sábado, 16 de novembro de 2024

no soalho do castelo de cartas // fúria a sete pés

largar as braçadas desamparadas
é o advento da prudência na fronha
onde a cabeça quita as contas do outro lado.
balança o que mede são os cochichos
da voz maligna que opera em coro
com milhares de demónios 
no ócio, no medo, na pujança do que apraz
nos pêlos da barriga e nas pupilas gustativas.
para de gemer 
para de tremer
vês cortes nos membros, foi trabalho
sem fiança do descontrolo adolescente
e já não és adolescente. és grande!
que grande!
lê novamente
g r a n d e
como a diversão na feira
que soooobe e desceeee 
pondo a miudagem aos gritos
uma moedinha por uma emoção.

nota que a fachada carrega áureos domínios
que compete à razão sensata reabilitar
(domesticar)
...
não sabes falar sem ser infantil
tipo um bicho que vive no mato
e grunhe com as sombras
chumba no teste do espelho
e ataca tudo o que palpita vida.

ÉS GRANDE, MALUCO
é hora de mostrar a mão
três quinas, dois terços
nada mau
pena que o discurso é uma caixa de dados
e deixas rolar, rolar, rolar 
até caírem da mesa.

esquece, continua a espernear
contra a frente fria
esmurra a secretária com força
da próxima ela devolve-te o troco
e ao invés de abrires um dedo
ela agarra-te as pernas e manda-te pela janela
tão grande no mastro
enorme na queda.

soldador

estas vigas estão expostas
e as soldas são frouxas
foram feitas à pressa
por homens cansados
bem-pago trabalho 
de cancro e queimaduras.

pode não ser problema meu
mas vivemos todos neste prédio
quando ele desabar vamos ressentir
o custo, a desgraça e as mãos alheias.

ferro fraco
liga fina
a chuva persiste
ferrugem mancha as quinas
à sombra.

as velas apagam-se para luís linceu

chegando à cena do crime, o detetive
pousa o sobretudo na haste de mogno
da cor do chão e dos armários no corredor.
sem tirar o chapéu espreita as reacções
à sua chegada, de soslaio, e depois sim
o pendura no mesmo gancho que o casaco. 
perscruta novamente, em tom de desafio
num vagaroso movimento lateral.
os suspeitos estavam no fim do hall 
em frente à sala de convívio
uma das vítimas estava no quarto, deitada,
divisão em direcção oposta ao salão grande.
o mordomo estava preocupado e pediu a todos
que se descalçassem, a madeira era frágil
mas ninguém cumpriu
excepto uma das testemunhas que aguardava
pacientemente à esquerda do detetive.

muito bem
disse, puxando do cachimbo,
parece-me que temos mais um clássico
o crime passional
e todos ficaram chocados.
senhor agente, meu senhor, como pode saber
se mal acaba de chegar? 
ora ora, este caso é na verdade mais velho
do que eu, só estamos perante uma nova
iteração da ancestral fraqueza da carne.
e puxou uma traga pesada
e largou o fumo denso pelo corredor.

os suspeitos desta vez eram uma dupla
bianca cilix e rivaldo agenor, cúmplices
prováveis que estavam cientes das suspeitas
e pouco faziam para mascarar o seu nervosismo.
não há corpo não há vítima não há crime!
disse zangado
ela assentiu com a cabeça.
a testemunha era lúcio belo, ferreiro e amigo
da vítima, luís linceu, que lamentavelmente
não foi poupado desta vez. ele estava acordado
no mundo das bestas mas para sempre recluso
nos confins da sua alma, partida em 50 pedaços
um para cada trago, abraço, carinho,
momento perdido e suspiro das garras que riscavam
a prata fina da casa, pálida pele de heroína.

não é a primeira vez que nos encontramos
diria até nem a segunda nem a terceira
e com todos os benefícios da dúvida
não consegues guardar o punhal na cinta.
rivaldo esboçou uma feição ingénua e malvada
como uma criança petulante que acredita nas suas mentiras.

e tu bianca, mestra deste domínio, que te leva
a atear fogos em palha seca e sem prudência?
a vítima balbuciou que não havia provas
palavras vazias duma pessoa vazia.
o detetive devolveu com um olhar compreensivo e triste
e puxou mais um bafo do seu cachimbo.

