quinta-feira, 7 de novembro de 2024

catarina e a adolescente forma de fugir ao teu nome

cabanita, com a tita
bolas 
como és bonita
e o teu riso todo nerd
que suspira
decência nos céus pela vinha.

falas-me de prosa e de textos
repletos de noção antiga
jogaste a isca ao mar
e o burro
deixou-se ficar na ilha.
quando mencionaste
a história
dum bacano que não é humano
e este tosco amochou
e calou-se 
entre o caixote e a quina.

10000 x idota
a dormir
e vai para casa dançar com as sombras.

é verdade, acredita
um conto nasce e arrebita
a vontade de um tanso
coxo e manso
cego e no fim da linha.

amiga, conhecida
és tão linda contra as luzes leves
destes postes fraquejando
como as mãos
e a goela de um parasita.

fosses minha, o meu sonho
eras tu de ceptro
e trono, relaxada e contraída
na leitura, vivendo
entre verso e estrofe.

bata um trovão valente
nesta sina
e um obrigado a ti
poeta, com a catarina,
foi mais longe do que nós na vida.

um gentil poema para um fulano que conheci hoje

quando li que a habitação acessível da câmara
era o fertilizante da árvore jovem que cimenta
as raízes para crescer saudável, vomitei.
como escreve mal este mandrião
vê-se a barriga gorda pelas vírgulas
o sorriso falso com os dentes todos sujos
de vinho tinto do bom a escorrer pelos cantos
o lábio a forçar-se em voluntárias à procura
dum consolo existencial no partido que orbitam.
que nojo, estimado leitor,
nunca serei cúmplice deste banditismo
de cara lavada a dançar como as moscas
numa junta repleta de senhoras tão belas
como as que aqui residem, entre rios, no barreiro.
aos cabeças-de-faculdade e ao ruizinho:
tentativamente matem-se.

mandaste uma posta num blog transiente
se soubesses o que é tão arrojado vernáculo
roubaste a template de um site de aulas
porque os menus falam de vários saberes
que aqui não constam, naturalmente,
só sabes ser feio e amanhar o bigode
e abanar a pixa e pingar o teu mijo
por cima da cerâmica que não sabes obrar.

incompetente.
somos dois, não nego.
mas eu não me faço às pujanças políticas
que como és urso atacas sem medos.

rui braga, és um bosta
um asno perdido
a tua cara de narso não torce em delito
dava-te mil voltas, eu e os meus
trocarias um bairro
por coca e uma foda.
canalha escumalha
atira-te ao lago
brotarão umas flores
mais lindas que tu
quando eras criança e não sabias roubar.

imóvel não pode

fileiras de meia brasa 
pertencem às filhas da conduta
à paz que canta os bosques
e às larvas na fruta podre.

bendito e sereno nos fios de seda e gás
que sobem paredes quadradas e batem nos contornos das nuvens
desenham lampreias aladas que engolem as moscas
e os desejos dos tolos.

no mar há o mar
no céu há o céu
um refletindo o outro
o contacto é o embuste.

quando aumentas a voz e misturas as formas
cortas-lhe as asas e num mergulho profundo
vira uma gosma, um entulho de gente
como o tapete a penantes que ficou na calçada.

escolhe agora o sentido da marcha
adiante como sempre
a norte como na noite
às voltas como uma estátua
(estás aqui)
para a fronteira
em bandos enormes
de chapéus e lencinhos.

imóvel se queda, que lástima
não pode, as fileiras de meia brasa
não se apagam por mortais.
eu tenho dois ouvidos
um para ti 
outro para o resto
aqui estou para ti
ali o que eu quero.

a conta salda com rodagem
deambulando pela noite adentro
seguir-te-ei pela multidão 
e para trás fica o que quero.

desapareceu,
que surpresa.
tens dois ouvidos
mas só um olho
seu anormal.

chá da meia noite

se o destino nos desse bolos
voavam pratos pelo chão
e o doce seria um nojo
e se nos desse um chá de menta
verteríamos tudo pela mesa
e chapinhando com as palmas
voariam salpicos e ficavam as nódoas
nas nossas vestes brancas e puras.
é o que se diz, deve ser prudente
é o que vejo, deve ser real.

o fantasma do desejo dá-nos caminhos de escape
imagina-se em luvas de combate, derrota o oponente
e parte-lhe os dentes, grande gajo
mas só no silêncio do que podia ter sido
e nunca no ringue quando o sino toca.
que zelo no mundo de caras e olhos
como se cala a traqueia malvada
numa falta de vocábulos que me tira o ar.

