terça-feira, 8 de outubro de 2024

almoço em alhos vedros

viemos de longe, fomos aos pássaros
na costa. vimos colhereiros, garças
flamingos, patos, gaivotas, piscos,
gralhas, um perna-verde e pernas-vermelhas
mais uma rola e um pardalito a voltar
e muita gente pobre na apanha
do berbigão, da navalha e de corruptos
como se diz na minha suposta terra.
aberto o apetite, bateu uma fomeca
de marisco, evidente, e fomos mais pra junto
da cidade, ou aldeia ou o que seja.
um raposão de fama ampla, vistoso nas redes
e sujeito d'honra com uma mão cheia de menções.
das redes o mais bem cotado.
entrámos em trio, vimos uma casa meio cheia
domingo em pleno almoço. já salivando
do bacalhau à minhota que escolhi antes de entrar
se lixe o marisco
fomos interrompidos pela anfitriã, 
que desconversou e fez-nos crer que uma mesa
abriria só daqui para uma hora.
fomos pela rua abaixo à procura do comer
e uma casa pequena, sala única, letreiro escrito à mão
chamou a atenção com um vistoso cartaz
LEITÃO DO DIA 
e lá fomos, a leitão e choquinhos à algarvia.
uma delícia
no fim uma gorjeta dos donos, um bagaço verde-absinto
diziam eles afrodisíaco. ora realmente
fodi o bolor da parede da cozinha
com a energia que trouxe da marmita.



segunda-feira, 7 de outubro de 2024

grato catarro

escarrei de dentro da vontade
e saiu um musgo negro intenso
que me cobria a laringe e a traqueia
e tudo que era parte dos meus
interiores recobros
que guardam fumaça grossa
e o vocábulo proibido do espírito.

cuspi para o abismo
escutei agarrado com medo aos cantos
não ouvi nem splash nem pim nem sinal do fim.

voltei costas, inspirei fundo
o ar da liberdade destapou-me a vista
as cores voltaram, os músculos descontraíram
e começaram a doer como nunca,
cheira a podre e a corpo sem vida. 
à pressa, três dos mercantes do passado,
enredados nas teias da cave,
fizeram suplícios aos demónios
e fizeram suplícios ao que foi
das eras malvadas, dos tempos sem ar,
mas não três vezes conseguem bater
à porta, e eu persisti e fiquei estanque no meu passo.

russos em letras e de pecado pesado na alma
a culpa que lhes brota pesando como em mais alguém,
é a prova da sua virtude.
todos erram, não há vontade sem que a tente
uma sombra agarrada às paredes do conforto.
expirei, uma poeira ligeira dançou
com os ares da vida. são os santos
a celebrar uma conquista honesta.
somos o sal da terra
mas do palato humano
que saboreia os tempos a custo
o sal é o segredo que apura a vista
que rega o peixe a apraz na carne
e assim sendo, nós
o sal da terra
mas vós
o sal da vida.
obrigado.

sábado, 5 de outubro de 2024

outfits

 , pausa
... reticente
pouco além das minhas cores
sei-lhes os nomes e sei-lhes as dores
altivas, mantidas na frequência
da decência, machão de eva
e esposa de adão, no sertão
da minha beira, turbilhão
sem fada ou conto
. ponto
desgastado e desgostoso com as sequelas
fatelas de ver damas, donzelas
barões e bons alunos, filhos de papi
gatunos, introversão no pilarete
nas malinhas de pano, a erva
a onça, os lenços, os dentes
contentes e acenando ao minarete
o chamado um ruído
de conversas honestas e sorriso atrevido.
quem pertença, a linha no pulso
e um cigarro avulso no café ao lado
dançando cadeiras com misturas de classe
condizendo fitas para que alice galasse.
passe, que eu passo
- traço
riscado na tela que trazem na estampa
o buarque o tóninho e a sylvia plath
haja quem cace com gato
haja quem castre um cacho
juntinho no bafo
de vinho e bagaço.
nós, manchas brancas, cabelo brilhante 
um passo que cansa, a vista nos focos
sujeito aos toques que arrisco na dança.
ora, dança
~ the music stops.
azar, 
manchei-me nos lotes que circundam a festa
quando ia bazar dei-te um beijo na testa
e o teu batom encarnado sujou-me
o casaco pausado. 