lúcio tomou o mesmo lado, acusando-o
de se precipitar em passar juízo.
eu estive aqui, vi quase tudo.
pois, retorquiu, quase
para completar esse quase cá estou.

seguiram todos para a sala grande
sentaram-se nos sofás de pele, sujos de cinzas
e com algumas nódoas de vinho
contrastando com o brio do resto da divisão.
o cheiro a tabaco colava-se às madeiras
misturado com a humidade que vinha da manhã lá fora.

o crime é o amor
os malfeitores amam
e é difícil apurar onde a linha do desejo
acaba e a da paixão começa.
as vossas faces gritam culpa, afinal,
que humano existe sem a força primordial
da tentação flamejante?
o problema é, como muitas vezes acontece,
que o debaixo da toalha é mantido em sigilo
forçado pela vergonha e pela decência que vestem
prontamente quando se tornam transeuntes
na massa indiferenciada que circula pelas ruas.
o meu papel, qual houdini em caça às bruxas,
o nosso papel é jogar as mãos a esse pano
e fitar de frente os olhos negros que operam
quando a noite cai e os inocentes dormem.
um segredo intacto é um pecado que será pago
mil vezes mais nas voltas que estão por vir
e para poupar os impecáveis que ainda não nasceram
compete-nos arcar com as dores da verdade
crua e exposta que arde e no seu fogo
cura os devaneios dos compadecidos.

as lágrimas trancadas faziam os olhos
azuis de bianca embaçarem, brilhavam
como cristais acabados de polir à luz do sol
joias em seda clara. 
é boa a hora honesta, estimada,
e sugiro que acabemos agora com isto.
ela não cedeu, cerrou os punhos nas costas.

tu, rivaldo, filho de reis e plebeus,
com carinho guardo a memória 
de quando servimos juntos
nos velhos tempos de recruta.
já na altura não tinhas controlo
nessa vontade voraz que se esconde
na pacatez e no charme tranquilo
duma pessoa despretensiosa. 
a máscara compete a todos meu amigo
talvez essa que vestes agora esteja presa com afinco
e se do meu intento se escapa, não do Dele 
com certeza. 
noutra vida cometeste o mesmo erro
e foste perdoado
e foste perdoado novamente
e aqui também serás, não sou juiz,
mas alguém tem de pagar pelo espírito 
que se apagou como uma vela ao vento.

o mordomo e a testemunha ficaram em silêncio.
normal, pensou o detetive. 
quantas pessoas querem ver a vida alheia
em cacos? quantas querem assumir a responsabilidade
só porque o destino quis que estivessem lá
e tivessem os sentidos todos em dia?
só o malfeitor gosta de ter a faca na mão
a verdade na outra, como um refém
troca o desgosto pelo prazer de contemplar
o fim trágico dos mortais
que repetem e repetem
os mesmos enredos
por toda a história.

finalmente levantou-se e declarou
o caso está resolvido, os envolvidos
podem agora decidir por que caminho
preferem mediar o juízo.
suspeito que voltaremos a cobrir
a verdade com a manta e seguirá
tudo como dantes.
deixo as minhas notas aqui na mesa
caso mudem de ideias.

o padeiro

o padeiro trabalha a massa quando chega
são altas horas, nem os carros passam
e os vândalos já foram dormir com o peso
da bebida que os compele à acção.

veste o avental, cobre as palmas com farinha
terá que bater, processar, assar, transportar
contar, congelar, fatiar, vender e resistir
à impiedosa rotina do trabalho duro
a pouco ganho, anónimo com as moscas
que descansam em buracos obscuros.
por vezes um ratinho pode chiar em aberto
ou pode o padeiro verter uma lágrima na bancada
mas ambos passam a maior parte do tempo escondidos.

cheira a pão e a maquinaria
os motores da cidade.
ele abre frinchas nas dobras dos dedos 
quase todos os dias
quando joga os tabuleiros na fermentadora
o equipamento já é velho e não desliza perfeitamente.
são mãos rijas as que batem 
as carcaças de cada dia
a gente conta com isso
e ele na madrugada sabe
mas nunca ouve um obrigado.

