foi cortada para fazer uma estátua de cobre
que baptiza o parque e aponta para o horizonte como tu
e o horizonte não responde também a ela.

há marmanjos em sapatos de couro virando a esquina
com a pressa que um marinheiro desconhece 
o asfalto não se mexe nem vira, não há furos nem fugas
bigodes tesos e convictos que cada passo vai ter força
desviam-se das velhas que vão buscar o comer
podiam ser as mães ou as avós desses fulanos
não se olham nos olhos, só gritam às vezes
quando os corpos se tocam em choque
porque nenhum está muito tentado a dar a outra parte.

o piratinha anda escondido a preparar o próximo embuste
sem espada nem pala ou bengala nem nada, mal sabe nadar
o globo vai girando e ele com o seu mapa quadrado
marcando cruzes no chão, os tesouros doutros séculos
furtando as malas dos operários que descansam ao domingo
para justificar o seu complicado plano de glória
desenterrar o baú prometido e jogar-se na cova que abriu
fazendo caretas aos cães vadios que melhor navegam a costa
e perseguindo o marinheiro, o inimigo assumido
um dia há de lhe puxar os suspensórios pelas costas
o seu grande saque feito em terra.

topas a ofélia, o bebé querido duma pessoa qualquer
ela vai acenando aos homens que passam devagar
enquanto lê as cartas no banco que está ao lado
faz um monte, não sabes a ordem ou se tem alguma
depois o vento encarrega-se de soprar com ela
e voam todas pela relva e pelas pedras e para a água
a última parou-te no colo, o derradeiro suspiro de alguém
fazes que não fazes caso disso porque estavas deitado
uma mentira feiosa que dizes a ti mesmo, marinheiro,
porque em breve voltarás à embarcação que cá te trouxe
e serás novamente um filho do mar no meio do mundo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

para uma despedida amistosa

é fácil dizer adeus quando já o dizes vezes antes de partir
contando com os fugazes caprichos de dias vindouros
ora passa um vento destilado que espalha pinhas no natal
ora varrem-se as folhas na tempestade, arreando o ódio
em movimentos bruscos que refletem o espírito fraco
buscando castigos e querenças de justiça que não chega.
dizes adeus, é fácil partir
e os dedos finos e pálidos riscam-te o cabedal dado
e os sapatos encarnados estalam na pedra respondendo
aos solavancos, um após o outro, contigo e depois ao longe
e as horas amistosas passam num pulso fino 
já sabendo o toque graduado da chama que se apaga
quando dizes adeus.

há algo no brilho que reside nessas órbitas
puras pérolas que desmentem o verbo
e faltam-me as palavras
senão a despedida e o compromisso.

é verdade que penamos debaixo dos pinheiros
adornamo-los com cores e formas e fios
algumas são um rosto brando
outras são estrelas piscando
saberias dizer-lhe os contornos
pois saberia, com a mão no queixo ponderando
bolas como se assemelha à minha irmã
lanças umas palavras baratas a pendurar nos ramos
que vão ficar nesta feira apagada que já fechou
sem dares por ela quando entra
com a vista mentindo aos ossos.
dispões lembranças que já não guardas,
ficam estanques com as visitas.

nada pode impedir a santidade festiva que ajunta as almas mansas
elas cruzam-se uma vez depois da hora, tentadas e inibidas
e não há ruim vazão para resolver esta querela
baixas a cabeça, sorris com os olhos, desejas boas festas
e mandas um adeus barato que pode ser
até já
até logo
até sempre.

trânsito cerrado no regresso

lisboa rola com umas greves e tanto espelho
batendo os faróis nas janelas de passageiros
e todos procuram algo, 
alguns porque podem
outros sem escolha
todos perscrutam a estrada
como se a fortuna fosse baixar o vidro
apresentando-se com os olhos negros
a assentir que sim, acertaste
é nesta via que jaz o que buscas.
posso soletrar:
n u n c a 
v a i
a c o n t e c e r
neste trecho cedes passagem.