+ mais sensato agora, certo que em tudo
há contraponto beato, honesto
acessível um pouco, como o choco em setúbal.
@ aqui, festa de arromba
mas sou de lá lá lá.
>.<



sexta-feira, 4 de outubro de 2024

a sombra da ciudad

as crianças nas janelas espreitam uma figura negra que circula
bafienta e cansada, pronta a desistir de tudo, com a raiva nos olhos
e os punhos cerrados pela indiferença que habita no coração 
da populaça que optou pela aragem dos iguais, banais,
camuflados na indiferença, vítimas de si e em si, donzelas
em apuros sem herói que as salve do transtorno dos confins
do mundo velho e sempre igual. 
bate em porta e porta e porta, um remédio que se esconde
numa igreja que bem sabe, qualquer uma, a cruz em madeira pálida
é o descanso das pombas que sapientes observam o trânsito da espécie
que trocou dentes por farpas na mente, gatos vadios, predadores
de fé e crença, achando-se mais que uma cobertura de pele
e nojo que lhes afigura a imagem que plumam com tanta devoção.
a sombra roda, encharca-se em lagos medievais, comuns
aos senhores e aos plebeus que os servem, dignos de honras
e servos de gala e pompa, solidários nos tempos em que a fé
era produto da necessidade, tempos fáceis como carpir
uma terra nunca árida, capaz e brotando aquilo que a gente
precisa e crê, incensos badalando aos domingos que o crente
nem entende, mas aprende, humildade no espírito
que a devoção do meteoro extinguiu como uma bomba.
túmulos nas caras dos pacatos.
os zeros que fazeis de desacatos.
olho cego, vista plena
perante a consciência.
jovem de sorriso entristecido, uma miúda
que não sabe se muda o traje da sua manha
perante os corvos que descansam em mantas prenhas
de maldade e sujeição, o pé dormente da labuta
que lhe rende o conduto para um propósito moderno, consequente
da tradição recente e, ironicamente, milenar
de ser igual e ser um par destacado na presença
a semelhança, a diferença
a fé e a crença
uma criança na janela
vê a sombra passar, pingando
as gotas que lhe escapa dos olhos
para o peito do seu reduto, um produto
do seu tempo, inevitável confissão.
passei pelo filme a meio, desenhos assemelham-se
a manchas do sol poente, morto e extinto em água
como a dor e a mágoa, as serpentes da vontade
comprando-lhe o espírito pela sua ambição
de ser algo e de ser parte, triste figura
que me assombra a cidade.


ócio e ofício III

contrarrelógio, letras da dependência
da pequena paz do espírito, escapando
com indolência da gaiola de ferro.
cada passeio uma jogada imprecisa
correria em quanta parte, toda a arte
do ofício encapsulada num sorriso fingido
que se extingue com o hábito.
serve-me bem, o correr e o suor
que mancha a camisa.
essas medições intolerantes, a expectativa
que seja mais a vossa capa do que
fique bem na minha
consumindo por dentro uma espécie rara
capaz, tombada para os lados
que oferecem qualquer tipo de consolo
um almoço, outra pinga em estômago 
de aço, vazio e impecável
muito resiliente aos transtornos
que o vulnerável não sabe
conter no seu próprio âmago.
ventriloquista que comanda o aparato
em movimentos a velocidades dobradas
dá-me um descanso conforme, justiça conforme
um rasgo claro de esperança
que as noites serão brancas
e a beleza da cidade se revela
não só nas mãos de pilantras
que coitados, sem culpa, acabam nas ruas
com mais honestidade na cara
do que a que eu meto numa câmera. 
os músculos contorcidos, a visão
alheia para sempre manchada da fraqueza
dum osso que se cura em curto trato.
sois impacientes, sois sim
juízes mais duros que Ele
o castigo nos ossos
as horas no ofício. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