humilde, o sol ergue-se no teu descanso
o peso das horas e o esforço nos ombros
refletem-se nas bossas por baixo dos olhos
que contemplam sozinhos o nascer de mais um dia.
o presente depende dele
das bactérias
do tempo
do calor
e da água.

obrigado.

estrofes que fugiram do armário

as cuequinhas sugeridas são aquelas que agarram as ancas
num abraço suave de consolo, sossegam o ego e guardam a frescura
do banho quente e cuidadoso que espreitaram com curiosidade
do gancho de sucção onde foram penduradas, como uma bandeira
à privacidade e aos sedutores segredos da higiene.

meias não rotas, por favor, já chega de ser fuinha.
devem ser grossas e quentes e deixar que circule
o sangue sem marcas nos tornozelos
e que fiquem casadas como a carruagem do velho frankie
impar deve ser no máximo o residente, sozinho em ser sozinho.
não é egoísmo, apenas me preocupo com o papel dos objectos.

o resto é uma escolha estética, informal e moderna
expressão de quem figura perante o próximo.
as cores importam, assim como a silhueta que fica
ora misteriosa com as pestanas tocando nas repas
e os olhos atrás da sombra do chapéu aventureiro
ora casual e desportiva, vivendo o encarnado orgulhoso
adornado com bling bling e uns rayban antiquados
o dito equilíbrio do contemporâneo com o nostálgico.

ganga bruta, camisa grossa
pernas finas confeitam os olhos das meninas
que sonham em livros javardos e escondem a vergonha
com tintas e pinturas na cara
blush para que não core
dito doutra forma.

os passarinhos também tem penas coloridas
em tantas formas, e fazem danças nos seus ninhos
e vocalizam descobertas exóticas para impressionar.
assim aperto os botões com confiança
sabendo que a vanidade que reside neste trato
terá por certo uma origem mais genuína
do que a atenção insegura que ponho em palavras.
penso nessas coisas com frequência.
quem conhece as amarras da banal anatomia
melhor do que os tecidos desta casa? querido algodão,
bendita flanela, calças verdes às bolas, largas e arejadas
amigas de guerra, colegas de trabalho, lenço de consolo
nos serões de remoinhos, às voltas comigo
somos parceiros de valsa.

serás
aquilo que te tranca em tons de pele 
rufando os tambores peristálticos
ou aquilo que alcanças 
com os braços abertos e a vista protegida do sol?

olha para baixo
não estás nu
quer dizer, por baixo da roupa estás
mas esse não é o domínio das criaturas
de sangue quente e terreno.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

reza vagabunda

quem quis
senão Deus, Glorioso, em chama eterna
com a vontade entre os dedos.

Pai, salva-nos
salva-me 
eu preciso do teu sopro sábio
como sempre deste nas horas vazias
do desconsolo duma alma idiota
que tenta com a mesma trama
em cada noite de rotina
e que sonha sempre
com ela, todas as noites
porque faz tanta falta
o amor verdadeiro.
eu tive essa paixão
e soube-lhe a espinha
e mãos fechadas nas goelas
entre viver e ser
um cruel malvado.
bach, herói,
dai-me inspiração por feitos poéticos
enormes e grandiosos 
a luta dos que ficam, o som da bicharada
humilde que canta solenes discursos
ao Senhor
e que a gente abafa com nojo e desdém
entre os bicos dos pardais
e os cantos das cigarras.

o vinho verte
pelas almas que olham
a madrugada de olhos abertos.
um, o meu, esquerdino
e matutando com desencontros
das gentes boas que sofrem
os amarros da perdição
dos corpos nus.
e Ele, e Ele
quis que fossem felizes
e eu fico feliz por eles
mas também queria
ser por mim.

