quarta-feira, 4 de junho de 2025

pós-punk

eis se fica uma cinza
batida e apática em folhas
ou versos dotados
indolor mas rasgada 
perfídia nas costas
abraçadas por finos fios
de plástico barato e sem sal.

condiz a trama com a causa
coisa cousada, sem jorna poente
descrente que explique o branco
poisado entre a membrana 
nervosa em tempos de terno
e a mira fina, de soslaio
convida o diabo
ao tempo engajado.

ele toca.
ele dança.
ele faz por ficar.

que sois
além dum timbre fecundo
sombreando as orelhas?

traga valente
outra por cima
o regime cansado
sem horizonte que o ponha.

puxa o cabelo
dobrando as orelhas
estalam com músculos 
nas juntas convexas:
o controlo
qual salamandra 
que mos ponha esticados.

dura
persiste
aguenta piscando
certa se esbate,
desejando-te um grave
problema.

jaz um suspiro
mouco lembrete
guardado entre peles
de suor e saliva.

terça-feira, 3 de junho de 2025

mais um chapéu

assusta um filho
assusta um ente
quando se fecham os olhos
todos se lembram quem foi.

é o papel do arrivista
é tratado na hora
por resmelenga poesia 
sentado numa caçamba
o caminho se segue
seja qual for a forma.

tudo padece 
num bater caramelo
contra um impresso cinzeiro 
feito para o 3d.

quem és
senão um luto hostil
cheio de alguma coisa
tipo um ego
que te carrega essa vontade
de ser ouvido (ou olvido).

morre nos anos noventa
morre agora que resta
augúrio, ser puro
cinismo e fachada.

beata virtude
um nome de engate,
como o podre que és.

elegia pelo whatsapp

olá
desculpa a surpresa
o teu avô
morreu
como se soubesse
aguardar por um adeus
que trouxeste sem aviso,
como este.
desculpa.
desculpa?

e o silêncio pairou por uns momentos
enquanto o movimento da cidade
persistia sem remorsos.

um homem bom e explorado
tratado de baixo por quem sabia
a sua honesta forma de jogar
riqueza e querença pelo abismo
tudo tentos com veneno enleado
longe do caminho de Cristo.

foi como um qualquer
pombo da cidade
em forma tão grande
esbelta vivência e humilde
tal o quer
quem não o guarda, 
só espera.

o caminho do céu é fácil
para seu getur.

foi preciso um adeus
que quiçá me compete
ou coube, à justa
na sanita sem assento
na água dum pote de barro
que ficou num cantinho
guardado por década e meia.
por desgosto e espera
com fraquezas no braço
lembranças fraternas
duma casta a que pertenço.

seu getur, bom homem
jogou ao largo desbocado
as lembranças semi-lambidas
por cães que ladravam quando passava
uma motriz vontade, pacífica
e mineira, senhora da obra
sem pertença que a justifique.

pingou com um toque
a vibração como todas
que te dizem a morte
o adeus
pós-atlântico
enquanto quebrava a voz do meu pai
num audio cruel
sendo mais forte do que pode.

é a verdade do passo que traz
a virulenta vontade, violenta,
partir a boca aos transeuntes
olhos carregados
do diabo dourado
negado em vida
pelo homem.

fica um fúnebre, supetão
planta apodrecendo contra
a vontade cantada entre tantas
orações de joelhos.
o poder e o ser, cobiçando
alguma forma de sentir o
sol torto dos filhos do sul.

bule, bule bule!
foi o papel que compete
aos teus genes
assim como se nota
quando a voz trancada duma
mensagem diz apenas
beleza,
é triste
mas beleza.

batem os pés
o vagar dissolvido
na fria resposta
dum neto longe.

e o silêncio pairou por uns momentos
enquanto o movimento da cidade
persistia sem remorsos
rodei eu mais as crianças
que jogavam à bola
tomei juízo
tranquei a cara
como o pai
na hora da cruz.