uber

 chamaram-me o carro algures para, desculpem-me o francês, o meio do caralho. eu sendo apenas um cota de che setubal, imaginem, nem sabia que donzelas deste calibre existiam. eu no meu dacia xl, apto a 7 pessoas mas que muitas vezes serve de bolt económico, e elas puxando da viagem mais cara possível. um nome estrangeiro, não sei se norueguês ou assim. quando cheguei reparei que eramos uns 10 ou mais tvdes, todos estacionados numa quinta inconspícua algures em azeitão. as minhas passageiras vinham para o castelo de são jorge, em lisboa. podres de bêbadas, oito da manhã. não lhes fiz caso, excepto no receio que me vomitasse pra cima a que se sentou no banco do pendura. fossem homens, teria passado a direito e recusado a viagem. mas elas eram boas e miudinhas magrinhas. eu não queria nada com elas, óbvio, dependo disto para comer. mas fosse um mais malvado? carne para canhão. eu já tinha ouvido falar deste tipo de festas, privadas, exclusivas. eu sei lá de onde sai este dinheiro. contei a história a um passageiro pouco tempo depois, de chapéu e ar prudente e jovem, e ele perguntou-me o mesmo. "de onde vem esta paca?" eu respondi que havia de ser uma quota que pagam todos, dividindo a quinta entre gente estrangeira. ele, quiçá sábio, quiçá paranoico, insistia "isto... já rodei muita noite, já vivi muita embaixadora pela hora da morte. delas sai 0, nem um tusto amigo. se acha que se tratam de jovens a dividir uma despesa, entre elas e eles, está a falhar a grande imagem". olhei de soslaio para ver a cara do tipo. cabelo preto, espigado a escapar-lhe do boné. algures entre um traficante e um elite qualquer, a desafiar-me as convenções. não era a primeira vez que tinha ido apanhar passageiros a este tipo de festa. sempre desconfiei que havia gato, soube-me bem saber que a desconfiança não era injustificada. mesmo assim, não dei a parte fraca. observei apenas que não era única a ocasião. ele sorriu. ri-me de volta e reiterei que elas eram mesmo gostosas. ele assentiu com a cabeça que eu atentamente observava pelo espelho. começou a tocar uma música pop que não sei o nome, mas tentadora. baixo poderoso, acentuado pelo meu bom sistema de som. até aqui vínhamos a falar de crime e filosofia barata. ele só fazia perguntas. às vezes contestava o que eu dizia, dizendo "isso é intrigante, não é?". noutra ocasião teria achado os comentários arrogantes, mas o seu aspecto banal e o sorriso inocente de certa forma tornavam-no honesto, e realmente lançava perguntas que me penetravam as crenças. o pesado cheiro a tabaco ajudava, uma aura a prole como no meu bairro tresandava-lhe do casaco de ganga negro. disse-me que se fosse ele, não resistia à senhoras. teria feito conversa, que seria certo que uma teria alguma paixão por motoristas anónimos como eu. provavelmente tinha razão, mas o puto não sabe o que é este trabalho. é com cada figura. bandidos, gandulos, os filhos da noite. de manhã cedo, nesta cidade, é quando se percebe. a música enchia o carro, mas percebia-o claramente. ele também, apesar de vir com fones postos. ele insistiu "de onde eram, lembra-se o nome?". realmente não me lembrava. "e a idade?". não sei, mas eram jovens. talvez vinte e pouco. perguntei quantos anos ele tinha. disse-me quase trinta. nunca vi um jovem assim, o discurso parecia tirado duma peça com mais de cem anos. as palavras, a maneira como articulava o discurso, a forma como posicionava as perguntas. persistia neste tema, notava-se uma curiosidade que, por sua vez, me deixava também cada vez mais intrigado. será que sabe algo sobre isto? ele não tem aspecto pra ser amigo ou parte deste tipo de festas, eu já levei muito riquinho pelo bairro pra saber-lhes o cheiro. isto era diferente. a aura descondizia com o discurso. "acha mesmo que senhoras desse perfil, jovens e alcoolizadas, lindas como a névoa que pousa na serra e faz os passarinhos cantar, acha mesmo que elas pagam o que seja para uma festa desse tipo? que roupas traziam amigo?". eramos amigos por esta altura, disso não tinha dúvidas. respondi que não eram roupas, eram trapos, umas peças escassas, mas que faziam sentido num verão quente como o nosso. "e já viu disso na noite em setúbal?". respondi que não. "confesso-lhe, não faço ideia do que seja. mas intriga-me, deixa-me tentado. no meio do nada? seria trabalho? uma festa da empresa, quiçá?" instintivamente disse que não, como se a intuição soubesse a resposta antes que eu pudesse processar a pergunta. "pois." olhei novamente pelo espelho, por esta altura via-o inclinado, completamente investido na conversa. tirou os fones. rimo-nos os dois quando cruzamos olhares, e voltei a observar que eram mesmo mesmo boas. ele concordou. "aposto que sim". chegamos ao destino. ele agradeceu a viagem, voltou a por os fones antes de sair do carro. segundos depois, deixou-me uma gorjeta na aplicação e entrou num prédio escafiado, sem sequer tirar a chave. caiu outra viagem e segui caminho. 