é do preparo
é do aspecto
é do semblante cansado da sesta
foram as calças que te deram na escola
foi a miséria que te tranca o bico
foram os herdeiros de barco na costa
foi tudo menos a falta de vontade.

a palavra que buscas: fraco
fraco fraco fraco fraco
formiguinha perdida
no bico dum pardal
fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco
as doses de ar pleno
que resistes em apneia
o sopro do esforço
quando olhas de soslaio
e viras a cara a medo.

fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco
fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco
fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco
fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco
fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco fraco

anémico intuito gradeado e apoquentado
posto na beira, foi derrubado
e rebolou pelo chão gasto
e ficaste ali, estacado como um cavalo
amarrado a uma cadeira
vendo-o desintegrar-se com a água doce
e o cheiro a menta.

foi boa a tertúlia ontem
voltei para casa
e fui grande nos meus sonhos.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

a volta da gana da baixa casta

sentado à rufia no cadeirão de pensar
a mãe considera que me portei mal
pois serviram umas ostras com caviar
salivando com gambas em alho e sal.

a vitória no bolso e o descanso na testa
sonhei com princesas e um dia feliz
lancei os balões e montei uma festa
celebrando o desfecho que o destino quis.

escondi-me encarnado, a vergonha na face
o filho da escória caminhando no mundo
as bochechas rosadas do sujeito da classe
baixa e invisível, a rapa do fundo.

na calada da sombra a cidade navega
os fulanos lançando as mãos ao pão d'hoje
foram sombras ocultas em textos de um mega
que placaram a besta que bufa e foge.

raros dias de sol, e eu de castigo
cantando uns versos no meu lar amigo
que em casa ondula um lago em silêncio
vendemos do solo o sagrado consenso.

o que virá, o brilho,
o tabaco e o milho
que foi feito na terra
e fugiu-se da guerra.


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

auto-retrato

um auto-retrato neste dia narciso
pintado de letras, solto no atlântico
ligado por fios que repousam no fundo
a corrente pulsando, sobrinho do mundo.
nunca sozinho, um dito romântico
no cespitoso carinho que julga preciso.

brio, escasso, colchoado, vazio
vestido de verde e branco como um filho de labutes
que não sou, mas fiz por isso
o meu lar foi sempre em sítio bom.
se me permitem o zizio, considero em bom tom
os montes de são marcos, o barreiro e as suas frentes
o velho e o novo, os buracos no caminho
os anos numa rua alcatroada trinta vezes
benfica e o seu bairrismo 
e a humilde moscavide, onde homens lamentam
a perda da essência pela cidade que a come.
periferia, o meu descanso, os teus herdeiros
são um bicho manso que persiste pela história
sem conquistas nem glória, peregrinos da rotina.

em toda a parte um rasto a fumo
a suor e a humidade, os quatro presos às paredes
consagrados, manchados, amarelos
como dentes tortos e os olhos ramelentos
uma vista vendo a fundo, a outra fita o céu
e a razão do seu desígnio, vedes
como ela quando o repouso
vos leva para o outro lado.
nascido da fúria, o zelo paternal manifesto
no desgosto, para mim banal
mas para eles funesto, e bradaram
contra o doutor e contra o mundo e contra o fado
não foi por mal, coitado, o pecado desdobra-se
como uma cobra no bote
o malvado marchando
os miseráveis a trote.
a beleza desta trama é que pactuei não a parte má
mas sim a parte boa, contrato firmado antes da noção
e fiquei protegido duas vezes, da tentação 
e do que marcha, por batismo e cegueira a meio tempo.