Ele recebe de mãos abertas
alguém bendito
em canção e solitude
os restos pútridos
do outro lado do
atlântico
penam a liberta
alma que a casa torna.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

repouso confiante

a pátria, a causa,
tudo em tumbas
que silêncio de vizinho!

esse bafo sonsinho
picado e moribundo
oxigena-me as raízes.

bem te disse bem te quis.

olho para cima
nuvens por fim
roçando nesta copa.

terça-feira, 27 de maio de 2025

calçada portuguesa

tive uma visão, foi boa
e montei-me nela certo e seguro
que por muito que esfumasse
de incertas fianças
seria o rumo dum homem barato
rodando por bermas
que ligam aldeias.

vislumbres da minha classe
batendo sola contra calçadas
que são buracos e um resto de pedra
dum corpo qualquer.

é um verso bagaceiro
é um terno bulir
um qualquer tremer
quando bate um passo neste
rijo e calcado chão pálido
vai e vai e vão
pela beirada contrária.

há uma chave tilintando
entre almada e o barreiro
ferrugenta, rija e cívica
na sua peculiar força,
sapateando entre outras contagens
baratas, sem peso,
ditos órgãos de algibeira.

caindo da graça
a prudência da noção
nas asas de mosquinhas
mortas no húmido duma
sagres mini, composta de corpos
os mesmos doutra alma
as ditas que se ficam,
os calceteiros doutra era.

e eu sonhando com amor verdadeiro,
burro burro burro.

um braço forte
como diriam na torre de vigia
e uma mão amiga.

de onde és
se não deste chão que te segue
atlântico adentro?

quarta-feira, 21 de maio de 2025

fio de poste

no telhado das calçadas
fios negros às camadas
são pousio para a vigia
muito atenta neste dia.

permanecendo na certa e banal forma
de fulminar os desgostos em letras
de máquina,
assim opera o vosso estimado
poeta.

rimas, benditas
quantas fitas cabem num verso
fácil?

ágil, entre sílabas e o fumo livre
dos que não respondem
caso não se saiba
é destra a folga de quem habita
em terras mendigadas por pessoas
benditas.

e segue a lua perfeita
encaixada em postes e candelabros
certa dos desagrados
que nos ocupam a alma frágil.

devia roubar um rubro dia
da tua calma chefiada
dum resguardo que confere
aos teus prazeres um leve tom
de permanência sem querer.

assim fomos
entre cabos negros
rumo aos céus.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

entre notas de yann tiersen

as saudades que eu sinto
de um amor verdadeiro
são apenas fracas lembranças
duma cicatriz que rasga
quando se lembra o espelho
que o devo contemplar.

vita

nominal e noctívago.
são salubres os traços
que demarcam prazeres
verbalizados, luas cheias
cobertas por sonho e solidão.

apraz
memória vaga, desbocada,
vertendo de transtornos alheios
certos que o par transcende
a fraca força de ser prudente.

rijo cigarro de parede
branda, contra as costas
que se tentam em silêncio
quando a mão joga por dentes
afiados e sem rumo.

minhas são as noites que desejas
na culpa
na oferta absolvida
em quem pouco teme
a paga.

habita nesta sina
evita, evita
és cabrita no abate
da vontade que arrebita.

vita, vita
vita vita vita
és a causa
que me habita.

vita vita vita
és um rasgo que acredita
minha causa tão bendita.

amor e família em tempos de crise

chamam-lhe a diplomática forma de ser
família
palavra pesada de trâmites confusos
distante, amarrado à árvore de ser
como se negam esses apegos baratos
armados pela sentença que toca
aos devedores dos seus cabeços
atados e vergados com resiliência
negando ser mais uma rocha do percurso
encrustada no trilho de vir atrás.