terça-feira, 1 de outubro de 2024

no mundo do meu chefe

no mundo do meu chefe
o descanso está para breve
as tertúlias passatempos
a vontade uma carraça,
agarrada ao corpo parasitando-lhe 
as últimas gotas de sangue.
vestiu-se, calçou-se, engoliu seco
de pessoas danadas, cães de guerra,
servos de mestres, promessas furadas.
agora, a retoma, pela mão do tempo
que convém certo e justo, igual
antes que tape os olhos.
como qualquer lição, o seu oposto:
a escória e o desgosto, passeios intocados
de vontade na marcha.
os derrotados no meu bar, onde fugimos
do meu chefe. bebemos do mesmo copo
tombamos as mesmas crenças
homens de pelo e espinha e barba
perdidos do juízo que o presente escondeu
sabido e mais que óbvio dos nossos anteriores
mal cheirosos, incolores, prontos para tabefes
em cima de dados e valores.
o meu chefe passa em frente, 
vê-nos todos, os seus pares e ancestrais
costumes plebeus, como a escarra e o tato incerto
jovens misturados, iguais, o juízo pronto
que justifica o ódio, o saber
que aquilo que foi só sucedeu
porque algures na fraqueza
abandonou um eu, o seu,
soberbo em mesurices
a prudência do seu tento inundada em criancices
claro, o progenitor morto em combate, entendemos
a sua fome e o imundo entre a cidade
e uma horta miserável,
a honra em sair da desgraça, sua conquista.
mas o tempo dos filhos sem pai
antecede ao dos pais sem filhos
todos cabrestos na alma
e o vapor fugindo das narinas
num canto escuro.
jogaste-nos ao canto
a cidade imaculada
não cabe nos últimos pingos
do termo desse encanto
mas viveremos muito mais
e de uma arreada lançaremos o mundo aos santos.
não para melhor, nunca seria tão sonso
como o tanso do meu chefe.
lamento, por eles e por nós,
os chefes são pessoas também. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