é difícil, detesto o espelho pelo qual sou obcecado
esmiuçando os fracassos ao descoberto
fazendo contratos com o ímpeto cheio de fogo
tentativamente colorando a mancha cansada
que se apresenta à minha frente. 
estes versos são quase o mesmo, são para mim
mas dirigidos a alguma coisa que paira pelos cantos:
pessoas, aranhas, a linha do destino, a casta baixa,
os passarinhos, as gotas de vinho pelo corredor,
a voz que manda e taxa, a mão que agarra a tocha
vencedores e vencidos, mulheres de vestido
os abraços fraternos de camaradas
tudo quanto não se vê num reflexo partido.

tenho um aspecto bandido.
o que roubei não é contável
não o pegas, não o cheiras
a inocência, o brilho no sono calmo,
a esperança no nosso povo,
um futuro, o presente, a crença em abril
ou em setembro ou em agosto.
tirei-lhe os contos à cartela
e perdemos no bingo.

no meu retrato estou eu sentado num banco
no primeiro terço, no limite,
rodeado de amigos, um deles com um chapim-azul no ombro
uma grande árvore é o cenário, com as raízes
escondidas no meu assento
a minha família composta do outro lado
duas pombas estão pousadas num ramo junto a eles
orgulhosas mas suspirando
e no extremo oposto a filha dos pescadores
vestida como eu, sentada noutro banco
olhando para fora da pintura
para ti, leitor, ou para si mesma
e mesmo ao fundo, no centro, uma estátua nobre
e coberta de gravuras
com um altar vazio ao lado
e eu estou a olhar para aí.
o chão é um mar de flores
algumas de puro ouro
e as outras negras.

sábado, 2 de novembro de 2024

burro feito herói

bale bale pelo vale
dá-lhe a noite em trote bruto
vai ser o teu coice o surto
que treme treme pelos ares.


gran turismo

the shock absorbers tremble with your roar
fast, near-human, here she is, in her home—
breaking limits in the art of confrontation
pianos play, soft jazz distorted by
a thousand horses,
by the wind of champions,
and children dream in flashes between turns
they’ll never take, but it doesn’t matter
if the stakes are all millions.
slow - it - down
turn it, make the perfect angle,
three steps ahead
three fronts in mind,
win them all, call on great forces
that won’t crush you without remorse.
press hard, one second—
less, less, so much less.
stun Newton’s laws
with pure calculation and exacting science.
you’re the champion’s son,
you’re the crowd’s desire,
your braids pulled back, face flattened,
the sweat glistening in the heroes’ pools,
shouting with a thousand thunders up that climb,
the brutal, wet climb, building legends
in noble pacts,
prodigies of labor,
the progress of humankind.

dia dos finados

uhhhhhh! uhhhhh! 
o fantasma do meio-século
assombra as arcadas da minha vila
ele troca o lenço, com várias cores,
tantas quantas consegues temer.

nos cemitérios desta aldeia
as almas penam por cima das covas
os mártires chocalham com violência as tumbas
os malditos rabiscam os anos à missa
os vendidos finados cosem as faixas
e os vampiros celebram a noite na capela.

partiram os espelhos, uhhhhhh!
perderam as chaves, ohhhh!
o portão está aberto, eeeeh!
que grande algazarra, ahhhh!
e os porquinhos fuçando, ihhhh! ihhhh!

epa, mas a terra não é nossa
dizem eles no ouija, com muito respeito
apareceram os donos, são quem as trabalha
e fomos apeados do nosso descanso.
logo hoje, no dia dos mortos?
não, já lá vão muitos anos
o luto se esquece e o tempo passando
para nós são eternos para vós são mandatos.

foi aí que entendi que o tumulto que ouvia
não eram os monstros e a companhia
mas sim diabretes de sangue pulsando
fugindo do raio de luz que nos guia
e agora montados colorem as vestes
conforme um sinal que vai caindo dos céus
o cavaleiro da fome aprendeu um segredo
e as almas famintas deambulam nas ruas
ainda antes do corte, vivinhos vivinhos.
a pé e a trote, são todos tão sérios
no medo do escuro e no medo do fim
que negam por cima do tranquilo jazigo
os ossos tremendo por baixo das botas.