a cidade parada igual a si
perante os que não confiam no percurso
nos espelhos as miradas suspeitas
vão-se desviando dos olhares que cruzam
como se houvesse razão em temer
a passada suspensa do trânsito
que arranca como uma paixão vazia
e para como o desejo exausto
e arranca novamente para descansar em casa.
quem censura esta condução defensiva?

diário do barreiro II / confissões III

fui mijar com o cigarro no canto da boca
porque tinha uma reunião em cinco minutos
e eu demoro três ou quatro para fumar
bati as cinzas no autoclismo
lavei as mãos e sequei-as na toalha de banho
inclinando-me para não deixar uma queimadela
como as que já tenho na cadeira do escritório.

hoje amanheci antes do sol feliz
por algum motivo isso me dá uma pesada
vontade de chorar. 
eu não tenho saudades de nada
nem ambição que pareça inalcançável
acordei com a skinny love na cabeça
como se tivesse 18 anos outra vez
e isso não é nostalgia
só mesmo uma paz enorme.

meti-me na passadeira por uns minutos
acho que ainda fiz kilometro e meio em corrida
umas flexões de joelhos, que embaraçoso,
agachamentos e abdominais que pensava que tinha desistido
mas afinal às vezes tens uma ajuda
quando sonhas com algo que não te lembras.
bebi um copo de leite quente, a vitamina
e uns três cafés em uma hora
que vasta coleção de canecas
ficaram quatro na secretária, uma suja de roxo
aproveitei e levei para a cozinha 
sabe bem ver a mesa limpa.

já se ergueu um céu limpo sem nuvens
os pombos passaram pela minha janela
bom-dia disse eu em português
e fumei outro cigarro.

o trabalho é bom, o que importa se é inútil
as moedinhas também, o que importa se são inúteis
e a vida neste buraco também
e os filmes que estas paredes já ouviram também.

as pessoas na paragem não sabem que estou aqui
a vê-las enquanto choramingo por estar bem.

nem todas as confissões são textos
e nem todas as confissões são decadentes
nem infelizes.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

considerações sobre viena

metternich falhou e isso poderá querer dizer
que ele não era necessariamente contra os ideais
da revolução.
o mesmo se pode dizer do papel da fé
e das organizações que a preserva.
numa primeira leitura isto quiçá surja
como algo absurdo
entendo, entendo
mas a mão de todos é conduzida
de acordo com a vontade maior
e por muito que tenhamos perdido
a carreta na hora fácil
não quer isso dizer
que o caminho não se tenha trilhado
só mais vagaroso
talvez porque precisamos
talvez porque merecemos.
a paz é nobre
libertos seremos do outro lado
portanto faz sentido que isto tenha corrido
conforme aquilo que ninguém planeou. 

tudo a seu tempo
se fosse possível e simples
o imperador teria ganho.
foi quase quase.

rapaz-estrela

talvez te esteja a por num estado fatela
ya, capaz
biblioteca refundida mais limpa do que esses sapatos vaidosos
ya, é certo
com pausas baratas tiradas dos caixotes
sentado no chão com cães e sem-abrigos
cheiro mais elite depois de correr atrás duma velhota
que deixou cair a carteira e não ouviu
pois, ya
calças furadas mais velhas do que tu
e meias furadas mais velhas do que tu
e uma cruz pequena ao peito do tamanho do teu mano
confere
caridade ganhando ao portfolio mais activo
no principal e no retorno
e ele devolve e devolve e devolve
meu Deus, ya
não me devia gabar mas
fã número um bate o registo por dez
fã número dois nem sabe o meu nome
e mesmo assim bate por mais dez
ya
quantos pontos no baixo gabarito
por assumir que é assim 
e jogaste as regrinhas e ficaste no pó
donde partimos todos mas não assumes.