o Teu sangue cobre a mesa
pelos risos da comuna da ralé
encantada de ideias vulgares que o abjecto
bilhete da carne encanta nos seus devaneios.
És tudo, o amor da nossa espécie
És a natureza encarnada em todas as cores
que só os pássaros contemplam
merecedores da Tua luz, filhos da morte
em caos e fogo e salubres águas que cobriram
a origem disto tudo. meu Pai
perdoa-me, eu desejo o prazer sensível
por Ti e por mim, um enorme e o outro formiga
que segue a cauda duma fila reta
e ciente na sua sociológica forma de ser simétrica.
Pai, canta-nos em oitavas orgulhosas,
somos herdeiros do Teu órgão.
os bosques clamam violinos de força branda
e fé infinita, entre as notas do ocaso intentando
contra a fraqueza que contorna cada junta
de cada osso dobrado perante o Teu saber
e que recusa ignorante
a glória de feitos Teus.

pianos tocam por todos.
meu Pai, Pai de todos,
é tudo que peço.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

se eu fosse uma estrela do folclore

tuuu-rururu
lembras-te dos passeios pela linha do comboio
quando os meus lábios temiam os teus
e desmanchavas os teus prazeres em francês
porque tinhas vergonha do peso da língua
que desejava e escrevia pelos meandros da noite?

tuuu-rururu
e quando as nossas costas arqueavam
na esplanada dum café que tornou-me no que sou
por causa de um chá mais barato do que a droga
e o cheiro do haxixe que permeava os assentos
de estivadores e sucateiros do nosso bairro?

tuuu-rururu
tuuu-rururu
tuuu-rururu
e eu mal cria
que o destino quis
que eu soubesse o sabor da água pura.
depois tirou
e o cano ficou.

tuuu-rururu
fizemos anos nos óscares
porque éramos móveis e intocáveis
porque o que é de verdade não tem forma
nem cheiro nem horas nem datas nem nada
e acaba de repente como o frio
de novembro que chega e mete
toda a gente doente.

tuuu-rururu
e se eu fosse uma lenda do folclore
nos céus?
voltarias?
acordaríamos lado a lado outra vez
até ao último dia?

tuuu-rururu
é incrível como estás tão longe.
do mundo novo não quero nada.


jangada de papiro

dum homem da guerra nasceu
esta terra embaçada de cobardes
que abanam a cabeça quando o vilão
aparece sem surpresas à porta.
a vigia é um homem que dorme na boca-de-fogo
enquanto a carrinha avança sem saber 
se é missão, rotina ou armadilha
ou quiçá resposta a um ataque
lançado pelo dito do outro lado da fronteira.

derrotem-nos
pensou quando acordou
entreguem o ouro a espanhóis
ou a franceses, vejam se me importo.
venham daí os tanques do nosso fim
é hora de lavar os montes encarquilhados
pútrido chão de bastardos e cães de casa
as rugas no solo são o legado que nunca viu
o encarnado e o verde da bandeira.
guerra aos rios 
guerra aos montes
guerra ao dicionário
guerra ao futuro que nunca veio
os artilheiros esperam um sinal
nunca virá
nunca será
nunca seremos
saltemos para o atlântico
mortos para o mundo
e vivos entre os peixes que habitam
o reino infinito das profundezas.

pátria amada
partiu.

nadamos pelas confrarias daquilo que já não é
entre estátuas e legados que foram lavados
pelo sal e pelas fossas,
agora comida para seres microscópicos.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

cortei a mão
em gestos bruscos
e tingi a parede de sangue
para que se lembrem
que plebeus viveram debaixo
de abrigos da chuva
igual às traças e às aranhas
que vivem na cidade.

para o amor abstrato e vencido

eu prefiro falar de mulheres
do que de temas complicados
sobre o futuro, do que será
das sombras do abismo
as ciscadas dos grandes sonhos
marretando nos seus corcéis de vocábulos
que levam a ideia pelas sinuosas 
contracurvas do que não importa
burro como um urso satisfeito
abrindo portas para fazer companhia
sem vontade de comer.