uhhhhhh! 
a porta norte e a porta sul
estão apinhadas de malta!
uhhhhh e eles nem sabem que são os mesmos!

correu tudo pra trás dum carvalho bem velho
só não foi exilado porque gigantes não existem
vendo de cima ele piscou-me o olho
e continuei a fumar o cigarro à janela.

máquina de enrolar

o tabaco de enrola deixa um cheiro nos dedos
sacia bem menos e deixa um rasto que é tosco
parece que andei a chafurdar em bolachas
e espalhei as migalhas para cima do colo.

o cheiro do fumo alivia depressa
e seca-te a vista cá dentro um pouco
especialmente se formos mais do que um
por muito que isso não seja comum.

maquineta de ferro, fiel companheira
conheço-te as dobras e os fios do teu gráfico
não és a primeira nem a segunda
uma lição que devia tirar com certeza.

vivemos no lixo, dormimos no chão
troquei-te por outras que entretanto não estão
o teu tapete encardido não me repele o prazer
de contar contigo quando o camelo acaba.

que belo cabelo refletes à luz
assimétrico e baço, caleidoscópio o padrão
a tua curva ligeira agrada ao meu tato
e aprendi para que serve na televisão.

folha de amber, filtros magrinhos
o papel que o fecha, smk
são consoantes do fumo
e constantes da vida.

tchk - fechei
e saiu mais um
como sempre.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

chique / beleza escondida num vestido caro e fanfarrão, não esquecendo que se escapa dos genes e se apresenta em seda fina

ricas danças com armani com couro e loro piana,
pondero como cheiram os flatos no átrio
em caxemiras tão finas e as rendas de frança
reminiscente da pompa da carne sem forças
as ancas finas, juventude gasta
nos saquinhos ressequidos de velhotes
de boa casta.
admito, invejo.
quando espreitava entre as cortinas
como corriam essas narinas pelas colheres de prata
mulheres de exemplo, amplas, exóticas,
da beleza que escultores capturavam em estátuas
para mim um porno do tempo
que a vossa laia chamaria de sacro.
o poeta é um burro que sonha
com coisas pequenas, como pessoas
ou como as urtigas espetam
nos traseiros dos pobres.

o poder vocaliza a sua cantiga
em toda a alma vazia, castiça,
amiga, puro no desejo inocente 
o pecado. 
eu sinto-o, no vento e na espinha
e nos encontros à meia luz
atrás de portões cerrados e elétricos,
os motoristas chegando pelos raios do dia
apanhando uma mão cheia de bêbados
em fato e gravata e gente mui gira,
vedando os trapos da sua grupeta
aos sabores variados da alta cultura.

a voz de dentro não me deixa atuar.
a voz de dentro não me deixa ambição
senão a devoção profunda que vai fechando
os corrimãos que vão para baixo e para baixo,
onde as lâmpadas piscam em passos esbeltos
seguindo silhuetas do fundo do lago.

é uma contradição, estou ciente
chamem-lhe desafio ou o presente
cantem as musas de milão
o subtexto profundo da nossa sessão.

maresia, mármore rijo das vossas festas
exclusivas murmurando
as fontes as tochas o hino à alegria
embalado e absorto em pastilhas alquímicas.
raras fortunas de gente bué esperta...
fosse a vontade mais fraca
fosse a vontade mais forte
teria mais versos para contar.

coberta a mesa de cinzas e coisas
baratas e ofertas do supermercado
vivendo as cruzes da ribalta burguesa
numa tela em vidro e cristais da ciência.

as princesas da vossa
o caramulo da minha
considero as jogadas que faria
para ver as polacas em brilhantina
para ouvir o cognac em névoa trufada
para saber os segredos ocultos de proust
para dobrar estas costas
e vomitar num quintal
adornado de linhas e flores do sul.
a sul.