não sou uma puta duma estrela mano
não sou
e quem mais?
tu, óbvio
convem saber reconhecer
quando as dores do crescer
acontecem depois dos cabelos brancos.
não há estrelas mano.

falas jogo e fazer força para ser grande
e elas estão-se a cagar
que patinada miserável 
ya? é certo
falhados vencedores são poucos
o que me enche com um orgulho
tóxico que é okay, eu reconheço
que sou um merdas
e isso faz a diferença
ya
faz mesmo, que eu vou ao copo sem medo
nem choro
quem chora não mama
vais rodar pela beirada
sem bater os olhos nas luzes do rio
brrr que frio nessas petas vazias
já vais todo mamado ainda nem tocaste na chicha
é triste, dizia o odivelense
e ele não é nenhuma estrela mano
não vês a sombra e isso assombra
o espírito fraco que se faz sem sentido
e há quem seja crescido e entenda
e viva por si sem a mão tirana
ya, assim é
isso nota-se a milhas porque pisas
o chão tremendo
e jogas a cabeça na almofada a medo
eu peço desculpas com coragem
ando torto a olhar pro chão 
cheio de fé no ferro
e isso nota-se mano
ya, nota-se mesmo
tiram-me o gorro eu dou o casaco
e fito com desafio
pronto pro abraço ou pro combate
é escolha dele
só respondo às jogadas
que O de cima põe na mesa.

vamos derretendo a guita no bagaço
tu vais poupando e metendo-a toda em plástico
e no fim vale tudo menos
do que uma letra num poema
do que uma nota numa música
do que um passo no palco
do que um carinho na sombra.
é a bênção, talvez seja de família
não me admirava que estes genes
fossem uma fortuna amaldiçoada
não me privo do amor
ele de mim às vezes
e sempre que assim for
vai haver poeta e vai haver registo
para deixar aos seguintes
mapa que os salve
pelas sombras do presente
e tu não dás nada
e não recebes troco
ya, é mesmo triste né?
do que não posso falar 
é que não conheço a sede
do toque na pele rija
do desejo incontrolável
de jogar a vida pelo buraco
por um traste nojento
rasgado e cansado traste nojento
que amanhã desaparece com o sol
porque a norma s'alevanta com o dia
mas quando a verdade sai dos poros
em suores alcoolizados por certo honestos
é aqui
é uma cara na mesa revirando os olhos
lamento ya
assim será até ao fim
e eu conheço todos os planos
desta cena
e digo que mais vale aceitar e pedir ajuda
ser humilde 
ser da fé
é mais punk do que achas.

não sou uma puta duma estrela 
não sou
e quem mais?
todos mano
acorda.

domingo de corrida

quem visita o apartamento 
donde vos conto as minhas manhas
conhece-me bem, bem por dentro
como se arrumam as ideias
nesta cabeça chapeleira.
os adornos passeiam comigo
por trás da cortina nunca vale o esforço
é fútil, enganas-te a ti mesmo.
móveis postos contra os cantos
o espaço amplo e iluminado
permite examinar a sujeira
com muito mais precisão.
é completamente necessário
que o podre seja óbvio
e a nostalgia malvada
fique trancada fora da memória.

bem-vindos compadres
comadres, senhor das entregas
o meu sofá é maior que a minha cama
e está em melhor estado
porque é menos frequentado.
é o que é, portanto sentem-se
à vontade, vou buscar o banco de madeira
que trouxe de mem martins
para fazer de mesinha 
assim podem pousar o copo de vinho
o de café e o balázio de um litro d'água
e apanha o cinzeiro branco
que eu reservo para visitas
está mais limpo que o verde
aliás esse já nem faz sentido
porque é a única coisa verde nesta casa.

comemos um frango no forno?
tenho kilos e kilos, partido em pecinhas
no congelador como se fosse um sanguinário assassino
e confesso que é como me sinto
quando jogo aquelas peças enormes na tábua
e me ponho a fatiá-las para pôr em sacos
individuais, 300 gramas por porção.
bem, talvez seja melhor mandar vir uma pizza
não quero perder tempo com preparos
quando há tanto para contar sobre a semana
de trabalho e senhoras e dos enredos emblemáticos
de pessoas que vivem à margem.
deixem-me só adequar a música
porque isto não é um filme 
mas aqui é onde dirijo as narrativas
que por sorte Deus me conta
com clareza e sensibilidade
estética, filosófica e também cómica
melhores anedotas, palhaços mais engraçados
vocês já o sabem de cor.