confissões

agora que fechei a porta de que falei tantas vezes posso reflectir em voz alta, pensar com os botões das camisas todas que me deram. é, mesmo mesmo. mesmo mesmo mesmo. três vezes, como a bênção. duas, como o par da vida plena. o teu nome, marca do destino no notário. amor, como pode, não é? fugi do que me ligava àquilo que parecia seres tu, mas em verdade um espelho maquilhado e projectado, por ti e por mim, respectivamente. eu nunca posso confessar, porque cada passo é riscado e traçado e só na verdade do veneno que me vai jogar à cova consigo admitir. foram os teus olhos, primeiro. ironicamente, foi na incompetência inocente de não saberes o que fazer que me agarraste pelo único olho que vê. há algo mágico na incapacidade de fazer o que se quer, ainda mais em tentar algo que não é suposto, como uma prego que para a pista. ilustrações mal amanhadas, que percebeste com a idade, tudo jogado fora porque és inteligente. isso levantou-me ainda mais o espírito. puxei da caneca do meu cunho e dum vinho barato e bati muita tecla que nunca tive coragem de meter aqui. é meio verdade. costumo ser transparente, mas a convicção que algum dia lerias as memórias deste traste fez-me esconder algumas imagens em leitura difícil: como eu disse, "em nome do teu nome" ou as "figurinhas que me guardam o couro" (ou algo que se assemelhe, não estou em condição de ir reler isso tudo). puxei outro cigarro, dei mais um golo. puxado, pesado. o meu único amor depois... ainda não me cabe coragem, pra ser honesto. mais um golo. se calhar cabe. o meu único amor depois da joana. pronto, tá dito. não é preciso ser bruxo, especialmente se leres este canto. sois quantos, quatro? sete se eu tentar? e todos sabem. se calhar melhor que eu. a verdade custa em texto e ainda mais dentro desta cabeça chata. para que conste, eu tento. eu tento e tento e tento. haha, percebes? eu numero as coisas a toda a hora, e meto duplos entendimentos a toda a hora e rezo que alguém entenda e diga algo a toda a hora. e pesco do passado, como se fosse um grande plano. mas não é. o grande plano compete a Deus, maiúscula única neste blog. mais uma confissão, mais uma pista que vos deixo. o espírito e o erótico jogam dentro desta alma depravada a toda a hora. uma dinâmica complicada, porque pensa bem: o meu desejo é fruto de um corpo sedutor, da beleza que apraz a partes que não controlo. pouco intelectual, pouco poético (nem por isso). certamente nada fruto dum espírito transcendental. em contraponto, um elogio, quiçá barato, sem dúvidas autêntico. casámo-nos em espírito antes de saberes o meu nome. um amigo suspeitaria que isto é parte do meu narcisismo adolescente, uma crítica verdadeira e honesta como poucas. cabe-me fazer esse juízo. ele teria razão se soubesse, mas eu sou parte do meu próprio rumo e as palavras declaram as pisadas que largo pelo chão. és tu, filho de yishai. bom amigo, vizinho do pecado e pessoa que perdoa. os sinos cantam pelos céus e não por mim, bem sei. uma das grandes lições que me deste na esplanada. contraponho com uma parte, que no desenho do futuro a estrutura nasce do meu projecto, em parte, conforme a vontade Dele. aceitamos ambos, mas agora preciso muito dessa crença. amor amor amor. filha dum autor. posso ser mais óbvio? posso ser mais claro? debochando do destino, escondo-me. sois um casal capaz, aquilo que idealizo. e censurado fui, e devia ser, por isso. quero ser mestre do destino. feiticeiro com a palavra, quero que o mundo se vergue perante a minha vontade. pelo menos nos pecados que sei, não serias vítima. promessa perigosa e imprudente. celine. pronto, disse. fica disfarçado na minha confiança que ninguém lerá isto até aqui. é um palpite bem sólido, na verdade. mais um golo. tantos antes, senão nunca teria coragem. o teu sócio teria toda a legitimidade em vir a este prédio miserável onde vivo e pegar fogo ao cheiro a gás que se sente logo à porta. eu faria o mesmo. se calhar acordo com a goela exposta, sangue do meu erro. chamariam justiça, mas meio que desejo um destino assim. cinemático, estético. um fim digno e sem culpa (porque não me joguei duma corda, inimigo sempre presente). levem-me à igreja de que fujo, católico barato e de imagem. queres amor e com Deus, que o oferece, aceitas como