vou-me meter no partido
vou espetar-lhes a faca
nos patrões e mentores que me abrem as portas
entre palavras sensatas e doces e cheias
de lealdade corporativa pelos lobbies de hotéis.
ou então far-me-ei secreto e gostoso
com os cílios batendo nas vossas carteiras
e montarei um embuste, o crime perfeito.
cabeça bandida, a vista sensível
não decide se belos são os montes ou as serras
ou os contornos garridos imbuídos em luxo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

meias verdades

sangro do nariz
porque dancei no duro
e dei com a cara na parede

confissões II

mata-me antes de partires, saedades do verão dos nossos corpos. vacilo com tantas, vou largando as pistas escondidas no meu blog semi-anónimo (este), vou sonhando com outras. foi a ti que joguei as mãos na hora do aperto, minha vontade pulsando no teu sufoco. é uma ideia estúpida e datada, eu sei, mas é verdadeira. quem lê sabe que normalmente este é um dos meus temas favoritos. é mesmo. jaz na sombra um mentiroso do pior, que não sabe ser honesto nem que lhe custe a vida. cada história um ponto extra, cada trama um desfecho falso, não na essência mas sim na estrutura. eu creio genuinamente que a natureza da Verdade, a tal com v grande, é que o ponto transcende ao contexto. não é preciso ser um génio para saber dessas coisas, mas gostava de clarificar duma vez por todas. a essência sou eu e o mundo que apanho pelos fragmentos latejantes do meu olho cansado, vendo as cores todas que consegue ver, que chora e fecha com a luz forte. saedades, mudei-lhe a forma e as letras. és tu. será vã a forma como eu creio que isto está tudo desenhado? talvez, talvez. faz demasiado sentido e a intuição tem sido boa amiga, portanto vou confiando com desconfiança nas linhas que são desenhadas por esta folha em branco de plágio e trágico e claro, bebida, que é o vosso humilde autor.  se me vissem agora saberiam, com umas calças às bolinhas, manga-cava do tamanho dum obeso, pólo negro por cima, cobrindo a brancura que estimo, e um casaco verde do meu avô que uso todos os dias mas só em casa. gostaria de acreditar que sou uma ramificação do seu legado, meu estimado e competente ancestral. ambos amamos mulheres. ambos gostamos de pão. ambos tememos apenas a Deus. estavas armado, eu não, mas isso foi uma questão geracional. a minha mãe acha o mesmo, acho eu, mas ela não pensa muito nestas coisas. é inteligente mas não é prudente. entendo, seria igual na posição dela. mulher sofrida e com cara rija. nas poucas coisas que somos iguais, isso é uma. queremos ser fortes, não é? não somos. 

as estrelas brilham entre a persiana fechada de um apartamento algures no coração da verderena. é de onde vos escrevo. é de onde eu produzo, de onde eu vivo, de onde eu escondo os meus pecados. alguns chamarão a isto de culpa latente dum cristão de mentalidade escrava, eu chamo a isto pura realidade. achas-te tão acima? achas que isto que partilhamos não é trágico e submisso? servo é a cona da tua cota meu puto. claro que somos servos, mas não de palavras que a gente trouxe coxeando pelas ruelas estreitas da história moderna. desculpa o palavreado mas sou mesmo um boca suja de primeira, como a ponta dos meus dedos e as vozinhas que me tentam nesta casa escura. não é a culpa que rege, é a consciência. não a consigo desligar. ela é cruel e às vezes malvada, mais do que os rombos que por baixo da manta vão fazendo frente às consequências do que sou, ou tento. saedades, que tesão. saedades, que solidão. quem me conduz neste teclado? achas mesmo que é uma fraqueza, uma falha no desenho? serias burro, não o animal porque esse é belo, se achasses que sim. mas falas tanto de ti e da tua vida, dizes. é verdade, narciso existe em cada lago. olha como eu me olho. mas olha como tu olhas para como eu me olho. e olha para esta frase. faz sentido, ou não? é possível que não. a história dirá se faz sentido, Deus dirá se tinha razão. é provável que não, mas pronto, como vós, sou burro. o símbolo, o insulto e, gostava de acreditar, o animal. mas escondo-me atrás de penduricalhos. vão-me na cabeça e no pulso e no coração que bate, a custo, porque faço-lhe mal. tabaco e álcool, miséria auto-imposta. a minha ex-psicóloga e o chatgpt concordam que passo demasiado tempo ponderando e pouco tempo agindo. vão-se lixar, eu faço para caralho. eu jogo a pele em todas as jornas, contra a sorte e contra o vento. choro com os pombos, os meus primos plumados, rio com os velhos e dou-lhes sorrisos que levarão para casa e pensarão "ainda há jovens com a inocência da terra". é mais uma mentira que lhes conto mas eles não sabem, e no meu pecado dou-lhes uma paz que vai para a cova com os seus dentes postiços e as suas doenças terminais. eu amo-vos, senhores do café, esposa do miguel, filha de alguém. nós não somos em nada iguais e somos em tudo iguais. teríamos sido amigos em tempos.  talvez família. a minha é igual, sem semelhanças, mas somos ligados pelo laço do sangue na mesma. emerge a noção das vossas doenças e das virtudes. genético desígnio.