4 queijos, é a melhor
eles não são italianos mas são brasileiros
o que é altamente relevante aqui
a massa é fina mas o sabor intenso.
partimo-la em 6
que são vocês
e o que sobrar das entradas
fica para a alta hora 
de onde emergem os bons recuerdos
que calham aqui no blog
quando os dedos se esquecem
quem é que manda neles.
é boa não é?

o fumo fica denso
a vista turva e lacrimeja
vou escancarar a porta
com confiança porque sei quem sois
e o reverso ainda mais.
tudo se pode no cúbico
os temas proibidos, os tabus que nos prendem
o ócio que a rotina cria
no mundo girando em patacas
mas quando estamos cá todos
nunca se falam dessas coisas baratas
assim aprendemos o que realmente nos motiva
podemos rir muito com isso
campónios do subúrbio.

daqui a pouco começa a corrida
e vamos assistir sem pressas.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

de cultos a bares

é... sexo
o objecto do desejo burguês
e as promessas do sonho da comuna
das cordas que puxam os bonecos
pelos sentidos que exumam razões
o venerado e húmido animal:
sexo.

que banhada essa índole rotinada
encostas-te à bancada no bar da esquina
pões os ouvidos nos rapazes da estiva
e eles trabalham e discutem estatísticas
com mais competência que economistas
sobre jogos comprados, a máfia das marcas
passa uma mulher e a conversa suspende
e falam de fodas, de grandes conquistas
dos tempos não castos que nunca existiram
com sorte metade terá uma esposa
que faça de escape para estes delitos.

pois, tudo certo, okay
eles mal têm escolha
nos contentores ferrugentos escapa a vital
energia terrena que murcha tão rápido
naturalmente tenderão aos prazeres profanos
e às mocas orgásticas que emergem do fundo
portanto aceito como humildes se estendem
em jogo e fumaça e sonhos molhados.

virados dois copos até eu me perdi
nos olhos profundos duma princesa sem trono
e ri-me da ironia do juízo que passo
que circula ao lado do meu próprio vão ser.
joguei-me nos livros, cultura e arte
os segredos de hermes e as castas mais raras
fugindo do óbvio procurando respostas
como o tom passeando em noctívagas ruelas.

o rendez-vous está no mato longe da vista
e aqui coalescem poderes que fito
dos senhores que moldam as régias tempéries
doutores da sina comandando a espécie
pelo véu da neblina num retiro de férias.
visto a máscara e entro
a desgraça apresenta-se:
são casais domados pela força do hábito
velhos e gastos em ócio e stress 
recitam poemas num latim impecável
crendo com fé que sim, é este o caminho
coleando a vaidade em símbolos crípticos.
amigos, leitores... como dizer?
eles apenas, apenas apenas
e reitero, apenas mesmo
mascaram calores em cenotáfios tesudos
e invejam as curvas em seda das damas
desculpam-se na sóbria vontade da carne
como se fosse místico perder a prudência
se nada a afecta senão o pulsar da vida.
absolutamente plebeus
repulsivos 
simplórios em caxemira.
o bar dos barbudos babando as bancadas
ao menos obreia com honestidade assumida.

estranho fascínio com o percurso
enquanto a consequência expira
em gráficos decrescentes
por todo o mundo.
pensando assim, pondero
talvez conter-me no desejo idiota
e perguntar a uma das musas
que ilustram a milenar poesia 
o que pensam desta triste conclusão.