és filho da tua raça, atroz,
primo, irmão, parente
semblante em caule posto
dum vigor que não te coube
compensa
entre querelas e querenças, invariável,
vislumbre duma cobra que cobre apenas
quem foste
em diurnas promessas esquecidas
és alguém, como és, meu caro
família 
um vocábulo que cabe na ponta
da caneta e pouco mais que isso
vedado, incolor,
um fruto da sua espécie.

regredindo que chegue pelas vias do
que foi, há sido não fosse
o destino um rumo obscuro de quem foi
conforme feito, vielas emplumadas de certezas
que conferiu a vaga via dos tentados
quando cobrem de certezas as presas
afiadas
afiadas como sempre na vingança dos
dias temperos,
rasgo de pecado pedalando pelas peças
desse mundo expositivo e vendado
de si mesmo
encoberto no suor duma rasga vista
de olhos claros, pecados que se pagam
quando persiste na linhagem.

tapado de culpa
tapado de brilhos
que aclaram a mentira
persistente e verosímil 
pérolas que escorrem pela face
duma pessoa perdida nos seus apetrechos
baratos de ser possesso.

fraca de cara e farta de cores
os dias borram um quadro
a que chamamos de ética
assim persistem sombras:
chamam pessoa ou um vislumbre
de alguma coisa meio humana.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

cheguei e saí

eu despejo o cinzeiro para um saco
dumas compras alcoólicas
que fiz morto de fome
e conforme enfiei-me 
num petisco barato
umas anchovas 
que guardei até agora.

dancei na entrada com os pés todos tortos.

trabalho, fogos-de-artifício, toda a gente precisa
de alguém que o apoie.
meias cinzentas, corrente de prata, tudo correndo
mandando um abraço e saindo de casa
carregado, armado, toda a gente precisa
de algum tipo de afecto.

amiga amiga amiga
fintei-te na esquina e virtude quis
que olhasses para fora, uma paragem
banal.
haja vontade, fugaz,
movida a certezas que não se puxam
nem em milhares d'anos, genéticos
como os encaixes da nossa grotesca
forma de saudar em silhuetas.

uma peça
um semblante barato
uma espera idiota
onde apanhas a camioneta.

dancei na estrada com os pés todos tortos.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

palito de dente

palitos sem ponta escondidos na caixa
redonda, panóptica, em grupos bem densos
atreva-se algum a cobrir a carola
parte-se! 
logo!
à frente de todos!
lasca maldita, fiapo barato
quando se abana a redoma
cantam todos em coro 
o seu compasso fininho
são dominós em fileiras
batendo os seus contos
uma marcha de guerra
fado útil e frágil.

haja dentes, palito, para sempre
e sempre
que te cumpra essa sina 
preenchendo os espaços do que outrora
fora um ramo selvagem
ao vento, dançando com dedos
que se vergam ao tronco,
a lenda esquecida.

há uma ranhura entre o teu cárcere
e o resto, o perigo, a escuta
de onde operam robôs que carregam gengivas
esse desígnio que te incumbiu o presente.
espreita à revelia 
sem pares julgar-te-ão a indecência
e que ciência essa de temer em silêncio
o vernáculo 
metáforas trancadas em paredes de plástico.

ora ora ora
range a dentição
prepara mais uma lição
de como sucumbe à causa estranha
de pertencer à sua mamífera carcaça.
julga-se fino o palito!
que beleza, esquecido do que fora
quando bradava contra escudos
a sua ponta metálica e sanguinária
apontando morte e desgraça pelo horizonte.
castrato! torna à tua fossa!
e piamente ele baixou a cabeça capada.

instrumentos cruéis de raízes e crenças
os manípulos da peste, heróis do inimigo
são sentenças tão justas, o chocalho que sois
apenas reflete a vossa impura essência.

a sua forma, cada célula pulsando,
maldita a hora que encarnaram
estas bestas tiranas em pele.
feridas foram um pago adiantado
da casta rotina que nos incumbem
e o ódio crescendo
vai-se pegando aos do lado.

