um auto-retrato neste dia narciso
pintado de letras, solto no atlântico
ligado por fios que repousam no fundo
a corrente pulsando, sobrinho do mundo.
nunca sozinho, um dito romântico
no cespitoso carinho que julga preciso.
brio, escasso, colchoado, vazio
vestido de verde e branco como um filho de labutes
que não sou, mas fiz por isso
o meu lar foi sempre em sítio bom.
se me permitem o zizio, considero em bom tom
os montes de são marcos, o barreiro e as suas frentes
o velho e o novo, os buracos no caminho
os anos numa rua alcatroada trinta vezes
benfica e o seu bairrismo
e a humilde moscavide, onde homens lamentam
a perda da essência pela cidade que a come.
periferia, o meu descanso, os teus herdeiros
são um bicho manso que persiste pela história
sem conquistas nem glória, peregrinos da rotina.
em toda a parte um rasto a fumo
a suor e a humidade, os quatro presos às paredes
consagrados, manchados, amarelos
como dentes tortos e os olhos ramelentos
uma vista vendo a fundo, a outra fita o céu
e a razão do seu desígnio, vedes
como ela quando o repouso
vos leva para o outro lado.
nascido da fúria, o zelo paternal manifesto
no desgosto, para mim banal
mas para eles funesto, e bradaram
contra o doutor e contra o mundo e contra o fado
não foi por mal, coitado, o pecado desdobra-se
como uma cobra no bote
o malvado marchando
os miseráveis a trote.
a beleza desta trama é que pactuei não a parte má
mas sim a parte boa, contrato firmado antes da noção
e fiquei protegido duas vezes, da tentação
e do que marcha, por batismo e cegueira a meio tempo.
é difícil, detesto o espelho pelo qual sou obcecado
esmiuçando os fracassos ao descoberto
fazendo contratos com o ímpeto cheio de fogo
tentativamente colorando a mancha cansada
que se apresenta à minha frente.
estes versos são quase o mesmo, são para mim
mas dirigidos a alguma coisa que paira pelos cantos:
pessoas, aranhas, a linha do destino, a casta baixa,
os passarinhos, as gotas de vinho pelo corredor,
a voz que manda e taxa, a mão que agarra a tocha
vencedores e vencidos, mulheres de vestido
os abraços fraternos de camaradas
tudo quanto não se vê num reflexo partido.
tenho um aspecto bandido.
o que roubei não é contável
não o pegas, não o cheiras
a inocência, o brilho no sono calmo,
a esperança no nosso povo,
um futuro, o presente, a crença em abril
ou em setembro ou em agosto.
tirei-lhe os contos à cartela
e perdemos no bingo.
no meu retrato estou eu sentado num banco
no primeiro terço, no limite,
rodeado de amigos, um deles com um chapim-azul no ombro
uma grande árvore é o cenário, com as raízes
escondidas no meu assento
a minha família composta do outro lado
duas pombas estão pousadas num ramo junto a eles
orgulhosas mas suspirando
e no extremo oposto a filha dos pescadores
vestida como eu, sentada noutro banco
olhando para fora da pintura
para ti, leitor, ou para si mesma
e mesmo ao fundo, no centro, uma estátua nobre
e coberta de gravuras
com um altar vazio ao lado
e eu estou a olhar para aí.
o chão é um mar de flores
algumas de puro ouro
e as outras negras.