que raio te vai pela cabeça quando sentes
o homem dormir na consciência e que cede
ao poderoso chamado de se achar desejado?
esta pergunta favorece-me duas vezes
quase como se eu tivesse chegado à conclusão
nessa inquieta observação desesperada
e uma ganho um respeito mui nobre
e duas que alguém finalmente a oiça.

quando sobes uma montanha de acesso vedado
e observas uma cena implausível e restrita
os vapores da gana se fundem no espírito
ancestrais alinhados com o corrupto fascínio
e esse poder que transcende a classe
reverbera nas rochas e em tudo que toca
quem não sabe não pensa porque é sentido por todas
aquelas com dedos para manusear esses trastes.
sabe bem ser terreno, é o delito do agora
que permuta os valores e prolifera a espécie.
moral?
claro que sim, considera o que dizes
dizes algo, não dizes?
aí tens, a maior prova que sim.
compete-te domar o vazio nos ouvidos
e iremos dobrá-lo para que exista um futuro
o prazer é ver-te como Deus cá te pôs
submisso às causas que do ofício se escapam.

e eu digo
que para mim é igual
e suspeito que começo a perceber
és frágil e eu também.
bolas é tão simples
e incompreensível na hora.

domingo, 1 de dezembro de 2024

memórias em pedra oscilam com a chama ténue

nem nome nem sítio nem nada
fica o vazio da consciência encharcada
e já não é nada mau, digo-te sem fretes
certo como os horários na estação
quando não há greves nem tumultos
como foi nesta semana maldita.

o que é o doce das altas jornadas
senão lembranças que congelam no agora
revelando-se tímidas no pátio de estátuas
as fracas memórias aos flashes no escuro
as caras em pedra franzindo ou sorrindo
e as borboletas pousando em lábios dormentes.

cumprida a palavra que inverte ao espelho
sacrifícios sensatos em termos concretos
dói sim, bem sei, é o fardo da cura
de encontrar o rumo pelos estreitos insensatos
é necessário deixar que o obreiro opere
do seu cunho emerge o que a cada compete.

benditos vapores do musgo das rochas
a sua essência refresca o olfato domado
crava a vista em detalhes macios com virtude,
os calores aprazem mais perto da fonte
no matrimónio perfeito do ser com a estética.

flash
bate os olhos nas horas
as tochas piscaram
e a visita acabou.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

para o guecas

a yamaha do gueli azul e branca
tem a idade da kiki, provavelmente
o menor cão que já vi.
ele fala sozinho porque já estourou a mioleira
com compadres que esticavam a linha
em pares e triplas e misturas excessivas
quando a música parou e viu-se órfão
o brilho da consciência pediu um descanso
que durou até agora, já lá vão vinte anos.

a mota quando passa vem pela calada
tem poucos cilindros, está gasta
porque antes de trabalhar na fábrica
ele foi estafeta, um presságio da geração
freeter que espreitava das esquinas de mumbai.
o verdadeiro taxista do cinema
levando bocados quentes de prazer
dos fornos a lenha sujos
ou o melhor pão da cidade
na chuva, nos dias de geada
cruzando os ciprestes sem saber
o vagar da companhia na praça do brasil.
descansava na boca com um fininho
as caras doutros tempos às vezes ajudam
mas não deixam de estar longe
e foi assim que o conheci.

hoje trabalha numa fábrica de lentes
vê-se sozinho na esteira, por sorte
e quando voltou para gastar o almoço
vinha com raiva da senhora
responsável pela segurança na linha de montagem.
suspeito que sei a causa
porque os dias felizes com o irmão
a ver a neve na colina
já se foram
resta a yamaha azul e branca
os olhos vidrados na estrada
os dentes consumidos pelo fumo
e o silêncio.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

fonte da juventude

tomo o meu lugar
e um copo brilhante abana entre nós
em segredo outros tantos, aqueles que me sentam
aqui com quem sejas à minha frente.
eu sou um homem de lugares e quem lida comigo
sabe bem a que me refiro. talvez não.