coroado, um seu par
discursa de um leito real
cabeça gorda, estrutura ímpar
prega a permanência dos votos
diz que é a sua coragem à qual
todos podem ambicionar.
mal sabe que a coroa que o cobre de vaidade
é o laço da sua punição
o extermínio antes do químico descarte.

perdidos no vento murmúrios de longe
tentam a paciência frustrada
cada vez mais magra
como eles.
maldosos 
só procuram instrumentos
no desgosto desta caixa.

não há memórias
não há respostas
quem foi feito de madeira
serve apenas nas mãos de outrem
e assim foi
e assim é,
consolo profano só cabe às pessoas.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

um cochicho pela chefia

bom dos dentes, sorri com encanto
convida à festa um vulto brando
mas considera impertinente
soluços mansos sem resposta
pois que acene, seja vivo
conforme os traços que rabisca.

é arisca e incisiva
a tirania da bendita.

terça-feira, 8 de abril de 2025

patético

patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético
patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético

Pa
Te
Ti
Co
Ti
Te
Pa

és
P A T É T I C O 
OOOOOOOOOO
PATÉTICO 
PTTC
PATÉTICO 

quem sois?
já sabes
patético 
não poético
patético
paaaa
reeeee
riiii
cu!

quem sois senão patético? 
afunda com força a taça nas beiças 
bochecha gorda e unhas imundas
agarradas por sucos baratos e gangrenosos, coágulos nas pontas
que tocam no vídeo.
pá té tí có
pat éti cooo
como um pombo sem a graça
um sapato sem graxa
uma presa sem caça
caipira sem cachaça
saco podre sem carcaça
pivete instalado
pateticamente patético.

boas notícias meu caro barato
ser patético também é ser alguma coisa
ao menos a isso podes-te agarrar
e que bem devias
outrora não foras
por muito melhor que fosse
seria abaixo de patético
logo saúda a confidência!

dr. patético!
sr. patético!
super-patético!

fala mais sozinho
joga mais letras pelo cano
um dia dirão algo que não sabes.
escória 
lazarento
inexorável e plumado de espinhas.

patética amostra de pessoa.

afunilada lição ouvindo a festa da varanda

não são faces que surgem quando se faz mais um ano
não são os degraus da escada corporativa
não é o talento nem a destreza da vida boémia
não és o podre que aparentas
não é a perscruta que a tomas tão certa
não agora e tampouco depois
não é a sede que saliva a querença
não há um comando na fome
não temas
não pasmes com a forma delas
não queiras sem pôr alento.

exige antes da tua jaula
combate o instinto de presa
faz caso dos trunfos que guardam
honesto
mente melhor
insiste pacientemente com coragem
deves olhar a riqueza
poupar mais
comer a sopa
conter o ócio
em trajes melhores
retirar a máscara
pousa o chapéu.

vais bem
entendes
que escassa é a hora
estás a caminho
estás como podes
estás como quer
um alguém que está aqui
agora.

há um novo sol
ao fim do horizonte
e amanhã
as irmãs passarão
a ordem se instalará
e tudo dos sonhos
será um raio no charco
que conta os contos
nesta cadeira de hotel.

galope tímido

calcando uma trave arqueado
ele traqueja, persiste, o domínio
o espera.
há um lavabo na cave
que reverbera o som dos seus passos
tac
tac
é a sola grossa que badala
uma puxada vulgar.
ajusta a guiaca, assente de passagem
e levanta o chapéu, perdido na era
na hora
na correnteza que encandeia
a vidraça baça.

furtivo, desconfia
com coragem honesta
perde-se o som da sua fita
pois cochicha a presença
uma multidão demorada
o perfil renegado.

esse couro gasto e dobrado
é carnavalesco
ou da zara

essa cinta é um costume
só lhe tranca os desejos

uma ganga barata
só lhe adelga nas coxas
e se arrasta no chão.

impávido
jamais
sereno também
jamais
acerca-se do bar
mas não lhe aceitam as balas.