eu amo-te amiga
qualquer uma
ponto final
ponto reticente, vários
que a linguagem não guarda
competência nem com álcool ou sonhos
para descrever como és princesa
sonho de mil noites de verão
varoa duma torre em cheque
mais mais mais
que vós, que eu
leitores machos pixados
todos os que vão chegar a este ponto
másculos e lindos
LINDOS
o camelo bebe água
por tantos meses né?
estiquei-me
e foi foi foi
assim como a tua silhueta venceu
a carne sem vacilo
deuses e animais morrem na estaca
daquilo que é agora
agora agora agora
e eu farto da ágoras
do agora 
venha ele salvar-me de escanteio
em cinzeiros metálicos duros como a vontade
que não perdeu o fogo do tacto que arrasta as unhas
pela carne sangrenta.
venham, venham bascos asquerosos
de vinhos e cidras requentadas
as lamúrias de gentis 
que não nasceram para isto,
o cheiro a salsicha
tresanda a morte de porcos
seu filho da mãe.

bateu em oiro 
doirando as bochechas sedentas
mordendo a mordaça e o pó
quem sabe do que é feito? 
eu não

fizeste a barba, cortaste pontas
espigadas;
que herói da poesia.
morre morre na beira do que não foi
e de onde não és.
faltam horas para comer
e o solo não brota
ração ressequida
dos vulgos fulgores da vontade 
em ouro e prata
invisível.

calham flores em camisas pálidas
a cara derrotada do ator que já se foi
plumado peito de um homem
e de cabedal peneirado das vacas
que dão o leite que mete o cabelo
lisinho e com vontade.

idiota

tu mesmo, leitor
eu, o leitor
que nunca verga o vidro
nem os vultos que larga
pelas velas duma casa
iluminada pelos canhões
do presto e esperto desporto
das volições que são vilões
e o desejo por uma face quente
que encarne com um punho fechado
em aldrabices, fugazes e de cognac.

meita é a espera
dos desacatos do controlo.

eu guardo segredos do mundo negro e fundo
um coração puxado e esticado
nos benditos arcaboiços
do diabo que é filho Dele
como todos e como tudo
que come sol.

"está... morto!" miou por fim

escolhas infelizes pregam presas no alçapão
das patas de gatos bravos, criados nas ruas
e que vivem de migalhas e ratos que circulam
na alta hora do silêncio, em segredo, e que remexem
os contentores e a cablagem exposta de amanhos e puxadas.

eles cravam as garras em desespero, às escuras
rangem os dentes e berram lá de dentro.
não circulam humanos a esta hora
e eles não sabem jogar em equipa.

então então, que desespero que aqui vai!
arruaceiros malvados, calhou a hora
de pagar as favas, estou a perceber.
salvarei os mais quietinhos
ou os mais lindos?
talvez os mais prestáveis
ou então os mais amigos...

e riu-se do outro lado da porta.
a gataria pôs-se calada à escuta.
mas esperaram esperaram
e esperaram e nada
foi só uma troça de um diabo cruel
que passou ali ao acaso
e o soalho virou uma cova
na indiferença do fulano.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

candeeiros no parque

fala rápido quem pode, quem quer ou quem tenta
pelas tépidas trancas do orgulho e da ânsia
de algum cutelo que se encoste à crina solta
e foge a quimera entre as bolhas de mil cores
nos cortes que palpitam entre artéria e via
felpuda no chão quente. parte do todo
finalmente.

É FALSO
não não é
não é?
É F-A-L-S-O
e isso não é optimista?
só depende do chapéu que usas.

rosas embrulham os faroletes à beira
de parqueamentos refeitos para grandes superfícies
o desejo desvanece na sua intensidade
e as espinhas picam nos cantos roídos
de unhas nervosas que já riscaram o chão,
a cara, as escabujas que enrugam a testa,
costas pálidas que já se foram 
e o serrabulho dos ouvidos.

nem o vento passa
nem os melros se vão
só a noite estacionada com os carros
que corre sozinha por entre casas
de um bairro novo.

foi HONESTO
que se habite em mundos vivos
e desencontrados de relva rasa
o cimento rega o chão
com o cinzento do que é possível
e as flores são as luzes que adornam
um mundo rápido como agora.