o trânsito passa, o vocábulo escorre
para cima da mesa, pelos dedos pousados no colo
pingando pelo canto, paciente até cair
nas calças de ganga gastas que militantes do bairro
desdobram e usam e dobram e guardam e desdobram
e vestem nas visitas às ruas mal iluminadas do beira tejo
ou nas margens doutro rio que nos acolha.
assim vão-se apresentando os anos que passam
e as faces que se gastam mais depressa que elas.

somos jovens, não há casa neste beco
que não nos tenha visto pequenos de mãos dadas
com a gente grande que nos fez a folha.
chamas de cronos ao passar da brisa
que fez a barba espessa
eu nunca acreditei nessas supersticiosas
formas de ver fenómenos.
o tempo anda connosco e o subsolo
continua cheio de ratos em silêncio
com as suas famílias, os avôs de poucos meses
respeitam a norma sem medidas que os aflijam.

vê aquele sinal de proibido
ele não obriga a nada
mas riscamos-lhe uma cruz
porque obrigamos nós a ele
que respeitasse a nossa adolescência.
agora que foi outono por dez vezes
ponderamos pedidos de clemência 
de justiça ou paciência, a responsabilidade chamando
pela janela da vossa casa.
continuo a ver um sinal entre as estrelas
um extraterrestre desejo de conhecer as feições do infinito
ontem foi agora
e há dez anos também
e quando nasci já cabia nos meus ossos
os socos que demos aos reguilas
que rangiam os dentes na escola
porque não tinham sapatos capazes.
rapazes sem tento
foi tudo agora
quando piscas os olhos
continua a ser presente.

trago um casio prateado que bate convosco
e ele não se gasta e nem eu
os riscos que leva no visor são medalhas
de honra da guerra. mas ele bate
e vocês são puxados
cada vez mais depressa
para os bueiros entupidos de folhas
e do lixo que a rotina gera.
estou aqui ainda
agora mesmo
vestido por noventa anos
por outros tantos manos
pelo reino do largo dos cães
as durezas enrijaram a mira
e ela áspera aponta no vosso peito
que vai cedendo à mentira que o tempo passa
e o pó se ajunta.

não entendo
vou para o espaço
serei colono na lua
sem peso que comporte
esse túmulo a que chamam face.

a vida é linda
quando o mundo gira
e a gente fica
romanos, cavernocas
batendo com paus
fazendo fumaça
rumo às estrelas
e se ficarem por terra
lamento
lamento mesmo
perderam o compasso da batuta
e como no retrato que envelhece
as barbas brancas fizeram da alma
um jazigo pútrido e infeliz.
quem sofre com a cruz nos olhos
não está proibido a nada
e vive para sempre.

a névoa paira nos banquinhos da costa
e o fumo dos cigarros esvoaça com o fôlego
do povo que ruma daqui em frente, pela avenida sem termo
sentados em calçadas de pedra trocando palavras vulgares
o trautear cinético sintetiza desejos de permanência
e eu pisquei os olhos e tudo foi agora em toda a parte.


a terra gira como humanos na cama

confirma-se, os dias encurtam neste canto
e no breu o fogo arde no céu longe
é o castigo dos que partiram
e levam a tocha para o outro lado.

fitando as estrelas dependurado na janela
vemos a colcha negra se alargando no horizonte
como piolhos numa cabeça coberta num véu grosso
tudo se mexe e nada te explica como.

cobrindo a vista
eclipsando a chama ténue
os vultos do dia
dançam livres de formas.

sombras roxas e douradas
derrubam castelos
determinam castigos
fazendo caminho pela terra virgem
daquilo que não se atreve a aclarar.

é o papel do outro lado
pois quando fechas os olhos
permanece tudo cá 
e confias plenamente nisso.
assim anoitece duas vezes
assim sofres tantas mais
fazes a rota do poço
e tornas ao ponto de partida.