perco-me em considerações sobre pessoas que conheço há pouco, mas apraz-me ser parte de alguma coisa. um bairro, eu sei que não é o meu, mas por agora pertenço. conhecem-me pelo bagaço e pelo chapéu. viram-me os olhos poucas vezes, o que faz sentido. sou só um reflexo deles, para eles e por eles. tenho a cruz no peito escondida, primeiro porque a fé é muito mal interpretada, segundo porque não me compete pô-los no juízo. uma vez disse que eu era a fúria Dele. mais uma patetice desta cabeça coberta e sem experiência. só fui para ti, e fugiste. acho que fizeste bem. honestamente, quem poderia aguentar com as consequências turbulentas deste paciente aguardando diagnóstico num hospital onde nunca irá? durante esses seis anos interrompidos vivemos a vida como nunca, ao menos isso temos que admitir. o tritão bem podia ir destruindo as vontades e o resto desta casa, mas vivemos um amor intemporal. a sorte que eu tive, raios, só posso agradecer. quantas pessoas correm esta terra sem saber o sabor da paixão na fronteira entre Deus e a loucura? pecámos também. beija-me antes de partires na próxima volta.

acho que estão agora a entender muito do que se tecla neste canto escondido nos confins da internet, entre os desconhecidos e as tentativas falhadas de fazer parte de alguma coisa. se chegaste aqui é porque sabes quem sou. ou então o destino fez da suas, mas a primeira é mais provável. sorte a minha que letras agora são praticamente gratuitas. gastarei todas para contar a história duma pessoa vulgar, bruta, incompetente, ciente de si e do espaço, dando sermões a passarinhos que já viram isto e muito mais vezes sem conta. cada pena desenhada por milhões de ano, pelo medo do fim, pelo fogo dos céus, pela tristeza do verão, pelos céus chorando em meses frios. desculpem-me, leitores e aves do mundo, pelos ralhetes constantes e pelas observações inócuas duma pessoinha barata e canídea. o que compele é uma vontade de deixar presente que a vida não são só coroas e inteligências raras, sabedores da cultura, colecionadores e outras estirpes de especiais. há gente podre. há gente podre e triste e mentirosa e honesta, como eu. animais sem léxico, poetas sem rimas. gente da letra minúscula, servindo ao Senhor sem saber ao que vão. sou eu, são pessoas do mundo, são os passos que ficam na areia quando a gente anda na praia e vê as pegadas perdidas pelos caminhos escondidos onde ninguém vai. poucos confiam no acaso, mas pelo buraco da agulha, quem passa? experimenta mete-la debaixo de água. algumas gotinhas. escolhidas? duvido. especiais? claro que não. 