um remendo. relendo escondo o teu nome. seleciona o texto e verás, é uma estupidez. só não quero ser fotografado em texto. por mim leem três: eu, tu e o branco. ele porque me entende, eu porque leio sempre isto tudo mil vezes. tu porque és o meu sonho maior. uma poeta, sensível, filha e mãe capaz, à espera. Ele olhando de cima, que aprova, claro. não a esta prosa. desejosa e rancorosa prosa. texto de vinho e solidão. como sempre. vimo-nos uma vez, uma coincidência à qual já agradeci muito. meti-te em três lugares: na vontade, na coluna e no dinheiro. desejo, gato e galo. a minha mão no teu queixo, um olho fitando dois, injustiça material. o meu desejo na mesma. queria dizer o teu nome mil vezes. posso esconder de tantas formas, e assim faria, queria tanto que fosse honesto. é, no desejo e no tempo eterno, mas compete-me proteger-me e proteger-te. sou um hostil obstáculo numa vida feliz e estável, incapaz de aceitar o platonismo em mais do que um nível. toca uma música pop que me fala de espresso. mais um golo, fala de nintendo, e mais uma memória de ti que não tenho. acabou o copo. encho-o a meia, como o investimento que faço neste plano. sendo demasiado zeloso, o retorno será igualmente conservador e inconsequente. pelo menos uma mão cheia de poemas, isso ninguém nos tira. estou certo que consto aí algures, nem que seja pela parte podre. e o reverso, ainda mais. e pela parte boa, claro, porque sou superficial e és linda por dentro e em fotos e em rasgos de memórias que cobri com whiskey. eu sonhei com a outra hoje. era uma bruxa a agoirar um retorno com o meu padrasto. isto é o dia a dia. a minha mãe reprova. mais um golo. ela sabe lá. dei-lhe tantos perdões que nunca cantarei. as pessoas que deviam saber são as que eu quero que leiam este... poema? confissão? tu, eu, o daniel. os outros três, a tropa de labutes e de queluz, carregam uma inocência que sentimos os três. não merecem este peso injusto dum autor dúbio como eu. farão certamente parte dos sete. talvez Ele os proteja desta mensagem. se não, em honestidade, já terão sofrido com as consequências. carregado o meu corpo drogado e inconsciente por ruas perigosas e desenhadas da cidade. todos anónimos no comum do seu nome, filhos honestos da nação. daniel, sérgio, martinho, serafim. e nós, exóticas flores da vida. costa e celine. o nosso nome junto parece surreal, um sonho que eu gostava de ter. mas a mim só me competem casas babilónicas e triplos significados. sois honestos, sois verdadeiros. amigos de verdade. eis a minha pequena homenagem, afogada em tudo que me sai do cepo. amanhã serão mais dois, a seguir mais um, e no desejo perco-me entre mulheres sedutoras que aceitam a fraqueza do meu espírito. não precisavas de nada, o dinheiro é uma manha que eu entendo. seriamos nós, tu no desespero dos meus traumas, salva do acervo dum burocrata qualquer. nem eu sei se aceitaria essa proposta. mas joguei o teu nome contra o meu, em honestidade. talvez em cobardia de saber que ninguém virá até aqui. destino, escolhe-me. destino, faz-me teu filho heroico. compete-me ficar numa trincheira, sou duro como as rochas que o vento tornou em terra. se isso não for possível, faz-me pai de filhos. eu amo animais e crianças. e por esse desejo quase que se torna óbvio que não será nenhum. somos a maioria, a geração solitária. os novos filhos do comboio da meia noite. sem rumo, história longa. batendo prosa, tentados todos pelo físico duma princesa, filha do amor, que badala entre a prudência e fantasias do futuro que é consequência do fácil. como todos, mas com menos desculpa. eu penso muito nestas coisas. o meu pecado. uma pessoa disfarçada de pessoa. mais um golo. vinho barato como a renda e como a rua, traças cobrindo a parede, à espera que eu desperte. matei milhares. matarei mais? é possível. um homem sozinho, fugido em vinho, só presta para a linha da frente. serei um corpo a caminho, um pedaço masculino que serviu o seu ponto. Deus que me receba. assim quero, nada seria melhor. tirando ser um par contigo. e ser absolvido pelos meus quatro amigos. meus amigos, daniel, sérgio, martinho e serafim. meu amor, cujo nome está escondido algures num bloco de texto inútil como este. e o outro, malvado, antigo, que me assombra todas as noites e tardes. 