sábado, 9 de novembro de 2024

amarelos

os amarelos eram um bairro malvado cheio de gunas
e gente da terra rasa mas também são cores cheias de vontade
como as luzes da rua que fogem das pedras que deambulam
embriagadas pela calçada, os calceteiros que as meteram.
blusas brancas em ruas roxas e esquinas que cheiram a fumo
e aos fritos que a cultura carrega pelos seus cinquenta 
madraços comparsas ligados ao município ou ao que fica
à beira do precipício pressuposto fim dos pesos da luta
e do que é difícil explicar em palavras. o poder, o verbo,
o que foi antes de se pintar o que era, a vista da serra ao alto,
os cabaças varoas de flores de plástico e enfeites que piscam.

turbulência nas camadas
que cobrem o pêlo
de mentiras que são decoro
de mentiras que aprazem
ao ouvinte que se senta
e se sente cansado.
frango frito nas beiças dormentes
de bagaço barato.

pujança e confiança na marcha certeira e ordenada
da matilha faminta que antecipa as sequelas da noite
das mil e uma horas de pura névoa e de puras noites
brancas como leningrado no inverno, invicta e adornada
do Senhor em todo o canto, a estrela brilhando no topo da torre.
fala com eles, lembrando quem és e donde vens
dribla com eles e com elas em jeito malandro sudaca nos poros
e nos queros onde habita uma paixão verdadeira.
as ânforas encostadas à parede, mementos doutros tempos
e templos com sangue e fumo de incenso e glória de batalha
punhos fuinhas fechados em cinta grossa, prosa que encanta
contadores de histórias e putos que seguem a sua voz suave
na cantiga dos heróis mitológicos extintos e amantes
de deusas e pecadoras, seios à mostra nos décors
de antigamente. ralé sem noção, ralé sem ração
morrendo de sede e vontade de planos.

sereno não sóbrio
vendo as turvas ondas dum barco
que se afunda pelos rápidos
da confiança de outrora.

asas para que te quero
sonhos que fogem da memória
as coxas da vergonha
mostrando o orgulho
em ter sido tão bela.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

ganga rija

o pó assenta com a chuva no outono
regam-se os descampados que em seis meses
serão pedras e lixo e flores perdidas e dejetos de cão
o mar cheira melhor, o moribundo calor vai-se pondo
sem escândalos no horizonte, o outro lado da margem.
venham casacos e botas de cabedal, imunes ao tempo
e às balas que soam no campo de tiro que chamam 
de comunidade, de pertença, do teu espaço, o nós
mas sem ti na hora das facas curtas, da querela
entre os caciques do fumo brando, branco e baço
como as lideranças e as andanças das traças
que se perdem entre as teias densas dos predadores.

a pressão sobe enquanto as folhas caem nos quintais
compadecidos de atenção por viúvas magrinhas 
que arrastam os ossos pelo bairro sozinhas
e são devoradas pelos filhos depois de partirem.
vivem em ar fresco e continuamente trazendo a terra
dos baldios e dos vasos empoleirados nas varandas
de madres e de gatos e periquitos enjaulados
cujo canto soa a desespero e solidão
e eles tremendo com o frio de novembro.

ganga rija, biqueira-de-aço, calças sujas
a mão calejada, os pescoços ao relento
que a cacimba só poupa quem a mira de frente
com os dentes na cara e os punhos cerrados.
as gotas que caem rufam tamborzinhos esperançosos
que antes da primavera venham raios de paixão
que cubram a terra na fúria dos perdidos
à chuva sem abrigo e com cara trancada.


a ceia na casa do dr. pirulito

milhares sabem, nenhum escuta
esse é o custo da permuta
entre factos e fatos, o barrete que cobre
as orelhas de cão não protege do frio.

o trote elegante do selvagem-nobre
os cardápios repletos de peixes do rio
e o zelo posto junto com a mesa
trocando impressões da bienal de veneza
os doutores tão sábios, tamanha esperteza
julgava que a classe fosse um prato estanque
mas topei-os em ácidos num baile funk.

em teclados de aço e tapetes da pérsia
trocados e às voltas não encontram o brinco
nas poltronas bem cheias instala-se a inércia
só um tosco de gatas buscando com afinco
se encontra o tesouro será o meu par
mais um par de chapadas a acompanhar.

pé-descalço, inculto
inócua essência 
o tumulto da prole
alguém me dê paciência.
ah, encontraste, boa
agora põe-te a andar 
os adultos querem falar.
mais o caralhinho que ta foda.