jogando à beiça a caneca, estampada pelo meu cunho, venha daí mais vinho branco e quente. outra confissão que certamente não surpreenderia um leitor. quem vos fala é um bêbado como o pai, como o avô, e provavelmente como todas as gerações anteriores. considero isso uma prova da minha casta, a que chamo de "baixa" neste blog. não porque são pobres ou escravos ou serventes de gentes grandes. só pessoas comuns, banais, existindo pelos séculos que desaguam aqui. claro que há nobres, padres infiéis à fé, filhos de violações dos senhores da história, bastardos, herdeiros das mentiras de mães sedentas. mas isso somos todos, desculpem-me pessoas de sangue azul. algures na linhagem espera uma infidelidade que circula nas veias e que te faz ceder aos apegos do sexo. agora que este foi banalizado parece fácil crer num antes e depois, mas a verdade é quase oposta. as regras rígidas fizeram que a tentação desse vida. o pecado é o nosso pai e mãe. agora, com as desculpas prontas e a vontade liberta, eis que o destino nos conta mais uma: não nascerá sucessor! eu acho isto muito engraçado. parte de nós nasceu nas traseiras de um estábulo pelos suores secretos e cheirando a cerveja barata. agora que vale, acabou. é hilariante. chamem-lhe o preço a pagar pela noção, a resposta errada à pergunta, o desfecho correcto, o que for. é uma anedota muito bem feita. o que podemos tirar daqui é: o nosso sangue impuro só responde às fronteiras da nossa capacidade. saberemos isto em mil anos melhor do que agora, mas deixo aqui por escrito. não quero ter razão, só quero que se saiba. 

agora pergunta o leitor: então, qual é o ponto? se o amor corre nas paredes da carne fraca, se a vontade falha, se o pio só existe no bico dum pombinho, de onde vêm estas emoções tão convictas? e eu respondo: saedades são todas, mas ela em si. saedades é a morte menos um.  foi e será a última gota do que aquilo que não sabes pede. saedades foste tu (não me atrevo a dizer o teu nome), a joana, a filipa, a tânia, a raquel, a menina na camioneta, a saldanha (que vergonha do meu próprio nome), a cátia, a beatriz, a maria, as ilustres em 2d, a rita, a rita, a outra rita, a outra filipa, a mayara, o engate duma noite. o poder da beleza, o vergar das costas fracas perante o belo feminino. saedades foste uma, mas ensinaste-me todas. beija-me antes de partires na próxima volta. mata-me se partires outra vez. os teus olhos esbugalhados num clímax a fingir que nos matamos é a imagem que resta duma pessoa fraca, da família perdida, de considerações vazias e de um apartamento escuro algures na verderena onde fomos um.

comédia e tragédia e as sombras da babilónia

nunca deixarei de ser surpreendido
pela falta de fé, pela falta de crença
como estas voltas são todas
tão únicas, tão bem desenhadas
à nossa imagem, à nossa vanidade
ao mesmo tempo rodando nos dados
do acaso do pó e supostos alienígenas
e coisinhas miúdas que não se entendem
e ninguém crê, raios, como?

hoje vi um filme
coisa comum, bem sei
mas foi uma comédia
e a cada dia que passa
aprendo um passinho, uma dobra
das voltas que as pulguinhas
vão dando para explicar
um texto mais velho que o azeite

o mundo existe
entre o orinoco flow
e as aventuras do sean
seguindo os truques de zardoz
percebes, leitor, ouvinte, amigo
que as raízes são as mesmas
assim como a forma
o compasso
as oitavas fugindo de beethoven
pelas mamas de malucas
de los angeles que foram usadas
com respeito, acho eu, para mais uma
historieta divertida e nietzschiana
sobre como Deus morreu, oh não
mas... 
a cruz, o que foi?
quem O matou?
bolas, li passagens do texto
e levei com spoilers

de bissau a milão né?
do café ao moinho, do tornado
à loucura, do vulcão aos peixinhos
o sopro segue
e a gente canta
e bebe e come
e fode (muito pertinente)
e quebramos as regras do jogo
cremos nós, gnus mugindo
pelos vales
cantou a tartaruga:
oh a humanidade!

sou um servo Dele e aprecio
obrigado pelas risadas e pelas lágrimas
e pela vida boa que levo
sentindo no pelo cada espinha
que escapa da dentada faminta
dum glutão como eu