p.s.: fui obrigado pela vergonha a retirar o texto, originalmente publicado no final de setembro. agora republico com os nomes todos aldrabados, muito mais sóbrio e tremendo as chinelas. 

serra de arriba, tiros de baixo

o monte e um bico-grossudo atrevido
destemido em pouco mais que meia hora
os três capangas, os herdeiros desta barraca
abandonada e coberta de lagartos, largados
ao que sobra do lixo duma trupe de carochos.
o meridiano cruzando-nos o peito
o sinal da vida, o sinal da cruz
ha ha ha
abençoados, crendo
apadroado dum destino
que escolheu pela arte.
ha ha ha.

talvez seja um rasgo da prudência
desmanchada em chuva e algo
como o álcool ou ser minguante
perante a lua e a mata, arruma
a caruma, cisca a ave essa alma
vazia e roxa.

mais uma noite
mais uma
noite
as estrelas entre as linhas e entre os postes
escondidos do sol e dos bosques
que apelam à vida pelo que precisa.
sentes o que vem?
sentem o que vem
de ser o que vem?
o futuro, nós
as pegadas da troça debruçadas no que resta
do espírito que chamamos de alma.
traço, mais um,
corpos mortos da guerra
que sentes na espinha
e escondes na rotina.

15 minutos

recordas-te quando era antigo
o tempo dos cantinhos, no recreio
que te escondias entre os blocos
a amizade provável, os desejos
da adolescência, os montinhos
colinas de conquistadores e heróis
os miúdos do agora, nós, de fora
mas no todo, o equilíbrio que a idade
desmontou em vinho e costumes 
brandos, dizem eles, duros e 
manhentos como uma rebeldia
que virou certezas imprecisas
da era, do ser e dos tempos.

palavra gasta, o intervalo que espera
brilhava na aula de boca certa
e pingando o saber com a intuição,
raro em disciplina, um traço genético.
ensinou-me a amar e a ser a forma duma coisa
que a gente chamaria de algo, pessoa
lacerando voz à toa, ritmos
que nas mãos mostravam um talento
que atirámos ambos pelo ralo.

encandeiam-me as luzes deste sonho
o fogo posto no mato, brincando
às escondidas e ao apanha.

vai um golo, tamos next
primeiros com primeiros.


padrasto

na toca filho e pai emprestado
acende um cigarro, o canto da boca
salivava do conforto da visita
a vista era frouxa, filha de feiticeira
a voz combinava com as cinzas
e a nuvem que se aprontava nos cantos
pai emprestado, uma figura doente
um buraco na terra o espera
e esse buraco não tem fundo
para quem finge que não vê.

tampas em estanho sentado, em pé, andando, em pé, ouvindo, parado, sentado.

sentado, em pé, andando, em pé, ouvindo, parado, sentado.

rodopia rodopia, o acervo das marés
uma mulher de ancas vivas e o filho de visita
acenando
mais uma centena de fulanos, todos em bate-pé
descendo as ruas em carreira
trato como um auto de fé.

cómico e cómodo, excepto nos sapatos.
os pombos dançando por cima fugiam
do caos e do ruído, a timidez o seu viés.

pregos na estrada e uma obra parada,
à esquerda a meia idade aplaudia 
vendo-nos lavar as suas mãos
sujas e tocadas do perverso e do conforto.
fossas, capelas, tuna sammy for a thirty
umas com ar de donzelas, outras com ar de vexame.
chumbei no exame e o ar estourava nas velas
enquanto mastigava a língua depressa.

também nem sabia canções, o assobio do mundo
não me caia na poupa, coberta de musgo
e escondida da história
uma filha,
a ilha do canto profano.

rodopia rodopia, o chantel duma descrença
peças em barro uniforme e uma tesoura de papel.
rodopio rodopio, sou mais um filho da mãe
quando vimos o mar baixo
quando o cruzei em bagaceira:
sentado, em pé, andando, em pé, ouvindo, parado, sentado.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

quintais entre espécies e a manhã de sexta-feira

as amarras vão-se soltando lentamente
das estacas desta tenda
a humidade enrugando-lhe o sintético
outubro na goela, pressionando à acção
pelo ar rarefeito do espaço enclausurado.
no jardim oitavo, deitado e bombarda
os miguéis da minha vida, uns certificados
e os outros em placas. iguais no registo
da memória, são considerações
matinais, como um bocejo
ou o sonho com os andes, descrito numa pauta.

ponho ordem, sento-me no chão de terra
esfriado como onde moro,
o amarelo nas paredes e nos dentes
e olho para a serra, a missão por cumprir.
é com vagar que a névoa sobe
eu sigo-lhe as pisadas com timidez
fervo a água que o ajuda
um coador, o vapor, 
o grão moído que fumega 
e o cheiro conhecido
mais um início de jorna.

a obra incompleta, rasgo laranja na cabeça
será chuva e serão quente, misturas alquímicas
de plantas lembranças e do cenário.
passeriforme, a vizinhança em melodia
por cima de carros e tratores e os gritos
das pessoas que nos fitam com suspeita
a siringe como a vida, em mim dedos e teclas.
são as medalhas doutra era, fósseis do destino
poupados na fé e na persistência do contínuo amanhecer
a evidência, a meta, a única coisa que importa.

descartei o passador e com o silêncio cá dentro
é a hora da muda. as borras pelo chão, comida
que brota para vós, filhos do futuro que persiste
assim como nós, que contamos as fibras
das cordas que estouram.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

o lar nos anos 20

teto, abrigo, o mar a respingar
nas arcadas de um tasco, o meu lar.
quebra a onda contra rochas
num jantar à luz de tochas
o dilúvio desta era, um desgosto que debochas.
pudera, foram mentes, caveiras
e a opinião de charneira
são retalhos na manta da fera.
espera, a virtude alcança
uma mão que descansa
e a outra no cutelo, matança.

fastiento e sem pudor
o ardor da falta de tento
jogam-se todos ao vento
e permanece a dor.

casa minha, para que te quero, senão para me esconder?
casa tua, onde a queres, senão em contramão?
nascer, viver sem crer
crescer sem nascer,
uma só vez.

marcha a prole pelas ruas e fala e fala e fala e faz e faz e joga e joga e dança e dança e mata e mata e morre.
o lar que reclamas são as paredes que nos trancam
nas correntes do crime e do castigo.

percebo e percebo
e concordo pelo sebo
que escorro pelas botas
salva a vida do acaso
por uma mão cheia de vigotas.
todas plantadas pelo outro
bateis o pé eu bato o couro.

casa minha, para que te quero, senão para me esconder?


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

palavra & permanência

massagens no ego, malícia composta
da ignorante imprudência de se achar pertinente
ei-lo, no jusante, esperando que caiam as gotas
como folhas num outono da cidade
o chão pegajoso
temperamento perigoso
as barbáries da espécie.

é a faca nos dentes, com um sorriso sonso
bicho de ares, espelha o nada quando nada vale
tudo pode, das poucas vezes que brilhou.
tampa em alumínio, ferrugem da ausência
foi o descarte fugaz, brilhantina da memória
posta em causa numa lupa, encarnada
encontrada e com os indicadores roxos.
a raiva e a ira, pergunta e resposta,
a cabeça exposta ao céu nublado
e chuviscando no império em terra.

deambulando segue a linha, entre carícias
e encontrões, desconfiança que brota 
da consideração que vacila
no momento que precisa.

três sermões, se é que posso
bisquei o poço lamacento
um perfeito que lamento no deboche
tirando a capa que sacode
com o vento no regresso.

trepadeiras morrendo em verso
contornando um vidral antigo, baço
raso, crasso, craveira incerta
e una apenas em si.